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(Considerando as dificuldades de acesso à Página da CCE306, entendemos publicar aqui a primeira página daquele documento. Tem algumas falhas. Contamos convosco para as completar)

 

 

Destacados para a Zona de Intervenção Norte, ZIN, numa viagem de quatro dias, que as nossas Memórias relatarão em páginas próprias, cerca das dez horas da manhã do dia 18 de Junho de 1962, com mil e trinta e cinco quilómetros percorridos, com sol já escaldante, no desvio para Buela que vínhamos trilhando há muito tempo, a primeira viatura da coluna parou frente à casa que nos servia de referência. Parcialmente oculta  pelo capim que submergia os jipes, desprovida de portas e janelas, não parecia querer dar-nos as boas vindas.
Enquanto as viaturas se acumulavam trilhando algum capim, o pelotão da frente fez um reconhecimento rápido e os outros montaram uma duvidosa segurança às viaturas.
Em resultado do reconhecimento, soube-se que a casa era recuperável e que nas traseiras havia um poço seco.
Ao longo do resto do dia todos se empenharam na tarefa de capinar. As ferramentas eram poucas para tantos braços voluntariosos
Os últimos raios de sol mostraram um espaço aberto razoável onde era possível dispor viaturas em segurança e criar espaços para pernoita do pessoal exausto.
Foi naquele espaço permanentemente melhorado que CCE 306 sobreviveu, por vezes com requintes inimagináveis a milhares de quilómetros da civilização. O engenho humano é inesgotável.
No dia da rendição,(…/…./….) que tardava, muitos de nós, numa última mirada, subjacente ao desejo imenso de sair dali, sentíamos que pedaços de cada um ficavam para sempre preso àqueles adobes, às chapas de zinco que nos abrigaram, às longas antenas dos rádios — os nossos ouvidos e a nossa voz— que tanto tinham custado a içar.
Para sempre, lá longe, em S. Salvador do Congo, ficavam também, jazendo o David, o Barriguinhas, o Carvalho  e o Monteirinho, vitimados pela primeira mina que atingiu as tropas da nossa Companhia.
 
Numa viagem menos atribulada regressámos a Luanda onde as condições de sobrevivência eram reconfortantes a despeito das escoltas para que a nossa Companhia era escalada. Era terreno desconhecido, facto que potenciava o perigo. Os reforços e o serviço à rede não preocupavam ninguém.
 
Meses depois (12/01/64) a Companhia pôs-se de novo em movimento. Pelo sorriso que se espalhava pelo rosto de todos, era visível o contentamento que reinava nas fileiras. Íamos para Cabo Ledo, ao sul do rio Cuanza, fazer a segurança das instalações petrolíferas de uma exploração da Petrangol e em plena reserva de caça da Kiçama fazer a ocupação territorial de um espaço equivalente a talvez metade de Portugal Continental…
Com instalações permanentes montadas sobre uma falésia, com energia eléctrica fornecida pela Petrangol, com quilómetros de praia ao nosso dispor, muitas das feridas trazidas do Norte, foram ali lambidas e curadas. Outras, as mais graves, nem o tempo as curas. Morrerão connosco.
A Companhia de Caçadores Especiais nº 306 regressou a Luanda em 8 de Junho daquele ano, embarcando para a metrópole  no dia 22 de Junho de 1964.
Desembarcámos em Lisboa no dia um de Julho.
Os longos abraços de despedida trocados nesse dia, não se extinguiram.
 
É com saudade que frequentemente nos interrogamos:
“Que é feito do……? E do…. E daquele, como é que se chamava?.....
 
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publicado por gatobranco às 15:53 | link do post | comentar