Terça-feira, 31.03.09

PRIMEIRA MISSA EM PANGALA

 

 

De Cuimba, do Comando do Batalhão, chegou o Padre Arnaldo.

Pessoa afável, de olhar sereno, seguro das suas convicções, não teve qualquer dificuldade em captar a nossa simpatia.

O serviço religioso foi breve. Antes, houve quem se quisesse confessar para participar na eucaristia daquela celebração em terras perdidas do Norte de Angola.

Deus nem sempre foi o melhor letinitivo para a dor que nos perseguia e o porquê martelava-nos insistentemente.

À noite, depois de ter jantado com os oficiais, foi seroar com os sargentos. A despeito de a conversa ter sido diversa e muitos os temas abordados, a dúvida sobre o Deus todo poderoso que permitia aquela matança em que estávamos envolvidos e tantas outras pelo mundo fora, teve expressão. O Padre Arnaldo, acossado pelos mais violentos, com humildade declarou apenas:

"Quem sou eu para vos responder? Também me interrogo, mas creio Nele e por Ele estou aqui convosco!"

Nos momentos mais difíceis da minha vida, longe de Pangala, há muito tempo, há dias, ontem, hoje, estas palavras do Padre Arnaldo perseguem-me e como eu gostaria de ter a sua Fé.

 

J.Eduardo Tendeiro  Covilhã, Março/09

 

publicado por gatobranco às 12:05 | link do post | comentar | ver comentários (1)

A ronda

 

 
 
A ronda
 
O primeiro posto de vigia situava-se muito próximo do dormitório
dos oficiais, rente à janela do quarto individual do comandante
de companhia. O militar de serviço, o mil e doze, veio ao meu encontro e antecipou a resposta à pergunta habitual:
            -Está tudo calmo!... Só há ali— apontou para os lados da porta norte—um “filha-da-puta” dum pássaro que chateia. Há mais de uma hora que está a piar... até já lhe enfiei com umas pedradas, mas com uma rajada calava-o de vez.
            -Nem penses! — Admoestei sisudo— se acordas o nosso capitão por causa dum pássaro, vais ficar de serviço o resto do mês. Deixa lá o pássaro. Sabe-se lá se não está a chamar uma fêmea...
--Já me tinha lembrado disso, deve ser um “noitibó” a desafiar a pássara. E, se calhar, vai ter sorte—concluiu carrancudo.
-E tu com inveja, não?...— retruquei insidioso.
 Olhou-me com um sorriso luminoso, os olhos a brilharem no escuro da noite, numa antecipação de prazer:
-Ai não, que não tenho!... Já nem me lembro como é uma mulher de pernas abertas!...
--Eu arranjo-te uma fotografia, queres? — Propus com ironia.
-Enquanto não for a S. Salvador... não deixa de dar jeito...
-Vê se te lembras de levar uma “camisa”, para não andares depois a correr para a enfermaria! — Aconselhei afastando-me.
O posto de vigia seguinte tinha sido construído sobre a forquilha de uma árvore decepada. A plataforma rudimentar fora posteriormente blindada com chapas de bidons abertos, reforçados com pranchas de madeira pela parte interior do abrigo. Meia dúzia de sacos de terra pretendiam formar algumas seteiras a duzentos e setenta graus. O acesso inicial, uma tosca escada, era feito então por algumas travessas pregadas directamente no tronco da árvore. Arrastando os pés, chamei a meia voz:
-Sentinela
-‘tou aqui!—respondeu o “Rela”—suba.
            Empurrando a FBP para as costas, trepei as toscas escadas e penetrei no acanhado espaço da "torre de vigia" do sul. O soldado, embrulhado no seu poncho, deslizou sobre a tábua que servia de assento num convite mudo para que me sentasse. Aceitei. Virados para a picada que morria na porta sul e que renasceria do outro lado do acampamento, em direcção a Buela, com os contornos da Canda atrás de nós difusamente recortados no céu estrelado, inquiri:
            -Como vai isto?
            -Bem... Só há ali um sacana dum pássaro que está a pedir uma rajada...
            -Nem penses, pá. O mil e doze já lhe atirou umas pedradas mas volta sempre ao mesmo. Parece que está a chamar uma fêmea...--insinuei átona.
            Mas o “Rela” não reagiu como o anterior. Limitou-se a encolher os ombros e murmurar um "Se calhar"...
            O rectângulo quase perfeito que o acampamento desenhava, com as quatro casernas, uma por pelotão, a casa do comando e a camarata dos sargentos, a cozinha e o paiol a marcarem dois dos vértices, o nosso posto de vigia e os telheiros da secção auto a delimitarem os restantes, com uma cerca dupla de arame farpado, envolvendo o conjunto a cinquenta metros de qualquer construção, espaço religiosamente capinado e iluminado enquanto o gerador funcionava, lembrava um tosco caixão onde mortos-vivos se acoitavam durante a noite e despertavam com a primeira luminosidade crepuscular.
            -Vou indo – comentei.
            Como se não me tivesse ouvido, o “Rela”, espreguiçando-se dentro do poncho, argumentou:
            -Sabe, meu sargento?... Esta torre faz mal à gente!...- parando o gesto de me levantar, voltei a sentar-me e olhei-o de frente, rodando a cabeça. Por cima do seu ombro, a picada para a água era uma chaga coleante na vegetação rasteira que teimava em crescer para lá do arame farpado - ... é má por duas coisas - prosseguiu a figura escondida no capuz da capa impermeável: primeiro, porque se os gajos nos quiserem atacar, aqui em cima, limpam-nos o sebo com uma simples rajada...
            - Esta blindagem é resistente, já foi testada! - Contrariei, mas não me ouviu.
            -O pior - prosseguiu lúgubre- é que, em noites calmas como esta, um gajo, aqui em cima, põe-se a pensar... é mau para a cabeça, cismam-se coisas... pensa-se nos que deixámos e não sabemos se voltaremos a ver... dá medo! – Era uma confissão sussurrada, quase inaudível.
            Um dos grandes silêncios que, misteriosa e inexplicavelmente povoam as noites africanas, como se a natureza, apiedada das fraquezas humanas, se recolhesse momentaneamente, encheu os nossos ouvidos.
            Angustiado, não querendo vergar-me na partilha de sentimentos comuns, articulei:
            -Família... namorada... tudo, não é? Tudo vem ao cimo nesta quietude!
            O capuz malhado oscilou na vertical acompanhando o gesto vigoroso da cabeça que abrigava.
           -É a minha noiva que mais me lembra! Tínhamos tudo preparado para quando saísse da tropa! O senhor Prior até tinha metido um empenho a um irmão coronel para eu não vir para a guerra!... Se calhar não meteu nada, foi só para consolar a minha Fátima, a minha noiva...
            -Deve ter metido, mas é tão difícil fugir a esta maldita guerra... – tentei animá-lo sem grande confiança.
-Vamos casar a Fátima...é promessa dela se eu voltar vivo!
            -Claro que voltas e, se me convidares, vou lá dar-te um abraço e um beijo à tua Fátima. Como é ela?
            A pergunta surtiu efeito contrário ao que pretendia.
            -É linda!... Os olhos dela...- a voz embargou-se num soluço contido e o poncho vergou-se para a frente, sacudido por uma dor incontrolada.
            Calado a seu lado, esperei que tudo passasse. O pássaro gargalhou para os lados da secção auto. No céu, um meteorito riscou na noite o seu percurso suicida. Com a mão pousada sobre o ombro do soldado, abanei-o lentamente, como se o embalasse:
          -Tens razão pá. Estas noites são tremendas para avivar saudades...
            Limpando os olhos com os dedos e transferindo parte das lágrimas para o cano da G3, confidenciou de novo:
            -É que eu tenho um mau pressentimento... eu não saio daqui vivo!
            -És parvo, pá -- cortei com veemência -- ninguém sabe o amanhã. Pois claro que podemos morrer, mas havemos de sobreviver.
            O meu interlocutor meneava a cabeça que emergira do capuz. Os olhos, brilhantes de lágrimas, captando o brilho das estrelas, ardiam como carvões soprados por brisa malévola.
            -Vai até à caserna, fuma um cigarro, bebe água e volta--comandei com ênfase.
            -Não é preciso - titubeou enquanto eu o empurrava para a abertura de saída.
            Sozinho na "torre sul", mais próximo das estrelas do que a quase centena e meia de mortais que jaziam nos catres espalhados pelo aquartelamento, encarei aquele céu desconhecido e de cuja protecção todos duvidávamos. Todos menos o padre, o nosso ingénuo capelão, que, nas suas homilias inflamadas, teimava em arengar que o Céu era o mesmo e que os anjos, santos e Deus que o povoam são omnipresentes. Omnipresentes? Sorri com amargura recordando o sempre invocado livre arbítrio para justificar as “falhas de Deus”. Rodei um pouco no assento. A picada da água gritava a sua nudez antes de inflectir para a esquerda e mergulhar no vale. De novo virado a poente, com a Canda à esquerda do ângulo de visão, deixei que os olhos se perdessem no céu, saltitando de estrela em estrela, sem qualquer preocupação de identificar constelações estudadas mas nunca antes observadas.
            (…)
            A torre oscilou com a chegada do soldado e duas estrelas cadentes, anormalmente longas, sulcaram o negro da noite, a par.
            -Na minha terra, diz-se que, se quando vemos uma estrela cadente, pedirmos um desejo, ele se realiza! — asseverou.
           -Pediste alguma coisa? --questionei-o severo.
            -Pedi pois, para voltarmos todos, para não haver mais mortos, para que só morram os cabrões que nos quiserem atacar...
            Deixei que o negro da noite me engolisse para não lhe responder que também queria o mesmo... só que éramos estrangeiros na terra daqueles cabrões que tinham todo o direito de nos quererem pôr dali para fora...
            Debruçado sobre a blindagem tosca da torre de vigia, chamou num murmúrio:
            -Meu sargento? -Olhei para cima - logo mostro-lhe um retrato da minha noiva.
(…)
            Quando acabei a ronda e demandei o bar que servia também de local de permanência do oficial de dia, o sol, acima do horizonte, retalhado e avermelhando tudo com o seu sangue espargido pelas nuvens, matas e picadas, reverberando nos telhados de zinco das nossas pobres habitações, faiscando lume no cobre das longas antenas filares, tentava recompor o seu disco para os lados de Cuimba. A poente, nuvens cinzentas, cor de chumbo, bebiam na orgia de sangue e tingiam-se também, preparando-se para, no fim do dia, servirem de sudário e talvez chorarem copiosamente o desaparecimento daquele tirano abrasador.
Do frigorifico retirei uma Coco-Pinha, mostrei-a ao oficial de dia que se espreguiçava a um canto depois de uma noite mal passada. Com um gesto, recusou a minha oferta e demandei a saída.
(…)
In” Delta Five Lima Alfa”, de J.E.Navarro
 
 
 
 
           
publicado por gatobranco às 11:55 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Segunda-feira, 30.03.09

Entrando na mata

 

 A guerra é desumana, cruel e obriga à tomada de decisões que marcam para o resto da  vida.

 vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv

 

A Mata
 
“Ela exerce um fascínio magnético como grande íman de polaridade descontrolada. Tem um efeito de atracção com a promessa de um pouco menos de calor no abrigo da sua sombra generosa, com a provável oferta de um manancial de água, mas sinultaneamente, produz um efeito contrário de repulsão criado pela obscuridade, pelo receio do desconhecido, pelo temor da emboscada.
A luz, mil vezes reflectida e filtrada pelas folhas, coleccionando pacientemente estranhos matizes, chega ao solo como manchas de caleidoscópio gigante que se esbate nas fardas camufladas dos intrusos e os dissimula, talvez a contragosto. A progressão do pequeno grupo de nomadização é lenta, cuidadosa por entre troncos majestosos ornados de musgos que se assemelham a cabelos desgrenhados, barbas esverdeadas e de cipós que flexíveis e laboriosos demandam a luz do sol, lá no alto. Menos exigentes, pequenas plantas rasteiras sobrevivem na penumbra e enleiam-se nas botas dos que avançam tensos, olhos semicerrados, bocas abertas, mordendo o ar húmido. Voluntários especializados, todos graduados, tentam quebrar a monotonia de uma guerra contra um inimigo invisível que põe minas, flagela de longe mas não dá a cara. É a guerrilha, eles sabem. Deslizam lentos como seda em corpo de mulher fremente. À sua frente, uma macaca surpreendida, aperta a cria contra o ventre e salta vertiginosa para o alto. Aí uma ave branca de longa cauda e bico de papagaio clama o seu protesto com um grito agudo, repetido, batendo as asas. Aquietada no ramo que escolheu, olhou para baixo e com a cabeça de lado, um olho virado para o grupo, mirou-os longamente. Mudou de ramo, talvez para melhor acompanhar a progressão dos intrusos. A mata, indiferente a esta violação, retomou a sua polifonia. Uma ligeira brisa agitou a copa distante das árvores, acrescentando mais um som ao coro imenso da natureza.
O da frente parou erguendo ligeiramente o braço. Depois, num gesto curto de convite, chamou para si os restantes  elementos. Apontou-lhes uma pequena clareira sombria à sua frente. Aí, o IN, onze elementos, comiam. A seu lado, velhas mochilas e sacos em mau estado pareciam cheios. Ao lado, duas armas automáticas e outras de repetição. Talvez um grupo de transporte de reabastecimento de víveres ou munições, quem sabe se minas…
Reunidos, iniciaram um diálogo gestual.
“Envolvimento e captura’” perguntou o da frente alongando os braços e estreitando-os contra o próprio peito
Cinco cabeças oscilaram uma negação e um, com o indicador em riste, contou-os a si próprios. “Somos poucos”…
Projectando os braços para a frente, dedos recurvados como garras, o comandante inquiriu:
“Assalto?”—a resposta tardou e veio de dois que com um veemente não formulado com o indicador a oscilar como se espantasse mosquitos, apontaram o terreno difícil que, na progressão, quebraria o factor surpresa .
O que convocara a reunião de mudos, olhando os outros, encolheu os ombros, apontou para a sua arma e descreveu com ela um leque abrangendo a minúscula clareira.
Como sinos tangendo requiem, no ar quente e bafiento cinco cabeças oscilaram a compasso.
Com um gesto largo, face crispada, apontou-lhes o caminho e com o olhar endurecido, num rictus de dor e determinação, seguiu-os até receber o sinal de prontidão de cada um.
Então, movimentando os dedos da mão direita num gesto de desentorpecimento, abarcou o punho da arma, afagou o guarda-mato, deixou o dedo resvalar para o gatilho numa carícia de morte; com a mão esquerda tacteou os ressaltos do guarda-mão como se procurasse as cordas do braço de uma viola, escolheu o alvo e, com um breve olhar para os companheiros, o coração oprimido, premiu o gatilho.
 
E a mata emudeceu num luto piedoso, mas breve. O pássaro branco de rabo comprido voltaria a fazer ouvir o seu protesto estridente. A cria da macaca largaria o aconchego do pelo do ventre da mãe e procuraria um ramo fino que os seus pequenos dedos pudessem abarcar e baloiçaria num equilíbrio incipiente. Pequenas aves, mais próximas do solo, ensaiariam novos cantos. O cheiro acre da cordite queimada desceria lento, quase discreto e seria absorvida pelo tapete de folhas mortas.
Mas, na pequena clareira daquela mata lá muito ao norte de Angola, os sinais de morte perdurariam por muito tempo.”
 
In “Delta Five Lima Alfa” de J. E. Navarro
publicado por gatobranco às 11:35 | link do post | comentar | ver comentários (3)

A PRIMEIRA ACÇÃO DE GUERRA

 

 

 

 

A PRIMEIRA PATRULHA 

 

 

O 3º.PELOTÃO RECEBEU ÓRDENS PARA SAIR. OS TRABALHOS DE GUERRA ÍAM COMEÇAR.
EQUIPADOS A RIGOR ONDE NEM O CAPACETE FALTAVA, CARTUXEIRAS À CINTA, RAÇÕES DE COMBATE NOS BOLSOS DAS CALÇAS OU DO CASACO (CABIA LÁ TUDO), CANTIL COM ÁGUA A TIRACOLO E ARMAS NAS MÃOS, ASSIM INICIÁMOS A PATRULHA. O PELOTÃO ESTAVA COMPLETO COM O OPERADOR DE RÁDIO E O MAQUEIRO, “REFORÇADO” COM A CADELA CAMATELA (NOME DA TERRA ONDE ELA SE JUNTOU A NÓS QUANDO VÍNHAMOS DO GRAFANIL). A DIRECÇÃO ERA NO SENTIDO DA ESTRADA CUIMBA/S.SALVADOR.
INICIÁMOS A MARCHA EM TOTAL SILÊNCIO. O CAPIM ERA MUITO ALTO, COBRÍA-NOS POR COMPLETO. SEGUÍAMOS A PÉ POR ONDE, DOIS DIAS ANTES, TÍNHAMOS PASSADO DE CARRO NA CHEGADA A PANGALA. NAQUELA ZONA NÃO HAVIAM MATAS JUNTO À PICADA, APENAS ALGUMAS ÁRVORES ISOLADAS. PERCORRIDOS OS 7 KLMS. QUE ÍAM DO ACAMPAMENTO AO CRUZAMENTO DA ESTRADA DE CUIMBA, ENTRÁMOS A CORTA MATO PARA OS LADOS DA CANDA. AO LONGE AVISTAVA-SE A IMPONENTE SERRA.
NAS PROXIMIDADES DA ESTRADA HAVIAM PEQUENAS SANZALAS. OUTRAS, UM POUCO MAIS DISTANTES, SITUAVAM-SE EM CLAREIRAS DENTRO DAS MATAS. TODAS HÁ MUITO ABANDONADAS. NO INTERIOR DAS HABITAÇÕES ENCONTRAVAM-SE CAMAS EM MADEIRA, QUE NÓS MAIS TARDE FOMOS BUSCAR E QUE SERVIRAM PARA DORMIRMOS DURANTE O PERÍODO QUE FICAMOS NA TENDA. ENCONTRÁMOS TAMBÉM OUTROS OBJETOS QUE ALGUNS DE NÓS ACHAVAM COM INTERESSE E METIAM NOS BOLSOS. MUITOS ESCRITOS, QUE ESTAVAM POR LÁ ABANDONADOS, DAVAM IDEIA DE QUE HAVERIA POR LÁ MUITA GENTE INSTRUIDA. TENTÁMOS LER ALGUMA COISA MAS ESTAVAM NUMA LÍNGUA QUE NENHUM DE NÓS CONHECIA.
SOBE ENCOSTA, DESCE ENCOSTA, NÃO SE VIA QUALQUER VESTÍGIO, DE “TURRAS” NEM SEQUER DE UM ANIMAL QUE ANDASSE POR ALI. AO FIM DO DIA, NUM PEQUENO PLANALTO, FIZEMOS OS PREPARATIVOS PARA PASSARMOS A NOITE. ESPALHADOS EM TODAS AS DIRECÇÕES COMEMOS AS RAÇÕES E, OS QUE NÃO ESTAVAM DE VIGIA, DEITADOS SOBRE A VEGETAÇÃO QUE NOS EVITAVA O CONTACTO DIRECTO COM A TERRA, OLHANDO AS ESTRELAS, PENSÁVAMOS NO “PUTO” E, CERTAMENTE, NO QUE TÍNHAMOS DEIXADO LÁ FICAR. VENCIDOS PELO CANSAÇO, ADORMECEMOS.
AINDA O DIA NÃO TINHA NASCIDO, SEM SER PRECISO CHAMAR NINGUÉM, ESTÁVAMOS TODOS PRONTOS PARA CONTINUAR. NUM OLHAR PELAS REDONDEZAS FORAM AVISTADAS GAZELAS QUE PASTAVAM NA ENCOSTA DE OUTRO MONTE. DERAM-SE ALGUNS TIROS SEM QUALQUER INTENÇÃO DE ACERTAR APENAS PARA VERMOS OS ANIMAIS AOS PULOS A FUGIR ASSUSTADOS.
O TRILHO QUE ÍAMOS SEGUIR AFASTAVA-NOS DA ENCOSTA DAS GAZELAS. DESCÍAMOS PARA UM VALE ONDE SE AVISTAVA FLORESTA. À MEDIDA QUE NOS APROXIMAVAMOS A MATA PARECÍA-NOS FECHADA. EM FILA INDIANA PENETRAMOS MATA DENTRO. O TRILHO POR ONDE SEGUÍAMOS TINHA ERVA E ERA CRUZADO PELOS RAMOS DE ÁRVORES E ARBUSTOS COM SINAIS DE HÁ MUITO TEMPO NINGUÉM PASSAR POR LÁ. CONTINUAVA A NÃO HAVER QUALQUER VESTÍGIO DA PRESENÇA DE “TURRAS”. CHEGÁMOS À ESTRADA QUE SEGUIA PARA S.SALVADOR E TOMAMOS O SENTIDO DE CUIMBA PARA, NO CRUZAMENTO VIRARMOS À ESQUERDA NA DIRECÇÃO DE PANGALA.
NÃO ME LEMBRO DE QUALQUER DIÁLOGO QUE TENHA TIDO COM ALGUÉM, MAS RECORDO UMA EXPRESSÃO DITA PELO JAIME A PROPÓSITO DO CANSAÇO QUANDO O CAMINHO ERA A DESCER “MEU FURRIEL, CAMINHAR NÃO CUSTA NADA É SÓ MANDAR O PÉ P`RA FRENTE"

 

MIRANDA.


publicado por gatobranco às 10:35 | link do post | comentar
Segunda-feira, 23.03.09

C O B R A S

 

 

 

 

 

 

Este será o "animal" que o Ribau e o Marques Alves estão a disputar entre si.

Garantem que se trata de "animais" diferentes, em diferentes circunstâncias.

Acabarão por se entenderem, não tenhamos dúvidas.

Pela minha parte, atendendo à paisagem e ao vestuário, ambas (se de mais que uma se trata) serão de Pangala.

 

Se algum dos leitores destas memórias tiver algum elemento que possa ajudar nesta contenda, agradece-se que informe.

 

Até lá fica a certeza de que eram grandes bichos.

 

(J. Eduardo Tendeiro)

 

publicado por gatobranco às 09:48 | link do post | comentar | ver comentários (3)

mais sobre mim

pesquisar neste blog

 

Março 2009

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
29

posts recentes

comentários recentes

  • Tanto que lutou pela vida! Lá longe, há muito temp...
  • È verdade, já lá vão cinquenta anos mas está sempr...
  • Nos meus "apontamentos" alguém conversou com Deus ...
  • Esta faz-me recordar a escolta, a uma coluna de re...
  • PRIMEIROS MOMENTOS DA "ETERNIDADE" QUE NOS ESPERA...
  • Sabes?Andar à roda pode ser uma boa t+ecnica para ...
  • Com que então, o amigo Tendeiro perdido no meio de...
  • Não posso precisar o dia mas, faz este mês de Març...
  • Naqueles tempos, só nos restava sonhar com aquilo ...
  • Naquele tempo sem futuro, os sonhos projectavam-se...

Posts mais comentados

arquivos

subscrever feeds

blogs SAPO