OBRIGADINHO

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Obrigadinho….

 

Encontrei-o há pouco tempo, melhor dizendo, foi ele que me reconheceu e chamou.

Tive grande dificuldade em reconhecer nele o atlético cabo  Simas da Companhia de caçadores especiais condecorado por feitos nas terras do norte de Angola. Alquebrado, calvo, olhos sem brilho, ventre dilatado e coxeando ostensivamente, vendo a minha dificuldade socorreu-me:

-Não me diga que estou assim tão mal, para já não reconhecer o Simas! Daquela vez, em Luanda….

Não o deixei prosseguir. Abracei-o longamente e arrastei-o para uma esplanada. Conversámos com delongas, o passado a emergir…

Despedimo-nos com a promessa de novo encontro.

Parti contente e tranquilo. O Simas trabalhava há cinco anos numa exploração agrícola,

 

 

Aos vinte e quatro anos era segurança duma discoteca, mas um dia, impondo ordem na entrada, usou de violência desmesurada e perdeu o emprego.

Foi acompanhante de um comerciante de ouro e tão bem desempenhou o seu cargo que enviou para o hospital os assaltantes que tiveram a triste ideia de lhes montar uma emboscada, um deles com fractura de coluna.

Como guarda-nocturno numa fábrica de produtos alimentares. a situação repetiu-se. O sem abrigo que quis apoderar-se de algumas latas de carne foi violentamente espancado.

Começou a ter cada vez mais dificuldade em encontrar emprego. A sua fama de violento incontrolado, afastou-o do que ele melhor sabia fazer.

Empregado numa oficina auto, ajudante de distribuidor de fruta, descarregador de peixe na doca, foram marcados por conflitos que, sucessivamente o afastaram e o lançaram numa situação de indigência que a sua magra pensão não mitigava.

Foi então que descobriu um novo talento: assaltar pessoas, espoliá-las dos seus bens.

Encapuzado, enluvado e rodeado de todos os cuidados, prosperou com aquela actividade. No círculo da especialidade, cedo se evidenciou. Os que o contestaram foram vítimas da sua violência e aprenderam que era preferível a cooperação à contestação. Inimizades e ódios cercaram-no e um dos violentados denunciou-o.

A sua captura precedida de perseguição automóvel durou quatro sangrentas horas. Barricado, utilizando técnicas de tiro que surpreenderam os captores e feriu agentes da autoridade.

O julgamento foi aguardado com curiosidade mórbida e a sala de audiências encheu-se.

O advogado de defesa, num longo libelo, recordou os feitos heróicos daquele jovem transviado: Nambuangongue, Zala, Quipedro, foram algumas das operações que lhe mereceram louvores pela sua bravura e abnegação até que, numa emboscada mal  sucedida, foi ferido numa coxa.

Meses de internamento, sucessivas intervenções cirúrgicas não evitaram que ficasse a coxear. O exército dispensou-o de todo o serviço militar e mandou-o para casa. Casa que já não tinha.

Começou então  a vender o seu talento, aquilo que lhe tinham ensinado ao longo de cinco anos: matar se necessário fosse para se defender.

O seu advogado tentou ler os louvores que lhe tinham sido concedidos pelos  actos de bravura, mas o juiz pouco sensibilizado para tal defesa,  desvalorizou também  a invocação do stress pós traumático de guerra.

Foi então que o arguido, até aí calmo e de olhos pregados no chão como se estivesse particularmente interessado nas fisgas assimétricas do soalho da sala de audiências, se levantou e, num rompante clamou:

- Ó senhor advogado! Não vê que o juiz não está interessado em nada disso? O que ele quer é enfiar-me uma porrada e ir à vidinha dele….

- Cale-se! – bramou o juiz do alto do seu poleiro – o réu deve manter-se em silêncio!

-Em silêncio o tanas! – Retrucou ele e elevando a voz prosseguiu – o que é que você sabe de guerra? Pôs lá os pés? Claro que não!... Já era velho demais para essas coisas! Enquanto eu e tantos outros demos o coiro ao manifesto, o que é que você fazia? Comia e bebia do melhor…

- Tirem-me esse marginal daqui para fora, uivou o juiz.

Os dois guardas prisionais que acompanhavam o réu aproximaram-se, um deles exibindo umas algemas.

O réu estendeu os braços como se quisesse facilitar a tarefa dos guardas.

No momento seguinte, apoiando-se no ombro do mais próximo, elevou-se, enlaçou o pescoço do outro e derrubou-o. Mas, enquanto caía, atingiu-o ainda com uma patada brutal na testa. O guarda, projectado com violência foi bater contra o estrado do suporte da mesa do juiz.

Rodando sobre si mesmo e passando por baixo do braço do guarda que o segurava, colocou-se atrás dele, retirando-lhe a arma do coldre. Segurando-o pelo pescoço e encostando-lhe o cano da arma ao  ouvido, avisou-o:

- Se te portares bem, nada te acontece. Mexe-te e levas um tiro na pinha. – Reduzindo a voz a um murmúrio, explicou – Já destravei a arma…

- Chamem reforços, alguém faça alguma coisa – clamava o juiz do alto do seu estrado.

-Não se canse ó senhor Juiz. Isto não vai durar nada. Só lhe quero dizer duas palavrinhas. – Virando o cano da arma para o guarda que tentava levantar-se, comandou – devagar, só com dois dedos, como nos filmes de polícias, tira a pistola e empurra-a para o pé de mim. Mas cuidado que estou a apontar ao teu peito e a esta distância, nem um ceguinho falhava.

Acompanhou o executar da sua ordem e, como se agradecesse, disse:

-Homem ajuizado! Agora deita-te de barriga para baixo com as mãos atrás da cabeça enquanto falo com o senhor Juiz….

- Alguém faça alguma coisa… –  repetia o apavorado juiz.

O réu, frio e sereno, deslocou-se com o seu escudo até encostar as costas a uma das paredes e retomou a palavra:

-Ó senhor juiz, se calhar vou começar por lhe dar um tiro na perna para ficar a coxear como eu. Não lhe faz diferença para o seu emprego, mas sempre se vai lembrar de que os gajos que vêm da guerra, deitados fora como trampa, ficam malucos da cabeça e mereciam ser tratados. Não deviam ser deitados fora como eu fui. Já não presto para a tropa, sou coxo… e sabe por que é que sou coxo? Porque levei um balázio na perna enquanto defendia em Angola os donos do café e do açúcar. Se calhar também lá tem qualquer coisinha.

-Cale-se que está a dar cabo da sua vida… – murmurou o advogado encarregue da sua defesa.

- Deixe lá senhor advogado. Eu sei que até se esforçou. Ele – apontou para o trémulo juiz – ele é que não deixou. Sabe que entrei aqui já condenado. Mas sabe uma coisa engraçada? Enquanto estive na cadeia descobri que não se está lá mal de todo. Depois de dar uma tareia num engraçadinho, o gajo queria… percebe?... Depois disso, descobri que a cama não é má, a comida sempre é melhor que os restos que apanhava por aí e dão-me roupa lavada, tomo banho… – virando-se para o juiz, prosseguiu – espero que me dê uns bons anos de cadeia, pode dar perpétua, não se importe que eu, se me fartar, arranjo maneira de me pirar. Sabe? Também me ensinaram evasão… é engraçado, não é? Mas já chega de paleio. Levante-se lá para lhe dar o tirito na perna.

Na sala fez-se um silêncio de morte. Afundado no cadeirão, os dedos brancos pelo esforço de apertar os braços do assento, o juiz tremia, uma súplica estampada nos olhos.

- Cagarola! Pronto, não lhe dou o tiro, mas olhe que o merecia. Acabou o espectáculo. Já disse o que queria.

Empurrando para a frente o guarda que lhe servira de escudo e vendo o outro levantar-se, disse-lhes:

- Vocês, desculpem o mau jeito, mas o sacana do juiz estava a pedi-las.

Com um gesto largo entregou a arma ao guarda e ainda para o juiz concluiu:

- Pela porrada grande que me vai dar, obrigadinho!

A coronha da arma do guarda abateu-se brutalmente sobre a sua cabeça e caiu inerte, um fio de sangue a nascer no temporal esquerdo.

 

FIM         

 (Covilhã, Maio de 2005 Relato ficcionado dedicado aos "Simas" daquela guerra)

 

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publicado por gatobranco às 16:58 | link do post | comentar