A T R O V O A D A

 

 
 
 
 
A TROVOADA
 
 
         Foi a primeira grande trovoada que nos assolou em Pangala.
         Já tinha havido um ribombar ou outro, relâmpagos a iluminar o céu, mas pouco mais.
         Aconteceu depois do jantar. A atmosfera pesava sobre nós, alguns queixavam-se de dor de cabeça. Era fácil prever uma tempestade. Todos tínhamos ainda bem fresca na memória uma tempestade acompanhada com ventos fortes que ameaçaram levar as coberturas de zinco das nossas casernas. A partir daí a estrutura do telhado foi reforçada com sacos de areia pendurados nas traves mestras, junto às paredes de apoio. Presumíamos com isso manter a cobertura das casas que tanto nos tinha custado a erguer. Tudo aquilo era nosso. Nascera em nós um estranho sentido de pertença que nos dava satisfação a despeito de representar um parco abrigo contra a eventual investida do inimigo. Mas havia o plano de defesa, as trincheiras, os morteiros as bazucas, as nossas armas automáticas e, acima de tudo, uma coragem que só os vinte anos é capaz de alimentar.
         O gerador, afinado quase todos os dia, zumbia calmo e as lâmpadas tremulavam no perímetro do acampamento. Nas casernas, na casa do comando, na enfermaria, no posto de rádio, uma pálida claridade filtrava-se pelas janelas escancaradas, numa busca de qualquer corrente de ar que tirasse de cima de nós aquele peso quente e esmagador que nos afligia.
         Estoirou  como chicotada ensurdecedora, logo acompanhada pelo trovão que rolou pelo céu, fez estremecer a terra  e tardou a extinguir-se.
Muitos sacudimos a cabeça na esperança de recuperar a audição mais rapidamente.
Aquele trovão pareceu ser o sinal para o início de uma das maiores trovoadas que sofremos. O céu, permanentemente incendiado por dezenas de relâmpagos que se entreteciam, serviam de cenário a trovões fortes, compassados, sobrepondo-se uns aos outros num ribombar aterrador. Os cães – ainda tínhamos os dois – surgiram à porta da casa dos sargentos, ganindo e procurando a protecção do dono. Ninguém os hostilizou embora estivesse “determinado” que, ali, os cães não entravam.
À porta  juntou-se um pequeno grupo a apreciar o espectáculo aterrador. Meio chegado para dentro, o sargento Resende, com o cigarro a tremer entre os dedos, garantia que aquilo não era nada. As trovoadas que ele tinha sofrido na Índia e em Moçambique eram cem vezes piores…
Todos lhe dávamos um largo desconto quando ele começava a contar as suas aventuras e desventuras de comissões anteriores.
Nas antenas de cobre que atravessavam o acampamento em diagonal, fazendo um V alargado, cujos braços confluíam para a casa do porto de rádio, a electricidade estática criava pequenas “línguas de fogo” que de extinguiam como Fogo de S. Telmo.
O radiotelegrafista de serviço surgiu correndo e ,pálido, queixou-se:
--Meu sargento, os rádios estão aos estalos, venha lá ver!...
No local, confirmada a anomalia, tentei encontrar alguma coisa isoladora, mas tive que me contentar com o alicate metálico envolto na camisa, pobre isolador…
Consegui libertar as antenas dos rádios, juntei-as numa só e enrolei-as directamente ao fio de terra, designação pomposa que dávamos a um bocado de fio de cobre grosso que esgueirando-se por entre os adobes da parede se enterrava no chão, preso a um bocado de metal achado ali mesmo.
Novo relâmpago iluminou o acampamento com uma luz branca, intensa que nos obrigou a fechar os olhos. Nos ouvidos ficou um zunido que se sobrepôs ao trovão. As chapas de zinco do telhado tilintaram vergadas pelo peso daquele som tremendo.
Depois, foi o silêncio. O gerador parara, talvez desligado por precaução ou sobrecarga. Nada se ouvia, nada se movia.
Saí, secundado pelo rádio telegrafista. Só na Canda havia ainda um ou outro desenho de faíscas, brilhado como pisca-pisca de viatura gigante.
-- Esta caiu perto!... – asseverou o telegrafista.
--À noite, não há bem a noção da distância – respondi mitigando o receio do meu operador.
O guarda da torre sul, materializou-se junto de nós e, de braço estendido, comentou:
--Esta, eu vi-a cair. Olhem além… o lume que fez  a espalhar-se. Uma grande labareda crescia. No silêncio da noite chegou até nós o crepitar do capim incendiado.
 
 
 
 
 
Felizmente, naquela noite, não havia nenhuma patrulha.
 
J.E. Tendeiro (Pangala, 62)
 
          
publicado por gatobranco às 18:26 | link do post | comentar