Nesse dia fomos fazer patrulha apeada

 

 

Nesse dia fomos fazer patrulha apeada para as bandas de Cuimba. Tudo calmo. Só era necessária mais cautela à passagem pelas sanzalas abandonadas. Havia uma coluna de reabastecimento vinda de São Salvador, e, dado haver indícios de que “eles” estavam a passar por uma picada mais ao sul – aquela onde descobrimos a escola debaixo de uma árvore, lembram-se? – Fomos para aquele lado. Havia um pelotão de Cuimba, que viria ao nosso encontro. Não fossem “eles” aproveitar para nos deixarem alguma má recordação.

Tudo corria normal, e finalmente avistámos o outro pelotão, com os homens sentados na berma da estrada, à nossa espera a descansar, o quico (boné ligeiro) poisado sobre o joelho, estava num alto, como convinha. Era visto, mas também via mais ao longe

 

Era malta conhecida mas com quem pouco conversámos, dadas as distâncias entre nós. E vieram as novidades: - O meu furriel sabe quem é aquele ali? E o soldado apontou na direcção de um outro muito velho para a média das nossas idades. Ele devia ter para aí 28, 30 anos! Não, quem é? Perguntei!

Não sabe? É o nosso “maçarico”, diz rindo o outro. Maçarico com aquela idade, retorqui eu. Então o soldado contou-me a história daquele homem. Era refractário, andou fugido à tropa, mas foi apanhado, diz o outro rindo. Foi fazer a recruta, e por cima teve ainda um prémio! Um prémio disse eu sem perceber onde ele queria chegar! Pois, um prémio. Então não é um prémio chegar a Angola e ser logo enviado para a fronteira norte, para o nosso Batalhão, para o “Rebenta”, como já é conhecido em Luanda? E ria a bandeiras despregadas, como se o que acabava de dizer lhe desse um grande gozo. Fiquem sem saber o que dizer!

Entretanto chega-se a nós o comandante do pelotão do Cuimba e repreende o soldado que com tanto gozo me havia contado a história do outro, que continuava de cabisbaixo e com um olhar ausente.

Era um rapaz novo, o Alferes. Tinha sido guarda-redes da Académica de Coimbra, e tinha facilidade de expressão. É o que recordo dele, e que foi ferido por uma mina anti-carro, tendo sido evacuado para Luanda.

-Agora, à falta de melhor, gozam com este desgraçado, diz-me!

Falámos, um pouco sobre outros assuntos que não a guerra, e entretanto chegou a coluna de reabastecimento, que deu boleia ao pelotão de Cuimba. Nós regressámos a pé ao nosso acampamento.

 

Chegados ao acampamento, é sempre a mesma coisa. Subir aos bidões a ver se havia água, para se poder tomar uma banhoca. Havia, mas pouca. Combinámos entre nós que seria só uma regadela. Não podia haver ensaboadela, se não só um podia tomar banho, e nós éramos três. Assim fizemos.

O primeiro a tomar banho põe-se aos berros: - Maldita água, que está quente de mais.

O dia fora quente, a água era pouca e aqueceu muito. A superfície dos bidões era a mesma, e a água pouca, e o resultado estava à vista! Filosofei eu. 

Melhor assim! A água chegou à vontade para o banho, lavámo-nos, mas o prazer de um banho fresco, foi-se!

 

Nesta terra é assim. Se queres tomar um banho fresco, tens que esperar que chova, ou então levantas-te cedo, antes do sol nascer! Mas cuidado sê rápido, se não terás de ouvir os teus colegas, quando ao levantarem-se não tiverem água para lavar ao menos a cara! Fazer a barba será quando calhar, e se calhar.

 

 A.Ribau Teixeira  (Memórias de um ex-combatente)

 

publicado por gatobranco às 21:42 | link do post | comentar