Entrando na mata

 

 A guerra é desumana, cruel e obriga à tomada de decisões que marcam para o resto da  vida.

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A Mata
 
“Ela exerce um fascínio magnético como grande íman de polaridade descontrolada. Tem um efeito de atracção com a promessa de um pouco menos de calor no abrigo da sua sombra generosa, com a provável oferta de um manancial de água, mas sinultaneamente, produz um efeito contrário de repulsão criado pela obscuridade, pelo receio do desconhecido, pelo temor da emboscada.
A luz, mil vezes reflectida e filtrada pelas folhas, coleccionando pacientemente estranhos matizes, chega ao solo como manchas de caleidoscópio gigante que se esbate nas fardas camufladas dos intrusos e os dissimula, talvez a contragosto. A progressão do pequeno grupo de nomadização é lenta, cuidadosa por entre troncos majestosos ornados de musgos que se assemelham a cabelos desgrenhados, barbas esverdeadas e de cipós que flexíveis e laboriosos demandam a luz do sol, lá no alto. Menos exigentes, pequenas plantas rasteiras sobrevivem na penumbra e enleiam-se nas botas dos que avançam tensos, olhos semicerrados, bocas abertas, mordendo o ar húmido. Voluntários especializados, todos graduados, tentam quebrar a monotonia de uma guerra contra um inimigo invisível que põe minas, flagela de longe mas não dá a cara. É a guerrilha, eles sabem. Deslizam lentos como seda em corpo de mulher fremente. À sua frente, uma macaca surpreendida, aperta a cria contra o ventre e salta vertiginosa para o alto. Aí uma ave branca de longa cauda e bico de papagaio clama o seu protesto com um grito agudo, repetido, batendo as asas. Aquietada no ramo que escolheu, olhou para baixo e com a cabeça de lado, um olho virado para o grupo, mirou-os longamente. Mudou de ramo, talvez para melhor acompanhar a progressão dos intrusos. A mata, indiferente a esta violação, retomou a sua polifonia. Uma ligeira brisa agitou a copa distante das árvores, acrescentando mais um som ao coro imenso da natureza.
O da frente parou erguendo ligeiramente o braço. Depois, num gesto curto de convite, chamou para si os restantes  elementos. Apontou-lhes uma pequena clareira sombria à sua frente. Aí, o IN, onze elementos, comiam. A seu lado, velhas mochilas e sacos em mau estado pareciam cheios. Ao lado, duas armas automáticas e outras de repetição. Talvez um grupo de transporte de reabastecimento de víveres ou munições, quem sabe se minas…
Reunidos, iniciaram um diálogo gestual.
“Envolvimento e captura’” perguntou o da frente alongando os braços e estreitando-os contra o próprio peito
Cinco cabeças oscilaram uma negação e um, com o indicador em riste, contou-os a si próprios. “Somos poucos”…
Projectando os braços para a frente, dedos recurvados como garras, o comandante inquiriu:
“Assalto?”—a resposta tardou e veio de dois que com um veemente não formulado com o indicador a oscilar como se espantasse mosquitos, apontaram o terreno difícil que, na progressão, quebraria o factor surpresa .
O que convocara a reunião de mudos, olhando os outros, encolheu os ombros, apontou para a sua arma e descreveu com ela um leque abrangendo a minúscula clareira.
Como sinos tangendo requiem, no ar quente e bafiento cinco cabeças oscilaram a compasso.
Com um gesto largo, face crispada, apontou-lhes o caminho e com o olhar endurecido, num rictus de dor e determinação, seguiu-os até receber o sinal de prontidão de cada um.
Então, movimentando os dedos da mão direita num gesto de desentorpecimento, abarcou o punho da arma, afagou o guarda-mato, deixou o dedo resvalar para o gatilho numa carícia de morte; com a mão esquerda tacteou os ressaltos do guarda-mão como se procurasse as cordas do braço de uma viola, escolheu o alvo e, com um breve olhar para os companheiros, o coração oprimido, premiu o gatilho.
 
E a mata emudeceu num luto piedoso, mas breve. O pássaro branco de rabo comprido voltaria a fazer ouvir o seu protesto estridente. A cria da macaca largaria o aconchego do pelo do ventre da mãe e procuraria um ramo fino que os seus pequenos dedos pudessem abarcar e baloiçaria num equilíbrio incipiente. Pequenas aves, mais próximas do solo, ensaiariam novos cantos. O cheiro acre da cordite queimada desceria lento, quase discreto e seria absorvida pelo tapete de folhas mortas.
Mas, na pequena clareira daquela mata lá muito ao norte de Angola, os sinais de morte perdurariam por muito tempo.”
 
In “Delta Five Lima Alfa” de J. E. Navarro
publicado por gatobranco às 11:35 | link do post | comentar