Segunda-feira, 03.09.12

ÂNGELO RIBAU TEIXEIRA

                                                                

 

                Faleceu o Ângelo Ribau Teixeira. Partiu para Deus, para uma bem merecida paz e bem-aventurança eterna.

                Era um homem de bem, grande simpatia, riso franco, muita solidariedade e alma grande.

                Conhecemo-nos há quatro anos, em meados de 2009, por via eletrónica. Ele enviou-me uma mensagem a pedir uma informação sobre o meu livro “Angola – As Brumas do Mato”. E desde então, o relacionamento eletrónico nunca mais terminou. Com grande frequência ele enviava mensagens, diaporamas, pequenos vídeos sobre vida e cultura, história e arte, ciência e natureza, imagens de paz e de guerra, temas de otimismo e solidariedade, de reflexão e de humor…

                Mais tarde, há três anos, teve a gentileza de me oferecer o seu livro “Retalhos das Memórias de um Ex-Combatente” (Angola 1962-1964) em que fala sobretudo das aventuras e desventuras do seu pelotão e da Comp. Caç. Especiais 306, integrada no Batalhão Caçadores Especiais 357.

                Logo no início impressionou-me que ele, parafraseando um conhecido romance, dedicasse aquelas páginas “àqueles que lutaram mas, por eles, nem os sinos dobraram”.

                Li-o de fio a pavio, com um enorme interesse. Tanto mais que em muitas páginas quase me parecia que estava também a reviver as picadas e as noites, sustos e medos, momentos e paisagens dos vários pelotões e companhias do meu Batalhão – o Batalhão Caçadores 1930. Há páginas de um realismo dramático, muito sofrimento e pormenor.

                Com uma grande emoção vi na pág. 4 uma dedicatória já mais especial aos seus pais. Um pai “marmoto e agricultor, seco de carnes, mas com ossos duros de roer, temperados pelo sal das águas da Ria” de Aveiro, na Gafanha da Nazaré. E uma mãe “doméstica e agricultora”, mas com grande fé em Deus e amor aos filhos. E foram estes pais, heróis no trabalho e na dedicação do dia a dia que “tiveram quatro filhos na tropa ao mesmo tempo, três dos quais na Zona de Intervenção Norte”. A grande fé de sua mãe “foi compensada pois todos regressaram sãos e salvos”.

                No prefácio, o seu grande amigo e companheiro de armas, J. Eduardo Tendeiro, da Covilhã, evoca o “stress pós-traumático de guerra que tantas perturbações origina pela vida fora” (pág. 6). E é precisamente para exorcizar esses fantasmas da guerra que o Ângelo Ribau Teixeira, como tantos outros ex-combatentes – entre os quais me incluo – descarregou para o papel essas noites e pesadelos, rebentamentos de minas e mortes, sedes e cervejas, negruras e picadas envolvidas em pó, sonolências e febres, emboscadas e morros, tudo isso vivido e revivido no quotidiano da guerra colonial.

                Ao receber a triste notícia do falecimento do Ângelo Ribau Teixeira todas essas páginas do seu livro – tão duras e tão reais – desfilaram na minha mente, ao mesmo tempo como pesadelo e alívio. E foi também um certo alívio que o Ribau Teixeira deve ter sentido ao passar para o papel as suas memórias de guerra. Mas elas são memória futura de toda uma geração que partiu e penou em terras africanas, em tempos de ditadura.

                Agora, definitivamente na Pátria Celeste, paz para o Ribau Teixeira, junto de Deus.

                Carvalhos, 2 setembro 2012

                Manuel Leal Fernandes

gatobranco às 17:22 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Domingo, 26.08.12

HOMENAGEM AO MEU AMIGO E COMPANHEIRO DE ARMAS, ÂNGELO RIBAU TEIXEIRA.(17/11/937 -11/08/2012)

 

 

Que melhor homenagem te posso prestar que a de alinhar alguns excertos do muito que escreveste sobre a guerra?

Neles ressaltam a tua sensibilidade e oportunidade crítica, mas também muito do  sofrimento   que a guerra  nos impôs.

Sobram projectos que tínhamos! São eles que também vão ditar a continuidade da tua memória.

 

                           

 

 

 

“Os óculos iam para o bolso e do bolso saia um lenço, que era o lenço usado pela tropa. Era verde, grande, a lembrar o lenço tabaqueiro que o meu pai usava, e que nos fazia muito jeito. Era amarrado por cima do nariz e dava-se um nó atrás da cabeça. Assim podíamos respirar menos mal. (A caminho d Norte)”

“ Até que chegámos ao local. Desolados encontrámos a tal casa abandonada. Ficava antes da sanzala chamada Pangala, mas era ali que a nossa companhia iria ficar, mais de um ano. Que tristeza.”

 

“O Armando Barriguinha, o Adelino Carvalho e o José Monteirinho pereceram de imediato.

O David o sempre bem-disposto David, o amigo incondicional de todos nós, sobreviveu algumas horas”

 

“Mina, palavra terrível. Não é um buraco no chão donde nasce agua. É um buraco no chão, donde vem a morte. Morte terrível, corpos despedaçados...para quê?”

 

 

“É hoje o dia 30 de Setembro de 1962. Quatro meses de mato, e nada que se veja! O terceiro pelotão está operacional. Logo à noite temos de ir fazer uma emboscada. O Alferes resolve que iremos emboscar-nos na picada do Quelo. Mais uma, pensámos nós. “Tantas emboscadas feitas naquela picada, sem resultados. É mais uma, pensámos (….) As armas dispararam até que o Alferes mandou parar o fogo. (…)De madrugada descemos à picada. Eu nem queria acreditar no que via.”

 

“E pensei na minha terra, na minha família, nos colegas da escola. Por que pensa a cabeça quando o corpo está descansado? Até a dormir a cabeça não descansa. Rara é a noite em que ela não sonha com coisas extravagantes, como o estarmos a beijar o nosso filho, estarmos a ser cumprimentados pelo nosso vizinho Sarabando.”

 

“Hoje é dia de descanso do nosso pelotão. Levantei-me com a alvorada, tomei o meu café e fui à mala da roupa ver o que por lá havia. Deparei com um saco de plástico cheio de roupa suja.”

 

“Quantas vezes levei a minha máquina fotográfica comigo, e nunca consegui fotografar aquela casa. Tinha vergonha daquilo que nos tinham mandado fazer.”

 

“Nesse dia fomos fazer patrulha apeada para as bandas de Cuimba. Tudo calmo. Só era necessária mais cautela à passagem pelas sanzalas abandonadas. Havia uma coluna de reabastecimento vinda de São Salvador,”

 

 

 “Os tempos do “Norte” acabaram. As seguranças às colunas de

reabastecimento também. Com essas operações ficámos a conhecer muitas terras dos Dembos: - Nambuangongo, Quipedro, São José de Encoje, Vista Alegre…(Luanda,63)”

 

“A Rádio Ecclésia transmitia músicas de Natal. A que comecei a ouvir foi “ Noite Santa Noite Serena”, cantada pelo conjunto coral “Os Pequenos Cantores de Viena”.

Automaticamente a minha mente mudou-se para a minha terra – os meus filhos, a minha mulher, os meus pais, enfim a minha família…a Ceia de Natal na casa do forno, estavam tão longe e ali tão perto na minha memória! Natal/63”

 

“A minha secção foi a que foi fazer uma espécie de cerco (recordei-me de quando era pequeno ter feito dessas coisas para “assombrar” os pintassilgos para a palma)

O rio era baixo nalguns sítios e tinha árvores e ramos caídos, que facilitavam o seu atravessamento. O resto era mata densa”

 

“Passei em frente à igreja da Nossa Senhora da Muxima. Estava fechada. Mesmo assim não deixei de parar por momentos, e, mentalmente agradecer à Senhora da Muxima o facto de o Zé estar salvo.”

 

“No fim daquele dia, recebemos uma boa notícia.

-Amanhã vamos almoçar à Fazenda do Pai do Fernando, diz-nos o Alferes”

 

“A semana passou, e, finalmente recebemos ordens: -iríamos para Catete. Não era nada que se comparasse com Luanda, mas o Pelotão ficaria sozinho, sob as ordens do Alferes.”

 

“Afinal, os que nos ensinaram a arte de bem matar, foram os mesmos profissionais que mais tarde nos disseram que nós não tínhamos razão...”

 

 

“E nunca mais se fala do nosso regresso à Metrópole. Já passaram os dois anos e meses e nada”

 

 

“Pedi na empresa onde me tinha sido guardado o “lugar” para começar imediatamente a trabalhar.

O gerente chamou-me e disse-me para eu ir gozar um mês de férias. Expliquei-lhe o motivo porque queria começar imediatamente a trabalhar: – esquecer –. Pelo menos enquanto trabalhava, a cabeça tinha de estar no trabalho e não se distrair com o passado. Compreendeu. Eu agradeci-lhe.”

 

“Os momentos maus, vêm sempre ao de cima. Infelizmente…”

 

“Aí as bateiras dividiam-se. Umas iam para a “Cale do Oiro” onde o Ti Zé Rito amanhava uma marinha, outras seguiam em frente para as “Leitoas”, marinha amanhada pelo Ti Manuel da Branca, outras ainda seguiam para o Esteiro de Sama, onde se situava a marinha que íamos “botar a sal”.(…) Afinal tinha estado a sonhar com a mocidade, mas com tantos pormenores, que me parece ter estado a viver aqueles momentos!”

 

“À medida que o pai ia gadanhando o estrume, o Toino ia-o enfeixando, depois apertava o feixe com uma corda e transportava-o à cabeça para a bateira. O estrume era leve e a bateira estava perto, pelo que o serviço até ia correndo bem!”

 

“Magro, escanzelado, vestia uns trapos, que mesmo como trapos já haviam conhecido melhores dias, com o seu chapéu roto, mais parecia um espantalho das searas, do que um ser humano que Deus ao mundo tenha posto

Era assim o Ti António da Bicha”

 

 

“Acertada a ementa, em conversas cruzadas, o passado emergiu. Ribau e Tendeiro embrenharam-se pela fotografia, tema que os unira durante a guerra.( Almeirim, 2009)”

 

 

“Comentar para quê? Curvemo-nos perante a lei da vida, e que o Padre Arnaldo esteja no lugar que merece, com toda a sua fé.”

 

 

“É assim a vida. Tudo tem um fim. Hoje um, amanhã outro e depois outro...
E nós já cansados da vida, a nosso tempo também iremos.”

 

Adeus Ribau. Até sempre.

J.Eduardo Tendeiro

gatobranco às 21:11 | link do post | comentar | favorito
Domingo, 01.07.12

UM DE JULHO

 

 

 

Um de Julho de dois mil e doze

Breve é a nossa passagem pela vida

Parece que foi ontem. A dor é a mesma! A saudade fere com igual intensidade mas a revolta cresceu, acumulou-se.

Jovens generosos deram a sua vida por uma causa que todos auguravam perdida.

Foi lá para o Norte de Angola, na estrada S. Salvador – Cuimba, antes de o cruzamento para Pangala, aquartelamento da nossa Companhia de Caçadores Especiais nº 306. Um jipe da  coluna de reabastecimento accionou uma mina anticarro transformando-o numa amálgama de ferros torcidos pintados com o sangue dos ocupantes.

O Armando Barriguinha, o Adelino Carvalho e o José Monteirinho pereceram de imediato.

O David o sempre bem-disposto David, o amigo incondicional de todos nós, sobreviveu.

Com os cuidados do médico e do enfermeiro, das nossas preces e  juras raivosas de retaliação, manteve
um sopro de vida até à madrugada do dia seguinte.

 O coração parou, o rictus de dor adoçou-se e os lábios entreabriram-se numa prefiguração daquele
sorriso muito seu.

Foi há cinquenta anos.

 

(J. Eduardo Tendeiro)

gatobranco às 15:53 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Domingo, 24.06.12

A PRIMEIRA ACÇÃO DE GUERRA DA CCE 306

Nota prévia:

Para melhor enquadrar a nossa primeira “acção de fogo” pareceu-nos acertado dividir este relato A PRIMEIRA ACÇÃO DE GUERRA DA CCE 306 em dois capítulos que serão publicados em separado.

Um primeiro relembra a nossa deslocação para o Norte de Angola (De Luanda a Cuimba) e o segundo capítulo, (de Cuimba a Pangala)  o relato da primeira acção de fogo da CCE 306.

 

I

De Luanda a Cuimba

 

Depois de algum tempo no Grafanil, campo militar às portas de Luanda, os boatos superavam as acções a desempenhar e escolhíamos os que nos pareciam mais favoráveis “Vamos para o Norte!” Isso todos sabíamos. “Vamos para S. Salvador, vai ser bestial, dizem que aquilo é bom, até temos avião para vir a Luanda”.

Porém, um dia, depois de nos terem mandado comprar artigos de higiene "para algum tempo", uma notícia
tirou-nos ilusões de opção: íamos para o norte, pois claro, para a fronteira com o Congo tapar linhas de infiltração e fazer a segurança da zona .

 

No dia 11 de Junho daquele ano de 62, antes de o sol timidamente começar a anunciar a sua presença a nascente, tingindo de vermelho os telhados de zinco, uma serpente a perder de vista de enorme que era, vomitada pelos portões escancarados do Grafanil, fez-se à estrada. Eram os primeiros momentos da deslocação de uma longa coluna auto que nos levava para o norte, para os nossos destinos.

Nomes que conhecíamos do estudo da geografia como locais importantes da “província Ultramarina de Angola” foram desfilando ante nós. Salazar, Camabatela, Negage, o já famoso Negage, na ainda curta história da “guerra de Angola”, decepcionantes  pequenos aglomerados com algumas, poucas, centenas de residentes incluindo as forças militares estacionadas, recebiam-nos para abrigo de uma noite passada de qualquer modo, dentro ou debaixo das viaturas. Geralmente, só os oficiais tinham melhor abrigo. Para cada etapa partíamos cedo evitando o sol a que não estávamos habituados e que nos martirizaria ao longo da jornada amassando pó com suor abundante.

À medida que progredíamos para norte, sempre para Norte, a presença humana diluía-se, os pequenos agrupamentos de autóctenes rareavam e não voltámos a ter crianças a correrem ao lado das viaturas à espera de bolachas ou chocolate subtraídos das rações de combate.

 

(vendo a tropa passar)

 

Ultrapassado o Bungo, estacionámos em Maquela e aí ouvimos histórias de diamantes desviados que arranjavam a vida de alguns, de estradas cortadas e pontes destruídas.

Como habitualmente, bem cedo, marchámos para Cuimba, última paragem antes de nos lançarmos na aventura de conquistar Pangala, uma casa de adobes coberta de zinco, perdida algures, num ponto mal definido da carta militar.

Foi-nos dada a garantia de que duas pontes que iríamos utilizar estavam operacionais e, manhã cedo fizemo-nos à estrada. Capim alto, verdejante, engolia as viaturas.

Uma picada mais estreita do que as que vínhamos trilhando, acusando manifesta falta de uso era a estrada de ligação Maquela- Cuimba - S. Salvador, na qual encontraríamos um desvio para a direita em direcção a Buela. Aí se situava o local onde iríamos construir o nosso aquartelamento sinalizado pela já famosa casa com telhado de zinco que, obviamente, albergaria o comando e que teria o nome da sanzala mais próxima--Pangala.

A antena do ANGR-C9 que equipava o jeep do Comandante da Companhia no qual um rádio telegrafista e eu nos
deslocávamos ocupando o banco traseiro, matraqueava os caules grossos das beiras da picada ao sabor das oscilações da viatura, imitando  rajadas de metralhadora. Em abono da verdade se diga que em cerca de mil quilómetros trilhados não tinha havido um único disparo ou ameaça à progressão da coluna, o que nos conferia um certo à-vontade.
No entanto, em Maquela, tínhamos sido prevenidos de algumas acções hostis de terroristas que destruíam pontes e atravessavam árvores nos caminhos.

(Por vezes, a picada era um lago)

 

O primeiro pontão foi ultrapassado sem história e, quilómetros à frente, surgiu a ponte sobre um rio mais caudaloso: grossos troncos  lançados  de margem  a margem  forrados  com duas linhas de pranchas nas
quais era suposto os condutores serem capazes de alinhar as rodas das suas viaturas.  Por precaução o pessoal passou a pé e os condutores, ajudados por uma multidão de voluntários que se contradiziam, lá foram deslizando pelas pranchas. As viaturas pesadas, de rodado duplo sobre pranchas vergadas com o peso, rodas exteriores 
abocanhando o vazio  também atingiram a outra margem.

Com a tropa de novo montado, comentando o feito, ironizando o suor dos condutores, alguns deles ainda de
mãos trémulas chupando ávidos o cigarro que os acalmaria, a coluna venceu uma pequena subida que a retirou do vale do rio e atingimos Cuimba sem dificuldades de monta.

gatobranco às 19:17 | link do post | comentar | favorito

dois

II

De Cuimba a Pangala

Seguindo o esquema de viagem, no crepúsculo da manhã de 17 de Junho  retomámos a marcha.
A coluna era já diminuta, constituída apenas pelas viaturas da nossa Companhia e algumas camionetes com materiais de apoio. Mas o estômago ia reconfortado. Antes da partida, tínhamos sido brindados com pão fresco e café com leite.

Trilhando a estrada Cuimba - S.Salvador, uma picada apertada com o piso em mau estado e pouco trilhada, progredimos lentamente.

Vencido um pontão de aspecto manhoso sobre uma pequena linha de água e, após uma curva pronunciada para a esquerda, com um pequeno bosque do mesmo lado emergindo de um mar de capim e um talude à direita, um disparo de arma de fogo sobressaltou-nos. Parecia vir do bosque, motivando de imediato a fuzilaria das tropas do pelotão que seguia a viatura do comandante da companhia, varrendo o bosque. O nosso condutor travou o jipe e lançou-se para uma pequena valeta que conferia alguma protecção. Em segundos tinha a minha companhia e a do rádio telegrafista. O nosso comandante, curvado e ofegante juntou-se-nos.

 O coração batia cavo contra o terreno, as têmporas latejavam  e as mãos geladas afagavam a FBP. Uma estranha quietude inundou-me. O condutor, com a arma levantada acima da cabeça disparava ao acaso, presumidamente para o bosque.

“P’ra onde estás a disparar? – Gritei quando se atarefava a mudar de carregador.

“P’ra mata…"

“Mas viste alguma coisa?”

“Não, mas os gajos devem estar lá”…

Uma fuzilaria vinda dos lados do bosque, colou-nos ao terreno e levantou pequenas nuvens de poeira na barreira
atrás de nós, sem atingir as viaturas. Os projéteis passavam alto. Os pelotões que avistava até à dobra do cotovelo, retaliaram. Alguns ramos das árvores do bosque acusaram os impactos e lançavam estilhas em todas as direcções.

Esta situação de disparam eles, disparamos nós repetiu-se ainda mais duas vezes.

Deitado ao lado do condutor que finalmente tinha esgotado os seus carregadores e se aquietara, analisei a situação: o grupo de terroristas tinha que ser de algumas dezenas e ter armas automáticas para corresponder assim ao nosso fogo .Punha em questão estas reflexões quando o ladrar rouco e inconfundível de uma Breda se sobrepôs à fuzilaria. No talude, à nossa rectaguarda, os projéteis de 8 mm cavavam tocas.

“Aquela Breda só pode ser nossa” – gritei para o capitão comandante da Companhia alapado no terreno.

 Sugeri-lhe que mandasse parar o fogo.

Com um violento abanar de cabeça concordou e, ao bom estilo de Lamego, mergulhei, rebolei e rastejei até ao
jipe. Com o micro entre os dedos estendi-o ao comandante que o recusou com um gesto de repulsa.

 Protegido pela roda suplente da viatura, o aparelho na concha da mão, gritei:

“Aqui Charlie Mike (abreviatura simplificada e não oficial de comandante). A toda a coluna: Cessar fogo. Repito. Cessar fogo.
Ordem de Charlie Mike”

Em poucos segundos o silêncio de igreja vazia fez doer os ouvidos. A Natureza ferida, numa quietude de protesto, interiorizava asua dor.

 A suspeita tornou-se evidente. Estávamos a disparar uns contra os outros, traídos pela curva apertada que a picada fazia.

Comentei-o com o  comandante e, mais seguro, decidiu mandar avançar a coluna com o pessoal apeado. Curvado ao lado da viatura na busca de uma possível proteção, de novo recusou o micro e transmiti a sua ordem.

As viaturas progrediram lentamente, talvez quinhentos metros com os militares abrigados atrás dos respectivos
transportes, depois ladeando-os. Atingiu-se um terreno quase plano com boa visibilidade e o comandante da companhia mandou que eu transmitisse a sua ordem de “embarque nas viaturas e retoma da marcha”.

Durante cerca de uma hora, em marcha muito lenta e difícil, vencendo troços de lama, fomos sacudidos ao sabor das covas do caminho. Frequentemente mergulhávamos em túneis de capim que as GMCs iriam alargar.

 Banhado pela tranquilidade da paisagem, recuperada a dignidade no seu assento de Comandante, virando-se para trás,  questionou-me:

“Acha que aquele primeiro tiro veio mesmo da mata?”

“De que outro lado poderia ter vindo?” – Returqui ambíguo, encolhendo os ombros.

A resposta tardou:

“Não sei… estou cá a pensar se não poderia ter partido de um militar nosso"…

O cabo Carlos, o condutor, entrou na conversa:

“Mas o fogo vinha da mata, eu vi…”

“Cala-te e vê se descobres esse maldito desvio”. – Invectivou-o o comandante e, para mim, prosseguiu –“ eu vou averiguar e se descobrir o autor, ferro com ele na cadeia, é cadeia…É que eles ainda não têm armas automáticas em tão grande número para aquele potencial de fogo”…

Um solavanco maior fê-lo abandonar a posição torcida que assumira para me encarar.

A meu lado, o cabo radiotelegrafista Manuel sorriu e com os dedos compôs uma grade de hipotética cadeia.

Também eu assumira já que o tiroteio tinha sido despoletado por um disparo talvez inadvertido de um dos nossos militares.

 

Seguíamos atentos ao desvio para a direita que nos levaria a Pangala, “uma casa abandonada coberta com chapas dezinco”.

Tardou a surgir a “nossa estrada” sob a forma de uma falha no capim que orlava a picada que trilhávamos. Abandonada há muito, os dois sulcos paralelos marcados pela últimas  viaturas que o tinham pisado, por vezes
desapareciam.

(Chegada a Pangala 17-6-62)

 

Toda a nossa atenção se fixava na orla direita do caminho esperando descobrir a casa referência . Atrás de nós,
os militares de pé no Unimog, pescoços estendidos na ânsia de descobrirem o objectivo, esquadrinhavam o limitado horizonte.

Num coro de júbilo, cerca das dez horas, com 1035 quilómetros percorridos, avistámo-la a por fim, enterrada na
vegetação.

As janelas, órbitas de caveira dissimulada no capim, espreitavam-nos numa macabra recepção de boas-vindas.

 

Fim

NOTA DO AUTOR

Mais tarde confirmou-se que um militar inadvertidamente acionara a sua G3. Mas essa informação foi sonegada ao nosso comandante de companhia que face à passividade dos seus oficiais e sargentos em “descobrirem” a verdade, os ameaçou de obstrução à justiça e… cadeia.

O nome do autor do disparo foi o segredo mais bem guardado daquela Companhia de Caçadores Especiais que, de 17de Junho de 62 até meados de Maio de 63, abnegadamente, cumpriu com honra as missões que lhe foram atribuídas.

 

J. Eduardo Tendeiro

(Sargento de transmissões da CCE 306

Angola, 1962/64)

gatobranco às 18:45 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 23.06.12

A ÚLTMA PATRULHA

Acordou em sobressalto. Os ponteiros luminosos do relógio de pulso apontavam as três . Dispunha ainda de duas horas. Sabia que já nãovoltaria a adormecer, mas num esforço de vontade imobilizou-se numa posição confortável.

Desde que tivera conhecimento de que o seu pelotão fora escalado para aquela escolta invadira-o uma angústia inexplicável. Seria  praticamente a sua última  missão  de  guerra. Depois, até ao embarque de regresso
à Metrópole, à sua casa, aos seus amigos, à sua noiva, pouco mais faria. Talvez um serviço à “Rede”, um reforço, coisas de pouca monta. Mas era aquela angústia!...   E ele nem era supersticioso!

Sentiu vontade de se virar mas impôs-se aquela posição e iniciou exercícios de relaxamento. Era uma escolta como outras tantas  que fizera, algumas  com  acções  de  fogo. O  itinerário  nem  era perigoso  comparado com
outros já  trilhados, mas havia aquela espécie de angústia…

Experimentou rezar. Uma Avé Maria fluiu fácil na sua mente, o Pai Nosso demorou mais tempo a ser recordado e teve problemas com a Confissão. Desiludido tentou o Credo. Desistiu frustrado. Já tinha passado tanto tempo!
Recordou com saudade os primeiros ensinamentos da Mãe. Benzer-se. Custou a aprender que devia fazer os braços da cruz da esquerda para a direita… enterneceu-se com a aprendizagem da primeira oração. Deleitado, recitou-a:
“Anjinho da guarda/ minha doce companhia/ guardai a minha alma/ de noite e de dia”. Quanta ternura! Mas, no momento, não se tratava de guardar a alma mas sim o corpo. Faltava tão pouco para acabar aqueles malditos dois anos de dor, suor, sangue e morte. Não era justo que a poucos meses, talvez dois do seu embarque ainda o expusessem a perigos de morte.

Não está certo, Deus!
Há outros mais novos… não, não é isso meu Deus! Não Te vou pedir que mandes morrer qualquer outro por mim, não é isso! Sabes que sempre quis que não morresse ninguém!

Confuso, esquecido dos exercícios de relaxamento, retomou o pensamento:

Deus, não quero que ninguém morra, mas, desde que soube desta patrulha apoderou-se de mim uma angústia, um mau presságio! E falta tão pouco tempo para sair deste inferno de homens a matarem homens,  contrariando as Tuas Leis.

Num acto de contrição, recordou que certamente também ele já tinha infringido todas as Leis que Deus deixou aos homens.

Deus, eu não devia pedir-te nada… até porque não mereço… Dizem que tudo está escrito no grande livro da vida,   cada um de nós tem uma página em que está inscrita a nossa hora. Por vezes tens piedade de um ou outro e consentes em fazer alterações na página deles. Chamam-lhe Milagres. Nunca me importei muito Contigo eu sei, por isso não te vou pedir um milagre. Também não vou fazer-te promessas. Detesto as promessas. São uma espécie de contrato.  Uma espécie de troca. Se me concederes isto, dou-Te aquilo. Vou a pé a Fátima, atravesso o Santuário de joelhos deixando um rasto de sangue. Não acredito que queiras que as pessoas se martirizem para que lhes concedas qualquer coisa. Se Te pedisse vida para estes dois meses e  a concedesses, o que é que eu Te poderia dar em troca? Não precisas de nada, és Rei e Senhor de tudo!

De novo mudou de posição sobre a enxerga. Irritou-se consigo mesmo: Raios, é uma merda de escolta. O itinerário está pacificado. Logo à noite estou aqui outra vez…
Senhor, vou fazer por isso. Vou estar aqui logo à noite.

Espantou-se e orgulhou-se da sua certeza mas, muito lá no fundo continuava aquele incómodo. Contornou-o: claro que certezas  ninguém tem, mas as probabilidades são todas a favor. Deus, não acredito que queiras matar alguém, que deixes que me matem… Vou fazer-Te um pedido. Sem promessas. Só um pedido. Se é verdade que todos temos uma folha no grande livro da vida e se estiver lá escrito que vou morrer nesta escolta, por favor apaga isso. Deixa-me ser eu a tentar safar-me por mim mesmo.

 

Sentiu-o chegar desenhando arabescos no escuro com a luz da potente pilha. O sargento de dia à Companhia acionou os interruptores que inundaram de luz o dormitório e, com voz forte proclamou:

“Toca a levantar. Camas arrumadas. Às cinco e meia todos na cozinha. Há pão fresco, queijo e marmelada. Ração individual de combate para cada um. Cantis cheios de água"… (alguém sugeriu: Não pode ser vinho?)

 Indiferente à graçola, o sargento prosseguiu:

…” Às seis horas, viaturas em marcha" – num arremedo de simpatia, concluiu – "boa viagem!”

“Adeus, até ao meu regresso” – proclamou a voz anónima e outra convidou – “Não quer vir também?”

 

Debruçado sobre as botas que apertava com cuidado, indiferente ao ruído envolvente concluiu os seus pensamentos daquela madrugada:

Mas, Senhor, com uma ajuda Tua, tudo vai correr bem.

Recordando as tiradas latinas do seu companheiro de quarto, ex seminarista, plagiou-o:

"DEO JUVANTE"

 

Fim

(in Apontamentos – Angola, 62/64)

J. Eduardo Tendeiro 
CCE 306

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Sábado, 19.05.12

50º ANIVERSÁRIO DO EMBARQUE DO BCE 357

                                                             
                               50º  Aniversário do Embarque do BCE 357

 

 

A esperada carta com o aviso da data, local e hora da reunião chegou.

  Pombal, dia 29 de Abril de 2012, a começa rcerca das 10 horas da manhã, no
restaurante “O Litoral”.

 Cada qual começou a fazer os seus planos, programar os itinerários -não esquecer

 que um que prometeu vir,  era de Vila Real de Santo Antónioe veio!

                                 

 Chegou o dia.
  Domingo chuvoso, mais cautela na condução, mas a malta ia
 chegando.

  - Olha! o Bifanas digo eu. E ele aproximou-se. E apareceu O Braga, e o, como

 se chamava  ele?

 - Então não se lembra?- Era o “Corrécio”. A malta ia chegando.

  Outras coisas, há muito tempo, não nos tinham impedido de andar, não era agora

 uma simples chuvada que nos impediria.

  Chegada a hora da missa, os que podiam dirigiram-se à igreja onde assistiram ao

 SantoSacrifício, por intenção dos que já partiram. Ficámos por ali meia deles, cuja
locomoção deixa alguma coisa a desejar…

 - Olha o Zé-Barbeiro, diz um apontando na direcção do acabado  de chegar

 (o Zé era o barbeiro da 306, o que nos dava as carecadas).

 - Perguntei-lhe pelo “Puler”, que ainda não tinha visto.

 O seu sorriso sempre aberto, apagou-se. Fiquei preocupado.

  - Então?!

 - O Puler já não vem mais. Morreu!

  Rapidamente todo o grupo dispersou como se ali fosse rebentar uma mina…

  Alguns puxaram do lenço e limparam um pingo de chuva que lhes corria pela

 cara abaixo.
 Ou seria uma lágrima!?...

 

 Foi  chegando o pessoal que tinha ido assistir à

missa, e começámos a tomar  os nossos lugares para o almoço. Antes , com todo o pessoal de pé, foi pedido um minuto de silêncio em memória do  nosso Capelão Padre Arnaldo, que  já nos deixou!

                       Almoço barulhento, Era muita gente querendo contar suas aventuras a ex-colegas.

 

                                                                                                                                       

 

Entretanto foi anunciado que uma filha  do que foi nosso Comandante Matos Silva, iria dizer algumas palavras . Fez-se silêncio.                              

 Daquilo que ouvi ficaram-me as seguintes  palavras:

                      "O meu pai disse-nos que nunca nenhum Batalhão lhe custou tão pouco a comandar como o 357"

 

 Estava aterminar a reunião e o pessoal começou a dispersar.

  Eu fiz o mesmo.

                              

                                      A.Ribau Teixeira

                                    (ex-sargento miliciano da CCE 306)

                                             Angola, 62/64

                              

gatobranco às 18:25 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 25.04.12

INTRÉPIDOS

LUANDA,
MAIO DE 1962

 

 
 

ALGUNS DOS “INTRÉPIDOS”
QUE, COM A CCE 306, PELAS TERRAS DE ANGOLA FIZERAM HISTÓRIA

DA ESQUERDA PARA A
DIREITA, TEMOS

RIBAU, AZEVEDO,CARVALHO,GASTÃO,M.ALVES, MALHA, FIDALGO

 

EM BAIXO

CURA, SOARES,TENDEIRO, COSTAPEREIRA, MIRANDA

 

FALTAM AQUI

 RESENDE

LINO

 PEREIRA

 DAVID

 CARNEIRO

 

Mais tarde, em
substituições individuais, chegaram

F. BRANCO (1º sarg.),
DIAS CORREIA,  LUZ e SILVEIRA

gatobranco às 17:44 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quarta-feira, 18.04.12

História breve do noventa e um

 

 

 

Começou quando o Jota, fazendo arrumações, encontrou uma ponta de filme, cerca de um metro de películade trinta e cinco milímetros, a preto e branco. Negativos da guerra!

Naquele tempo a técnica da cor estava ainda pouco divulgada e, em campanha, não havia condições para manipular tal novidade.

Era um pequeno contentor, um cilindro translúcido que deixava ver o conteúdo de modo
indistinto. Aberto, como cobra liberta de longa hibernação, escorregou encaracolado por entre os dedos do seu descobridor.

Quase cinquenta anos tinham passado! Com uma mescla de saudade, inquietação e coração acelerado, pô-lo à transparência contra a luz da janela.

Os primeiros negativos, manchados com riscos negros, nada diziam. Depois o Zé Pais, em negativo com grandes barbas brancas, sorria para a objectiva. Nos seguintes, o cerimonial da lavagem da roupa estava bem documentado. Um outro costurava enquanto nas suas
costas o comandante de companhia repousava, a sua actividade predilecta que
alternava com a de bem comer. Sentados na frente de um jeep dois posavam para a
posteridade. Tudo gente conhecida. Os nomes emergiam lentamente com um sorriso
de satisfação.

Com a tira de negativos encostados ao vidro da janela, Jota deliciava-se. Mais à frente a horta experimental do Moreirinha criava dúvidas sobre a sua viabilidade. Que pena  ter partido tão prematuramente. Um outro, sentado sobre os sacos de terra do ninho da metralhadora da porta sul era quem?
Os seguintes documentavam os trabalhos de cobertura das casernas que iriam
abrigar os militares da companhia até então dispersos por barracas improvisadas, algumas verdadeiras obras de invenção e criatividade.
Empoleirados, lá estavam o Mira, o João, o carpinteiro e o …. Quem era aquele?

Jota não se esforçou na pesquisa dos nomes que lhe faltavam.

Nos dias seguintes esforçou-se sim em encontrar um digitalizador para recuperar os negativos.
Acabou por encontrar e com as fotos a preto e branco numa pen, marchou para casa entusiasmado. Pouco depois as fotografias com quase cinquenta anos circulavam já na internet com o pedido de identificação dos que não conseguira reconhecer.

E as respostas não tardaram. O que afanosamente esfregava uma camisa ensaboada, “Sou eu, então não se vê logo?” declarou o próprio.

O do ninho da metralhadora do lado sul também foi identificado facilmente por três dos
ciber-correspondentes.

Três, jocosamente, não reconheceram o comandante da companhia “ Quem é o gajo que está estendido atrás do Jota que faz trabalhos de costura?” “Aquele gajo que está estendido numa cadeira de repouso, também andou na guerra connosco?”ou “Se não me queres estragar o dia, corta esse tipo da fotografia”.

A maior dificuldade residiu na identificação do que estava empoleirado na estrutura do telhado, junto ao carpinteiro. Só na reunião anual do batalhão foi reconhecido: era o
noventa e um.

Este jovem minhoto, ferido no primeiro acidente com a explosão de uma mina que causou mortes, ficou traumatizado e teve que ser evacuado para Luanda onde, à custa de antidepressivos, vegetou largos meses e só reintegrou a Companhia quando esta se deslocou para o sul.

Apagado, triste, receoso, vivia afastado de todos e frequentemente foi dispensado das acções de reconhecimento que eram tidas como passeios pela  zona atribuída, com as deslumbrantes paisagens que a  reserva da Quissama, pródiga, oferecia a perder de vista.

“Que é feito dele?”

“Já morreu” – declarou secamente o que o identificara e explicou – “ Foi um infeliz. Nunca se recompôs. Parece que deixou de tomar os remédios, fugiu de casa e andava a mendigar quando se meteu à frente de um autocarro”.

O silêncio foi petrificando e pairou denso sobre eles, feito de recolhimento e de morte anunciada.

 O que sabia aquela história, num sopro gelado, concluiu:

 – Mais um que a guerra desgraçou.

J. Eduardo Tendeiro              ( 2012março)

Angola, 62/64 CCE 306

gatobranco às 09:51 | link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 03.04.12

O agricultor Gafanhão

                               O AGRICULTOR GAFANHÃO – 1

 

 

 

Chegados àGafanha, cada um foi para sua casa, tendo combinado que no dia seguinte
estariam nos viveiros lá para as oito horas da manhã. 

 O tempo estava na verdade melhor no dia seguinte, e, manhã cedo, lá fomos nós, o pai de
gadanha e engaço ao ombro e o Toino com as duas varas, em direcção à bateira.

O dia não era de chuva, mas a manhã estava fria. Notou-se logo ao meter os pés na
lama para alcançar a bateira. Soltada esta do moirão aí vamos nós para Esteiro do
Oudinot. Salto para a margem com a cirga na mão, estico-a ponho-a ao ombro, e
vá de puxar a bateira. São dois quilómetros de extensão, contra a maré. Chegado
ao fim é recolhida a cirga, entro para a bateira, pegamos nas varas e vá de atravessar
a cale, sempre com muita atenção, não vá aparecer algum navio, que nos
atrapalhe a manobra. Chegados ao fundão, vá de “paijar” com as varas como se
fossem remos, dado que a cale era muito funda e as varas não atingiam o fundo.

Passámos sem problemas e da outra banda voltámos a empurrar a bateira com as varas, até
que chegamos à marinha, amarrámos a bateira e toca de começar a trabalhar. O
pai do Toino a gadanhar o estrume e o Toino sempre com o olho à viva, (não
fosse aparecer outra cobra) ia-o juntando e enfeixando na corda. Quando o molho
estava com a quantidade suficiente era amarrado. O Pai puxava a corda de um
lado e o Toino do outro, apertavam-no, davam um nó, o pai ajudava a pô-lo na
cabeça do Toino, e aí vai ele correndo com o molho de estrume à cabeça, sempre
a pensar nalguma cobra…

Este serviço repetia-se vezes sem conta, até que a bateira estivesse carregada.

Depois era o regresso pelo Esteiro do Oudinot, o carro dos bois à espera, o
descarregar da bateira…

Este serviço era executado dias sem conta, sempre que o tempo o permitisse, até que
houvesse estrume suficiente, para as camas do gado durante o inverno, que aí
vinha.

O tempo ia piorando. O vento e as chuvas anunciavam o tempo que aí vinha, a
chegada do inverno. Já havia dias de chuva, que permitiam ao Toino ler uns bons
pedaços do livro que andava a ler, até ser “acordado” do sonho que a leitura
lhe provocava, por ordens do pai que dada a ordem continuava na sua leitura:

-Oh Toino vai dar uma gabela de palha aos bois, ou;

 -Dá uma gabela de erva à vaca.

O Toino deixava a leitura, e ia confirmar a ordem junto do pai, não que não
tivesse ouvido bem, mas para confirmar qual o livro que o pai estava a ler.
Punha o olho de lado, e lá ia cumprir a ordem.

De regresso, ainda se atreveu:

-Olha lá oh pai, quantas vezes já leram esse livro? (era o Mártir do Golgota) …

-Não sei, mas gosto muito dele. Tem aqui uma personagem que me faz pensar: e
continuou; era o cantor da Galileia, e ia fazer serenatas a Madalena a
pecadora. Chamava-se Boanerges. Se um dia tiver um neto gostava que lhe dessem
esse nome…

 

E lá continuavam, cada um com a sua leitura, até que da casa do forno se ouviu a
vós da mãe:

–Eh pessoal, vamos à janta que o comer já está na mesa!

Só nessa altura o Toino se lembrou, de ter ouvido o meio-dia tocar no sino da igreja.

E lá deixaram as leituras e foram para a mesa. O Toino olha para a comida e
resmunga:

–Mais uma vez caldo de feijões…

– E é para quem quer, responde-lhe a mãe, Se não quiseres vai para a panela e
fica para logo à noite. Nesta casa não se estraga nada…

E como naquela casa só se falava o necessário, a solução era comer do que havia e
bico calado!

O tempo ia passando, sem o Toino fazer ideia do que aí vinha, Agora era tudo um
mar de rosas. Ler, ir ao pasto para os bois, fazer qualquer outro serviço que
fosse necessário, e ler, ler!

Mas o tempo começava a esfriar ainda mais. O vento assobiava por entre os ramos das
árvores agora já nuas, sem folhas. O inverno estava a chegar e parece que iria
ser de muito frio.

-O futuro o dirá, foi a resposta do pai do Toino à pergunta do filho sobre o
assunto. Ele, que no verão prevía o tempo, agora mostrava uma certa reserva,
sobro o inverno que se aproximava. Parecia preocupado!

 

-Comprámos o moliço dos viveiros da Corte do Paraíso, e temos de o apanhar antes
do fim de Fevereiro e transportá-lo para as terras. O tempo de o apanhar está a
chegar. Comprei o moliço mais dois dos teus tios e domingo vamos combinar
quando começamos a apanha-lo! Vai começar uma época de trabalho.

 

-Com o frio que parece vir aí, deve ser bonito, pensa consigo o Toino! Ele que
já tinha sentido o frio que a geado provocava nos pés, ao pisar a lama branca
de geada. Só não compreendia que, no tempo em que andava na escola primária,
quando geava, a sua mãe o obrigava a levar tamancos de sola de madeira, que
eram normalmente comprados na feira dos treze, na Vista Alegre.

No entanto, mal desaparecia das vistas da mãe, era vê-lo a pegar num tamanco em
cada mão, e toca a correr, que para os lados da Escola da Ti Zefa já se ouvia a
algazarra da malta a jogar a bola - tudo descalço - e não havia frio que se
sentisse. Topada numa pedra sucedia de vez em quando; mas nada que um trapo ou
um lenço amarrados no local ferido, logo ali, não resolvesse!

 

-Grandes tempos aqueles! - Pensava consigo o Toino. Agora havia
que trabalhar, e o que aí vinha não era trabalho “mole”…

Chegouo domingo à noite e foi – lhe dado conhecimento da resolução da apanha do
moliço.

-
Mas pai, diz-lhe o Toino. Estamos em Janeiro e o tempo está tão frio! Podíamos
ir um pouco mais tarde…

-O frio não faz mal nenhum, cura…

-E o trabalho aquece – foi a resposta…

-
Este homem tem sempre uma resposta resmungou o Toino, pensando já no frio que
iria passar…

 

Começava mais uma época de trabalhos, que era exclusiva dos marnotos da Gafanha, já que
os de Aveiro não tendo terras se limitavam a consumir o tempo, visitando de vez
em quando a salina, acautelando alguma “ cambeia” que as marés vivas tenham
provocado, ou passeando debaixo dos arcos do Hotel Arcada, local soalheiro e
abrigado dos ventos do nordeste, que no inverno enregelavam o corpo até aos
ossos…

Enfim,cada qual nasce, para o que nasce!

E para o Toino não era nada bom ser filho de lavrador.com terras!

 
lá foram na segunda-feira seguinte para os viveiros da “Corte do Paraíso”
começar com a apanha do moliço. O pai do Toino com um ancinho e a gadanha ao
ombro, o Toino com um ancinho, montam cada um na sua bicicleta e toca a andar
em direcção ao “Paraíso”…???!!!.

Atravessaram a ponte de madeira que liga á estrada que dá a Aveiro e aí foram em direcção
aos “moinhos”, onde se localizava o Paraíso.

O vento norte corria de mansinho, mas frio como gelo. As orelhas e as mãos
sentiam-no bem. Pior seria quando tivessem – ao chegar ao viveiro – de tirar as
calças, ficar em cuecas e entrar na lama.

Enfim, veremos; ia cogitando o Toino, tentando meter uma mão no bolso e conduzindo a
bicicleta sem mãos.

 

Chegaram.
Calças fora, cuecas arregaçadas e toca de descer para o viveiro.

-
È pá, diz o pai do Toino para um cunhado. Está mesmo frio…

-Toca a gadanhar para aquecer. Enquanto nós cortamos o moliço, o Toino com o ancinho
vai-o juntando em montes pequenos para depois serem “zurrados” (empurrados)
para junto da estrada, d´onde mais tarde serão carregados para os carros de
bois, que o conduzirão às terras, na Gafanha.

Com o correr do dia, e como o céu se encontrava límpido, o sol ia aquecendo o ar
ambiente, mas não a lama onde se enterravam os trabalhadores. O corpo com o
trabalho, aquecia. Mas as pernas e os pés, valha-lhes Deus, nem os sentiam…


para o meio da tarde o sol
começou a descer no horizonte, para os lados do mar. A temperatura começou
também a descer, o ar ambiente ia ficando cego, uma espécie de pó finíssimo
pairava no ar. Para o fim da tarde
o ar já enregelava os ossos!

-
Mau, mau, diz o cunhado Zé. Se isto assim continua, amanhã vai ser o bom e o
bonito – querendo com isto dizer que seria ainda um dia de mais frio –
esperemos que o tempo não encubra, porque então vai ser frio de rachar…

A
noite ia chegando e resolveram regressar a casa.

-
Por hoje chega de trabalho, diz o pai do Tónio, que era o mais velho dos
cunhados. Vamos até casa, que amanhã também é dia.

Lavaram
a lama das pernas e dos pés, enfiam as calças e aí vão de abalada até à
Gafanha.

Porca
de vida, ia pensando o Tónio enquanto pedalava em destina à Gafanha. Isto não é
vida para mim. Isto não pode continuar. Tenho de pensar noutro modo de vida.
Não se passa fome, mas o trabalho é de escravo! Lá que o pai e os tios, aceitem
este modo de vida certamente por não terem alternativa, é lá com eles.

 Eu é que tenho, não posso aguentar este modo
de vida. Não sei o que ganho. Só sei que trabalho que nem um escravo, embora os
meus catorze anos!

 

Há muito que a noite trouxera o silêncio. A despeito de manter os olhos abertos,
mal conseguia vislumbrar os adobes da parede. Uma pergunta nasceu em mim e
tomou forma:  “ E se tivesses queescolher entre aquela vida tão dura e esta que tens agora?”

Tateando, escorreguei por entre os cobertores, encontrei  posição, cerrei os olhos e aguardei o sono que
tardava.

Pouco faltaria para que o sol deslizasse pelo zinco dos telhados e inundasse o
acampamento de Pangala.

 

Ângelo Ribau

CCE 306

gatobranco às 19:25 | link do post | comentar | favorito

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