TININHA

 

 
( … )
 
 
Naquele tempo de pouco trabalho, em Luanda – só fazia reforços de quando em vez – habitava num dos apartamentos do terceiro andar do edifício da Paris.
No trezentos e vinte morava uma jovem família constituída pelo casal e por um filho de talvez nove ou dez anos.
Num dia em que subira ao terraço, no quinto andar, para fazer umas fotografias de experiência de luminosidade, encontrei lá a D.Albertina, Tininha para os amigos, que pendurava roupa que carregara numa bacia de esmalte. O filho deambulava pelo terraço e acercou-se de mim, atraído pela máquina fotográfica.
“ O meu pai também tira retratos, mas a máquina dele é mais pequena” – eu estava a fazer ensaios com uma Reflex. – “ Que estás a fazer” – questionou.
Expliquei-lhe que procedia a ensaios, tive que lhe descrever o que era um ensaio até a mãe intervir:
“Deixa o senhor, não vês que o estás a maçar?”
Insurgi-me delicadamente e pedi-lhe autorização para fotografar a criança. Anuiu com um encolher de ombros.
Enquanto o fotografava, reparou na minha farda amarela e quis saber:
“És tropa”?
Concordei, mudei de ângulo e prossegui com o meu trabalho.
“Andas na guerra”?
“Andei”
“Estiveste lá no Norte?”
“Estive” – começava a não gostar do interrogatório, tanto mais que notava sinais de perturbação emocional na criança, mas ele voltava à carga:
“Davas muitos tiros?”
“Quando era preciso”… – respondi reticente e preocupado.
Registei uma última pose e dispus-me a bater em retirada mas ele não desarmou e com voz embargada, muito próxima do falsete, inquiriu:
“Mataste muitos pretos”?
A intervenção da mãe poupou-me o ónus da resposta:
“Desculpe-o!” – e para o filho, estendendo-lhe a bacia vazia – “toma e vai chamar o elevador”.
Vendo-o afastar-se, D. Tininha renovou as desculpas e justificou:
“ É que nós tivemos que fugir da nossa fazenda debaixo de fogo de terroristas negros. O ódio dele pelos negros vem daí…. Desculpe-o sim?" – A mão dela no meu braço tremia violentamente.
 
(…)
 
In “D5LA” de J.E.Navarro
 
publicado por gatobranco às 14:34 | link do post | comentar