NOVENTA E NOVE

 

 

Infelizmente, a guerra não acabou com o desembarque em Lisboa e o alijar da farda.

Para muitos, as feridas abertas na alma, os medos que o cérebro acumulou, perseguem-nos por muito tempo, talvez por toda a vida.

Outros, mais libertos desses fardos, no regresso são confrontados com o desemprego, com as oportunidades perdidas em pelo menos três anos em que as suas vidas nada significaram.

O noventa e nove foi um deles.

 

 

Virou para si o relógio de pulso pendurado num prego enterrado no tronco duma oliveira. Sabia que fora naquele prego que o avô sempre pendurava o seu relógio de bolso. Tinha uma vaga reminiscência: Uma figura alta, direita, sempre com um colete preto. Quando chegava à horta, a primeira coisa que fazia era tirar de um dos bolsos do colete o relógio de bolso, com grandes números, libertar a corrente da casa do botão e pendurá-lo naquele prego. Lembrava-se das vezes que ficara a olhá-lo vendo o ponteiro dos segundos deslizar num mostrador mais pequeno.

Depois fora o pai que, herdando o velho relógio, continuava a suspendê-lo no mesmo prego. Ele, quase de maneira automática, mas com um misto de satisfação, suspendia agora o seu relógio de pulso naquele mesmo prego que acusava a passagem de muitos Invernos.

Vinte para as sete.

Naquela manhã de um Julho tórrido, chegara à horta pouco passava das cinco. Era preciso fugir ao calor e permitir que a terra, arrefecida pela noite, recolhesse a água da rega.

Cofiou a barba longa que o acompanhara nos dois anos de guerra em Angola e, pela enésima vez, deitou contas à vida. Com o falecimento do pai – o  coração doente não resistira à sua mobilização –  pensar em viver daquela pequena courela era impensável. A mãe, desgastada pela idade e pelos desgostos, mesmo com a sua ajuda, não conseguiria tirar da terra mais que o sustento diário e utilizar a magra pensão para o pão ou, em dia mais festivo, um pouco de carne ou peixe.

Já dera umas voltas pela cidade a poucos quilómetros da sua aldeia a perguntar por emprego, já passara pelo serviço nacional de emprego onde recebeu a garantia de que se aparecesse alguma coisa o contactariam…

Havia uma vaga numa oficina auto para mecânico. O que aprendera na guerra olhando para os motores dos jeeps e dos Unimogs, não o credenciavam para tal.

Talvez tivesse que ir para Lisboa. “Ali toda a gente se safa”, argumentou para si.

Voltou a consultar o relógio: sete horas. A camioneta devia estar a chegar. Maria das Dores, a sua Maria, devia estar a embarcar com a  pequena lancheira debaixo do braço. Só regressaria depois de a sirene roufenha da fábrica a libertar às dezassete. Depois havia a espera pelo transporte de regresso e só perto das vinte chegaria a casa. Noite cerrada, no Inverno.

Casariam logo que ele arranjasse qualquer coisa. Por ela já teriam casado, mas ele, escudado no seu orgulho, queria primeiro arranjar emprego. Nem por sombras se imaginava a cultivar a horta e a explorar alguns bocados da família da Maria das Dores.

Levantou-se. Ali estendido não resolvia nada.

Maldita guerra que o fizera perder duas vagas na fábrica da namorada. Mais que namorada, noiva.

Resoluto, pôs-se a caminho de casa.

“Vou à cidade, Mãe. Vou ver de emprego” – disse à figura alquebrada que cortava hortaliças na cozinha.

“Filho! – estacou e olhou-a interrogativo – Corta essas barbas… pareces um judeu, para não dizer outra coisa mais feia. Assim não te dão emprego e fazes a vontade à tua Mariazinha. Ela já me pediu tantas vezes para te convencer! Isso só te faz lembrar a maldita guerra que matou o teu pai. Tira isso, sim?”

Cabisbaixo rumou para a casa de banho de onde emergiu muito depois com uma toalha enrolada à cintura.

Olhando-o, a mãe gritou de alegria:

“Filho! Graças a Deus! Agora já pareces o meu filho – correu para ele, afagou demoradamente a face branca, escanhoada – Que contente que a Mariazinha vai ficar!

Almoçou com a mãe uma sopa de hortaliças da horta e um pouco de carne desencantada no fundo da salgadeira outrora sempre bem provida.

Montado na sua mota comprada com os primeiros dinheiros que ganhara nas ceifas antes de ser incorporado, com o vento a cantarolar nos cabelos soltos, aspirando com prazer o ar que lhe afagava a face despida da protecção da barba de mais de dois anos, chegou à cidade e, lentamente, foi percorrendo ruas, procurando papeis que anunciassem empregos. Numa taberna aconselharam-no a perguntar na Câmara, mas o resultado foi infrutífero.

Deambulando a pé, o seu olhar foi atraído para um pedaço de cartão que, preso num portão, anunciava “Precisa-se sócio”.

Sorriu entristecido. Ele sócio, com os poucos tostões amealhados na maldita guerra? Mas, talvez por bravata, carregou no botão de chamada inserido na ombreira.

Voltou à rua cabisbaixo. O negócio parecia bom. Era uma panificação com boas máquinas e boa freguesia. Só na cidade tinha duas padarias e, depois, havia carrinhas de distribuição pelas aldeias. Ele trabalharia com uma dessas carrinhas e faria a supervisão das vendas sem ter nada a ver com o fabrico. Era bom! Boa paga e ainda percentagens de vendas! Mas onde é que ele iria arranjar duzentos contos?

Maria das Dores, antes de lhe saltar ao pescoço e o crivar de beijos, teve que olhar duas vezes para o reconhecer sem barbas. Sentada atrás dele, agarrando-o pela cintura com mais força que a necessária, mesmo durante a viagem de regresso à aldeia, não deixou de gritar o seu contentamento por o ver sem barbas.

À noite, no café, falou com o tio João. Passaram em revista as famílias da aldeia e concluíram que só duas poderiam emprestar-lhe duzentos contos. Um deles, o dono do café que, sondado, de imediato se escusou. Tinha feito obras recentes, ainda devia dinheiro ao banco… Aí abriu-se uma nova porta: um empréstimo ao banco. Mas era necessário um fiador. Quem na Aldeia? Só o senhor Doutor…

O senhor Doutor era um notário aposentado com mau relacionamento com a aldeia a ponto de poucos quererem trabalhar para ele. Correu o risco e voltou humilhado.

Inconformado, sem conseguir dormir, alargando para lá da aldeia a busca de um fiador, lembrou-se subitamente do seu irmão de sangue. “…Tudo o que precisares, amanhã, daqui por cem anos, conta comigo”. Parecia que o estava a ver, à saída do hospital, onde ele o fora esperar. Adormeceu pela madrugada, um sono sobressaltado.

O sargento Pires, atingido por dois estilhaços, incapaz de sair da zona de morte... Sentiu o peso dele nas costas, ao longo de vários quilómetros, acossados pelo fogo dos turras, o pelotão desorganizado e em fuga. A reorganização tardia já sem possibilidade de réplica, os pedidos de apoio e de evacuação…

Ele, também ferido, embora sem risco de vida, deu o seu sangue para a primeira transfusão e seguiu no helicóptero com o sargento Pires.

De madrugada, revolveu “a mala da guerra” até encontrar u pequeno cartão que o sargento Pires lhe dera na hora do desembarque: “Somos irmãos de sangue, não vou esquecer. Sem ti, já estava morto. Tudo o que precisares, amanhã, daqui por cem anos, conta comigo”.

Diferiu a rega da horta para a noite. Com o pequeno cartão escondido na palma da mão foi-se caminho do café – que também servia de posto telefónico – e, ansioso, esperou pelas nove horas. Não lhe parecia bem ligar antes daquela hora.

Sim, sim era a casa do senhor João Pires, mas ele tinha saído cedo. Só lá para a hora do almoço, se fosse almoçar. Que ligasse depois da uma.

A manhã foi longa. Ainda foi à horta queimar tempo porque o sol abrasador já desaconselhava qualquer serviço agrícola.

Almoçou mal, a mãe preocupada, ele a não querer dizer o que o consumia. Uma dúvida crescia nele: seria que o Pires, o sargento Pires (não sabia como havia de o tratar) ainda se lembrava dele? A dúvida nauseava-o e também a vergonha de o contactar para lhe pedir dinheiro. Bom, não era dinheiro. Ele só precisava que fosse seu fiador.

Ligou às treze e quinze. Quem atendeu mandou-o esperar porque ia chamar o senhor Pires.

“Sou o Pires. Quem fala?”— a voz grossa do seu irmão de sangue encheu o auscultador.

A medo, respondeu:

“Sou o noventa e nove…”

“Quem?!...”

“O noventa e nove… Angola"…

Houve um pequeno hiato e a voz potente do ex-sargento  berrou:

“Noventa e nove? És o Lemos? O meu irmão de sangue?"

“Sou..."

“Irra, pá! Ainda há dias falei em ti. Ficámos de nos encontrar e até agora nada! Onde estás?”

“Na minha aldeia e também gostava de o ver”

…"De o ver? ‘tás parvo, pá! Então já não nos tratamos por tu? Não te armes em parvo!”

Do telefonema resultou um encontro no fim de semana seguinte na cidade próxima da aldeia do Lemos, o noventa e nove da sua Companhia em Angola.

Foi uma jornada de fraternidade. João Pires, à frente de um armazém de materiais eléctricos em franca expansão, de imediato quis aliciar o amigo para trabalhar com ele, mas a distância, a pouca saúde da mãe e o seu noivado eminente levaram o noventa e nove a esquivar-se.  Confrangido, expôs o seu projecto de sociedade na panificação e a necessidade de um fiador para conseguir o empréstimo do banco.

“Fiador uma ova! Empresto-te a massa, compramos a padaria, conta comigo. Devo-te muito mais que a merda de uns contos de réis. Devo-te a vida – batendo no peito, acrescentou – aqui corre sangue teu, já te esqueceste, irmão? A propósito, tive que contar aos meus pais. Eles não se calavam com as minhas cicatrizes e falei-lhes em ti. Querem conhecer-te!

O ex-sargento escusou-se a visitar a sua aldeia, mas jurou que em breve o faria acompanhado pelos pais. Na despedida, sério, afirmou:

“Olha que eu vou ser o teu padrinho de casamento!”

 

À noite, pleno de satisfação, com a presença da Maria das Dores, alisando um cheque sobre a toalha da mesa, anunciou solene:

“Já tenho emprego. Vou ser sócio da panificação da cidade!”

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Dedico esta pequena história a todos os ex-combatentes que, sem um providencial irmão de sangue, sem a ajuda da sociedade ou do Estado que os enjeitaram, encontraram um lugar na vida.

 

Covilhã, Setembro de 09

J. Eduardo Tendeiro

publicado por gatobranco às 17:57 | link do post | comentar