A NOITE É ESCURA

 

 

 
 
O gerador fora desligado antes das dez da noite.
Alguns ficaram ainda jogando à luz do petromax. Desinteressado, rumou ao seu quarto. Sacudiu as botas que, com cordões desapertados saltaram e estendeu-se sobre o cobertor que servia de colcha à cama: colchão e dois cobertores. Os lençóis estavam demasiado sujos e aguardavam entalados entre os ferros dos pés da cama e a parede melhor ocasião para serem lavados. Se a lavagem da roupa de corpo, interior e exterior se fazia com facilidade, os lençóis requeriam melhor disposição, mais água e muito esforço. Ele tinha já aprendido que bom era aguardar dias de chuva para ensaboando-os, os esticar nos arames, esperando que a chuva fizesse o resto do trabalho.
Aconchegou-se entre os cobertores desagradado com a sua aspereza. Os seus companheiros de quarto ainda não tinham chegado. Virou-se para a parede e a cama produziu o gemido queixoso de um espectro.
 
Rajadas curtas assolavam o ar e os projécteis picavam os adobes levantando pequenas nuvens de barro vermelho, como se sangrassem.
Todo o dispositivo de defesa do acampamento funcionava já. O motor de arranque das viaturas estrategicamente dispostas gemia para fazer funcionar os motores frios e húmidos, faróis como navalhas afiadas rasgavam já a noite iluminando o perímetro aramado do acampamento e os terrenos circundantes em busca de qualquer movimento.
Do lado do posto rádio, a Breda ladrou rouca. Havia alvo adquirido? Seria só tiro de intimidação?
Debruçado sobre a beira da cama, procurou afanosamente um das botas. Achou-a finalmente, mas estacou, suspendendo o gesto de a calçar. O silêncio pesava nos ouvidos, os seus companheiros de quarto dormiam, um deles arfando compassadamente.
Apurou o ouvido e, sorrateiro, demandou a porta das instalações. No exterior não havia motores a funcionar nem viaturas a iluminar o arame. A lua, a iniciar o seu quarto minguante, iluminava o acampamento brincando com o que pelo caminho encontrava: no vidro dum Unimog mudava de direcção; no telhado de zinco da caserna do quarto pelotão, criava sombras acentuando o ondulado das chapas de zinco; nas baixadas das antenas faiscava ao sabor da leve brisa. Avançou um pouco mais e, na esquina da casa, espreitou a sentinela que por ali devia estar. Localizou-a num pausado passeio com a G3 ao ombro. Que excelente alvo para um atirador emboscado para lá do arame!
Mais tranquilo, mas humilhado, regressou lentamente à casa dos sargentos. Sentado no longo banco que acompanhava a grande mesa, longe da porta, escondeu a cabeça entre os braços e reteve uma lágrima. Mais um pesadelo. Congratulou-se por ninguém se ter apercebido. Demorou a levantar a cabeça com os olhos já habituados ao negro que tingia tudo à sua volta. Não era aquele o seu lugar. Embora não houvesse lugares marcados e ninguém reivindicasse como seu, um lugar à mesa, raramente se sentava tão distante da porta. Aquela ponta da mesa era normalmente ocupada pelos que, depois do jantar ficavam a jogar às cartas.
Lá fora, a lua ausentou-se levada por uma nuvem negra. Olhando através da porta permanentemente aberta, a noite era escura. Mas os olhos voltaram-se de novo para o interior mais negro da “ sala” que servia para refeições e convívio e, como se de um buraco negro se tratasse, que sorvesse tudo à sua volta, também o seu olhar de fixou no extremo do outro banco do lado de lá da tosca mesa e foi absorvido. Era ali que ele se sentava na maior parte das vezes, era dali que, com as suas anedotas alentejanas, aliviava as tensões de militares isolados no norte de Angola, quase sobre a fronteira. A sua gargalhada sincopada e longa era contagiante…
Mas o buraco negro também o tinha sorvido numa mina que o  jipe pisara no regresso de S. Salvador.
Os olhos desfocados recusaram-se a revelar as feições da primeira baixa daquela companhia. Refugiou-se de novo no conforto dos braços cruzados sobre a mesa.
Sentiu-o chegar traído pelo leve arrastar das botas de lona nos adobes que forravam o chão e levantou a cabeça.
O outro, surpreendido com aquele movimento no recanto escuro da “sala”, num gesto de autodefesa flectiu as pernas, apontou a lanterna para o local do movimento suspeito e tentou sacar a Walther que tardava em sair do coldre.
-- Apaga essa merda” – protestou o solitário
--Porra, pá, assustaste-me! – Mudando de tom, preocupado, inquiriu – estás doente?...  
-- Não, não tenho sono e vim até aqui… –  faltava-lhe convicção.
O sargento de ronda mirou-o com atenção, equilibrou a pilha com o foco luminoso virado para o tecto que serviu de reflector e envoltos na luz amarelada e doente que as chapas de zinco devolviam, sentou-se ao seu lado.
-- É… pá, a noite é escura e está cheia de fantasmas!
-- A noite é escura! — Ecoou ele. -- O silêncio parecia saltar de um para o outro num ricochete odioso. Por fim, o sargento da ronda levantou-se, recuperou a pilha, com os dedos reduziu o feixe de luz e, apontando-o para o chão, disse.
--Aguenta aí que já volto. – Afastou-se como se perseguisse o ténue raio de luz que saia de entre os seus dedos.
Não demorou. Regressou com uma garrafa de Vat 69 que equilibrou entre eles depois de se sentar.
-- Também me acontece disso. Quando não conseguimos dormir, a noite é terrível, é escura e até os nossos pensamentos são negros…-- fez uma pausa como se meditasse o que acabava de dizer e retomou o discurso que decorria em voz baixa, de troca de segredos íntimos – mas eu já tenho remédio! Nada de Vallium ou pílulas LM. – Uso isto.
Com a pilha, bateu discretamente no bojo da garrafa e ciciou:
-- Bebe isto, bebe à vontade, tenho mais duas… Vais ver que resulta! — Com as pernas levantadas rodou sobre o banco corrido e informou – vou dormir um bocado. Queres ficar com a pilha?
Não aceitou e num último resquício de luz, pegou na garrafa e sopesou-a. Devia estar mais de meia. Nunca na sua vida se tinha embriagado. Um copo a mais numa ou noutra ocasião, mas nada mais que um pouco alegre.
Ignorando o negro que o envolvia, cerrou os olhos, desenroscou a tampa de lata, brincou um pouco com ela, perdeu-a sobre a mesa e, com lentidão premeditada, como se quisesse fruir cada movimento, aproximou a garrafa da boca e bebeu um pouco. No estômago vazia, o uísque pareceu queimar. Com o gargalo rente aos lábios aguardou que a sensação desagradável se diluísse e bebeu de novo, a sede da travessia dum deserto a atormentá-lo.
 
Levantou-se com dificuldade e, com uma mão raspando a parede a servir de guia, encontrou a  cama e deitou-se demasiado entorpecido para se aperceber que, lá fora, a lua, liberta da nuvem escura que a tinha amortalhado, brilhava de novo.
Um cão uivou.
DEZ 63
J.Eduardo Tendeiro (texto recuperado de “Memórias”)
 
 
publicado por gatobranco às 14:11 | link do post | comentar