Domingo, 31.05.09

Pesadelo

 

 

 

 

Aos que, ainda hoje, sentem aquela guerra, lá tão longe, tão perto de si.
 J. Eduardo Tendeiro
 
 
Pesadelo
 
 
 

O reconhecimento aéreo teimava que existia uma picada escondida no capim alto, com início ( ou fim) na estrada para S .Salvador.
Já dois pelotões tinham feito o reconhecimento, mas de picada, nada. Mas, quando uma noite, um dos sentinelas do lado sul, empoleirado no seu posto de vigia, viu “uma luz” em movimento, longe, já na estrada de S. Salvador - Cuimba, a informação do reconhecimento aéreo tomou nova credibilidade e, no dia seguinte, o terceiro pelotão,  que ainda não se tinha dedicado à procura de dita picada, meteu mãos à obra. Fazia parte da missão a detecção da picada, o seu reconhecimento e, ainda, a análise do terreno para uma eventual emboscada nocturna.
Saíram cedo. O alferes queria “todo o tempo do mundo para encontra a merda da picada que já cheirava mal”.
 
Perto das onze, um coro de assobios com várias modulações irrompeu dos altifalantes do posto de rádio da Companhia e o telefonista do pelotão em missão atroou os ares com o seu chamamento: “ Casa, casa, rato chama!” – código estúpido estabelecido para aquela missão – repetiu-o desnecessariamente várias vezes e só então deu azo a que o telefonista da base respondesse um lacónico “Aqui casa, escuto”.
A voz do alferes, perpassada por alguma euforia mandou avisar Charlie Mike – o Comandante da Companhia – de que o objectivo estava localizado e ia dar continuidade à operação.
Charlie Mike estendeu por bem não comentar e os alferes dos outros pelotões, os que tinham falhado nas pesquisas anteriores, fizeram sorrisos amarelos – questão de sorte, todos sabemos que é assim.
 
No terreno, a famosa picada não era mais que um ténue carreiro, por vezes um túnel, serpenteando por entre o canavial de capim alto e de caules grossos. Não passava mais que um homem de cada vez e parecia haver o cuidado de não o alargar. Efectivamente, só o reconhecimento aéreo o poderia ter detectado. Em fila indiana, gerida por secção, o pelotão iniciou a sua exploração com muito cuidado.
Alguém sussurrou: “Se os gajos nos estão a ver, basta-lhes um fósforo para ficarmos aqui assados que nem porcos…”
“Fecha a boca e aperta o cu para não te cagares de medo” – foi a réplica que outro lhe endereçou.
“Cheira aqui mal… o gajo já se borrou!”
O cenho franzido do furriel com um dedo sobre a boca, impôs silêncio.
Uma hora depois, com uma mata à vista para a qual parecia que o carreiro se encaminhava, atingiram uma pequena clareira. No chão terroso, havia vestígios de gente calçada e descalça. Um tronco derrubado parecia ter servido de assento. Mais ao lado, uma pedra grande dava algum abrigo do sol impiedoso.
“É aqui que os gajos descansam”
“Ou se juntam!”...
“Também pode ser”…
Da confabulação do alferes com os chefes de secção, acordou-se que iriam avançar um pouco mais, mas a entrada na mata foi vetada por unanimidade.
Tratava-se de encontrar referências no terreno para futura missão e, como tal, aproximaram-se cuidadosos da mata, tentando encontrar um curso de água ou qualquer outra referência evidente para a continuidade da operação, talvez com mais efectivos.
O “Reguila”, um cabo que carregava a bazuca, murmurou entre dentes “ Pois claro, eles vão ficar à nossa espera”.
Mas não esperaram. A primeira rajada estrondeou por entre o capim, nas suas costas, muito baixa, sem atingir ninguém. A resposta não se fez esperar mas teve o condão de desencadear fogo do lado da mata.
Entalados entre dois fogos, as secções manobraram em acções de recuo em direcção ao terreno rochoso, em busca de abrigo. Por entre os tiros de armas de repetição, ouvia-se com frequência alguma rajada dando a entender que o atacante tinha armas automáticas.
O fogo do lado da mata, a mais de cem metros, era pouco significativo e as secções, atingido o terreno rochoso, abrigaram-se e começaram a responder sistematicamente. As G3 abriam estradas no capim e foi possível ver movimentos que denunciavam o atacante que se aproximava.
O alferes conferenciou com um furriel e, por sinais, uma secção foi deslocada em arco, numa manobra de envolvimento.
Mas o Sabugo, correndo em campo aberto, trambolhou e gritou de dor agarrado a uma perna. No sítio onde ficara ia ser peça para tiro ao alvo.
Foi então que o furriel Jota berrou “Cubram-me” e logo que a fuzilaria começou, saltou do abrigo e, em ziguezagues de louco se aproximou do ferido, o carregou ao ombro e regressou com ele a salvo.
 
“Porra, pá! Vai berrar para outro lado! Eu quero dormir! Vê se te acalmas!”
Jota, enrolado na cama desfeita, encandeado com a luz, olhava o companheiro de quarto de olhos dilatados, com dificuldade em se situar.
Mais conformado, o que antes se irritara, com uma ponta de compreensão na voz, retomou:
“Estás encharcado em transpiração! Vai tomar um banho, engole aí um Valium e vê se descansas.” – Preocupado, quis confirmar – “ É aquela emboscada, não é?”
Nu e trémulo, Jota, a caminho da casa de banho, aquiesceu com a cabeça.
Estendendo o braço e aplicando uma palmada de amizade na omoplata do amigo, lembrou-lhe:
“Salvaste a vida ao Sabugo, foste um herói…”
Sem reagir, fechou de mansinho a porta da casa de banho e abriu o chuveiro. A água arrastou consigo o sabor amargo das lágrimas.
 
(Relato ficcionado)      “Memórias 62/64”
 
publicado por gatobranco às 15:14 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Terça-feira, 12.05.09

A fazenda do Pai do Fernando

 

 

 

                         A FAZENDA DO PAI DO FERNANDO
                                                                                                  
 
No fim daquele dia, recebemos uma boa notícia.
-Amanhã vamos almoçar à Fazenda do Pai do Fernando, diz-nos o Alferes. Vão dois Unimogues e o jipe. Temos de estar lá antes do meio-dia.
 
Sempre tínhamos ouvido falar daquela fazenda. Todas as semanas o Fernando (rapaz ainda novo), passava pela Muxima, atracava o seu barco no cais, indo sempre perguntar se era necessário alguma coisa de Luanda.
Era ele que fazia o transporte de tudo o que a fazenda necessitava, e de tudo o que a fazenda produzia, de e para Luanda.
Tinha um barco em chapa de ferro, já com um certo arcaboiço ao qual tinha aplicado um motor e servia-se do Rio Quanza para aqueles transportes.
Carregava o barco na fazenda, e seguindo pelo rio abaixo, atracava na Fazenda “Bom-Jesus”, onde tinha uma camioneta de carga que transportava tudo para Luanda, onde era vendido no mercado.
No regresso trazia as encomendas para si, e para quem tivesse pedido, voltava a atracar, desembarcava o que tinha a desembarcar, e seguia viagem até ao destino. Rapaz simpático, de poucas falas, mas sempre pronto a ajudar quem precisava.
     
                          
 
                                                         O barco do Fernando na Muxima
 
A fazenda não era muito longe da Muxima. Seguimos pela estrada que leva a Novo Redondo e cerca de uma hora depois viramos à esquerda. Era aquela a "estrada" que nos levaria à Fazenda.
Mais adiante começou a ouvir-se um ruído diferente do dos motores das viaturas.
Que diabo seria aquilo no meio de uma plantação de palmeiras?
Bem, o Alferes ia à frente era a ele que competia indagar! Seguimos, até que passado pouco tempo vemos á esquerda da estrada uma espécie de instalações em madeira, que, pelo seu aspecto, deviam ter largos anos de vida. Ficavam num alto. Era de lá que vinha o tal ruído. Era uma pequena fazenda, que se dedicava à exploração de óleo de demdem. Parámos!
Os pretos, funcionários da exploração, pediram-nos para esperar, que o patrão já vinha… (Nós foi chamar o patrão que estava do outro lado) querendo dizer que estava longe…
Enquanto esperávamos íamos observando, no meio do palmar um pequeno
armazém de madeira, um "telheiro" que resguardava as máquinas das intempéries, e uma quantidade de bidons que serviriam para guardar o óleo.
Entretanto chega o "branco" o encarregado da exploração. De corpo forte, embora não fosse muito alto, barriga proeminente, descia apressado para a estrada onde nos encontrávamos. O seu aspecto era o de quem não via higiene há muito tempo! Ou talvez não; Talvez aquele sol de Africa lhe tenha escurecido a pele, e o óleo, as roupas.
Chega-se junto ao Alferes, abraça-o com força, e põe-se a chorar copiosamente!
-Oh meu Alferes, há tanto tempo que não via um branco…  
- Então o Fernando não passa por aqui, perguntou o Alferes?
- Não ele faz as suas viagens sempre pelo rio. É mais rápido e menosperigoso.
Era afinal um rapaz dos seus trinta e poucos anos, embora o seu aspecto deixasse transparecer muito mais.
Contou então que era da região de Almeirim, que tinha sido forcado de toiros, do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca. Tinha feito a tropa e emigrado para Angola. Depois de diversos empregos em diversas cidades, resolveu ir para o mato onde se ganhava mais, indo parar aquele local, havia já uns anos.
- E como foi durante as makas de 1961, perguntou-lhe o Alferes?
- Nós tivemos sorte, assim como os pais do Fernando. Como nos dávamos bem com os assalariados negros, e as nossas fazendas ficavam fora da estrada principal, nunca fomos incomodados.
Despedimo-nos e seguimos viagem. Estávamos perto do nosso destino.
 
Chegados, fomos apresentados à família.
- O pai, casado com uma senhora preta, tinha três filhas e dois filhos. O terreiro onde se encontravam as habitações era ladeado num dos topos pela habitação da família, no outro lado estavam as habitações dos serviçais.
No centro do terreno havia uma grande e frondosa árvore debaixo da qual tinham montado uma mesa extensa, com toalha, um prato e um garfo para cada militar!
Olhei aquilo e pensei como já havia pensado, que aquela era uma família portuguesa como deviam ser as famílias portuguesas em Africa.
Íamos conversando e aguardando a hora do almoço. Que nos iriam oferecer para o almoço? Há que aguardar!
 
Chegaram dois panelões cheios de comida, que foram postos em cima da mesa. À ordem de avançar cada qual servia-se do panelão e sentava-se à mesa. Arroz de pato. Estava cheiroso e sabia bem, com os condimentos africanos que lhe haviam juntado. Uma maravilha.
É que nós, como normalmente, esperávamos uma churrascada, que era a refeição normal naquelas paragens, por ser a mais fácil de confeccionar.
 
Melhor assim…
 
O pai do Fernando vendo a nossa satisfação, também ele se sentia feliz. Notava-se, e começou a contar histórias da sua mocidade. Estava, pareceu-nos a “desabafar”.
 
Nisto, o “Bifanas” lembrou-se também de contar uma história da sua mocidade…
E dirigindo-se ao pai do Fernando:
-O Senhor sabe qual era a minha profissão quando era novo?
-Estás velho estás… diz-lhe a pai do Fernando. Qual era?
-Empregado de mesa, diz-lhe o Bifanas.
-E então que tal? Davam-te muitas e boas gorjetas?
-Era conforme o cliente. Se era bom dava uma boa “gorja” e eu agradecia.
-Se era um cliente forreta e só dava uma moedita, eu punha-a na bandeja e fazia com o braço o gesto do “queres-fiado-toma”. A moeda ia cair direitinha no bolso da camisa. Eu nem lhe agradecia…
 
O pai do Fernando desatou a rir às gargalhadas com a piada. Apareceu-lhe um adversário à altura e ele sentia-se feliz.
 
Ao meio da tarde regressámos à Muxima.
 
A. Ribau Teixeira
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                      
publicado por gatobranco às 11:21 | link do post | comentar

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