TRAGÉDIA EM CABO LEDO

Em Cabo Ledo, exploração petrolífera da Petrangol orientada por Ingleses que se bastavam a si próprios, a CCE 306 alojada a cerca de quinhentos metros do corpo principal daquelas instalações, tinha muito pouco que fazer. A segurança era fácil, não havia qualquer ameaça, a zona em muitos hectares em redor era pacífica e as notícias da guerra chegavam esporádicas, trazidas por quem ia a Luanda, ou por indiscrições do pessoal das transmissões.

Depressa o tédio se instalou entre os militares que, libertos da tensão que os assoberbara na ZIN e mesmo em Luanda, no serviço de prontidão, vegetavam pelo acampamento. As partidas de futebol, inicialmente muito concorridas depressa saturaram e, muitos, invejavam os do terceiro pelotão que, dizia-se, na Muxima, para onde tinham sido destacados, tinham uma vida activa, contactavam com a população e faziam caçadas “de sobrevivência.”

Em Cabo Ledo, as acções mais disputadas eram aquelas que patrulhavam em direcção ao Sul, na maior parte das vezes pela beira-mar, aproveitando a maré baixa para que as viaturas pudessem ultrapassar pequenos promontórios e outros relevos que afloravam no imenso areal. 

Havia uma actividade diária que cativava ainda alguns dos que ficavam. Conforme o número dos pretendentes, uma GMC, um Unimog ou um simples jeep , levava-os para a praia de Cabo Ledo, um extenso areal na base da falésia onde se erguiam as instalações da Petrangol e da CCE.

Naquele dia, que viria a ser memorável, só quatro sargentos se manifestaram interessados em ir à praia e um jeep foi suficiente para o transporte.

Partiram pouco depois das nove horas, um deles equipado com uma” cana de pesca”, um longo bambu que erecto, rivalizava com a antena do rádio que o sargento de transmissões teimava em incluir no equipamento da viatura da praia. Todos desdenhavam desta precaução ridícula e muitos recusavam o equipamento mas, naquele dia, com o sargento de transmissões incluído no grupo, lá foi o rádio embora sob ameaça de também tomar banho.

Jogaram futebol, à beira-mar, num jogo de fintas e placagens empurraram-se para a água, um dos mais afoitos foi para lá da rebentação, outro tentou pescar com a cana e anzol improvisados e, por fim, estenderam-se na areia muito próximos de um toldo montado como barraca canadiana                                                                                                             Um deles, o das transmissões, resolveu andar um pouco e afastou-se para sul pisoteando a espuma das ondas que no início da preia-mar subiam progressivamente. A ida à praia lembrava-lhe sempre os bons momentos que tinha passado com a sua mulher numa praia, lá muito longe, na metrópole e quando essas recordações o assolavam preferia isolar-se.                                                                                     (…)Descobriu um rasto de tartaruga, seguiu-o, perdeu-o, mais adiante encontrou rastos de unguiculados – dizia-se que os veados, de noite, demandavam a beira-mar sequiosos de sal – seguiu-os por algum tempo, mas a  temperatura da areia aconselhou-o a procurar a espuma refrescante das ondas que progrediam areia adentro.

Quando se virou para iniciar o regresso apercebeu-se que as ondas lambiam já as rodas do jeep, inclinando-o para o mar. Gritou a plenos pulmões para alertar os amigos que, com o toldo interposto entre eles e a viatura, não se apercebiam do problema que se estava a gerar. Correu desalmadamente como se demónios o perseguissem, gritou como possesso, mas só muito perto se fez ouvir e já sem fôlego apontou o jeep que se afundavam na areia. Um deles correu para a viatura, sentou-se no lugar do condutor e accionou o motor de arranque, mas com as ondas a lamberem o capot, não obteve resposta. Quando chegou, juntou o seu esforço ao dos que tentavam empurrar a viatura, mas sem sucesso.                                                                                                                                                                     Com o refluxo de cada onda, o jeep parecia afundar-se um pouco mais e a areia começava já a invadi-lo. O sargento de transmissões, com mãos trémulas, ainda ofegante, conseguiu desapertar os dois francaletes que seguravam o rádio à estrutura do carro, e com ele acima da cabeça, correu para o areal seco. Rezando a todos os santos do seu conhecimento – poucos, convenhamos – accionou a chave de ligação, uma luz verde piscou e o ponteiro da potência de saída galgou dois terços do visor. Atendeu-o a voz calma e sonolenta do operador de serviço a quem ordenou que levasse de imediato o aparelho ao sargento Lino.

Retomada a serenidade própria das ocasiões de perigo, explicou-lhe a situação e pediu-lhe urgência numa GMC com guincho para puxarem o jeep ou, pelo menos, o ancorarem  durante a maré cheia.                 

 A viatura chegou com prontidão, conduzida pelo próprio sargento mecânico e de imediato iniciou -se  a difícil tarefa de passar o cabo por um ponto forte da estrutura da viatura afogada. No refluxo conseguiram fixar o cabo ao suporte do pára choques frontal e só depois de o cabo estar bem tenso o sargento mecânico Lino deu largas a um chorrilho de impropérios com que brindou os banhistas. Eles tentaram contra argumentar invocando distracção, azar e outros fados, mas face à carranca do Lino, enveredaram por outro caminho mais profícuo. Teriam que aguardar a baixa-mar para desenterrar o jeep. Contas feitas, só lá para o meio da tarde o mar recuaria o suficiente para iniciarem os trabalhos.

 Entretanto, na falésia, pequenos pontos começavam a adensar-se. A notícia já se espalhara e havia uma boa dezena de militares debruçados, tentando ver o que se passava.

Em baixo, organizava-se a  estratégia de procedimento: o Lino e outro, iriam almoçar, ficando três de vigia (Vocês deviam ficar o dia inteiro sem comer, de castigo, resmungou o sargento mecânico, mas pelo rádio pediu um Unimog para o transporte. Regressaram em menos de uma hora, os outros foram e voltaram com algumas pás e a promessa de muitos voluntários para ajudar.

Sentados no areal, protegidos pela tenda canadiana aberta na sua maior amplitude, aguardavam. O jeep afogado, ancorado pela GMC mantinha-se estacionário, mas no pico da maré alta, só o pára-brisas aflorava no refluxo das ondas.

Mais uma vez, como estrategas reunidos para delinearem uma missão de alto risco, discutiram procedimentos para iniciar as manobras necessárias ao salvamento da viatura. Puxá-la pura e simplesmente com o guincho, não resultaria. O cabo partiria ou o motor não teria força suficiente. Seria necessário desenterrá-lo pelo menos em parte para depois então aplicar toda a força de tracção. Equacionavam a possibilidade de fixar o cabo do guincho do Unimog a outro ponto da viatura quando um jeep em grande velocidade, entrou no areal e, vertiginoso, se acercou e travou levantado nuvens de areia. O Comandante da companhia, conduzindo ele próprio a viatura, saltou com relativa destreza e acercando-se gritou, olhando em volta:

-- Onde está o jeep?

Foi o das transmissões que respondeu, apontando as ondas:

--Ali…

--Ali?...Onde?

--Debaixo das ondas, só aparece de vez em quando…

O comandante da companhia, desorbitado, apopléctico, gritou:

-- Debaixo das ondas? Ai minha cabeça! Está perdido! Vocês… vocês, estão feitos! É uma porrada grande, a que vão levar. O jeep é material de guerra, vão ser acusados de uso indevido de material de guerra! É cadeia! Já não embarcam com a Companhia, ficam cá em prisão, em prisão, ouviram? — Tomando fôlego, quis saber – Quem é o mais antigo, quem é?...

O Lino levantou um dedo, sem qualquer palavra. Com um dedo espetado no peito do sargento, o comandante gritou de novo:

-- O nosso sargento vai fazer uma lista de todos os implicados e entregá-la na secretaria. Depois apresentam-se ao oficial de dia. O nosso sargento é responsável por estas viaturas – apontou a GMC e o Unimog – fez uma pausa e completou: e pelo jeep também! A sua porrada ainda há-de ser maior.

Uma onda, recuando deixou ver parte do pára-brisas e do capot do carro submerso e o capitão lamentou-se:

--Ai o meu jeep… ai o meu jeep, a Companhia vai ficar sem um jeep! – Como que iluminado, exclamou – não fica, não, vocês vão pagá-lo, hão-de ficar cá até o vosso pré pagar o jeep…

Trémulo, retomou o lugar no seu carro e arrancou com as quatro rodas a arremessarem areia para cima dos sargentos.

--Estamos feitos! – Murmurou um dos visados. Outro, depois de um curto silêncio, filosofou:

--Eu, até não me importa muito. Estava a pensar se não seria melhor ficar cá em vez de ir para o Puto, sem emprego…

--Deixem-se de gozos! O homem até tem razão. Está com um cagaço dos diabos de perder uma viatura, mas eu garanto-vos que vamos recuperar aquele anfíbio – o riso do enfermeiro, embora forçado, foi contagiante.

-- Mas, mesmo assim, vamos para a cadeia? — Interrogava-se outro e, com isso conseguiu uma explosão de riso colectivo.

--Vamos ao que interessa – era o Lino a perorar – a maré parece que está a começar a baixar e eu vou lá acima buscar uns voluntários para ajudarem a cavar e… olhem, se eu me demorar é porque fiquei já em prisão…

Todos riram, com o fantasma da porrada mais afastado.

Era quase noite quando, com a viatura “afogada”a reboque da GMC deram entrada no aquartelamento. O jeep foi estacionado nas instalações do Lino e, secundado pelos outros, demandaram o primeiro-sargento para fazer e entregar a lista dos condenados.

Com um meio sorriso, encarou-os:

-- Ainda bem que safaram o jeep, porque o nosso capitão está mesmo bravo. Quis que eu começasse logo a redigir o castigo. Foi preciso explicar-lhe que precisávamos primeiro de um auto que tramitaria para o Comando do Batalhão e mais uma coisas que inventei… o carro é recuperável?

-- Em dois dias fica a trabalhar – asseverou o sargento mecânico.

--Ainda bem – congratulou-se o primeiro-sargento e acrescentou – agora vão tomar um bom banho e ver do jantar, que fome não vos deve faltar…

Agradeceram e demandaram a porta, mas ele chamou-os:

-- Um conselho: evitem que o nosso capitão vos veja! – Pontuou a frase com um piscar de olho e ficou a vê-los sair, sorrateiros.

J. E. Tendeiro   (Angola 62/64—Notas )

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 21:16 | link do post | comentar