Segunda-feira, 22.06.09

A caçada

 

 

                          A caçada          
 
Tínhamos ida há uns dias fazer uma patrulha para a reserva de caça, quando nos apareceram os guardas da reserva a chamar-nos a atenção de que não poderíamos andar por ali, que aquilo era uma reserva de caça, e só eles estavam autorizados a patrulhar aquela zona…
O Sargento Miranda que comandava a patrulha, ficou perplexo e disse-lhes:
- Os senhores fazem o serviço que lhes está atribuído, que nós fazemos o nosso!
O que parecia ser o chefe da patrulha dos guardas da reserva ainda tentou ripostar, mas o Miranda já irritado, perguntou-lhes:
Digam-me só o que é quer vocês querem esconder da tropa? Se não disserem, nós procuramos, e vimos à reserva quantas vezes julgarmos necessárias, e não mais admitimos intromissão no nosso serviço. Os da reserva retiraram e não mais nos incomodaram.
O Alferes Miranda tomou conta da ocorrência.
 
Hoje o cozinheiro avisou-o de que já não havia carne para confecção das refeições.
O Alferes chamou o Sargento Miranda que era homem que gostava de caçar, mandou-o preparar um unimog e o Jipe que tinham de ir fazer uma patrulha na reserva. Havia sempre voluntários para estes serviços. Eu e o Costa Pereira ficámos na Muxima. Eu dirigi-me para o cais de embarque, mesmo junto da água, onde sempre fazia mais fresco. O Costa Pereira ficou-se pela caserna. Iria, pensei eu, proceder a mais uma das suas hibernações rápidas!
O tempo ia passando, o nada fazer também é incómodo. Havia militares que arranjavam uma cana com um fio atado na ponta, e entretinham-se a pescar, outros conversavam, outros ainda escreviam à família…
Vi passar um Jipe com civis em direcção sul, coisa que não era normal por aqueles sítios. Parou em frente à nossa caserna – lá se vai a hibernação do Costa Pereira, pensei­!
Entretanto chega a patrulha que tinha ido para a reserva. No unimog vinha um magnífico exemplar de Cefo, que se havia atravessado em frente da viatura…
Já havia carne fresca!
Descarregado, logo o Miranda especialista na matéria, tratou de o desmanchar e preparar.
O pescador que normalmente nos fornecia o peixe tinha chegado e ajudava no serviço. Ao ver que o Miranda mandou deitar as tripas ao rio gritou:
- Meu furriel, não deita o melhor do animal fora… olhámos espantados.
- Para que queres as tripas?
- Para a panela. É a melhor parte do animal!!!
E exemplificou dirigindo-se ao rio:
-Lava-se a tripa no rio, passa-se entre dois dedos ( e fez com os dedos o sinal de vitória), e põe-se na panela. Ferve-se e está pronta a comer…
Nisto chega o Costa Pereira a avisar o Alferes de que tinham estado com ele caçadores de crocodilos, tinham -lhe mostrado a licença de caça e indicaram-lhe a direcção para onde essa noite iriam caçar. Se a tropa ouvisse tiros que ficasse descansada, pois eram eles.
Já tinha avisado o resto da "malta".
Afinal o Jipe de civis eram os caçadores.
 
 
E o tempo seguia lento. Nada de anormal. Uma volta pela povoação, que ocupava pouco tempo. Uma ida até à fortaleza, e isso já era um caso mais sério. A fortaleza ficava numa elevação muito íngreme, e era necessário andar à volta, por caminhos de pedra, até chegar lá acima. Mas valia a pena. Conversava-se um pouco com a malta das transmissões, dava-se uma volta pela fortaleza, que, tendo sido muito importante na época da colonização, pois servia de defesa ao rio e para montante da Muxima não havia inimigo ou caravela que conseguisse passar. Agora eram só paredes no ar, com excepção de algumas guaritas que serviriam de abrigo ao pessoal que estivesse de serviço.
 
Mas porque quereria o inimigo passar alem da Muxima? É que para montante haviam minas muito ricas de vários metais. Uma caravela que conseguisse chegar lá e carregar com esses metais, traria uma grande fortuna.
 
Descia até à povoação, quando ouvi pessoas a vociferar para o lado do Hotel. Dirigi-me para lá e vi quatro homens a saírem do Hotel, brancos, aos berros com a dona do Hotel.
Estavam irritadíssimos!
Aproximei-me e tentei saber o que se tinha passado:
-Chegámos de madrugada, e tínhamos pensado dormir no Hotel, diz-nos um. Batemos, batemos e ninguém nos abriu a porta.
-Tivemos de dormir no Jipe, o que não foi nada agradável…
-Pois. Deviam estar a dormir e não ouviram, disse eu tentando amenizar o ambiente.
-Mas deviam ter alguém alerta! Gritou o mais irritado.
Ainda me lembrei de perguntar se tinham marcado dormida… mas fiquei calado ao lembrar o local onde nos encontrávamos.
Os quatro tomaram o pequeno-almoço, pagaram e seguiram viagem. Iam seguir pela Quissama e perto do Cabo Ledo atravessariam o rio em direcção a Luanda, num batelão que servia para essas travessias.
 Entretanto o Alferes Miranda chega e quis inteirar-se do que se havia passado. Foi-lhe contada a história. Ao perguntar quem eram os passantes foi-lhe informado que eram técnicos da Junta Autónoma das Estradas de Angola, e que deveriam vir de Novo Redondo, com destino a Luanda
 
 Por experiência própria, pensei como deveria ter sido desagradável a noite passada na viatura, especialmente para pessoas que estariam acostumadas a dormir em cama fofa.
É a vida, calha a todos.
E nunca mais se fala do nosso regresso à Metrópole. Já passaram os dois anos e meses e nada!
 
                                                           
 

A: Ribau Teixeira

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Sábado, 20.06.09

O outro lado da patrulha

 

 
(…)
 
O Costa Pereira discutia com o comandante do pelotão: pretendia que o pessoal saltasse das viaturas em andamento. O comandante, mais comedido, contrariava-o:
--Não vale a pena, pá. Vamos fazer isso ainda com luz e se eles nos estão a espreitar, tanto dá saltar em andamento como parar as viaturas por breves segundos. Assim ninguém se aleija.
Vencido mas não convencido, o comandante de secção demandou os seus militares e inspeccionou-os sumariamente. – Não quero nada que faça barulho. Levam só o indispensável. Os cigarros… é melhor ficarem cá.”
            O pelotão tinha jantado cedo. Para os lados da secção auto, dois Unimogs e uma GMC de capota subida aguardavam os militares da patrulha. Para além do terceiro pelotão, uma secção do segundo iria também para fazer a segurança do retorno das viaturas. Era uma operação melindrosa, aquela de meia dúzia de homens fazerem a segurança de três viaturas em andamento.
Partiram silenciosos. O CP conferenciara comigo. No pelotão, ele assumia as funções de responsável pelas ligações rádio. Efectivamente, era um sargento de transmissões credenciado como eu, do mesmo curso de Mafra, mas a voragem das mobilizações sucessivas não respeitava as especialidades de cada um. Era agora um furriel comandante de secção de caçadores especiais.
            Experimentavam-se nessa altura rádios acabados de chegar que operavam em FM, capazes de perfurar a estática que o pôr do sol derramava sobre todas as comunicações. Combinámos comunicações de hora a hora, se necessárias, mas respeitando o silêncio rádio que a operação impunha. Iam com a certeza de que, no acampamento, haveria sempre alguém atento a uma emergência. A única e última comunicação seria feita quando abandonassem as viaturas. Era um teste.
            Com uma palmada nas costas ossudas empurrei o CP para a GMG. O Miranda e o Ribau, empoleirados sobre os sacos de terra que forravam o chão da viatura, fizeram-me sinal. Correspondi com um gesto de punho fechado com o qual pretendia significar coragem.
            Abalaram pela porta sul, o sol rasante a tingi-los de vermelho com reverberações de sangue.
Migrei para o posto de rádio. Os dois militares que o guarneciam esperavam-me.
O cabo Manel antecipou-se:
--Já verifiquei todas as ligações e já medi as baterias. Estão a meia carga. Talvez seja melhor ligar já o Unimog.
Concordei.
As baterias eram o “calcanhar de Aquiles” das transmissões. O carregador de baterias atribuído tardiamente à secção auto, no dizer entendido do Lino era lixo e as poucas vezes que funcionou, fez tudo menos carregar baterias.
Para obviar a este problema uma viatura era estacionada ao lado do posto de rádio, o mais próximo possível para a sua bateria alimentar os rádios. O aparelho que íamos usar para as ligações de FM era aquilo a que chamávamos “O monstro.” Enorme com mais de um metro de frente ocupava toda a bancada do lado nascente das nossas instalações. Enquanto esperávamos a comunicação-teste, combinámos o serviço de escuta. A despeito da firme oposição dos dois militares – eles consideravam-se suficientes e nunca tinham falhado – exigi participar e escolhi para mim o turno das quatro às seis.
A voz do rádio-telefonista do terceiro pelotão surgiu nítida no altifalante colocado no dorso do monstro e pôs fim à discussão:
“Cobra seis chama… aqui cobra seis…. Um, dois, três…diga se me ouve… escuto”
Milhentas vezes tinha dito aos rádio-telegrafistas que, operando com aparelhos de frequência fixa e pré-sintonizados, aquela lenga-lenga de contagens e repetições não tinham cabimento. Com um encolher de ombros e um sorriso contido dos dois operadores junto de mim, pressionei a chave do micro e respondi:
“ Recebido, Cobra Seis. Terminado”— para os operadores, suspirei – Quando é que esta malta aprende? Tenho que começar a distribuir por aí umas faxinas à cozinha para ver se aprendem…
Sério, o cabo Manel interrogou-me:
--Não faz isso pois não?...
Preferi mudar de conversa:
--O de escolta às viaturas não comunicou…
--Vai comunicar… – responderam em coro e como se de uma premonição se tratasse, o “monstro” rugiu a voz forte do operador:
--Aqui Cobra Grande… tudo OK.
De novo accionei o interruptor:
--Recebido,”Cobra Grande”.Terminado.
--Este não sabe contar— ironizou o Manel
Enfrentei-o sisudo:
--Quem é que amanhã se vai apresentar na cozinha?
Abalou contendo o riso e eu fui no seu encalço disposto a não o apanhar. Tinha uma excelente equipa que me permite estas brincadeiras.
 
Acordei às três e meia. Já não valia a pena voltar a dormir. Vesti-me com delongas, dei-me ao luxo de corrigir o nó dos cordões de uma das botas de lona, vesti uma camisola por sob o casaco do camuflado – Pangala, de madrugada, arrefecia invariavelmente – e fui-me caminho do posto de rádio com a FBP a baloiçar no ombro.
O rádio-telegrafista Manel cabeceava com os grandes auscultadores do “monstro” presos ao pescoço. Levantou-se espreguiçou-se como um gato e protestou por ainda não ser a minha hora. Mandei-o embora e abalou bocejando.
A veladora piscou hesitante e procurei outra pilha para a alimentar. Conferi a alimentação do “monstro” e entrei no campo da ilegalidade. Ao lado direito do “monstro” sobre uma bancada corrida, dois ANGRC9 com um amplificador de saída entre eles, faziam a ligação, um ao Comando do Batalhão e às outras Companhias e o da direita, já rente à parede, à rede de emergência com ligação directa ao QG de Luanda.
Escolhi o da direita, soltei o tambor da unidade de recepção e com o respectivo auscultador rente ao ouvido, explorei toda a banda até encontrar uma estação francesa a debitar música. Passei o som para um altifalante na parede, por detrás de mim, regulei o som e uma sugestão de música encheu o ambiente pobre do “meu” posto de rádio. Os grandes opérculos que constituíam os auscultadores do monstro tomaram lugar no  pescoço e estendi-me na cadeira que o M. desocupara.
 
 O posto de rádio da CCE 306
Orgulhava-me do meu posto de rádio já elogiado pelo oficial de transmissões do batalhão numa visita fugaz que fizera. Era um pequeno espaço de talvez três por três metros. Por detrás de cada aparelho, havia na parede uma garrafa sem fundo incrustada nos adobes, com o gargalo virado para fora. Eram os “isoladores de passagem” reinventados por mim. Os mais cáusticos já me tinham aconselhado a registar a patente… Através desses isoladores, as longas antenas exteriores mergulhavam sem perdas no interior do pequeno compartimento e cada uma delas, três de momento, demandava o seu emissor.
O “monstro” ronronou, arrotou e voltou ao silêncio limpo da FM.
Aquela vigília a quando da saída de um pelotão, era, praticamente uma exigência minha e radicava no facto de, a quando do desastre da companhia de Buela, com a morte do capitão e mais três militares, os socorros terem demorado por não haver uma escuta permanente na companhia.
Com os olhos já habituados à luz fraca da veladora, tirei de debaixo da FBP o bloco de papel de carta e dispus-me a escrever mais uma carta que faria a felicidade da minha mulher, lá longe, demasiado longe. Com a arma na mão, recordando o incidente que levara o furriel Miranda a receber dele próprio um tiro na perna, retirei o carregador, fiz recuar a culatra circular e com um dedo explorei a câmara vazia. Satisfeito, larguei arma e carregador próximos do “monstro” e dediquei-me à escrita. Uma página ficou preenchida em tempo recorde e iniciei a segunda. A meio parei. Bem contra minha vontade, desespero, saudade, inconformismo, escorreram pela esferográfica e mancharam a folha. Não me assistia o direito de a ir sobrecarregar com as minhas mazelas. Bem bastavam as dela, sempre em desassossego, querendo acreditar que eu ainda estava vivo e que o nosso filho não era já um órfão.
Devagar, rasguei a segunda folha e fiquei longo tempo a cortá-la em bocados cada vez mais pequenos, até que fosse completamente ilegível. Com o isqueiro incendiei-os no tosco cinzeiro.
O monstro soluçou e produziu ruídos confusos. Com a respiração em suspenso, o sangue batendo violentamente nas têmporas, os grandes auscultadores apertados contra as orelhas, aguardei. Naquela série de ruídos não se adivinhava resquício de voz humana. Aumentei o som até o zumbido dos auscultadores começar a perfurar o crânio. Mais tranquilo repus os níveis de som, os auscultadores voltaram para o pescoço e tentei concentrar-me na música clandestina.
Avancei laboriosamente na escrita da segunda folha repescando a história do fracasso da horta do Luis Soares– seu companheiro de férias –  e da ameaça do capitão de o mandar punir por não ser capaz de produzir alfaces para a sua salada.
Pouco depois das cinco, com os primeiros alvores da madrugada a manifestarem-se nos telhados das casernas, concluí a carta, fechei-a e ficou pronta para seguir para S. Salvador.
Acendi novo cigarro e vim para o hall das transmissões, luxo supremo da minha arquitectura. A sentinela do portão sul, passeava perto da base da torre e viu-me talvez pela ponta do cigarro. Esmaguei-o e fui ter com ele.
-- Como vai isso? – Perguntei.
--O pior já lá vai… –  apontou a ténue claridade que se levantava a nascente – a patrulha já deu notícias?
--Não e isso é bom. Só se houver algum azar é que ligam. – Com um abanar de cabeça de entendimento, deu por terminada a conversa e regressei para a porta do posto de rádio.
Como se a natureza se tivesse arrependido e desse nova força à noite que se dissipava, a névoa de nascente adensou-se e uma chuva miúda, insidiosa, fria, nevoeiro molhado, caiu sobre nós. Olhei para os lados onde presumia que estivesse a patrulha e esbarrei com um sudário impenetrável. Aquele nevoeiro punha em tudo a suave penumbra de um templo. Lá dentro os militares agachados, o poncho espalhado à sua volta, tentavam a maior cobertura possível. Fiz votos para que o rádio telefonista tivesse a ideia de desenroscar a antena para se proteger igualmente. O CP não deixaria de praguejar, talvez secundado pelo furriel Miranda com um poncho demasiado pequeno para a sua elevada estatura. O Ribau talvez se imaginasse na sua Gafanha, num dia de mau tempo. Tinha sido de novo pai há pouco tempo e, possivelmente recordava com minúcia as feições do bebé que ele decorara ao longo de horas de observação de fotografias. O CP às voltas com a sua Maria Ivone com a qual ansiava casar mal regressasse e o Miranda, o Miranda... apercebi-me subitamente do quase nada que sabia da sua vida anterior à guerra..
O sofrimento deles naquela missão estava a chegar ao fim. Certamente, dentro de uma hora, talvez duas no máximo, chamariam as viaturas para os recolherem com a sensação de inutilidade do esforço despendido
A discreta luz que afagara o céu a nascente e que pusera breves reflexos na G3 da sentinela, apagara-se como se as velas da catedral se tivessem também extinguido.
As cânulas das chapas de zinco do telhado começaram a pingar e regressei à cadeira do operador de rádio.
Acendi novo cigarro, o companheiro fiel de todas as horas, abandonei a estação francesa que me tinha dado música ao longo das duas horas anteriores, repus a sintonia do ANGR de ligação à Emergência, desliguei a veladora e estendi-me olhando fixamente o “monstro”. Experimentei ordenar-lhe que falasse, mas manteve-se mudo.
Uma porta chiou para lá do hall e o cabo cifrador, com as cuecas brancas “da ordem” até aos joelhos – o seu pijama – saiu do centro de cifra e dirigindo-se à esquina da enfermaria, aliviou a bexiga com floreados na parede tosca da casa do comando. Concluído o acto fisiológico, virou-se e deu comigo.
--Porra, meu sargento o que está aqui a fazer? Pregou-me um cagaço, porra! O que está aqui a fazer a esta hora? Há azar? É a patrulha? Houve bronca? – o ventre proeminente, hirsuto, oscilava ao sabor da sua respiração.
-- Está tudo bem, descansa. Vim dar uma ajuda à escuta de prevenção. O que está errado é tu mijares a parede da enfermaria! Se o sargento de ronda te apanha, obriga-te a lavar toda a parede da casa do comando. E se o nosso capitão sabe?!...…
-- Porra... – apontando a chuva que caía e que lhe marejava o peito, desculpou-se— daqui a pouco nem se nota, a não ser que o meu sargento lhe diga, porra, mas não vai fazer isso…
Olhou-me preocupado. Mandei-o regressar à cama e contrariado, com um último “porra” desapareceu pela porta de acesso ao centro de cifra. Não era sem razão que tinham cognominado o meu cifrador, alentejano de gema, de “Porras”.
 
O monstro provocou uma série de estalos e ajustei os auscultadores a tempo de receber o som da voz nítida e hesitante do C P:
--Mata, cobra seis chamas. – Retardei a resposta e o meu grande amigo, impaciente, repetiu a chamada.
Com voz pausada respondi:
--Mata escuta.
Houve uma ligeira pausa e depois a interrogação seca:
--Tango Mike? ( a minha designação mais ou menos codificada).
Respondi alegre:
--OK, cobra seis. Over. – Só com ele utilizava as expressões do código Nato.
--Roger, Mata. Recolha em um. Repito: um. Over.
--Roger, cobra seis. Recolha em um. Out.
O monstro calou-se. Deixei sobre ele a carta que tinha escrito, presa sob o carregador da FBP e demandei a caserna do segundo pelotão para avisar os condutores e a respectiva guarnição de segurança.Na "casa dos sargentos" acordei o comandante de secção (reforçada) comunicando-lhe o local de recolha.
Voltei ao posto de rádio para recuperar a artilharia e deparei com o cabo Manel mirando a carta e a arma. Antecipei-me a qualquer pergunta.:
--Fui avisar os condutores e a escolta para irem recolher a patrulha.
Pendurei a FBP no ombro, recolhi a carta e o carregador e avisei:
-- Vou dormir um bocado.
Já comigo para lá do hall, ele chamou:
--Chefe? — Detestava aquele tratamento e virei-me disposto a admoestá-lo – Mas, mirando-me com simpatia, acrescentou – obrigadinho pela ajuda…
Bons rapazes, estes meus colaboradores.
(…)
FIM
 
In D5LA  de J.E.Navarro (Adaptado)
 
 
 
 
 
publicado por gatobranco às 14:49 | link do post | comentar | ver comentários (11)

A NOITE É ESCURA

 

 

 
 
O gerador fora desligado antes das dez da noite.
Alguns ficaram ainda jogando à luz do petromax. Desinteressado, rumou ao seu quarto. Sacudiu as botas que, com cordões desapertados saltaram e estendeu-se sobre o cobertor que servia de colcha à cama: colchão e dois cobertores. Os lençóis estavam demasiado sujos e aguardavam entalados entre os ferros dos pés da cama e a parede melhor ocasião para serem lavados. Se a lavagem da roupa de corpo, interior e exterior se fazia com facilidade, os lençóis requeriam melhor disposição, mais água e muito esforço. Ele tinha já aprendido que bom era aguardar dias de chuva para ensaboando-os, os esticar nos arames, esperando que a chuva fizesse o resto do trabalho.
Aconchegou-se entre os cobertores desagradado com a sua aspereza. Os seus companheiros de quarto ainda não tinham chegado. Virou-se para a parede e a cama produziu o gemido queixoso de um espectro.
 
Rajadas curtas assolavam o ar e os projécteis picavam os adobes levantando pequenas nuvens de barro vermelho, como se sangrassem.
Todo o dispositivo de defesa do acampamento funcionava já. O motor de arranque das viaturas estrategicamente dispostas gemia para fazer funcionar os motores frios e húmidos, faróis como navalhas afiadas rasgavam já a noite iluminando o perímetro aramado do acampamento e os terrenos circundantes em busca de qualquer movimento.
Do lado do posto rádio, a Breda ladrou rouca. Havia alvo adquirido? Seria só tiro de intimidação?
Debruçado sobre a beira da cama, procurou afanosamente um das botas. Achou-a finalmente, mas estacou, suspendendo o gesto de a calçar. O silêncio pesava nos ouvidos, os seus companheiros de quarto dormiam, um deles arfando compassadamente.
Apurou o ouvido e, sorrateiro, demandou a porta das instalações. No exterior não havia motores a funcionar nem viaturas a iluminar o arame. A lua, a iniciar o seu quarto minguante, iluminava o acampamento brincando com o que pelo caminho encontrava: no vidro dum Unimog mudava de direcção; no telhado de zinco da caserna do quarto pelotão, criava sombras acentuando o ondulado das chapas de zinco; nas baixadas das antenas faiscava ao sabor da leve brisa. Avançou um pouco mais e, na esquina da casa, espreitou a sentinela que por ali devia estar. Localizou-a num pausado passeio com a G3 ao ombro. Que excelente alvo para um atirador emboscado para lá do arame!
Mais tranquilo, mas humilhado, regressou lentamente à casa dos sargentos. Sentado no longo banco que acompanhava a grande mesa, longe da porta, escondeu a cabeça entre os braços e reteve uma lágrima. Mais um pesadelo. Congratulou-se por ninguém se ter apercebido. Demorou a levantar a cabeça com os olhos já habituados ao negro que tingia tudo à sua volta. Não era aquele o seu lugar. Embora não houvesse lugares marcados e ninguém reivindicasse como seu, um lugar à mesa, raramente se sentava tão distante da porta. Aquela ponta da mesa era normalmente ocupada pelos que, depois do jantar ficavam a jogar às cartas.
Lá fora, a lua ausentou-se levada por uma nuvem negra. Olhando através da porta permanentemente aberta, a noite era escura. Mas os olhos voltaram-se de novo para o interior mais negro da “ sala” que servia para refeições e convívio e, como se de um buraco negro se tratasse, que sorvesse tudo à sua volta, também o seu olhar de fixou no extremo do outro banco do lado de lá da tosca mesa e foi absorvido. Era ali que ele se sentava na maior parte das vezes, era dali que, com as suas anedotas alentejanas, aliviava as tensões de militares isolados no norte de Angola, quase sobre a fronteira. A sua gargalhada sincopada e longa era contagiante…
Mas o buraco negro também o tinha sorvido numa mina que o  jipe pisara no regresso de S. Salvador.
Os olhos desfocados recusaram-se a revelar as feições da primeira baixa daquela companhia. Refugiou-se de novo no conforto dos braços cruzados sobre a mesa.
Sentiu-o chegar traído pelo leve arrastar das botas de lona nos adobes que forravam o chão e levantou a cabeça.
O outro, surpreendido com aquele movimento no recanto escuro da “sala”, num gesto de autodefesa flectiu as pernas, apontou a lanterna para o local do movimento suspeito e tentou sacar a Walther que tardava em sair do coldre.
-- Apaga essa merda” – protestou o solitário
--Porra, pá, assustaste-me! – Mudando de tom, preocupado, inquiriu – estás doente?...  
-- Não, não tenho sono e vim até aqui… –  faltava-lhe convicção.
O sargento de ronda mirou-o com atenção, equilibrou a pilha com o foco luminoso virado para o tecto que serviu de reflector e envoltos na luz amarelada e doente que as chapas de zinco devolviam, sentou-se ao seu lado.
-- É… pá, a noite é escura e está cheia de fantasmas!
-- A noite é escura! — Ecoou ele. -- O silêncio parecia saltar de um para o outro num ricochete odioso. Por fim, o sargento da ronda levantou-se, recuperou a pilha, com os dedos reduziu o feixe de luz e, apontando-o para o chão, disse.
--Aguenta aí que já volto. – Afastou-se como se perseguisse o ténue raio de luz que saia de entre os seus dedos.
Não demorou. Regressou com uma garrafa de Vat 69 que equilibrou entre eles depois de se sentar.
-- Também me acontece disso. Quando não conseguimos dormir, a noite é terrível, é escura e até os nossos pensamentos são negros…-- fez uma pausa como se meditasse o que acabava de dizer e retomou o discurso que decorria em voz baixa, de troca de segredos íntimos – mas eu já tenho remédio! Nada de Vallium ou pílulas LM. – Uso isto.
Com a pilha, bateu discretamente no bojo da garrafa e ciciou:
-- Bebe isto, bebe à vontade, tenho mais duas… Vais ver que resulta! — Com as pernas levantadas rodou sobre o banco corrido e informou – vou dormir um bocado. Queres ficar com a pilha?
Não aceitou e num último resquício de luz, pegou na garrafa e sopesou-a. Devia estar mais de meia. Nunca na sua vida se tinha embriagado. Um copo a mais numa ou noutra ocasião, mas nada mais que um pouco alegre.
Ignorando o negro que o envolvia, cerrou os olhos, desenroscou a tampa de lata, brincou um pouco com ela, perdeu-a sobre a mesa e, com lentidão premeditada, como se quisesse fruir cada movimento, aproximou a garrafa da boca e bebeu um pouco. No estômago vazia, o uísque pareceu queimar. Com o gargalo rente aos lábios aguardou que a sensação desagradável se diluísse e bebeu de novo, a sede da travessia dum deserto a atormentá-lo.
 
Levantou-se com dificuldade e, com uma mão raspando a parede a servir de guia, encontrou a  cama e deitou-se demasiado entorpecido para se aperceber que, lá fora, a lua, liberta da nuvem escura que a tinha amortalhado, brilhava de novo.
Um cão uivou.
DEZ 63
J.Eduardo Tendeiro (texto recuperado de “Memórias”)
 
 
publicado por gatobranco às 14:11 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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