Sábado, 29.11.08

A casa abandonada

                    A casa abandonada

 
 
Daquela  vez  não  houve ou. Era  mesmo  verdade. O comandante da Companhia tomou conhecimento de que existia, abandonada, a casa de um branco, à esquerda da estrada que vai para S. Salvador, na descida para o Rio Luvo.
Era uma casa pequena mas linda, caiada por fora e por dentro, tinha cinco divisões, a casa de banho completa com lava mãos, sanita, bidé; a cozinha também completa com lava-loiça.
Era uma pérola no meio do mato. Só um português muito confiante poderia fazer, ali, aquela obra, a sua casa.
O pelotão formou, o Alferes informou qual era a missão nesse dia:
 - Ir àquela casa arrancar todas as loiças sanitárias, para serem montadas na casa do comando para os serviços dos Senhores Oficiais.
Chamei a atenção do Alferes que a nossa missão era respeitar e fazer respeitar a propriedade alheia, e que mesmo tendo recebido ordens taxativas do Capitão, – não podendo desobedecer-lhe, como me disse – devia pedir-lhe  essa  ordem  por  escrito, para  não  poder  ser responsabilizado mais tarde. Não o fez, não queria chatices com o Capitão.
E lá fomos, vandalizámos a casa e trouxemos os sanitários para o acampamento.
Ainda hoje recordo a cara de felicidade do Capitão dirigindo--se ao Alferes:
– Então Miranda, não partiram nada?
Imaginei-o sentado na sanita, largando a “poia” que deveria ser farta. Aquele homem só sabia comer, dormir e evacuar, pois quem muito come muito larga.
 
Numa companhia há sempre habilidosos e até pessoal especializado. Foram logo escalados meia dúzia deles que executaram a obra. O Nosso Capitão já podia “obrar” à vontade.
 
Quantas vezes levei a minha máquina fotográfica comigo, e nunca consegui fotografar aquela casa. Tinha vergonha daquilo que nos tinham mandado fazer.
 
A.Ribau Teixeira (Memórias de um ex-combatente)
 
 
 
 
 
 
 
                                              
 
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Sábado, 22.11.08

Muxima - Subindo o Rio Quanza

 

 

              Muxima- Subindo o Rio Quanza
 
Que rico tempo de tropa este que passámos na Muxima. Ora passeando, lendo, ou pensando no que se esconderia naquelas matas na outra margem do rio.
 
Nisto ouço as moças que estavam lavando roupa no rio a gritar:
- Ai o minino, acudam que ele morre afogado. Meu “ferier” acode!
Corro para a margem do rio e o que vejo eu: - O Zé cozinheiro a nadar contra a corrente, tentando atingir terra firme.
Pensei em tirar a roupa e ir ajuda-lo, mas com a forte corrente que fazia o mais provável era ficarmos os dois, e afogarmo-nos.
Então gritei-lhe como que a dar-lhe uma ordem: – Nada a favor da corrente que eu vou lá abaixo ao cais de embarque e ajudo-te a sair da água!
 Ele assim fez. Eu corri para o cais. Ao ver a minha aflição dois soldados que andavam por ali a consumir o tempo, indagaram o que se passava. Sempre a correr contei-lhe o sucedido, eles seguiram-me. Quando chegámos já o Zé tentava agarrar-se ao capim da margem e por fim às estacas do cais. Pusemos-lhe a mão, ajudámo-lo a subir e só consegui descontrair-me depois de o ver deitado no cais a arfar. Para os soldados que tinham vindo em ajuda comigo, foi um gozo.
- Com que então o amigo Zé a mostrar as suas habilidades natatórias às lavadeiras ia ficando no rio. Tens cabelos loiros, olhos azuis e uma pele branquinha… Elas gostam é de cabelos encarapinhados e pele preta, da cor dos tomates…
Eu que tinha assistido ao drama do Zé, não gostei nada daquela brincadeira e tive de lhes dar dois berros para acabar com aquela demonstração de mau gosto.
Nisto chegou e Enfermeiro Civil a saber do que se tratava. Ao ver o Zé de fato de banho imaginou o sucedido, e tomou-lhe o pulso
- Está tudo bem, diz ele. Tens frio, não tens?
- Sim diz-lho o Zé, a tremer.
- Então vai à tua caserna, embrulha-te num cobertor, e caminha dentro da caserna até não sentires frio. Depois senta-te um bocado na cama, que isso passa.
- Estes indivíduos não têm noção da força deste rio, facilitam e depois têm problemas destes, diz-me o Enfermeiro.
- Se ele não tivesse obedecido à sua ordem a estas horas estaria no fundo do rio, continuou!
 
Este caso deixou-me estarrecido, pois pus-me a pensar, no caso de ter havido um azar, como é que iríamos dar a notícia à família! Este rio sempre me meteu muito respeito, pela sua grandeza, pala força das suas águas.
Passei em frente à igreja da Nossa Senhora da Muxima. Estava fechada. Mesmo assim não deixei de parar por momentos, e, mentalmente agradecer à Senhora da Muxima o facto de o Zé estar salvo. Tinha passado em frente à Igreja nadando desesperadamente tentando salvar-se!
Passei pela caserna a saber da recuperação do Zé. Tinha-se deitado, mas, ao reparar em mim levantou-se e recriminou-me:
- Para que levou o meu Furriel os dois soldados consigo? Não conseguia dar-me a ajuda sozinho?
- Ó pá, eles é que viram-me tão aflito e foram comigo para ajudar. Parece que ficaste envergonhado por eles verem a tua aflição! Deixa lá, isso já passou tudo, felizmente.
 
Fui chamado ao Alferes Miranda a quem contei o sucedido.
- Não sabia diz-me ele, mas já que está tudo bem, melhor! Mas não foi por isso que o mandei chamar. Um fazendeiro de uma pequena roça que existe rio acima, veio avisar o governador que pelas redondezas da roça andavam a aparecer pretos desconhecidos, que não eram daquela zona e eu fui “convidado” para irmos lá almoçar amanhã.
- Mas a roça fica do outro lado do rio, como vamos para lá?
- Já está tudo combinado, e amanhã cerca das dez horas, vem dois serviçais da roça buscar-nos da canoa.
- De canoa? Inquiri eu, pensando no caudal do rio!
- Sim de canoa. Almoçamos lá e à tarde eles vem trazer-nos. A canoa pode levar quatro pessoas. Vou eu, tu, e talvez o Cabo Pombal e o Cabo Braga. É preciso que eles saibam nadar. Pode haver um azar. Eles levam as suas G3 tu a FBP. Eu levo a minha pistola Parabellum.
Fiquei pensativo. Uma viagem de canoa…naquele rio… mau…mau…
Falei com o Braga e o Pombal. Disseram que sabiam nadar. Transmiti-lhes as ordem do Alferes Miranda. No dia seguinte tudo estava pronto à espera da canoa, piroga ou o que fosse. Tínhamos de ir.
À hora combinada lá apareceu uma piroga, grande, feita em ferro, com um tripulante à proa e outro à ré. Em ferro conjecturei eu com os meus botões. Se ao menos fosse em madeira, e no caso de se virar não ia ao fundo…
 
Embarcámos cautelosamente, sentámo-nos no fundo da canoa cumprindo as ordens dos tripulantes (assim não balança tanto) disseram eles, e lá seguimos viagem rio acima, pela margem esquerda onde fazia menos corrente, mas, mas era a zona onde habitavam os crocodilos. Tive medo. Perguntei aos tripulantes se ali não havia crocodilos. Que não. Eles “moravam” mais para cima no rio e nós não passávamos por lá.
Fiquei mais descansado! No entanto ia olhando, paro o fundo, que não se via. Só se via uma espécie de caniço – um capim grosso - em que os tripulantes apoiavam as varas com que movimentavam a canoa.
- É muito fundo? Perguntei eu!
- Não tem fundo diz-me um tripulante!
Preocupado, mas a viagem seguia. Pensei que os homens sabiam bem o que faziam e tentei deixar de pensar no lugar onde nos encontrávamos, olhando a paisagem que só se via na outra margem. Na margem por onde seguíamos só se via capim alto, que vindo do fundo do rio de não sei quantos metros, subia ainda fora de água uns dois metros.
Só se ouvia o marulhar da água e o ruído das varas batendo contra a canoa. A bordo era o silêncio total. Os tripulantes na sua labuta contra a corrente. Nós desejosos de chegar a terra firme.
- Olhe meu Alferes há na outra margem construções em madeira, disse eu!
- É a casa do patrão diz um tripulante.
- Graças a Deus!
Avançamos mais um bocado para montante. O rio teria de ser atravessado, com as varas a “paijar” como se fossem remos, dada a profundidade do rio!
Atravessamos sem mais problemas e acostamos junto às construções do outro lado do rio.
- Não levanta até nós saltar para terra e encostarmos bem o barco a terra, diz um tripulante.
- Podem saltar.
Nós assim fizemos e mal pusemos pé em terra firme, respirámos de alívio!
     
                    O Rio Quanza visto da Fortalesa da Muxima
 
O dono da roça esperava-nos. Cumprimentou-nos e agradeceu a nossa comparência. Sabíamos ao que íamos pelo que demos umas voltas pela roça. O Alferes com o Braga por um lado, acompanhados pelo roceiro, e eu e o Pombal por outro. Não notámos nada de anormal, mas a nossa missão era sermos vistos, razão pelo que “passeámos” pela roça. Findo o passeio fomos convidados a almoçar. O homem da roça era um rapaz ainda novo, dos seus trinta e poucos anos. A roça era de palmeiras, e o almoço foi frango, uns pedaços assados, e outros fritos em óleo de dem-dem.
O frango frito parece que sabia a ranço! Intragável. Felizmente que havia o assado, este sim saboroso!
 
Nisto ouço o choro de uma criança e olho com olhar interrogativo para o roceiro:
- Não há problema tenho um filho de meses e a mãe está a dar-lhe de mamar.
- Posso vê-lo? pedi eu, ao recordar o meu segundo filho, que estava no “Puto”
- À vontade.
Ao entrar na cubata o bébé, deixou de mamar e olhou-me com um olhar de curiosidade. Depois desinteressou-se e continuou a alimentar-se.
Fiquei a olhar aquela cena e a pensar longe…
O roceiro entrou, e ao ver-me diz-me:
- O meu Furriel, se quiser sirva-se!
Não ví nada de que pudesse servir-me e perguntei:
- De quê?
- Da mulher…
 
 
Foi como se eu tivesse levado um soco na cara…
- Não obrigado, foi a única coisa que consegui balbuciar…
 
Fiquei abismado. Aquela mulher, ainda nova, dos seus dezassete anos só lhe serviria como entretimento, ou para servir as visitas?
 
Regressámos à Muxima. A viagem foi mais rápida a favor da corrente. Desembarcámos e os barqueiros seguiram viagem para a sua terra.
Durante o resto do dia fiquei a pensar naquele homem. A sua companheira não era mais do que um animal, que oferecia a seu belo prazer a quem lhe aprouvesse.
 
Impressionado, contei o ocorrido ao Enfermeiro Civil, que achou normal o que havia acontecido.
- Aqui, em Angola, diz-me ele, quando o Chefe de Posto vai fazer a delimitação da propriedade que é atribuída ao “branco”, logo lhe escolhe na Sanzala mais próxima uma rapariga nova, que seja bem parecida, para criada do branco – “criada para todo o serviço” – e elas gostam pois não podem já ser vendidas para qualquer preto, que a obrigaria a trabalhar para ele, enquanto ele nada faz. Por isso os pretos ricos têm varias mulheres…
A mulher do branco só trabalha para ele e em casa, enquanto a mulher do preto é obrigada a ir trabalhar para a “lavra”.
 
 A.Ribau Teixeira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                     

 

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FÉRIAS NA MUXIMA

 

 

 

 

     Um pelotão
    em "férias"

 
Aos vinte e dois meses de comissão a CCE 306, finalmente, foi-se instalar a sul do rio Quanza.
Embora se encontrasse ainda na zona de intervenção norte, em cabo ledo, não havia perigo algum.
O 3º. Pelotão (repare-se que não era 1º. nem 4º.) foi “expulso” do aconchego da cª. e enviado mais para norte, para MUXIMA.
Muxima ficava a mais de 100 klm. de Cabo Ledo e a menos de 30, em linha recta, de Catete onde o perigo já era real. (pelas más relações do Capitão com o Alferes Miranda, dizia-se).
MUXIMA fica na margem esquerda do rio Quanza dentro da RESERVA DE CAÇA DA QUISSAMA. Havia um forte no ponto mais alto e a Igreja de Nossa Srª. Da Muxima junto ao rio. Tinha o “grande” Hotel Estrela da Muxima com a patroa a dirigir e dois empregados, um branco e um preto. Tinha um Administrador e um Cipaio. A casa do Administrador, que era a maior da cidade, estava isolada a meio da encosta. Tinha outras casas mais pequenas com algumas ocupadas pelos militares. A Igreja com o seu adro e um pequeno jardim ao lado podia-se considerar a “baixa” da cidade.
A nossa instalação foi logo que chegamos. Da segurança foram incumbidos os 1ºs. cabos, que o fizeram sempre sem o mínimo problema.
 Devido à distância a que nos encontrávamos da compª. apenas nos eram fornecidos os alimentos secos. A carne e o peixe devíamos procurar localmente.
Assim foi feito. Da carne encarregou-se o Alferes Miranda. Ia à caça com o Administrador, trazia o animal abatido e eu, com a ajuda de outros companheiros, transformava-o em bifes que todos comiam como e quantos quisessem.
 
O peixe foi-nos fornecido por um habitante local que, quando lhe perguntei para que queria o dinheiro, me disse que queria comprar uma mulher nova que tinha dezasseis anos. Como ele era um homem já com mais de cinquenta, perguntei-lhe se ela não era nova de mais para ele, respondeu-me, que as duas mulheres que já tinha estavam a ficar velhas como ele e que tinha de arranjar outra, nova, para trabalhar.
Logo que chegamos, apareceu-nos uma rapariga a oferecer-se para lavar a nossa roupa, por pouco dinheiro. Demos-lhe logo a roupa para lavar. Era rapariga preta, nada bonita de cara, com um corpo de gazela, sem ponta de gordura. Tinha umas pernas que chamavam logo a atenção de quem as vias, realçadas por uma saia curtinha que o traseiro não deixava encostar às pernas. Usava uma camisa, também curtinha, que os peitos levantados impediam de fechar o caminho até eles. (Um dia, estava sozinho no quarto, ela apareceu a buscar a roupa para lavar. Viu umas fotografias que tinha na cama e perguntou-me se podia pegar nelas para as ver. Disse-lhe que sim e convidei-a a sentar-se na beira da cama e ela sentou-se. Sento-me também ao lado dela e pousei a minha mão na sua coxa. Como ela não reagiu a mão subiu pela perna passou pela barriga entrou por baixo da camisa e foi encontrar as mamas e depois ao mamilos. Acariciei tudo durante algum tempo. Até que, fiz um pouco de força e ela caiu sobre a cama. Preparava-me para ir mais longe, quando ela se levantou, sem dizer nada, pegou na roupa e foi-se embora. Foi a única vez que toquei numa rapariga preta). Lavou-me sempre a roupa enquanto lá estivemos.
Começamos por fazer umas patrulhas pelas redondezas que, praticamente, era só floresta. A primeira patrulha que fiz foi por uma picada que devia ir dar à Barragem de Cambamba. Tínhamos percorrido pouco mais de 20 quilómetros quando notamos que o motor aquecia demasiado. Paramos para ver o que se passava e verificamos que não tinha ponta de óleo no cárter. Estava roto e não nos tinham avisado. Ao lado da picada havia uma pequena sanzala e estava um homem sentado à entrada duma cubata. Dirigi-me a ele e pedi-lhe para nos ajudar a retirar o carro do meio da picada, pois dois de nós já tinham ido a pé para a Muxima a pedir ajuda e os que ficaram não conseguiam empurrar o “Unimog” sozinhos. Ajudou-nos e conseguimos retirar o carro da picada. Os homens que foram em busca de auxílio, pelo caminho, encontraram o Alferes Miranda que vinha de “JJep”, trouxeram óleo e regressamos.
Na Muxima passava o tempo na margem do rio a pescar e a nadar. À noite íamos até ao BAR do hotel, conversávamos e bebíamos umas cervejas.
Um dia parou lá um barco onde vinham dois homens novos. Conversamos uns com os outros e soubemos que tinham uma fazenda junto ao rio vários Klm. a montante dali. Convidaram-nos a visita-los.
Certo dia fomos lá, a minha secção e outra, não me lembro qual. Era sempre mata até lá. Pelo meio atravessamos uma grande plantação de palmeiras onde trabalhavam vários homens, todos pretos. A meio da plantação deparou-se-nos um monte enorme de cascas no cimo do qual se via um barracão. Paramos e vimos descer de lá um homem que, se não fosse estar tão sujo, eu diria ser um gorila. Era um branco, o único branco que havia lá, com uma enorme barriga, o cabelo e a barba a muito tempo por cortar. Era ele quem dirigia a plantação, que pertencia a uma empresa cujos donos se encontravam no “puto”, e tratava da máquina que havia lá. Deixamos a plantação e prosseguimos a viagem, sempre através da mata. Chegamos. Uma grande porta em madeira que logo se abriu, dava para um grande pátio. Do lado direito ficava a casa, que tinha uma varanda, para onde os dois irmãos nos levaram. Havia outras, mais pequenas, do lado esquerdo que eu supus serem dos trabalhadores. Apresentaram-nos a uma irmã. Rapariga nova “cabrita” como eles. Ofereceram-nos de comer e umas cervejas. Acabada a visita, que durou pouco tempo pois tínhamos que regressar, partimos a caminho de Muxima.
O tempo ia passando. Pescar, tomar banho no rio, ir até ao BAR do hotel e de vez em quando dar um “passeio” poder-se-ia considerar umas autênticas férias.
Num sábado à noite, os pretos, rapazes e raparigas, organizaram um baile no adro da igreja. Não tinham qualquer instrumento de música, apenas cantavam as modas locais. Ao ouvir, os soldados dirigiram-se quase todos para lá. A dança consistia numa roda em que todos seguiam em fila ao compasso do merengue que cantavam. Os soldados procuraram logo integrarem-se na roda colocando-se cada um a traz duma rapariga. Tudo corria bem se não fosse encostar-se demasiado às raparigas. Tanto que elas sentiam bem o encosto deles no traseiro. Quem não estava a gostar nada eram os pretos. A situação estava a ficar explosiva. As raparigas, sentiram o problema, e afastaram-se deixando os soldados a dançar sozinhos. Ainda cantaram algumas cantigas do continente mas, como ninguém se interessou, acabou tudo.
Aproximadamente, 30 dias duraram as “férias”. Chegou nova ordem. MANDARAM-NOS (desta vez) PARA CATETE.
 
Miranda
 
 
          
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Norte de Angola 1962 Nasce PANGALA (J.E.Tendeiro)

 

 

 

v

Norte de Angola – Pangala – 1962
 
Quarenta anos passados, as recordações são difusas, imprecisas. Mas, uma fotografia, tem o condão de, pouco a pouco, fazer emergir recordações, pormenores esquecidos e de nos recolocar naquele tempo e naquele cenário.
 
 
Depois de encontrarmos a casa com telhado de zinco que nos servia de referência para a instalação do acampamento, foi necessário muito trabalho para dar um mínimo de conforto aos militares.
Assim, a par das patrulhas de reconhecimento e segurança que desde o primeiro dia foram realizadas, todo o pessoal disponível se dedicou a limpar o terreno para instalação do acampamento e também para garantir campos de tiro. O IN rondava por ali, embora oculto.
Limpo o terreno, e a foto documenta essa primeira fase, a casa de referência foi considerada instalações do Comando – comando operacional e administrativo – e aí os oficiais organizaram os seus dormitórios. Num pequeno corredor instalou-se a cantina que vendia produtos trazidos de S Salvador: bebidas, muita cerveja, tabaco, bolachas e pouco mais. Num dos extremos, num pequeno espaço, instalou-se a enfermaria.
Os sargentos “acomodaram-se” na tenda dos primeiros socorros, a enfermaria de campanha, instalada à direita da “casa do comando”. Os restantes militares tinham as suas tendas individuais e toscas barracas feitas com chapas de zinco, muitas delas recolhidas em duas sanzalas próximas – Pangala, a norte e Congo di Cati, a sul, a caminho de Cuimba, antes do rio Lucage.
Ultrapassada esta primeira fase de acomodação precária e criação de segurança, iniciou-se a construção do acampamento.
Delineado o projecto, tornavam-se necessários os materiais.
Iniciou-se o fabrico de adobes em formas toscas de madeira e procedeu-se à recolha de outros, muitos, nas sanzalas abandonadas.
Os atrelados das GMC e dos Unimog chegavam carregados e os mais hábeis “assentavam tijolo”. Ao fim de cada dia contemplávamos com orgulho mais uma parede levantada.
Das árvores abatidas fizeram-se estacas para suporte do arame farpado delimitando o perímetro do acampamento em construção e traves que serviriam depois para suporte dos telhados.
A primeira construção concluída, à esquerda da “casa do comando” – à direita na foto -- foi a “casa das transmissões ( posto de rádio, centro de mensagens e arrecadação de materiais). Inicialmente coberta com toscas chapas de zinco recuperadas, foi depois dotada com um belo telhado.
O posto de rádio e o centro de mensagens, contíguos, faziam entre si um ângulo de noventa graus e o sargento de transmissões, com a colaboração dos “seus” militares criou nesse espaço um “hall”de que todos se orgulhavam e que, em dias de chuva, permitia fazer transitar o serviço de um lugar para o outro sem que os papéis se molhassem.
 
 
 
 O "famoso" hall das transmissões
 
 
Também a arrecadação mereceu cuidados especiais de acabamento pois que aí seria instalado o “laboratório fotográfico de campanha” do Ribau, do qual viriam a sair a maior parte das fotografias que hoje nos trazem estas recordações. (…)
 
J. Eduardo Tendeiro
 
 
publicado por gatobranco às 15:14 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 01.11.08

E M C A B O L E D O (J.E. Tendeiro)

 

 

                                                                    NA PRAIA

 

Depois De Pangala – com o seu cortejo de frustrações, tensões indescritíveis, dor pela perda de amigos, sofrimento – e de ter passado por um serviço de prontidão em Luanda, com a angústia latente de ser chamado a qualquer hora para qualquer local para intervenção armada, como prémio (?) de tanto esforço, a Companhia de Caçadores Especiais nº 336, a nossa Companhia, foi mandada para Cabo Ledo, para instalações próximas da exploração de petróleo da Petrangol.
Instalados em pré-fabricados de razoável qualidade, com energia eléctrica fornecida sem racionamento pela Petrangol, sem carência de víveres, com facilidades de caça concedidas pela reserva da Quissama e sem problemas de insurreição na zona, a vida dos militares rapidamente entrou numa rotina  aprazível, mas a breve trecho saturante.
O pelotão destacado na Muxima, nos momentos de maior tédio, era invejado. Tinham contactos com a população local e sentiam-se úteis contrariamente ao que sucedia com os que ficaram em Cabo Ledo numa ilusória missão de segurança das instalações petrolíferas.
Na base da falésia em que fora construído o aquartelamento estendia-se um longo areal a perder de vista para o sul – a Praia de Cabo Ledo.
Quase diariamente, uma GMC, outras vezes um jeep, levavam um grupo de militares para passarem uma manhã ou uma tarde na praia. Eram momentos de descontracção com a actividade física lúdica a sobrepor-se às más recordações muito vivas ainda na memória de cada um. Crianças grandes a divertirem-se na praia, era o que qualquer um, no alto da falésia podia pensar.
Mas, quantas vezes, aquelas crianças grandes, caíam em si e, alongado o olhar para o horizonte daquele mar que, esperavam, um dia os levaria de volta aos seus lares, se aquietavam vergadas pelo peso da saudade.
Era um mal que rapidamente se espraiava pelo grupo e, de cabeça baixa, demandavam as viaturas. Ali, já não se sentiam bem.
                                                        
                                                              J. Eduardo Tendeiro (Memórias)
publicado por gatobranco às 11:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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