A EMBOSCADA

 30 Setembro 1962

Era domingo.

Os sargentos, na sua sala, procuravam passar o tempo. Uns entretinham-se num jogo de pocker, outros conversavam e, como eu, tomavam a sua bebida.

 Era meio da tarde. Aparece o Alferes Miranda.

- Ribau, Miranda, preparem o pessoal vamos sair para uma emboscada.

- Mas hoje é nossa folga, argumentamos.

- Ordens do nosso Capitão, responde-nos.

-Vamos sem comer?

-Levamos rações de combate.

Pouco tempo depois o pelotão estava pronto para avançar. Subimos para a GMC e seguimos na direcção da estrada de Cuimba. Chegados ao cruzamento, com a viatura em andamento, saltamos para a estrada. A GMC, sem parar, rodou e voltou para Pangala.

Em silêncio, caminhamos no sentido de S. Salvador. Íamos em busca da picada do Quelo.

 Disfarçada no meio duma pequena plantação de bananas, encontramo-la à nossa direita. Saímos da estrada e seguimos pela picada.

 Não era mais que um trilho estreito onde não se podia seguir senão em fila indiana. Caminhava-mos pela encosta do monte. O cimo, à nossa esquerda, ficava a pouco mais de dez metros, já o vale estava a uma distância bem maior.

Paramos. A noite aproximava-se e não podíamos correr o risco de ela nos apanhar sem estarmos instalados. Aquele lugar não era o melhor para montarmos a emboscada, não havia nada onde nos escondermos. Entendemos que seria mais seguro dividir o pelotão. Metade do pelotão ficou comigo ali e os outros foram instalar-se depois da curva que a picada fazia mais à frente. Sabíamos também que o inimigo se deslocava com um pequeno grupo de batedores para que, em caso de caírem em emboscada, pudessem reagir com o grosso da coluna que vinha mais a traz. Assim, ficou combinado que, no primeiro contacto, deixasse-mos passar os primeiros, que cairiam na emboscada mais à frente, para que pudéssemos apanhar o grosso da coluna.

Imediatamente, procuramos as melhores posições. No enfiamento da picada, virados para o lado contrário para onde tinham ido os nossos companheiros, instalou-se o Braga com a metralhadora Dryse com outro ao lado. No cimo do monte ficaram dois a defender-nos as costas. Os restantes ficaram em linha ao longo da picada, um pouco recuados em relação ao Braga. Coloquei-me a meio da linha. De seguida começamos a comer as rações que cada um levava consigo.

Mal tínhamos acabado de comer e já em completo silêncio, cai a noite. Foi como se estivéssemos a ser iluminados por uma lâmpada e alguém tivesse desligado o interruptor. De repente, deixamos de ver a picada. Não se via no céu uma única estrela. Nem longe nem perto se via o mais pequeno brilho.

Pensava-mos que, como em outras vezes, nada aconteceria. De qualquer maneira há que ficar atento.

Não se passou muito tempo para começarmos a ouvir um ssf-ssf que vinha do lado da estrada. Era um zumbido que, mesmo naquele silêncio sepulcral, mal se distinguia. Perguntei-me: Serão animais? Nunca vimos nenhum, mas dizia-se que havia por lá elefantes!

O que quer que fosse vinha na nossa direcção. Aproximava-se. Ninguém se mexia. Parecia que tínhamos deixado de respirar. À nossa frente projectou-se umas sombras, tão ténue que, se não estivessem a deslocar-se, ninguém se aperceberia. Não eram elefantes, eram homens. Estávamos estáticos. A ordem de fogo seria dada com o meu disparo.

 Quando as sombras passaram pela metralhadora, que estava próximo da picada, pareceu-me que deram pela sua presença. Premi o gatilho da FBP no momento que se ouviu o grito de aviso para os que vinham a traz. Aquele local transformou-se num inferno. As armas automáticas disparavam em rajada. Granadas de mão ofensivas, lançadas por dois homens, rebentavam na encosta e feriam-nos os tímpanos. De repente, dei um grito a mandar parar o fogo. ALTO! HÁ CRIANÇAS! Tinha ouvido uns gritos de crianças, que me petrificaram. Instantaneamente, parou o tiroteio. Deixaram-se de ouvir os gritos. Passou-se a ouvir o barulho dos que conseguiam fugir, em direcção ao vale. Logo, troaram as rajadas dos que estavam mais à frente. Eram o primeiro grupo que, pensando que estavam livres do inferno, correram ao encontro de outro. Ficaram lá.

O silêncio que se seguiu só era quebrado pelos gemidos dum ferido. Não víamos nada mas sabíamos que ficaram ali vários.

Tentava-mos ouvir algum ruído. Receava-mos que houvesse um contra-ataque. Os nossos olhos procuravam atravessar a escuridão a vislumbrar algum movimento.

De repente, rebenta uma tempestade. Não havia vento, mas os raios caíam à nossa frente como fogo de artifício. A chuva caía com tal intensidade que até custava respirar. De pé, aproveitava-mos a luz dos raios para tentar ver o que estava à nossa frente. Nada se via. O ferido gemia. Foram horas terríveis que pareciam nunca mais passar.

Finalmente, a aurora inundou todo o espaço.

 Descemos para a picada e fomos ver o que estava por ali.

Na picada, `a nossa frente, estavam duas mulheres com o terror estampado nos rostos. Uma era paralítica e estava em cima da padiola em que era transportada, a outra, um pouco mais velha, sentada, no chão, ao lado. Um pouco distante estavam duas crianças. Com os olhos muito abertos viam-nos aproximar. Uma parecia ter dez anos, a outra, sete ou oito. Notava-se um pequeno arranhão no nariz da mais velha. Por sorte, nem as mulheres nem as crianças estavam feridas.

Ao longo da picada estavam uma espécie de fardos enfiados em paus comprido que eram transportados cada um, aos ombros, por dois homens. Rebentamos as folhas de palmeira que os envolvia e vimos uma grande quantidade de peixe seco e carne fumada. Tratava-se duma coluna de reabastecimento. Aqueles a quem se destinava, iriam passar muita fome.

Chegou um pelotão que nos veio ajudar e abriram as covas para enterrar os mortos. O ferido que passou a noite a gemer também acabou por morrer. Além das crianças e das mulheres, não houve prisioneiros.

As crianças foram levadas ao colo, a mulher paralítica foi levada na padiola e a outra foi a pé ao lado dum soldado. Nenhuma foi maltratada.

 

                                                                a prisioneira

 

Nos rostos de todos havia um sorriso. A vingança pela morte dos nossos companheiros que há dois meses tinham sido vítimas duma mina, consumou-se. Era a guerra no seu horrível.

Dois dias depois, fizemos uma patrulha por aquela picada. Distante do local onde tudo aconteceu, dentro duma mata, ao lado da picada a terra tinha sido cavada, recentemente, numa superfície, relativamente, grande. Curiosos, aproximamo-nos. O Ribau, montou a baioneta na FBP e começou a revolver a terra. Duas ou três espetadelas e sai-lhe um braço dum homem para fora da terra. Assustado e enojado, aos vómitos, afasta-se. Eram sepulturas de feridos que não resistiram aos ferimentos mas que, certamente com ajuda, ainda conseguiram fugir do inferno.

Não tivemos interesse em saber quantos morreram.

Continuamos a percorrer a picada, que ia em direcção da fronteira.

No cume dum monte de onde se avistava Pangala, encontramos uma palmeira no cimo da qual estava colocado um patamar. Era um posto de vigia. De lá, o inimigo, procuravam controlar os nossos movimentos e saídas. Pelos resultados, não conseguiram.

 

Miranda

 

Junho/2009

 

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publicado por gatobranco às 17:35 | link do post | comentar