Quarta-feira, 26.06.13

Um dia "calmo"

Um pelotão fora era um dia de tensão e como praticamente todos os dias havia um pelotão em acção, o stress era contínuo.

A companhia tinha quatro pelotões operacionais. Quando um saía para uma missão, ficava outro “em prontidão” preparado para uma acção de socorro ou qualquer outra missão específica.

Com este esquema estavam sempre dois pelotões de folga. De folga era um eufemismo que poderia significar dormir o dia inteiro, tratar da roupa – tarefa árdua – escrever longas cartas ou um simples “bate-estradas”, os famosos aerogramas que o Movimento Nacional Feminino distribuía a mãos cheias, que o comando da companhia também fornecia, mas que tinham pouco uso considerando o tempo que demoravam a chegar ao destino. Daí o nome.

Dos que ficavam, alguns eram escalados para serviços de apoio ao acampamento: abastecimento de água, limpezas,  apoio à cozinha, pequenos serviços de manutenção daquela ilha encalhada próximo da fronteira norte de Angola, a casa que detestavam, mas por absurdo os acolhia e lhes conferia algum conforto.

Naquele dia um pelotão saíra cedo, com ração de combate para o dia. Tinha por missão patrulhar a estrada que ligava o acampamento à “via” principal, S. Salvador/Cuimba, procurar vestígios do IN e garantir que não tinha havido implantação de minas anti- carro, as famigeradas minas que tantas baixas causavam e desmoralizavam as NTs. Recolheriam ao acampamento ao pôr do sol.

Na “sala” da “casa dos sargentos” o sargento de transmissões olhava abstracto para um pequeno livro aberto à sua frente. Com uma dotação de rádios emissores- receptores de campanha inadequados às condições de terreno e tipo de missões que deveriam servir, preocupava-se.

A missão daquele dia não era das piores do ponto de vista das transmissões. Decorrendo durante o dia tinha sido possível fornecer ao pelotão dois rádios de AM que seriam inúteis com o por do sol. A estática – milhões de grilos, cigarras, pregos raspando em grades de metal e todo um cortejo de ruídos inqualificáveis -- tornariam impossível a sua utilização. Mas com um esplendoroso dia de sol e porque a acção decorria quase sempre em terreno aberto, as primeiras comunicações tinham sido limpas, eficientes e de bom augúrio, tudo “ó kapa”, sintetizara o radiotelegrafista do pelotão deslocado.

Já era qualquer coisa mas no campo das transmissões avizinhava-se outra crise: as baterias de reserva dos rádios portáteis estavam a acusar o uso e já não recebiam a carga necessária para uma missão mais longa. Do Comando do Batalhão viera uma resposta vaga possivelmente confrontados com o mesmo problema: “Vamos ver isso.” Mais um nesta guerra de problemas. Aliás o grande problema era a guerra em si – a guerra , o problema magno.

Deixando escorrer entre os dedos as folhas dos livro recebido do continente, atacado por um tédio que lhe esvaía forças e vontade própria consentiu que o pensamento voasse milhares de quilómetros e, deleitado, viu a jovem esposa a brincar com o pequenito cuja foto mais recente servia de marcador entre as páginas do livro que não lia.

-- Acorda, pá! – À sua frente o tenente Brás, seu condiscípulo no liceu, olhava-o carrancudo. – Já dei volta à city a ver de ti. A patrulha?

-- Boas notícias, aliás sem notícias. Fizeram o itinerário um sem problemas e estão no dois para os lados de Salvador.

-- Antes isso! – tirando-lhe o livro da frente, inquiriu – Que estás a ler?

-- Ler…. Um romance de Agatha Christie, mas não consigo concentração para acompanhar as deduções do seu Poirot. Já o comecei várias vezes…

Encontrou a fotografia, mirou-a longamente e comentou:

--Belo pimpolho! – acusador, prosseguiu – E é com esta foto entre as páginas do livro que queres criar concentração para o teu Poirot?

-- Era o que tinha  mais à mão para fazer de marcador… -- os  olhos cruzaram-se num diálogo mudo que acabou por verbalizar – e o teu?

-- Mais terrorista que qualquer grupo desses gajos que andam por aí a lixar-nos a vida – o brilho fugaz que se tinha acendido nos seus olhos esmoreceu – Isto é lixado, não podemos pensar nisto a toda a hora, acabamos malucos…

Meneou a cabeça num gesto de assentimento.

-- … Já te lembraste – prosseguiu em voz baixa, como se contasse um segredo ao seu confessor – que amanhã, depois, num dia qualquer, os nossos filhos podem estar felizes a brincar com as mães sem saberem que já são órfãos e elas viúvas?...

Um silêncio de morte envolveu-os. Olharam em redor, evitando que os olhos se cruzassem.

O sargento de transmissões brincou com o livro, tirou a foto do filho das mãos do tenente e depositou-a entre as páginas  como se a depositasse no mais precioso relicário.

-- Raios! – rugiu o Brás – Daqui a pouco estamos para aqui a chorar. Vamos embora daqui.

O outro não reagiu e o tenente insistiu:

-- Vamos lá guardar as lágrimas para a noite. Um homem não chora, muito menos um caçador especial! – A voz, quase no falsete, desmentia a bravata.

Sem combinação prévia encaminharam-se para o bar.

-- Cerveja, comandou o oficial, mas o sargento recusou com uma só palavra: uísque.

-- Dizes bem – Reforçou o pedido para lá do balcão e por ali se ficaram fazendo horas para o almoço. Sobre o balcão improvisado, entre as páginas do romance policial, o serrilhado da fotografia anunciava a sua presença.

Já o segundo uísque se tinha esgotado tragado pelo silêncio que o barman não se atrevia a quebrar quando à porta assomou o cabo radiotelegrafista de serviço.

Vendo-o, o chefe do serviço de transmissões  interrogou-o:

-- Algum azar com a patrulha?

-- Não. Só que estamos a perder a ligação.

-- Tenta avisá-los para que mudem para a frequência de recurso e abre escuta nas duas frequências.

Com um “ó kapa” mal mastigado, o cabo afastou-se. O tenente ficou a olhá-lo e acabou por perguntar:

-- Não vais lá ver o que se passa?

-- Não há mais nada a fazer… Aliás, o meu pessoal é muito eficiente, capaz de resolver estas pequenas coisas sozinho. Confio em absoluto neles. Daqui a pouco passo lá e garanto-te que está tudo em ordem. Vens comigo?

-- Não, prefiro ir até à enfermaria ver se há alguma maca disponível.

Com um piscar de olho para o antigo condiscípulo levantou-se e comandou para o balcão:

-- Aponta a despesa na minha conta. – Abalou apressado esquivando o quico[i] com que o sargento  o pretendia agredir.

No posto de rádio tinham sido abertas as duas escutas e a recepção melhorara o suficiente para se entender que tudo corria com normalidade e procuravam um lugar para “atacarem” a ração de combate.

Considerando que o meio-dia se aproximava e já havia algum movimento para os lados da cozinha, foi-se caminho da casa dos sargentos e por ali ficou até que a comida chegou.

As refeições não eram particularmente um tempo de diálogos. A maior parte empenhava-se em  pôr à mostra as amolgadelas do fundo do prato de lata e contemplava-as como pitonisa consultando vapores sulfurosos.

Depois da refeição chegava a cafeteira do café, oferta do cozinheiro. Utilizando o copo do cantil, chávenas mais ou menos esboceladas – recolhidas numa qualquer sanzala abandonada à pressa pelos seus moradores -- tomava-se o café de fim de refeição e o fumo dos cigarros enevoava o ambiente enrolando-se caprichoso nas grossas traves do tecto.

Recolhidos os pratos e limpa a mesa, alguns dos seus anteriores ocupantes dispersavam-se, outros ficavam. Um baralho de cartas concretizava-se do nada e longas séries de King e sete-e-meio tinham inicio. Outros, poucos, na ponta da mesa mais afastada, escreviam laboriosamente a carta que dias depois seguiria para S. Salvador. Dos que sorrateiros se tinham eclipsado, uns estavam já estendidos sobre a manta-colcha da cama fitando as chapas de zinco da cobertura. Um pequeno grupo dispersava-se pelo acampamento e só um ou outro demandava o bar para “um digestivo” e o acampamento amadorrava-se.

No posto de rádio  o cabo radiotelegrafista assobiava em surdina, talvez buscando inspiração para utilizar o bloco de papel de carta que tinha à sua frente. Correspondendo à pergunta do sargento das transmissões explicou:

-- A patrulha já está a andar. A ligação está limpa, mas mesmo assim tenho a frequência de recurso aberta…

Com uma palmada de felicitação no dorso nu do operador, o sargento prometeu:

-- Se quiseres meter o chico[ii] faço-te um relatório que és logo promovido a furriel…

Com um olhar magoado, raiando a ofensa, o operador respondeu:

-- Porra, meu sargento! Não me rogue tal praga.

A patrulha foi recolhida a tempo de participar no jantar da companhia.

O sol, vermelho e retalhado, considerando a missão do dia cumprida, foi-se.

Lá muito ao norte de Angola a noite abateu-se impiedosa sobre o acampamento daquela Companhia de Caçadores Especiais.


j. eduardo tendeiro

[i]  Pequeno boné de duas palas, uma cobrindo o pescoço e outra os olhos feito de tecido camuflado.

[ii] Continuar na tropa passando ao Quadro Permanente.

publicado por gatobranco às 19:02 | link do post | comentar
Segunda-feira, 03.09.12

ÂNGELO RIBAU TEIXEIRA

                                                                

 

                Faleceu o Ângelo Ribau Teixeira. Partiu para Deus, para uma bem merecida paz e bem-aventurança eterna.

                Era um homem de bem, grande simpatia, riso franco, muita solidariedade e alma grande.

                Conhecemo-nos há quatro anos, em meados de 2009, por via eletrónica. Ele enviou-me uma mensagem a pedir uma informação sobre o meu livro “Angola – As Brumas do Mato”. E desde então, o relacionamento eletrónico nunca mais terminou. Com grande frequência ele enviava mensagens, diaporamas, pequenos vídeos sobre vida e cultura, história e arte, ciência e natureza, imagens de paz e de guerra, temas de otimismo e solidariedade, de reflexão e de humor…

                Mais tarde, há três anos, teve a gentileza de me oferecer o seu livro “Retalhos das Memórias de um Ex-Combatente” (Angola 1962-1964) em que fala sobretudo das aventuras e desventuras do seu pelotão e da Comp. Caç. Especiais 306, integrada no Batalhão Caçadores Especiais 357.

                Logo no início impressionou-me que ele, parafraseando um conhecido romance, dedicasse aquelas páginas “àqueles que lutaram mas, por eles, nem os sinos dobraram”.

                Li-o de fio a pavio, com um enorme interesse. Tanto mais que em muitas páginas quase me parecia que estava também a reviver as picadas e as noites, sustos e medos, momentos e paisagens dos vários pelotões e companhias do meu Batalhão – o Batalhão Caçadores 1930. Há páginas de um realismo dramático, muito sofrimento e pormenor.

                Com uma grande emoção vi na pág. 4 uma dedicatória já mais especial aos seus pais. Um pai “marmoto e agricultor, seco de carnes, mas com ossos duros de roer, temperados pelo sal das águas da Ria” de Aveiro, na Gafanha da Nazaré. E uma mãe “doméstica e agricultora”, mas com grande fé em Deus e amor aos filhos. E foram estes pais, heróis no trabalho e na dedicação do dia a dia que “tiveram quatro filhos na tropa ao mesmo tempo, três dos quais na Zona de Intervenção Norte”. A grande fé de sua mãe “foi compensada pois todos regressaram sãos e salvos”.

                No prefácio, o seu grande amigo e companheiro de armas, J. Eduardo Tendeiro, da Covilhã, evoca o “stress pós-traumático de guerra que tantas perturbações origina pela vida fora” (pág. 6). E é precisamente para exorcizar esses fantasmas da guerra que o Ângelo Ribau Teixeira, como tantos outros ex-combatentes – entre os quais me incluo – descarregou para o papel essas noites e pesadelos, rebentamentos de minas e mortes, sedes e cervejas, negruras e picadas envolvidas em pó, sonolências e febres, emboscadas e morros, tudo isso vivido e revivido no quotidiano da guerra colonial.

                Ao receber a triste notícia do falecimento do Ângelo Ribau Teixeira todas essas páginas do seu livro – tão duras e tão reais – desfilaram na minha mente, ao mesmo tempo como pesadelo e alívio. E foi também um certo alívio que o Ribau Teixeira deve ter sentido ao passar para o papel as suas memórias de guerra. Mas elas são memória futura de toda uma geração que partiu e penou em terras africanas, em tempos de ditadura.

                Agora, definitivamente na Pátria Celeste, paz para o Ribau Teixeira, junto de Deus.

                Carvalhos, 2 setembro 2012

                Manuel Leal Fernandes

publicado por gatobranco às 17:22 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Domingo, 26.08.12

HOMENAGEM AO MEU AMIGO E COMPANHEIRO DE ARMAS, ÂNGELO RIBAU TEIXEIRA.(17/11/937 -11/08/2012)

 

 

Que melhor homenagem te posso prestar que a de alinhar alguns excertos do muito que escreveste sobre a guerra?

Neles ressaltam a tua sensibilidade e oportunidade crítica, mas também muito do  sofrimento   que a guerra  nos impôs.

Sobram projectos que tínhamos! São eles que também vão ditar a continuidade da tua memória.

 

                           

 

 

 

“Os óculos iam para o bolso e do bolso saia um lenço, que era o lenço usado pela tropa. Era verde, grande, a lembrar o lenço tabaqueiro que o meu pai usava, e que nos fazia muito jeito. Era amarrado por cima do nariz e dava-se um nó atrás da cabeça. Assim podíamos respirar menos mal. (A caminho d Norte)”

“ Até que chegámos ao local. Desolados encontrámos a tal casa abandonada. Ficava antes da sanzala chamada Pangala, mas era ali que a nossa companhia iria ficar, mais de um ano. Que tristeza.”

 

“O Armando Barriguinha, o Adelino Carvalho e o José Monteirinho pereceram de imediato.

O David o sempre bem-disposto David, o amigo incondicional de todos nós, sobreviveu algumas horas”

 

“Mina, palavra terrível. Não é um buraco no chão donde nasce agua. É um buraco no chão, donde vem a morte. Morte terrível, corpos despedaçados...para quê?”

 

 

“É hoje o dia 30 de Setembro de 1962. Quatro meses de mato, e nada que se veja! O terceiro pelotão está operacional. Logo à noite temos de ir fazer uma emboscada. O Alferes resolve que iremos emboscar-nos na picada do Quelo. Mais uma, pensámos nós. “Tantas emboscadas feitas naquela picada, sem resultados. É mais uma, pensámos (….) As armas dispararam até que o Alferes mandou parar o fogo. (…)De madrugada descemos à picada. Eu nem queria acreditar no que via.”

 

“E pensei na minha terra, na minha família, nos colegas da escola. Por que pensa a cabeça quando o corpo está descansado? Até a dormir a cabeça não descansa. Rara é a noite em que ela não sonha com coisas extravagantes, como o estarmos a beijar o nosso filho, estarmos a ser cumprimentados pelo nosso vizinho Sarabando.”

 

“Hoje é dia de descanso do nosso pelotão. Levantei-me com a alvorada, tomei o meu café e fui à mala da roupa ver o que por lá havia. Deparei com um saco de plástico cheio de roupa suja.”

 

“Quantas vezes levei a minha máquina fotográfica comigo, e nunca consegui fotografar aquela casa. Tinha vergonha daquilo que nos tinham mandado fazer.”

 

“Nesse dia fomos fazer patrulha apeada para as bandas de Cuimba. Tudo calmo. Só era necessária mais cautela à passagem pelas sanzalas abandonadas. Havia uma coluna de reabastecimento vinda de São Salvador,”

 

 

 “Os tempos do “Norte” acabaram. As seguranças às colunas de

reabastecimento também. Com essas operações ficámos a conhecer muitas terras dos Dembos: - Nambuangongo, Quipedro, São José de Encoje, Vista Alegre…(Luanda,63)”

 

“A Rádio Ecclésia transmitia músicas de Natal. A que comecei a ouvir foi “ Noite Santa Noite Serena”, cantada pelo conjunto coral “Os Pequenos Cantores de Viena”.

Automaticamente a minha mente mudou-se para a minha terra – os meus filhos, a minha mulher, os meus pais, enfim a minha família…a Ceia de Natal na casa do forno, estavam tão longe e ali tão perto na minha memória! Natal/63”

 

“A minha secção foi a que foi fazer uma espécie de cerco (recordei-me de quando era pequeno ter feito dessas coisas para “assombrar” os pintassilgos para a palma)

O rio era baixo nalguns sítios e tinha árvores e ramos caídos, que facilitavam o seu atravessamento. O resto era mata densa”

 

“Passei em frente à igreja da Nossa Senhora da Muxima. Estava fechada. Mesmo assim não deixei de parar por momentos, e, mentalmente agradecer à Senhora da Muxima o facto de o Zé estar salvo.”

 

“No fim daquele dia, recebemos uma boa notícia.

-Amanhã vamos almoçar à Fazenda do Pai do Fernando, diz-nos o Alferes”

 

“A semana passou, e, finalmente recebemos ordens: -iríamos para Catete. Não era nada que se comparasse com Luanda, mas o Pelotão ficaria sozinho, sob as ordens do Alferes.”

 

“Afinal, os que nos ensinaram a arte de bem matar, foram os mesmos profissionais que mais tarde nos disseram que nós não tínhamos razão...”

 

 

“E nunca mais se fala do nosso regresso à Metrópole. Já passaram os dois anos e meses e nada”

 

 

“Pedi na empresa onde me tinha sido guardado o “lugar” para começar imediatamente a trabalhar.

O gerente chamou-me e disse-me para eu ir gozar um mês de férias. Expliquei-lhe o motivo porque queria começar imediatamente a trabalhar: – esquecer –. Pelo menos enquanto trabalhava, a cabeça tinha de estar no trabalho e não se distrair com o passado. Compreendeu. Eu agradeci-lhe.”

 

“Os momentos maus, vêm sempre ao de cima. Infelizmente…”

 

“Aí as bateiras dividiam-se. Umas iam para a “Cale do Oiro” onde o Ti Zé Rito amanhava uma marinha, outras seguiam em frente para as “Leitoas”, marinha amanhada pelo Ti Manuel da Branca, outras ainda seguiam para o Esteiro de Sama, onde se situava a marinha que íamos “botar a sal”.(…) Afinal tinha estado a sonhar com a mocidade, mas com tantos pormenores, que me parece ter estado a viver aqueles momentos!”

 

“À medida que o pai ia gadanhando o estrume, o Toino ia-o enfeixando, depois apertava o feixe com uma corda e transportava-o à cabeça para a bateira. O estrume era leve e a bateira estava perto, pelo que o serviço até ia correndo bem!”

 

“Magro, escanzelado, vestia uns trapos, que mesmo como trapos já haviam conhecido melhores dias, com o seu chapéu roto, mais parecia um espantalho das searas, do que um ser humano que Deus ao mundo tenha posto

Era assim o Ti António da Bicha”

 

 

“Acertada a ementa, em conversas cruzadas, o passado emergiu. Ribau e Tendeiro embrenharam-se pela fotografia, tema que os unira durante a guerra.( Almeirim, 2009)”

 

 

“Comentar para quê? Curvemo-nos perante a lei da vida, e que o Padre Arnaldo esteja no lugar que merece, com toda a sua fé.”

 

 

“É assim a vida. Tudo tem um fim. Hoje um, amanhã outro e depois outro...
E nós já cansados da vida, a nosso tempo também iremos.”

 

Adeus Ribau. Até sempre.

J.Eduardo Tendeiro

publicado por gatobranco às 21:11 | link do post | comentar
Domingo, 01.07.12

UM DE JULHO

 

 

 

Um de Julho de dois mil e doze

Breve é a nossa passagem pela vida

Parece que foi ontem. A dor é a mesma! A saudade fere com igual intensidade mas a revolta cresceu, acumulou-se.

Jovens generosos deram a sua vida por uma causa que todos auguravam perdida.

Foi lá para o Norte de Angola, na estrada S. Salvador – Cuimba, antes de o cruzamento para Pangala, aquartelamento da nossa Companhia de Caçadores Especiais nº 306. Um jipe da  coluna de reabastecimento accionou uma mina anticarro transformando-o numa amálgama de ferros torcidos pintados com o sangue dos ocupantes.

O Armando Barriguinha, o Adelino Carvalho e o José Monteirinho pereceram de imediato.

O David o sempre bem-disposto David, o amigo incondicional de todos nós, sobreviveu.

Com os cuidados do médico e do enfermeiro, das nossas preces e  juras raivosas de retaliação, manteve
um sopro de vida até à madrugada do dia seguinte.

 O coração parou, o rictus de dor adoçou-se e os lábios entreabriram-se numa prefiguração daquele
sorriso muito seu.

Foi há cinquenta anos.

 

(J. Eduardo Tendeiro)

publicado por gatobranco às 15:53 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Domingo, 24.06.12

A PRIMEIRA ACÇÃO DE GUERRA DA CCE 306

Nota prévia:

Para melhor enquadrar a nossa primeira “acção de fogo” pareceu-nos acertado dividir este relato A PRIMEIRA ACÇÃO DE GUERRA DA CCE 306 em dois capítulos que serão publicados em separado.

Um primeiro relembra a nossa deslocação para o Norte de Angola (De Luanda a Cuimba) e o segundo capítulo, (de Cuimba a Pangala)  o relato da primeira acção de fogo da CCE 306.

 

I

De Luanda a Cuimba

 

Depois de algum tempo no Grafanil, campo militar às portas de Luanda, os boatos superavam as acções a desempenhar e escolhíamos os que nos pareciam mais favoráveis “Vamos para o Norte!” Isso todos sabíamos. “Vamos para S. Salvador, vai ser bestial, dizem que aquilo é bom, até temos avião para vir a Luanda”.

Porém, um dia, depois de nos terem mandado comprar artigos de higiene "para algum tempo", uma notícia
tirou-nos ilusões de opção: íamos para o norte, pois claro, para a fronteira com o Congo tapar linhas de infiltração e fazer a segurança da zona .

 

No dia 11 de Junho daquele ano de 62, antes de o sol timidamente começar a anunciar a sua presença a nascente, tingindo de vermelho os telhados de zinco, uma serpente a perder de vista de enorme que era, vomitada pelos portões escancarados do Grafanil, fez-se à estrada. Eram os primeiros momentos da deslocação de uma longa coluna auto que nos levava para o norte, para os nossos destinos.

Nomes que conhecíamos do estudo da geografia como locais importantes da “província Ultramarina de Angola” foram desfilando ante nós. Salazar, Camabatela, Negage, o já famoso Negage, na ainda curta história da “guerra de Angola”, decepcionantes  pequenos aglomerados com algumas, poucas, centenas de residentes incluindo as forças militares estacionadas, recebiam-nos para abrigo de uma noite passada de qualquer modo, dentro ou debaixo das viaturas. Geralmente, só os oficiais tinham melhor abrigo. Para cada etapa partíamos cedo evitando o sol a que não estávamos habituados e que nos martirizaria ao longo da jornada amassando pó com suor abundante.

À medida que progredíamos para norte, sempre para Norte, a presença humana diluía-se, os pequenos agrupamentos de autóctenes rareavam e não voltámos a ter crianças a correrem ao lado das viaturas à espera de bolachas ou chocolate subtraídos das rações de combate.

 

(vendo a tropa passar)

 

Ultrapassado o Bungo, estacionámos em Maquela e aí ouvimos histórias de diamantes desviados que arranjavam a vida de alguns, de estradas cortadas e pontes destruídas.

Como habitualmente, bem cedo, marchámos para Cuimba, última paragem antes de nos lançarmos na aventura de conquistar Pangala, uma casa de adobes coberta de zinco, perdida algures, num ponto mal definido da carta militar.

Foi-nos dada a garantia de que duas pontes que iríamos utilizar estavam operacionais e, manhã cedo fizemo-nos à estrada. Capim alto, verdejante, engolia as viaturas.

Uma picada mais estreita do que as que vínhamos trilhando, acusando manifesta falta de uso era a estrada de ligação Maquela- Cuimba - S. Salvador, na qual encontraríamos um desvio para a direita em direcção a Buela. Aí se situava o local onde iríamos construir o nosso aquartelamento sinalizado pela já famosa casa com telhado de zinco que, obviamente, albergaria o comando e que teria o nome da sanzala mais próxima--Pangala.

A antena do ANGR-C9 que equipava o jeep do Comandante da Companhia no qual um rádio telegrafista e eu nos
deslocávamos ocupando o banco traseiro, matraqueava os caules grossos das beiras da picada ao sabor das oscilações da viatura, imitando  rajadas de metralhadora. Em abono da verdade se diga que em cerca de mil quilómetros trilhados não tinha havido um único disparo ou ameaça à progressão da coluna, o que nos conferia um certo à-vontade.
No entanto, em Maquela, tínhamos sido prevenidos de algumas acções hostis de terroristas que destruíam pontes e atravessavam árvores nos caminhos.

(Por vezes, a picada era um lago)

 

O primeiro pontão foi ultrapassado sem história e, quilómetros à frente, surgiu a ponte sobre um rio mais caudaloso: grossos troncos  lançados  de margem  a margem  forrados  com duas linhas de pranchas nas
quais era suposto os condutores serem capazes de alinhar as rodas das suas viaturas.  Por precaução o pessoal passou a pé e os condutores, ajudados por uma multidão de voluntários que se contradiziam, lá foram deslizando pelas pranchas. As viaturas pesadas, de rodado duplo sobre pranchas vergadas com o peso, rodas exteriores 
abocanhando o vazio  também atingiram a outra margem.

Com a tropa de novo montado, comentando o feito, ironizando o suor dos condutores, alguns deles ainda de
mãos trémulas chupando ávidos o cigarro que os acalmaria, a coluna venceu uma pequena subida que a retirou do vale do rio e atingimos Cuimba sem dificuldades de monta.

publicado por gatobranco às 19:17 | link do post | comentar

dois

II

De Cuimba a Pangala

Seguindo o esquema de viagem, no crepúsculo da manhã de 17 de Junho  retomámos a marcha.
A coluna era já diminuta, constituída apenas pelas viaturas da nossa Companhia e algumas camionetes com materiais de apoio. Mas o estômago ia reconfortado. Antes da partida, tínhamos sido brindados com pão fresco e café com leite.

Trilhando a estrada Cuimba - S.Salvador, uma picada apertada com o piso em mau estado e pouco trilhada, progredimos lentamente.

Vencido um pontão de aspecto manhoso sobre uma pequena linha de água e, após uma curva pronunciada para a esquerda, com um pequeno bosque do mesmo lado emergindo de um mar de capim e um talude à direita, um disparo de arma de fogo sobressaltou-nos. Parecia vir do bosque, motivando de imediato a fuzilaria das tropas do pelotão que seguia a viatura do comandante da companhia, varrendo o bosque. O nosso condutor travou o jipe e lançou-se para uma pequena valeta que conferia alguma protecção. Em segundos tinha a minha companhia e a do rádio telegrafista. O nosso comandante, curvado e ofegante juntou-se-nos.

 O coração batia cavo contra o terreno, as têmporas latejavam  e as mãos geladas afagavam a FBP. Uma estranha quietude inundou-me. O condutor, com a arma levantada acima da cabeça disparava ao acaso, presumidamente para o bosque.

“P’ra onde estás a disparar? – Gritei quando se atarefava a mudar de carregador.

“P’ra mata…"

“Mas viste alguma coisa?”

“Não, mas os gajos devem estar lá”…

Uma fuzilaria vinda dos lados do bosque, colou-nos ao terreno e levantou pequenas nuvens de poeira na barreira
atrás de nós, sem atingir as viaturas. Os projéteis passavam alto. Os pelotões que avistava até à dobra do cotovelo, retaliaram. Alguns ramos das árvores do bosque acusaram os impactos e lançavam estilhas em todas as direcções.

Esta situação de disparam eles, disparamos nós repetiu-se ainda mais duas vezes.

Deitado ao lado do condutor que finalmente tinha esgotado os seus carregadores e se aquietara, analisei a situação: o grupo de terroristas tinha que ser de algumas dezenas e ter armas automáticas para corresponder assim ao nosso fogo .Punha em questão estas reflexões quando o ladrar rouco e inconfundível de uma Breda se sobrepôs à fuzilaria. No talude, à nossa rectaguarda, os projéteis de 8 mm cavavam tocas.

“Aquela Breda só pode ser nossa” – gritei para o capitão comandante da Companhia alapado no terreno.

 Sugeri-lhe que mandasse parar o fogo.

Com um violento abanar de cabeça concordou e, ao bom estilo de Lamego, mergulhei, rebolei e rastejei até ao
jipe. Com o micro entre os dedos estendi-o ao comandante que o recusou com um gesto de repulsa.

 Protegido pela roda suplente da viatura, o aparelho na concha da mão, gritei:

“Aqui Charlie Mike (abreviatura simplificada e não oficial de comandante). A toda a coluna: Cessar fogo. Repito. Cessar fogo.
Ordem de Charlie Mike”

Em poucos segundos o silêncio de igreja vazia fez doer os ouvidos. A Natureza ferida, numa quietude de protesto, interiorizava asua dor.

 A suspeita tornou-se evidente. Estávamos a disparar uns contra os outros, traídos pela curva apertada que a picada fazia.

Comentei-o com o  comandante e, mais seguro, decidiu mandar avançar a coluna com o pessoal apeado. Curvado ao lado da viatura na busca de uma possível proteção, de novo recusou o micro e transmiti a sua ordem.

As viaturas progrediram lentamente, talvez quinhentos metros com os militares abrigados atrás dos respectivos
transportes, depois ladeando-os. Atingiu-se um terreno quase plano com boa visibilidade e o comandante da companhia mandou que eu transmitisse a sua ordem de “embarque nas viaturas e retoma da marcha”.

Durante cerca de uma hora, em marcha muito lenta e difícil, vencendo troços de lama, fomos sacudidos ao sabor das covas do caminho. Frequentemente mergulhávamos em túneis de capim que as GMCs iriam alargar.

 Banhado pela tranquilidade da paisagem, recuperada a dignidade no seu assento de Comandante, virando-se para trás,  questionou-me:

“Acha que aquele primeiro tiro veio mesmo da mata?”

“De que outro lado poderia ter vindo?” – Returqui ambíguo, encolhendo os ombros.

A resposta tardou:

“Não sei… estou cá a pensar se não poderia ter partido de um militar nosso"…

O cabo Carlos, o condutor, entrou na conversa:

“Mas o fogo vinha da mata, eu vi…”

“Cala-te e vê se descobres esse maldito desvio”. – Invectivou-o o comandante e, para mim, prosseguiu –“ eu vou averiguar e se descobrir o autor, ferro com ele na cadeia, é cadeia…É que eles ainda não têm armas automáticas em tão grande número para aquele potencial de fogo”…

Um solavanco maior fê-lo abandonar a posição torcida que assumira para me encarar.

A meu lado, o cabo radiotelegrafista Manuel sorriu e com os dedos compôs uma grade de hipotética cadeia.

Também eu assumira já que o tiroteio tinha sido despoletado por um disparo talvez inadvertido de um dos nossos militares.

 

Seguíamos atentos ao desvio para a direita que nos levaria a Pangala, “uma casa abandonada coberta com chapas dezinco”.

Tardou a surgir a “nossa estrada” sob a forma de uma falha no capim que orlava a picada que trilhávamos. Abandonada há muito, os dois sulcos paralelos marcados pela últimas  viaturas que o tinham pisado, por vezes
desapareciam.

(Chegada a Pangala 17-6-62)

 

Toda a nossa atenção se fixava na orla direita do caminho esperando descobrir a casa referência . Atrás de nós,
os militares de pé no Unimog, pescoços estendidos na ânsia de descobrirem o objectivo, esquadrinhavam o limitado horizonte.

Num coro de júbilo, cerca das dez horas, com 1035 quilómetros percorridos, avistámo-la a por fim, enterrada na
vegetação.

As janelas, órbitas de caveira dissimulada no capim, espreitavam-nos numa macabra recepção de boas-vindas.

 

Fim

NOTA DO AUTOR

Mais tarde confirmou-se que um militar inadvertidamente acionara a sua G3. Mas essa informação foi sonegada ao nosso comandante de companhia que face à passividade dos seus oficiais e sargentos em “descobrirem” a verdade, os ameaçou de obstrução à justiça e… cadeia.

O nome do autor do disparo foi o segredo mais bem guardado daquela Companhia de Caçadores Especiais que, de 17de Junho de 62 até meados de Maio de 63, abnegadamente, cumpriu com honra as missões que lhe foram atribuídas.

 

J. Eduardo Tendeiro

(Sargento de transmissões da CCE 306

Angola, 1962/64)

publicado por gatobranco às 18:45 | link do post | comentar
Sábado, 23.06.12

A ÚLTMA PATRULHA

Acordou em sobressalto. Os ponteiros luminosos do relógio de pulso apontavam as três . Dispunha ainda de duas horas. Sabia que já nãovoltaria a adormecer, mas num esforço de vontade imobilizou-se numa posição confortável.

Desde que tivera conhecimento de que o seu pelotão fora escalado para aquela escolta invadira-o uma angústia inexplicável. Seria  praticamente a sua última  missão  de  guerra. Depois, até ao embarque de regresso
à Metrópole, à sua casa, aos seus amigos, à sua noiva, pouco mais faria. Talvez um serviço à “Rede”, um reforço, coisas de pouca monta. Mas era aquela angústia!...   E ele nem era supersticioso!

Sentiu vontade de se virar mas impôs-se aquela posição e iniciou exercícios de relaxamento. Era uma escolta como outras tantas  que fizera, algumas  com  acções  de  fogo. O  itinerário  nem  era perigoso  comparado com
outros já  trilhados, mas havia aquela espécie de angústia…

Experimentou rezar. Uma Avé Maria fluiu fácil na sua mente, o Pai Nosso demorou mais tempo a ser recordado e teve problemas com a Confissão. Desiludido tentou o Credo. Desistiu frustrado. Já tinha passado tanto tempo!
Recordou com saudade os primeiros ensinamentos da Mãe. Benzer-se. Custou a aprender que devia fazer os braços da cruz da esquerda para a direita… enterneceu-se com a aprendizagem da primeira oração. Deleitado, recitou-a:
“Anjinho da guarda/ minha doce companhia/ guardai a minha alma/ de noite e de dia”. Quanta ternura! Mas, no momento, não se tratava de guardar a alma mas sim o corpo. Faltava tão pouco para acabar aqueles malditos dois anos de dor, suor, sangue e morte. Não era justo que a poucos meses, talvez dois do seu embarque ainda o expusessem a perigos de morte.

Não está certo, Deus!
Há outros mais novos… não, não é isso meu Deus! Não Te vou pedir que mandes morrer qualquer outro por mim, não é isso! Sabes que sempre quis que não morresse ninguém!

Confuso, esquecido dos exercícios de relaxamento, retomou o pensamento:

Deus, não quero que ninguém morra, mas, desde que soube desta patrulha apoderou-se de mim uma angústia, um mau presságio! E falta tão pouco tempo para sair deste inferno de homens a matarem homens,  contrariando as Tuas Leis.

Num acto de contrição, recordou que certamente também ele já tinha infringido todas as Leis que Deus deixou aos homens.

Deus, eu não devia pedir-te nada… até porque não mereço… Dizem que tudo está escrito no grande livro da vida,   cada um de nós tem uma página em que está inscrita a nossa hora. Por vezes tens piedade de um ou outro e consentes em fazer alterações na página deles. Chamam-lhe Milagres. Nunca me importei muito Contigo eu sei, por isso não te vou pedir um milagre. Também não vou fazer-te promessas. Detesto as promessas. São uma espécie de contrato.  Uma espécie de troca. Se me concederes isto, dou-Te aquilo. Vou a pé a Fátima, atravesso o Santuário de joelhos deixando um rasto de sangue. Não acredito que queiras que as pessoas se martirizem para que lhes concedas qualquer coisa. Se Te pedisse vida para estes dois meses e  a concedesses, o que é que eu Te poderia dar em troca? Não precisas de nada, és Rei e Senhor de tudo!

De novo mudou de posição sobre a enxerga. Irritou-se consigo mesmo: Raios, é uma merda de escolta. O itinerário está pacificado. Logo à noite estou aqui outra vez…
Senhor, vou fazer por isso. Vou estar aqui logo à noite.

Espantou-se e orgulhou-se da sua certeza mas, muito lá no fundo continuava aquele incómodo. Contornou-o: claro que certezas  ninguém tem, mas as probabilidades são todas a favor. Deus, não acredito que queiras matar alguém, que deixes que me matem… Vou fazer-Te um pedido. Sem promessas. Só um pedido. Se é verdade que todos temos uma folha no grande livro da vida e se estiver lá escrito que vou morrer nesta escolta, por favor apaga isso. Deixa-me ser eu a tentar safar-me por mim mesmo.

 

Sentiu-o chegar desenhando arabescos no escuro com a luz da potente pilha. O sargento de dia à Companhia acionou os interruptores que inundaram de luz o dormitório e, com voz forte proclamou:

“Toca a levantar. Camas arrumadas. Às cinco e meia todos na cozinha. Há pão fresco, queijo e marmelada. Ração individual de combate para cada um. Cantis cheios de água"… (alguém sugeriu: Não pode ser vinho?)

 Indiferente à graçola, o sargento prosseguiu:

…” Às seis horas, viaturas em marcha" – num arremedo de simpatia, concluiu – "boa viagem!”

“Adeus, até ao meu regresso” – proclamou a voz anónima e outra convidou – “Não quer vir também?”

 

Debruçado sobre as botas que apertava com cuidado, indiferente ao ruído envolvente concluiu os seus pensamentos daquela madrugada:

Mas, Senhor, com uma ajuda Tua, tudo vai correr bem.

Recordando as tiradas latinas do seu companheiro de quarto, ex seminarista, plagiou-o:

"DEO JUVANTE"

 

Fim

(in Apontamentos – Angola, 62/64)

J. Eduardo Tendeiro 
CCE 306

publicado por gatobranco às 15:42 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 19.05.12

50º ANIVERSÁRIO DO EMBARQUE DO BCE 357

                                                             
                               50º  Aniversário do Embarque do BCE 357

 

 

A esperada carta com o aviso da data, local e hora da reunião chegou.

  Pombal, dia 29 de Abril de 2012, a começa rcerca das 10 horas da manhã, no
restaurante “O Litoral”.

 Cada qual começou a fazer os seus planos, programar os itinerários -não esquecer

 que um que prometeu vir,  era de Vila Real de Santo Antónioe veio!

                                 

 Chegou o dia.
  Domingo chuvoso, mais cautela na condução, mas a malta ia
 chegando.

  - Olha! o Bifanas digo eu. E ele aproximou-se. E apareceu O Braga, e o, como

 se chamava  ele?

 - Então não se lembra?- Era o “Corrécio”. A malta ia chegando.

  Outras coisas, há muito tempo, não nos tinham impedido de andar, não era agora

 uma simples chuvada que nos impediria.

  Chegada a hora da missa, os que podiam dirigiram-se à igreja onde assistiram ao

 SantoSacrifício, por intenção dos que já partiram. Ficámos por ali meia deles, cuja
locomoção deixa alguma coisa a desejar…

 - Olha o Zé-Barbeiro, diz um apontando na direcção do acabado  de chegar

 (o Zé era o barbeiro da 306, o que nos dava as carecadas).

 - Perguntei-lhe pelo “Puler”, que ainda não tinha visto.

 O seu sorriso sempre aberto, apagou-se. Fiquei preocupado.

  - Então?!

 - O Puler já não vem mais. Morreu!

  Rapidamente todo o grupo dispersou como se ali fosse rebentar uma mina…

  Alguns puxaram do lenço e limparam um pingo de chuva que lhes corria pela

 cara abaixo.
 Ou seria uma lágrima!?...

 

 Foi  chegando o pessoal que tinha ido assistir à

missa, e começámos a tomar  os nossos lugares para o almoço. Antes , com todo o pessoal de pé, foi pedido um minuto de silêncio em memória do  nosso Capelão Padre Arnaldo, que  já nos deixou!

                       Almoço barulhento, Era muita gente querendo contar suas aventuras a ex-colegas.

 

                                                                                                                                       

 

Entretanto foi anunciado que uma filha  do que foi nosso Comandante Matos Silva, iria dizer algumas palavras . Fez-se silêncio.                              

 Daquilo que ouvi ficaram-me as seguintes  palavras:

                      "O meu pai disse-nos que nunca nenhum Batalhão lhe custou tão pouco a comandar como o 357"

 

 Estava aterminar a reunião e o pessoal começou a dispersar.

  Eu fiz o mesmo.

                              

                                      A.Ribau Teixeira

                                    (ex-sargento miliciano da CCE 306)

                                             Angola, 62/64

                              

publicado por gatobranco às 18:25 | link do post | comentar
Quarta-feira, 25.04.12

INTRÉPIDOS

LUANDA,
MAIO DE 1962

 

 
 

ALGUNS DOS “INTRÉPIDOS”
QUE, COM A CCE 306, PELAS TERRAS DE ANGOLA FIZERAM HISTÓRIA

DA ESQUERDA PARA A
DIREITA, TEMOS

RIBAU, AZEVEDO,CARVALHO,GASTÃO,M.ALVES, MALHA, FIDALGO

 

EM BAIXO

CURA, SOARES,TENDEIRO, COSTAPEREIRA, MIRANDA

 

FALTAM AQUI

 RESENDE

LINO

 PEREIRA

 DAVID

 CARNEIRO

 

Mais tarde, em
substituições individuais, chegaram

F. BRANCO (1º sarg.),
DIAS CORREIA,  LUZ e SILVEIRA

publicado por gatobranco às 17:44 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 18.04.12

História breve do noventa e um

 

 

 

Começou quando o Jota, fazendo arrumações, encontrou uma ponta de filme, cerca de um metro de películade trinta e cinco milímetros, a preto e branco. Negativos da guerra!

Naquele tempo a técnica da cor estava ainda pouco divulgada e, em campanha, não havia condições para manipular tal novidade.

Era um pequeno contentor, um cilindro translúcido que deixava ver o conteúdo de modo
indistinto. Aberto, como cobra liberta de longa hibernação, escorregou encaracolado por entre os dedos do seu descobridor.

Quase cinquenta anos tinham passado! Com uma mescla de saudade, inquietação e coração acelerado, pô-lo à transparência contra a luz da janela.

Os primeiros negativos, manchados com riscos negros, nada diziam. Depois o Zé Pais, em negativo com grandes barbas brancas, sorria para a objectiva. Nos seguintes, o cerimonial da lavagem da roupa estava bem documentado. Um outro costurava enquanto nas suas
costas o comandante de companhia repousava, a sua actividade predilecta que
alternava com a de bem comer. Sentados na frente de um jeep dois posavam para a
posteridade. Tudo gente conhecida. Os nomes emergiam lentamente com um sorriso
de satisfação.

Com a tira de negativos encostados ao vidro da janela, Jota deliciava-se. Mais à frente a horta experimental do Moreirinha criava dúvidas sobre a sua viabilidade. Que pena  ter partido tão prematuramente. Um outro, sentado sobre os sacos de terra do ninho da metralhadora da porta sul era quem?
Os seguintes documentavam os trabalhos de cobertura das casernas que iriam
abrigar os militares da companhia até então dispersos por barracas improvisadas, algumas verdadeiras obras de invenção e criatividade.
Empoleirados, lá estavam o Mira, o João, o carpinteiro e o …. Quem era aquele?

Jota não se esforçou na pesquisa dos nomes que lhe faltavam.

Nos dias seguintes esforçou-se sim em encontrar um digitalizador para recuperar os negativos.
Acabou por encontrar e com as fotos a preto e branco numa pen, marchou para casa entusiasmado. Pouco depois as fotografias com quase cinquenta anos circulavam já na internet com o pedido de identificação dos que não conseguira reconhecer.

E as respostas não tardaram. O que afanosamente esfregava uma camisa ensaboada, “Sou eu, então não se vê logo?” declarou o próprio.

O do ninho da metralhadora do lado sul também foi identificado facilmente por três dos
ciber-correspondentes.

Três, jocosamente, não reconheceram o comandante da companhia “ Quem é o gajo que está estendido atrás do Jota que faz trabalhos de costura?” “Aquele gajo que está estendido numa cadeira de repouso, também andou na guerra connosco?”ou “Se não me queres estragar o dia, corta esse tipo da fotografia”.

A maior dificuldade residiu na identificação do que estava empoleirado na estrutura do telhado, junto ao carpinteiro. Só na reunião anual do batalhão foi reconhecido: era o
noventa e um.

Este jovem minhoto, ferido no primeiro acidente com a explosão de uma mina que causou mortes, ficou traumatizado e teve que ser evacuado para Luanda onde, à custa de antidepressivos, vegetou largos meses e só reintegrou a Companhia quando esta se deslocou para o sul.

Apagado, triste, receoso, vivia afastado de todos e frequentemente foi dispensado das acções de reconhecimento que eram tidas como passeios pela  zona atribuída, com as deslumbrantes paisagens que a  reserva da Quissama, pródiga, oferecia a perder de vista.

“Que é feito dele?”

“Já morreu” – declarou secamente o que o identificara e explicou – “ Foi um infeliz. Nunca se recompôs. Parece que deixou de tomar os remédios, fugiu de casa e andava a mendigar quando se meteu à frente de um autocarro”.

O silêncio foi petrificando e pairou denso sobre eles, feito de recolhimento e de morte anunciada.

 O que sabia aquela história, num sopro gelado, concluiu:

 – Mais um que a guerra desgraçou.

J. Eduardo Tendeiro              ( 2012março)

Angola, 62/64 CCE 306

publicado por gatobranco às 09:51 | link do post | comentar

mais sobre mim

pesquisar neste blog

 

Junho 2013

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
27
28
29
30

posts recentes

comentários recentes

  • Tanto que lutou pela vida! Lá longe, há muito temp...
  • È verdade, já lá vão cinquenta anos mas está sempr...
  • Nos meus "apontamentos" alguém conversou com Deus ...
  • Esta faz-me recordar a escolta, a uma coluna de re...
  • PRIMEIROS MOMENTOS DA "ETERNIDADE" QUE NOS ESPERA...
  • Sabes?Andar à roda pode ser uma boa t+ecnica para ...
  • Com que então, o amigo Tendeiro perdido no meio de...
  • Não posso precisar o dia mas, faz este mês de Març...
  • Naqueles tempos, só nos restava sonhar com aquilo ...
  • Naquele tempo sem futuro, os sonhos projectavam-se...

Posts mais comentados

arquivos

subscrever feeds

blogs SAPO