O outro lado da patrulha

 

 
(…)
 
O Costa Pereira discutia com o comandante do pelotão: pretendia que o pessoal saltasse das viaturas em andamento. O comandante, mais comedido, contrariava-o:
--Não vale a pena, pá. Vamos fazer isso ainda com luz e se eles nos estão a espreitar, tanto dá saltar em andamento como parar as viaturas por breves segundos. Assim ninguém se aleija.
Vencido mas não convencido, o comandante de secção demandou os seus militares e inspeccionou-os sumariamente. – Não quero nada que faça barulho. Levam só o indispensável. Os cigarros… é melhor ficarem cá.”
            O pelotão tinha jantado cedo. Para os lados da secção auto, dois Unimogs e uma GMC de capota subida aguardavam os militares da patrulha. Para além do terceiro pelotão, uma secção do segundo iria também para fazer a segurança do retorno das viaturas. Era uma operação melindrosa, aquela de meia dúzia de homens fazerem a segurança de três viaturas em andamento.
Partiram silenciosos. O CP conferenciara comigo. No pelotão, ele assumia as funções de responsável pelas ligações rádio. Efectivamente, era um sargento de transmissões credenciado como eu, do mesmo curso de Mafra, mas a voragem das mobilizações sucessivas não respeitava as especialidades de cada um. Era agora um furriel comandante de secção de caçadores especiais.
            Experimentavam-se nessa altura rádios acabados de chegar que operavam em FM, capazes de perfurar a estática que o pôr do sol derramava sobre todas as comunicações. Combinámos comunicações de hora a hora, se necessárias, mas respeitando o silêncio rádio que a operação impunha. Iam com a certeza de que, no acampamento, haveria sempre alguém atento a uma emergência. A única e última comunicação seria feita quando abandonassem as viaturas. Era um teste.
            Com uma palmada nas costas ossudas empurrei o CP para a GMG. O Miranda e o Ribau, empoleirados sobre os sacos de terra que forravam o chão da viatura, fizeram-me sinal. Correspondi com um gesto de punho fechado com o qual pretendia significar coragem.
            Abalaram pela porta sul, o sol rasante a tingi-los de vermelho com reverberações de sangue.
Migrei para o posto de rádio. Os dois militares que o guarneciam esperavam-me.
O cabo Manel antecipou-se:
--Já verifiquei todas as ligações e já medi as baterias. Estão a meia carga. Talvez seja melhor ligar já o Unimog.
Concordei.
As baterias eram o “calcanhar de Aquiles” das transmissões. O carregador de baterias atribuído tardiamente à secção auto, no dizer entendido do Lino era lixo e as poucas vezes que funcionou, fez tudo menos carregar baterias.
Para obviar a este problema uma viatura era estacionada ao lado do posto de rádio, o mais próximo possível para a sua bateria alimentar os rádios. O aparelho que íamos usar para as ligações de FM era aquilo a que chamávamos “O monstro.” Enorme com mais de um metro de frente ocupava toda a bancada do lado nascente das nossas instalações. Enquanto esperávamos a comunicação-teste, combinámos o serviço de escuta. A despeito da firme oposição dos dois militares – eles consideravam-se suficientes e nunca tinham falhado – exigi participar e escolhi para mim o turno das quatro às seis.
A voz do rádio-telefonista do terceiro pelotão surgiu nítida no altifalante colocado no dorso do monstro e pôs fim à discussão:
“Cobra seis chama… aqui cobra seis…. Um, dois, três…diga se me ouve… escuto”
Milhentas vezes tinha dito aos rádio-telegrafistas que, operando com aparelhos de frequência fixa e pré-sintonizados, aquela lenga-lenga de contagens e repetições não tinham cabimento. Com um encolher de ombros e um sorriso contido dos dois operadores junto de mim, pressionei a chave do micro e respondi:
“ Recebido, Cobra Seis. Terminado”— para os operadores, suspirei – Quando é que esta malta aprende? Tenho que começar a distribuir por aí umas faxinas à cozinha para ver se aprendem…
Sério, o cabo Manel interrogou-me:
--Não faz isso pois não?...
Preferi mudar de conversa:
--O de escolta às viaturas não comunicou…
--Vai comunicar… – responderam em coro e como se de uma premonição se tratasse, o “monstro” rugiu a voz forte do operador:
--Aqui Cobra Grande… tudo OK.
De novo accionei o interruptor:
--Recebido,”Cobra Grande”.Terminado.
--Este não sabe contar— ironizou o Manel
Enfrentei-o sisudo:
--Quem é que amanhã se vai apresentar na cozinha?
Abalou contendo o riso e eu fui no seu encalço disposto a não o apanhar. Tinha uma excelente equipa que me permite estas brincadeiras.
 
Acordei às três e meia. Já não valia a pena voltar a dormir. Vesti-me com delongas, dei-me ao luxo de corrigir o nó dos cordões de uma das botas de lona, vesti uma camisola por sob o casaco do camuflado – Pangala, de madrugada, arrefecia invariavelmente – e fui-me caminho do posto de rádio com a FBP a baloiçar no ombro.
O rádio-telegrafista Manel cabeceava com os grandes auscultadores do “monstro” presos ao pescoço. Levantou-se espreguiçou-se como um gato e protestou por ainda não ser a minha hora. Mandei-o embora e abalou bocejando.
A veladora piscou hesitante e procurei outra pilha para a alimentar. Conferi a alimentação do “monstro” e entrei no campo da ilegalidade. Ao lado direito do “monstro” sobre uma bancada corrida, dois ANGRC9 com um amplificador de saída entre eles, faziam a ligação, um ao Comando do Batalhão e às outras Companhias e o da direita, já rente à parede, à rede de emergência com ligação directa ao QG de Luanda.
Escolhi o da direita, soltei o tambor da unidade de recepção e com o respectivo auscultador rente ao ouvido, explorei toda a banda até encontrar uma estação francesa a debitar música. Passei o som para um altifalante na parede, por detrás de mim, regulei o som e uma sugestão de música encheu o ambiente pobre do “meu” posto de rádio. Os grandes opérculos que constituíam os auscultadores do monstro tomaram lugar no  pescoço e estendi-me na cadeira que o M. desocupara.
 
 O posto de rádio da CCE 306
Orgulhava-me do meu posto de rádio já elogiado pelo oficial de transmissões do batalhão numa visita fugaz que fizera. Era um pequeno espaço de talvez três por três metros. Por detrás de cada aparelho, havia na parede uma garrafa sem fundo incrustada nos adobes, com o gargalo virado para fora. Eram os “isoladores de passagem” reinventados por mim. Os mais cáusticos já me tinham aconselhado a registar a patente… Através desses isoladores, as longas antenas exteriores mergulhavam sem perdas no interior do pequeno compartimento e cada uma delas, três de momento, demandava o seu emissor.
O “monstro” ronronou, arrotou e voltou ao silêncio limpo da FM.
Aquela vigília a quando da saída de um pelotão, era, praticamente uma exigência minha e radicava no facto de, a quando do desastre da companhia de Buela, com a morte do capitão e mais três militares, os socorros terem demorado por não haver uma escuta permanente na companhia.
Com os olhos já habituados à luz fraca da veladora, tirei de debaixo da FBP o bloco de papel de carta e dispus-me a escrever mais uma carta que faria a felicidade da minha mulher, lá longe, demasiado longe. Com a arma na mão, recordando o incidente que levara o furriel Miranda a receber dele próprio um tiro na perna, retirei o carregador, fiz recuar a culatra circular e com um dedo explorei a câmara vazia. Satisfeito, larguei arma e carregador próximos do “monstro” e dediquei-me à escrita. Uma página ficou preenchida em tempo recorde e iniciei a segunda. A meio parei. Bem contra minha vontade, desespero, saudade, inconformismo, escorreram pela esferográfica e mancharam a folha. Não me assistia o direito de a ir sobrecarregar com as minhas mazelas. Bem bastavam as dela, sempre em desassossego, querendo acreditar que eu ainda estava vivo e que o nosso filho não era já um órfão.
Devagar, rasguei a segunda folha e fiquei longo tempo a cortá-la em bocados cada vez mais pequenos, até que fosse completamente ilegível. Com o isqueiro incendiei-os no tosco cinzeiro.
O monstro soluçou e produziu ruídos confusos. Com a respiração em suspenso, o sangue batendo violentamente nas têmporas, os grandes auscultadores apertados contra as orelhas, aguardei. Naquela série de ruídos não se adivinhava resquício de voz humana. Aumentei o som até o zumbido dos auscultadores começar a perfurar o crânio. Mais tranquilo repus os níveis de som, os auscultadores voltaram para o pescoço e tentei concentrar-me na música clandestina.
Avancei laboriosamente na escrita da segunda folha repescando a história do fracasso da horta do Luis Soares– seu companheiro de férias –  e da ameaça do capitão de o mandar punir por não ser capaz de produzir alfaces para a sua salada.
Pouco depois das cinco, com os primeiros alvores da madrugada a manifestarem-se nos telhados das casernas, concluí a carta, fechei-a e ficou pronta para seguir para S. Salvador.
Acendi novo cigarro e vim para o hall das transmissões, luxo supremo da minha arquitectura. A sentinela do portão sul, passeava perto da base da torre e viu-me talvez pela ponta do cigarro. Esmaguei-o e fui ter com ele.
-- Como vai isso? – Perguntei.
--O pior já lá vai… –  apontou a ténue claridade que se levantava a nascente – a patrulha já deu notícias?
--Não e isso é bom. Só se houver algum azar é que ligam. – Com um abanar de cabeça de entendimento, deu por terminada a conversa e regressei para a porta do posto de rádio.
Como se a natureza se tivesse arrependido e desse nova força à noite que se dissipava, a névoa de nascente adensou-se e uma chuva miúda, insidiosa, fria, nevoeiro molhado, caiu sobre nós. Olhei para os lados onde presumia que estivesse a patrulha e esbarrei com um sudário impenetrável. Aquele nevoeiro punha em tudo a suave penumbra de um templo. Lá dentro os militares agachados, o poncho espalhado à sua volta, tentavam a maior cobertura possível. Fiz votos para que o rádio telefonista tivesse a ideia de desenroscar a antena para se proteger igualmente. O CP não deixaria de praguejar, talvez secundado pelo furriel Miranda com um poncho demasiado pequeno para a sua elevada estatura. O Ribau talvez se imaginasse na sua Gafanha, num dia de mau tempo. Tinha sido de novo pai há pouco tempo e, possivelmente recordava com minúcia as feições do bebé que ele decorara ao longo de horas de observação de fotografias. O CP às voltas com a sua Maria Ivone com a qual ansiava casar mal regressasse e o Miranda, o Miranda... apercebi-me subitamente do quase nada que sabia da sua vida anterior à guerra..
O sofrimento deles naquela missão estava a chegar ao fim. Certamente, dentro de uma hora, talvez duas no máximo, chamariam as viaturas para os recolherem com a sensação de inutilidade do esforço despendido
A discreta luz que afagara o céu a nascente e que pusera breves reflexos na G3 da sentinela, apagara-se como se as velas da catedral se tivessem também extinguido.
As cânulas das chapas de zinco do telhado começaram a pingar e regressei à cadeira do operador de rádio.
Acendi novo cigarro, o companheiro fiel de todas as horas, abandonei a estação francesa que me tinha dado música ao longo das duas horas anteriores, repus a sintonia do ANGR de ligação à Emergência, desliguei a veladora e estendi-me olhando fixamente o “monstro”. Experimentei ordenar-lhe que falasse, mas manteve-se mudo.
Uma porta chiou para lá do hall e o cabo cifrador, com as cuecas brancas “da ordem” até aos joelhos – o seu pijama – saiu do centro de cifra e dirigindo-se à esquina da enfermaria, aliviou a bexiga com floreados na parede tosca da casa do comando. Concluído o acto fisiológico, virou-se e deu comigo.
--Porra, meu sargento o que está aqui a fazer? Pregou-me um cagaço, porra! O que está aqui a fazer a esta hora? Há azar? É a patrulha? Houve bronca? – o ventre proeminente, hirsuto, oscilava ao sabor da sua respiração.
-- Está tudo bem, descansa. Vim dar uma ajuda à escuta de prevenção. O que está errado é tu mijares a parede da enfermaria! Se o sargento de ronda te apanha, obriga-te a lavar toda a parede da casa do comando. E se o nosso capitão sabe?!...…
-- Porra... – apontando a chuva que caía e que lhe marejava o peito, desculpou-se— daqui a pouco nem se nota, a não ser que o meu sargento lhe diga, porra, mas não vai fazer isso…
Olhou-me preocupado. Mandei-o regressar à cama e contrariado, com um último “porra” desapareceu pela porta de acesso ao centro de cifra. Não era sem razão que tinham cognominado o meu cifrador, alentejano de gema, de “Porras”.
 
O monstro provocou uma série de estalos e ajustei os auscultadores a tempo de receber o som da voz nítida e hesitante do C P:
--Mata, cobra seis chamas. – Retardei a resposta e o meu grande amigo, impaciente, repetiu a chamada.
Com voz pausada respondi:
--Mata escuta.
Houve uma ligeira pausa e depois a interrogação seca:
--Tango Mike? ( a minha designação mais ou menos codificada).
Respondi alegre:
--OK, cobra seis. Over. – Só com ele utilizava as expressões do código Nato.
--Roger, Mata. Recolha em um. Repito: um. Over.
--Roger, cobra seis. Recolha em um. Out.
O monstro calou-se. Deixei sobre ele a carta que tinha escrito, presa sob o carregador da FBP e demandei a caserna do segundo pelotão para avisar os condutores e a respectiva guarnição de segurança.Na "casa dos sargentos" acordei o comandante de secção (reforçada) comunicando-lhe o local de recolha.
Voltei ao posto de rádio para recuperar a artilharia e deparei com o cabo Manel mirando a carta e a arma. Antecipei-me a qualquer pergunta.:
--Fui avisar os condutores e a escolta para irem recolher a patrulha.
Pendurei a FBP no ombro, recolhi a carta e o carregador e avisei:
-- Vou dormir um bocado.
Já comigo para lá do hall, ele chamou:
--Chefe? — Detestava aquele tratamento e virei-me disposto a admoestá-lo – Mas, mirando-me com simpatia, acrescentou – obrigadinho pela ajuda…
Bons rapazes, estes meus colaboradores.
(…)
FIM
 
In D5LA  de J.E.Navarro (Adaptado)
 
 
 
 
 
publicado por gatobranco às 14:49 | link do post | comentar