FOI UMA MINA

 

Foi uma mina
 
Eu era amigo do pai dele, a despeito da diferença de idades.
Conheci-o num petisco que o meu amigo oferecera na sua adega. Compareceu apressado, petiscou duas ou três tiras de presunto, por duas vezes deixou que lhe enchessem o copo, a torneira do pipo a chiar ciosa do conteúdo que tinha à sua guarda e, como chegou, assim se foi.
 
Reencontrei-o no Hospital Militar, à porta, aguardando qualquer providencial transporte que o levasse para o centro da cidade. O braço esquerdo envolto em gesso, do ombro até à mão, magro, barba crescida e roupa pouco cuidada.
Mirámo-nos de testa franzida, num esforço de reconhecimento. A medo, avancei o apelido do pai:
--Mendes?...
A face desanuviou-se-lhe:
--Sou…e eu também te conheço, mas de onde?
Ajudei-o a localizar o nosso primeiro e único contacto anterior.
Depois de nos informarmos mutuamente sobre a saúde dos nossos “Velhos”, apontando a grande manga de gesso, inquiri:
--... E isso aí?
Demorou a responder, deixando o olhar vaguear pelo espaço frontal à entrada do Hospital Militar de Luanda, talvez procurando um local para se refugiar e só depois articulou com esforço:
-- Um azar e uma sorte… – perante o meu semblante de expectativa, explicou – azar, porque foi uma mina… sorte, porque dos oito que íamos no Unimog, só dois sobreviveram e eu fui um deles. Parece que fui projectado contra uma barreira de terra mole e safei-me com este braço desfeito. Já fui operado duas vezes… eles dizem que vou voltar a utilizá-lo… -- encolheu os ombros, céptico – vais  para a cidade? Estou aqui a ver se aparece algum transporte…
--Não é preciso, pá – atalhei explicando – tenho além carro e vens comigo.
Encaminhei-o para o MG miraculosamente à sombra e ajude-o a instalar-se. Dei a volta ao carro, sentei-me atrás do volante e ele elogiou:
-- Estás a viver bem!...
--‘tou, ‘tou!... Isto é dum amigo que foi fazer uma comissão de três meses ao Ambriz, e eu zelo por ele.
Com os vidros abertos fomos progredindo para o centro da cidade que ardia sob o sol do meio dia. Consultando o relógio, o Mendes perguntou:
--Tens sítio certo para almoçar?
--Não, menti e perguntei também – e tu?
--Também não… – soube depois que mentiu também – almoçamos por aí?
--Era o que te ia propor, mas passamos primeiro por minha casa para largar o camuflado, não vá a PM aparecer por aí e começar a implicar. Além disso preciso de um banho.
-- Estiveste de serviço?
--Fiz um reforço à Penitenciária e vim a correr para o hospital para não perder a marcação de um raio X – perante o olhar inquisidor dele, no semáforo vermelho, expliquei – o cotovelo esquerdo sofreu uma boa pancada há dois meses e ainda dói. O médico quis uma radiografia…
Liberto do camuflado e do cheiro a cadeia que o duche levou consigo, de novo na rua, por consenso, optámos pelo “Pólo Norte” para comer qualquer coisa com uns mariscos a abrir. O dono da marisqueira era vagamente conhecido – não era a primeira vez que ali ia – e escolheu-nos uma mesa próxima de uma saída de ar condicionado.
Gambas grandes, apetitosas, surgiram sem necessidade de encomenda e, aliciados por uns rolos de carne especiais com um tinto do Alentejo, fomos debicando as gambas e bebericando Verde muito fresco. O pai Mendes todos os meses mandava ao filho um reforço do pré, e pela minha parte, uns extras davam-me também alguma margem de manobra.
Elogiávamos o recheio especial dos especiais rolos de carne quando um grupo ruidoso de três indivíduos, muito jovens, entrou de roldão na sala. À frente vinha um loiro efeminado logo seguido por um mulato avantajado. O terceiro parecia querer passar despercebido. Sentaram-se perto de nós com uma mesa vaga de permeio. O efeminado, mirando ostensivamente o Mendes, guinchou:
--Olhem, aquele tem um dói-dói.
 Pela sala perpassou um frémito de indignação.
Mendes olhou-o de frente, os olhos a adquirirem o brilho que a guerra põe em quem a sofre e o efeminado baixou a cabeça amedrontado.
Bebiam cerveja e martelavam as partes mais duras de uma bela lagosta.
--Sacana de gajo! Um maricas daquele a querer ser engraçado!
--Não ligues. Bastou olhares para ele para se aquietar – Contemporizei, mas a mão livre do meu amigo tremia.
Elogiei os rolos recheados, pedi mais dois, o Mendes concordou que podíamos beber mais uma garrafa de vinho. Pouco a pouco acalmou-se e conversámos frivolidades de Luanda, cidade descaracterizada, incapaz de se ajustar a mais alguns milhares de residentes, na sua maioria militares, principalmente à noite quando o Grafanil vomitava dentro dela  uma centena ou duas de noctívagos.
--Ó amigo, diga lá como é que fez o dói-dói! – Era a voz de falsete do efeminado.
O que estava a seu lado murmurou qualquer coisa perto do seu ouvido, mas ele explodiu:
 -- Ora essa! Então não posso perguntar como é que o coitado fez aquilo?
A mão livre do Mendes tornou-se branca com a força com que apertou o talher.
--Calma, Mendes, não deixes aquele mariquinhas estragar o nosso almoço— quase supliquei, mas ele pousou o garfo e com voz forte respondeu:
-- Quer fazer o favor de não me aborrecer e me deixar em paz?
A sala emudeceu, suspensa do desfecho do diálogo.
Com um trejeito simulado de medo, ele retrucou:
-- Credo! Nossa Senhora! O homem está mau… se calhar é militar da guerra! Foi na guerra que fez o dói-dói? Ainda dói muito? Como é que foi, diga lá…
Uma teia de protestos sussurrados cresceu na sala.
Ainda o segurei, mas o tecido da camisa cedeu e Mendes, em duas passadas colocou-se frente ao efeminado:
-- Sou militar, sim! Queres saber como isto aconteceu? Foi uma mina!...
--Ui – guinchou o loiro, mas já Mendes prosseguia, mais próximo do interlocutor:
--Foi uma merda duma mina que estoirou o Unimog. Éramos oito, só nos safámos dois. Já viste alguém morto por uma mina? — aproximei-me, com uma mão sobre o ombro tentei fazê-lo recuar, mas sacudiu-me e prosseguiu, a voz baixa, as palavras marteladas  – eu explico-te: não é bonito de ver: Uns são feitos aos bocados, o sangue a escorrer por todos os lados. Quando vão a enterrar, nem se sabe se os bocados estão todos. Outros, meu mariquinhas, rebentam… rebentam que nem melancias. Sabes o que é uma melancia, toda vermelha por dentro? Todos abertos, as tripas de fora a desenrolarem-se como cobras, a merda dos intestinos misturada com o que comeram…
O destinatário da explicação vomitou sobre a mesa atingindo um dos amigos. Mendes, possesso, pegou-lhe pelos cabelos da nuca e esfregou-lhe a cara no vomitado:
-- É assim um merda como a que deitaste fora agora. E o cheiro… –  parou para tomar fôlego mas não deixou de amachucar a cara do loiro que já sangrava.
A teia de indignação que envolvera a sala esgotou-se num silêncio lúgubre. O que estava ao lado levantou-se gritando:
--Parto-te o focinho para não ficares só com gesso no braço.
Mas o meu amigo, com vinte e cinco meses de guerra, rodou ligeiramente e com o balanço adquirido, apontou o gesso aos queixos do outro. No momento seguinte, de mistura com o berro de dor, alguns dentes tombaram sobre a toalha e o atingido caiu prostrado sobre a cadeira, incapaz de falar. O mulato avantajado levantou-se em direcção ao Mendes, garantindo que o ia desfazer. Só com um braço, o acidentado não iria longe e foi a minha vez de participar. Sobre a mesa deles repousava um martelo de quebrar carapaças de lagosta e apoderando-me dele, quando o mulato se apoiou na mesa para se desenvencilhar de uma cadeira, esmaguei-lhe dois dedos. Ao virar-se para mim para me enfrentar praguejando, o martelo  atingiu-o no lábio superior, alterando-lhe a estética do nariz. Já ao seu lado, quando se dobrou, com as mãos cerradas, golpeei-o na nuca e desmoronou-se sobre a mesa escorregando para o chão.
Mendes desinteressara-se da sua vítima e tremia, ameaçando perder o equilíbrio a qualquer momento.
O gerente acercou-se preocupado.
-- Se quiser chamar a polícia -- disse-lhe -- esteja à vontade. Viu que se tratou de agressão verbal e ameaça física a um combatente acabado de sair do hospital. Repare como ele está! – Apontei para o Mendes que, apático, o gesso acometido de espasmos violentos, olhava em todas as direcções como animal acossado que pretende identificar o perigo
Compreensivo, tentou acalmar-me e pediu:
--Se conseguir levar daqui para fora o seu amigo, eu depois varro daqui aqueles  nada-fazentes. Nem lhes passa pela cabeça que os militares estão aqui por causa deles e de tantos outros iguais a eles que ao primeiro tiro se refugiaram no conforto de Luanda.
--Mas preciso pagar a nossa despesa…
--Paga noutra altura, eu conheço-o
Agradecendo, arrastei o meu amigo para a rua.
A meio da sala o ocupante de uma das mesas levantou-se e bateu palmas.
Atingimos a porta da rua com todos de pé, aplaudindo o meu amigo.
Amparando o Mendes pela cintura, levantei o braço e, por sobre o ombro, agradeci:
-- Obrigado, obrigado e desculpem.
 
Luanda, 64   (Revisto em Junho de 2009)
 
 
Notas:
1. O Mendes – nome fictício do meu amigo – explora muitos hectares de terreno nos confins de Idanha-a-Nova. Quando repesquei este escrito, combinei com ele um encontro.
Almoçámos na sede do concelho, a carne com noventa por cento de possibilidades de ser da sua exploração, e conversámos muito tempo sobre uma guerra que nos marcou indelevelmente, a ele por dentro e por fora. O seu braço esquerdo, que utiliza com alguma desenvoltura, é um rendilhado de cicatrizes.
Falei-lhe da minha vontade de publicar no Blog da minha guerra, o incidente do “Pólo Norte”.
Mostrou-se reticente, mas acabou por concordar, impondo condições:
“Não usas o meu nome e não te esqueças daquele aplauso que ainda hoje oiço e que valeu mais que todas as medalhas que me deram”.
 
No cartão do restaurante que acompanhou a conta, escrevi “pangalacity.blogs.sapo.pt” entreguei-o ao “Mendes” com a recomendação de o visitar brevemente e iniciámos uma guerra privada para ver quem se antecipava a pagar a despesa.
 
2. O incidente do Pólo Norte (como lhe chamámos) é, para mim, particularmente grato: a despeito da violência que extravasa – a guerra é violenta – é um dos raros momentos em que civis prestam homenagem a militates.
Covilhã, Junho de 2009
(J. Eduardo Tendeiro)
 
 
publicado por gatobranco às 10:36 | link do post | comentar