O CAPELÃO OPERACIONAL

                                                   O Capelão Operacional

 

 

Um dia – há sempre um dia – o nosso pelotão estava operacional. A operação era o patrulhamento, de dia, da nossa zona. O Capelão do Batalhão que estava de visita pastoral à nossa companhia, resolveu ir connosco. – Padre, disse-lhe eu, veja onde vai,

 

e onde nos pode ir meter. É a primeira vez que vamos para aquele sítio e não sabemos o que vamos encontrar! Não há-de haver problema disse-nos ele, na sua fé.

E lá fomos: Descemos das viaturas e embrenhámo-nos no mato que naquela zona era de capim alto, mais alto que um homem.

Era difícil avançar, mas com muito esforço lá íamos andando. Suávamos. Os fatos de combate já começavam a escurecer com o suor que nos corria pelas costas. Era dia de sol o que nos obrigava a maior esforço. Chegados a uma pequena clareira, à borda da mata, houve ordem para descansar, montou-se segurança, e sentámo-nos. Então acerquei-me do Padre Miguel e perguntei baixinho: - Então que tal? É difícil, respondeu-me, mas via-se andando. Homem de fé, pensei eu. - Ouça uma coisa Padre Miguel, se agora aparecessem os turras o que faria o senhor? – Nada disse-me ele, o problema era com vocês. – Está bem, ripostei eu. Mas, aparecia-lhe um turra pela frente … bem, diz o Padre não poderia deixar-me matar, tinha que me defender! – O padre Miguel tinha levado uma G3, mas ainda hoje duvido que soubesse utiliza-la. Era mais acção psicológica pessoal. Assim, o inimigo pensaria que era um simples soldado.

 Tinha chovido. O pó do capim pegava-se aos fatos de combate conspurcando-os! As botas de lona com aquela terra barrenta a pegar – se ás solas aumentavam de altura e dificultavam o caminhar. Ali não havia postos que nos distinguissem, nem convinha. Quantas vezes meti os óculos no bolso para ser como os outros soldados.

 

Continuámos a caminhada entrando na mata que parecia não ser muito extensa.

 Passado um bom bocado notamos vestígios de passagem de pessoal, embora não muito recentes. Redobramos de atenção não fosse o diabo tecê-las… mesmo com um padre junto de nós.

Mais adiante encontrámos uma sanzala pequena – meia dúzia de cubatas - . Duas secções fizeram o cerco e a terceira avançou cautelosamente para a sanzala. Nada, nem ninguém. A sanzala devia, pelos indícios encontrados, ter sido abandonada há muito tempo, o que não impediu um soldado – o “Sarreiro” – de encontrar uma máquina de costura, das utilizadas pelos nativos – marca Singer. São máquinas que tem só a cabeça, e na roda da cabeça uma manivela que era movimentada à mão pelo alfaiate.

O Sarreiro trouxe essa máquina ao ombro. E ela era pesada. 

 

 

Continuámos a caminhada. Nada de novo. Mais adiante vimos uma espécie de um lago. Atravessando-o, cortávamos caminho para o local de encontro com as viaturas que nos viriam buscar Observámos a profundidade. Era baixo, era uma lagoa, óptima para lavar as botas, que assim ficariam com uns quilitos a menos, mas…

Ao atravessar a lagoa sentimos o chão a faltar-nos debaixo dos pés – eram areias movediças – gritei para os homens se afastarem uns dos outros e que não deixassem de caminhar para a frente As areias eram balofas e cada vez nos enterrávamos mais. Disse aos homens que a única solução era rastejar naquela água baixa mas perigosa, o que fizemos, tendo conseguido chegar à margem sem mais problemas. Sentámo-nos na margem, quando se ouve uma voz. – Meu furriel acuda-me que não consigo sair daqui! Olho para trás e vejo o Sarreiro aflito, a arma numa das mãos e a máquina de costura na outra. Oh desgraçado, deixa a puta da máquina de costura, senão ainda morres afogado.

 

Qual quê. Tivemos de dar as mãos uns aos outros até chegar ao Sarreiro e assim conseguimos tirá-los da situação aflitiva em que se encontravam, ele, a espingarda e a máquina de costura.

 

Não sei que amor à primeira vista foi aquele pela máquina de costura. Se ele fosse alfaiate ainda serviria para matar saudade de profissão no “Puto”, mas a alcunha de “Sarreiro” veio-lhe da profissão ocasional de limpar as cubas do vinho, raspando a côdea deixada pelo vinho aí armazenado, a que chamavam “sairro”, que depois era vendida. Nunca cheguei a saber para que fim. E de sairreiro, como era difícil de pronunciar, passámos a chamar – lhe simplesmente Sarreiro.

 

E assim ficou conhecido até que um dia no Batalhão de Caçadores 5 em Lisboa – o

Batalhão de Caçadores Especiais 357 formou pela última vez para a despedida. Nunca mais o vi.

 

Aí, o comandante fez a chamada daqueles que a ela não podiam responder… o corpo tinha ficado em Angola, por quem haviam dado a vida; o espírito porventura estaria junto de nós, pairando por cima das nossas cabeças…num último adeus

.

Houve o toque de silêncio, um silêncio que nos apertava a garganta, uma homenagem aos ausentes…

 

Depois, o toque a destroçar. Foi como se nos tivessem soltado de uma prisão. Despedidas deste e daquele, um adeus até à vista, até sempre, e cada um vai para seu lado.

 

À espera de transporte para casa, comecei a sentir um grande desconforto. Durante mais de dois anos, embora muitas vezes nas situações mais adversas, nunca me senti tão sozinho, como agora me sentia sozinho no meio daquela multidão que passava apressada.

 

                                                                   *

 

 

No silêncio daquela primeira noite passada junto da família, o corpo estava cá, mas o espírito voava sempre para sul, as recordações não me deixavam descansar, e não eram recordações dos locais onde estivemos e onde não havia barafunda, onde não se ouvia o “Tango dos Barbudos”, era para o norte de Luanda; - Cuimba, São Salvador do Congo, Pangala! Tentei como tentava em Angola, esquecer os momentos maus passados. Lá conseguia-o, porque no dia seguinte teríamos outros momentos provavelmente piores. Aqui era pior esquecer, porque o dia de amanhã será um bom dia!

 

 

                                                                    *

 

 

Pedi na empresa onde me tinha sido guardado o “lugar” para começar imediatamente a trabalhar.

                                                             

O gerente chamou-me e disse-me para eu ir gozar um mês de férias. Expliquei-lhe o motivo porque queria começar imediatamente a trabalhar: – esquecer –. Pelo menos enquanto trabalhava, a cabeça tinha de estar no trabalho e não se distrair com o passado. Compreendeu. Eu agradeci-lhe.

                                                           

 A. Ribau Teixeira     (in Memórias de um ex-combatente )

 

 

 

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 21:21 | link do post | comentar