Domingo, 14.09.08

EM MEMÓRIA

PANGALA,  2  DE  JULHO  DE  1962

 

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QUARENTA E SEIS ANOS DEPOIS DA TRAGÉDIA, PRESTO HOMENAGEM AOS AMIGOS E COMPANHEIROS QUE NÃO REGRESSARAM.

 

 

DO DAVID NUNCA ESQUECI O QUE FEZ POR MIM. COM A GENEROSIDADE QUE TODOS LHE RECONHECIAM, SABENDO DA MINHA FRAGILIDADE ( TINHA ACABADO DE CHEGAR DO HOSPITAL) OFERECEU-SE E FOI NA MINHA VEZ A UMA BATIDA A UMA MATA  QUE OS 3º E 2º PELOTÕES FORAM FAZER PARA OS LADOS DE BUELA, PRECISAMENTE NO DIA 1 DE JULHO.

 

OBRIGADO, DAVID

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MIRANDA

 

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Terça-feira, 02.09.08

MAIS UMA EMBOSCADA (A.Ribau Teixeira )

                                                   Mais uma emboscada

 

 

É hoje o dia 30 de Setembro de 1962. Quatro meses de mato, e nada que se veja! O terceiro pelotão está operacional. Logo à noite temos de ir fazer uma emboscada. O Alferes resolve que iremos emboscar-nos na picada do Quelo. Mais uma, pensámos nós. Tantas emboscadas feitas naquela picada, sem resultados. É mais uma, pensámos.

E lá fomos. Desta vez jantámos cedo. Quatro Unimogues. Três com o pelotão e o quarto com uma secção que faria a segurança das viaturas quando nos deixassem e regressassem ao acampamento.

Ficámos longe, muito antes de chegar à picada. O caminho até lá, seria feito a pé. Era longe. As viaturas seguiram para o acampamento. O Alferes deu a ordem. Primeira secção vai à frente, depois a segunda e a seguir a terceira. Eu fico entre a segunda e a terceira.

Quando chegarmos à picada, em vez de irmos para o lado esquerdo, vamos para o lado direito, e emboscamo-nos perto do rio. A picada passa no cume, e nós emboscamo-nos do lado esquerdo, um pouco abaixo, de modo a, se passar alguém, nós os podermos ver projectados no céu! 

Estranhámos estes esclarecimentos todos do Alferes, que já eram por nós mais do que conhecidos, desde a instrução, e depois com a prática. Pareceu-nos esquisito. Bem, vamos lá!

 

Alcançámos a picada, já estava a anoitecer. Seguimos por ela cerca de meia hora, quando começou a descida, a inclinação para o rio. Era aquele o local para a emboscada. Mais uma, pensei eu! Ia à frente. Parei até que todos os homens se aproximaram uns dos outros. Desviámo-nos para a esquerda conforme as instruções recebidas. Cada um procurou camuflar-se o melhor que podia, estendeu o braço confirmando que o colega estava lá “à mão de semear” como nós dizíamos.

Tudo pronto. Agora era o mais difícil. Esperar! Seria fácil esperar, se conseguíssemos que a cabeça estivesse só ali. Olho alerta, tentando prescutar o horizonte. Ali não havia árvores. De dia via-se longe. De noite não se via um palmo a frente do nariz. A noite estava calma. Viam-se algumas estrelas no céu. Cada um observava o seu sector, pensando, não se sabe em quê!

Já haviam passado umas horas, e nada.

De repente ouço um indivíduo a ressonar. Sacana, pensei eu. E ouço o Alferes lá do meio do Pelotão falando por entre os dentes:

 - Quem é essa besta que está a ressonar? O Cabo Pombal que estava a meu lado toca-me e diz baixinho:

-  Meu Furriel é você!...

Fiquei admirado, pois estava a ouvir o ressono, e afinal era eu! Não acreditaria se não fosse o Pombal a avisar-me, pois sempre foi um indivíduo que não brincava em serviço.

 

 No que uma pessoa se transformava em certos momentos daquela vida, pensei eu. Nunca me tinha sucedido. A mente aguenta, por vezes com dificuldade. Mas o corpo, embora treinado para aquelas andanças, quando menos esperamos trai-nos. É o caso presente, o corpo estava descansado e adormeceu, embora com o espírito desperto ouvindo o ressonar, mas incapaz de acordar o corpo. Foi precisa a ajuda do exterior!

Embora pasmado com o que acabava de se passar, não consegui deixar de estar vigilante, de corpo e alma, a partir daquele momento. Felizmente!...

 

Olho o relógio. Três da madrugada penso. Nunca mais é dia. Não posso dormir!

 

Passou mais um tempo. Nem eu sei quanto. Há qualquer coisa de esquisito no ar. São passos, mas são muito leves para serem de pakaça. Pensei em hienas, mas se fossem elas ter-se-iam rido, talvez de nós como era habitual. Não me digas, pensei, que são “eles”!

Baixei a cabeça juntinho ao capim e vejo projectadas no céu figuras humano! São “eles”!

Puxo a culatra da FBP atrás, pondo-a em posição de fogo. Eu teria de ser o primeiro a fazer fogo, já que era o último à esquerda, e o inimigo vinha da direita, apanhando assim o maior número deles na zona de morte. Noto que todo o pelotão tinha posto as armas prontas a fazer fogo. Era um tic que mal se notava mas que todos conhecíamos bem. O inimigo como vinha a caminhar não notou.

Passa o primeiro em frente a mim. Puxo o gatilho. A culatra vai a frente mas a arma não dispara. O Pombal, que notou a minha aflição a puxar novamente a culatra atrás, começou a disparar e de seguida todo o pelotão o imitou. Desencravada a minha arma também comecei a fazer fogo, até que do Alferes veio a ordem: - Parar o fogo. Todos parámos. Silêncio absoluto.

Reparo em duas figuras que iam a fugir para a minha esquerda, dobradas, logo que acabou o fogo.

Há dois turras que vão a fugir para a esquerda. Vou fazer umas rajadas. E fiz.

 

Depois foi o silêncio. De vez em quando ouvia-se um gemido. Há gajos deles feridos, pensei. Mas num caso daqueles não podíamos fazer nada, pois podia ser uma armadilha. Via-se muito pouco. Teríamos de esperar pela alvorada para saber o resultado da emboscada. Montámos segurança. Metade do pelotão voltado para a picada e a outra metade voltada de costas para a picada, pois podíamos ser atacados por traz. Aguardámos pela alvorada. Ao longe apareceu uma fogueira. Lá estão eles a indicar o sítio para a reunião dos sobreviventes, pensei. Pedi ao Alferes para fazer para lá uma basukada. Não fui autorizado, o que me deixou chateado, pois podíamos aproveitar a ocasião para obtermos melhor resultado da emboscada. Quem manda pode, pensei, mas é asneira não aproveitar as ocasiões! Passados uns tempos, comecei a sentir frio nos testículos. Mau. Será alguma cobra? Lentamente baixei a mão e apalpei. Estava completamente urinado. O falhanço da arma foi no que deu!

 

 A alvorada chegou. Mais valia que aquela alvorada nunca tivesse chegado! Ainda se via pouco. Houve ordem de avançar ao reconhecimento. Armas aperradas, prontas a fazer fogo, avançámos vagarosamente!

Chegámos à picada. Eu nem queria acreditar no que via. Corpos prostrados por tudo quanto era sítio. Meu Deus! O homem que ia à frente tinha ainda aperrado na mão direita um pau de caminhante, que no cimo tinha sete cortes feitos à navalha. Era alto e forte. Teria uns dois metros de altura. Mais além, um jovem dos seus dezoito anos estava completamento cortado ao meio, com os intestinos fora. Foram feitas buscas nos corpos dos vivos e dos mortos. O jovem tinha consigo um cartão da Juventude da UPA, e diversa documentação, que nos permitiu saber que aquilo era uma coluna de reabastecimento que se dirigia para a sua base “Fuesse”, que ficava mais para norte, mas ainda dentro da fronteira, que mais tarde foi atacada e destruída. Havia mantimentos, espalhados por todo o lado. Havia vidas perdidas. Certamente, assim como nós, não seriam voluntários!

Havia mulheres, que carregaram à cabeça os mantimentos.

Havia crianças que ao ver-nos começaram a chorar de medo, agarradas às mães.

Informámos a Companhia do sucesso e pedimos que as viaturas que nos viessem buscar trouxessem macas, pás e enchadas para enterrar os mortos. Eu pedi que me trouxessem a minha máquina fotográfica.

 

Enquanto aguardávamos as viaturas, separámos os mortos dos vivos, e íamos observando! O jovem da UPA parece que se mexeu. Um soldado chamou-me a atenção para o facto. Não pode ser, disse-lhe eu. Não vez como ele está? Dirigi-me ao Alferes e pedi-lhe a pistola. O que vais fazer, perguntou-me. Contei-lhe o sucedido. Está bem. Toma lá. Não podíamos enterrar um cadáver, que podia estar vivo, pensei!

E dirigi-me com o soldado ao jovem, morto. Observámos. Não mexia, não respirava! Estava mesmo morto. Mas pelo sim, pelo não, puxo a culatra da pistola atrás, aponto e fico paralisado, dedo no gatilho, a olhar aquele jovem! Não fui capaz de disparar.

O soldado diz-me:

 - O meu Furriel não é capaz?

-  Dê cá a pistola. Automaticamente estendi-lhe a mão com pistola. Ele pegou-lhe, aponta à cabeça do jovem que estava com o rosto voltado para baixo, e a cerca de um metro dispara. Com o impacto a cabeça levanta-se um pouco e cai sobre o capim. Este já não faz mal a ninguém, diz o soldado! Se calhar foi ele que pôs a mina que matou os nossos companheiros, diz tentando talvez justificar o seu acto.

 

Havia pessoal de idade e muitos jovens! Será que lutam por um ideal, ou são obrigados!

Dirijo-me a uma velhinha sentada no chão chorando. Talvez lhe tivéssemos matado um filho ou o marido, quem sabe. Tentei falar-lhe, mas ou porque não me entendia, ou por medo, não respondia, só o seu olhar suplicava auxilio, parecia dizer-me que não queria morrer! Possivelmente ter-lhe-iam ensinado. O tropa só mata!

Havia malta que se juntara à volta, rindo-se da velhinha, como que a gozar com o seu medo. Sacana se calhar foi um dos dela que pôs as minas que mataram os nossos companheiros diz um militar.

-É meu Furriel, alvitra outro, há tanto tempo que não vemos mulheres, e se aproveitássemos agora, diz ele dirigindo-se para a velhinha tentando consumar o acto.

Puxo a culatra da minha FBP atrás e digo.

–O primeiro a experimentar fica!

Devo ter sido muito convincente, pois toda a gente se afastou!

A parte animal do homem é irresponsável E o corpo é que o paga sempre.

A parte racional por vezes também não a entendo. A minha reacção naquele momento também não teria retorno, se a parte irracional do soldado continuasse com a sua intenção!

Já é a segunda vez que isto me sucede. A primeira foi em Maquela do Zombo! Tenho que ter cuidado comigo mesmo!

 

Finalmente chegam as viaturas, com a malta muito satisfeita! Desta vez conseguimos! Dizem.

 

Porca de vida, pensei!

 

Os “prisioneiros” foram embarcados numa GMC, enquanto outros militares abriam covas onde os mortos foram enterrados. Não podíamos deixá-los ali, para serem comidos pelas feras.

Senti-me aliviado quando abandonei aquele local em direcção ao acampamento. Enquanto as viaturas seguiam vagarosas eu recordei aquele soldado, sozinho na noite com a ideia do companheiro morto pela mina: -Porquê a nós meu Furriel? Agora eu também penso: - Porquê a nós? Porquê ao nosso pelotão ter a “sorte” de fazer isto?

Todos queríamos obter bons resultados operacionais. Mas porquê ser o nosso pelotão a fazer o que fez? Porquê não outro? 

 

Chegados ao acampamento, os prisioneiros foram sumariamente interrogados, e depois

seguiram para a sede do Batalhão onde foram interrogados. No dia seguinte foram enviados para São Salvador do Congo, onde foram mandados entregar na Missão que lá existia.

 

 

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A EMBOSCADA (J. Eduardo Tendeiro)

A emboscada

 

 

E

ra uma das missões mais desagradáveis. Reconhecida como inevitável, motivo de bravatas, não deixava de criar em quem tinha que a executar um sentimento de recolha. Era uma espécie de traição que se praticava em relação ao inimigo. Era apanhá-lo desprevenido, dizimá-lo, sem olhar a mulheres nem crianças.

“Fazer o que eles fizeram e fazem sempre que podem”

“É ser como eles”

“Não é o que eles fazem?”

“É apanhá-los à traição”…

“É a guerra, filho! Se não matas, morres”, argumentos que se entrecruzavam com maior ou menor veemência e os pelotões lá partiam para as emboscadas, de dia ou de noite, conforme o objectivo.

A aproximação ao local da emboscada previamente reconhecido, a entrada em posição, a espera. A longa espera povoada de fantasmas e fantasias, a imagem obsessiva de um rosto querido, o silêncio quebrado por mil ruídos naturais mas que criavam um sentimento de angústia. O negro da noite derramado sobre militares deitados numa prefiguração de morte, a sensação de solidão que levava a estender o braço na procura da confirmação da presença do companheiro do lado, talvez agradecido por aquele toque subtil. As horas arrastadas como se tivessem centenas de minutos, os olhos lacrimejantes do esforço de penetrar a noite, a desviarem-se para nascente na expectativa dos primeiros alvores.

Pinceladas de vermelho antecedidas por um crepúsculo rápido, anunciavam o fim da missão.

“Merda, mais uma noite p’ra nada!”

“Vamos embora, meu alferes”

“Posso ligar o rádio e chamar as viaturas?”, frases de desabafo na manhã que se anunciava radiante.

“Graças a Deus que não houve nada” era o pensamento que perpassava pela mente de alguns menos interessados em retaliações sangrentas.

O telefonista, com o micro rente aos lábios, chamava “Delta Charlie, cobra dois chama”!

A resposta, roufenha, ecoava nos seus auscultadores “ cobra dois, escuto”

Próximo do telefonista, o alferes recebeu o micro e sem grandes preocupações informou “Aguardamos no local combinado… não, não houve nada… tragam água.”

E o pelotão punha-se em marcha para o local de reunião com sentimentos contraditórios: o de frustração por mais uma missão falhada e em alguns, poucos, a satisfação de não ter sido necessário matar.

 

Numa coluna de reabastecimento da nossa Companhia, no regresso de S. Salvador, antes do cruzamento para  Pangala, um jeep accionou uma mina e tivemos as nossas primeiras baixas.

A presença dos cadáveres dos nossos companheiros de armas, acima de tudo amigos, deu-nos a concretização trágica que nos faltava de uma guerra em que estávamos mergulhados. O inimigo, o IN, manifestara pela primeira vez a sua intenção.

Vimo-los partir numa GMC , imagem terrível de jovens como nós, esfacelados e enegrecidos pela explosão do engenho.

 

Redobraram-se os cuidados de segurança ao acampamento, à ida à água e ao lixo e as emboscadas aumentaram de frequência. Estas missões, particularmente a emboscada, revestiam-se então de um sentimento de raiva, um desejo de retaliação. Partiam de lábios cerrados, olhos brilhantes e dedos crispados no punho das armas. Regressavam tristes, frustrados:

“Ainda não foi desta, mas havemos de os apanhar!”

“Não perdem pela demora, os sacanas”

“Quando os apanharmos vão ver como é”

E o inevitável sucedeu. Uma emboscada do terceiro pelotão resultou. A zona de morte ficou pejada de mortos e feridos, algumas mulheres e uma criança entre eles.

Quando de madrugada a voz jovial do telefonista ecoou no altifalante do posto de rádio, pedindo que levassem pás e enxadas para enterrar uns quantos sacanas,  viatura para prisioneiros e respondendo a uma pergunta do sargento de transmissões, que muito antes do nascer do dia já cabeceava sentado no lugar do operador, informou “do nosso lado não houve azar”,a notícia explodiu literalmente no acampamento de Pangala. Houve vivas, muitas frases de prazer pela retaliação e foi difícil pôr ordem na multidão de voluntários que saltou para a GMC aprestada para corresponder ao pedido recebido.

Despejados da viatura a pontapé, talvez cinco homens, uma mulher e uma criança, ficaram expostos à curiosidade e aos impropérios dos que os miravam. Mal vestidos, quase andrajosos, sujos e feridos, eram uma imagem pouco edificante do IN que tinha já levado quatro dos nossos.

“Vou buscar uma corda, atam-se à GMC e fazem-se correr à volta do acampamento.”

“Não é preciso, eu trato deles à minha maneira. Quero ver como são por dentro…”

“A velha é para mim… com a fome com que estou…”

O médico e o enfermeiro chegaram para uma observação sumária dos ferimentos, gerando ondas de contestação.

“Não sujem a mãos nesses gajos!”

“Deixe-me tratar deles. Nem mercúrio vai ser preciso”

O olhar sereno do doutor Luciano pôs fim ao arrazoado vingativo e os que ficaram assistiram em silêncio.

A criança, quatro, cinco anos talvez, agarrada à velha, chorava e dificultava o trabalho do enfermeiro. Foi o sargento de transmissões que a arrancou dos braços da possível mãe e a carregou ao colo para os lados da “casa dos sargentos”. Alguém trouxe um pacote de bolachas das rações de combate e a criança, esfomeada, aquietou-se.

Qualquer tentativa de comunicação com ela ou com os outros foi inviável. Não os entendíamos e eles, talvez, não nos entendessem.

À tarde, obedecendo a um “rádio”, foram levados para o comando do batalhão.

Antes da hora de jantar, o CP, próximo do sargento de transmissões, queixou-se:

“Cheiras a preto, pá!”

Preocupado, o visado, embora admitindo essa possibilidade, retaliou com um pontapé que o CP esquivou, foi buscar uma toalha e demandou o chuveiro fazendo votos para que, se houvesse  água,  não estivesse demasiado quente, nos bidons expostos ao sol.

 

J. Eduardo Tendeiro   (Memórias )

 

 

 

publicado por gatobranco às 10:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

MAIS UM... (J. E. Tendeiro)

Mais um…

Era um daqueles dias!

Lá fora o calor torrava. Na camarata, irradiado pelas chapas de zinco do telhado, tornava o ar pastoso, fazendo sobressair os noventa por cento de humidade.

O silêncio envolvia o acampamento, cortado esporadicamente por qualquer som que tinha o condão de lembrar que ali havia vida. Letárgica, mas havia.

Deitado sobre o lençol cujo branco já tinha visto melhores dias, só com uma pequena trousse vestida, tentava fixar-me na leitura de um livro de Raymond Chandler. Mas já o tinha lido e o pensamento derrapava, voava para onde eu não queria, para zonas que, aguçando a saudade, me faziam sofrer e me enraiveciam.

Não havia trabalho na cifra, nem no posto rádio. Tínhamos uma patrulha fora, uma nomadização que terminaria com o pôr do sol. Havia um canal aberto só para eles e durante o dia a comunicação era fácil. De hora a hora, ligavam, um breve contacto. Se houvesse qualquer emergência, no posto de rádio havia um receptor em standby.

Invejei o CP que, na cama ao lado, beatificamente dormia ressonando pianinho. Todos sabíamos a sua capacidade para “hibernar”: dormia um dia inteiro levantando-se somente para comer. Nesse campo, era feliz. Lá mais para o fundo da camarata, alguém ressonava forte, sem intenção de competir com o meu companheiro da cama ao lado.

Pus de parte o livro, definitivamente desinteressado da trama policial que já conhecia e fixei-me nos pequenos ruídos que o acampamento em letargia, produzia.

Do lado da cozinha um som metálico permitiu-me extrapolar que não se tinham esquecido do jantar. Um motor a acelerar frequentemente. Devia ser o L. a afinar uma máquina. Mais perto, na sala comum, o C., dos reabastecimentos, com uma praga, manifestou o seu desagrado para com as cartas que não lhe estavam a ser favoráveis. O L. devia ter conseguido o seu intento pois que, para os seus lados, reinou de novo o silêncio que se estendeu ao acampamento e imperou até que, do posto de rádio, a voz forte do cabo telegrafista do comando, o M., gritou para o micro: “OK… correcto, correcto e terminado.” Já desistira de lhe dizer que não era por muito gritar que melhor se faria ouvir no destinatário. Felizmente as comunicações eram recebidas em código de grupos de cinco letras supostamente aleatórias e só na secção de cifra tomariam forma. De contrário todo o acampamento saberia das notícias em primeira-mão e o capitão H. teria mais uma das suas crises de apoplexia.

No telhado de zinco que, com o declinar do sol começava a arrefecer, qualquer coisa deslizou sobre o ondulado. Talvez um pássaro a queimar as patas…

De novo o silêncio me recolheu no seu seio, não sem antes amaldiçoar o C. que, de novo, praguejava as cartas e a sorte.

Dormi.

Só acordei com alguns toques discretos na perna nua. Era o cifrador, o cabo GP que, confrangido, se desculpava.”Há aqui uma mensagem para assinar”…

Recolhi a folha que me estendia e, não por que fosse necessário pois confiava em absoluto no meu cifrador, passei uma vista de olhos pelo texto, troquei um sorriso de cumplicidade com ele, sobre o caixote que separava a minha cama da do CP, assinei a mensagem e recusei devolver-lha.

“Deixa ficar que vou lá eu”. Se o H. estiver a dormir – e a probabilidade era grande – vai dar pulos por o acordar para lhe entregar esta mensagem a informar que a Companhia recebeu uma dotação de mais dez cobertores …

Se a patrulha não trouxesse novidades, aquela seria a do dia: mais dez cobertores para aumentar à carga da Companhia. O primeiro sargento ia gostar daquela mais-valia!

Vesti-me disposto a enfrentar o “boss” de certeza na sesta da tarde.

 

J. Eduardo Tendeiro (Memórias)

 

 

publicado por gatobranco às 10:35 | link do post | comentar

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