Sexta-feira, 18.09.09

Nesse dia fomos fazer patrulha apeada

 

 

Nesse dia fomos fazer patrulha apeada para as bandas de Cuimba. Tudo calmo. Só era necessária mais cautela à passagem pelas sanzalas abandonadas. Havia uma coluna de reabastecimento vinda de São Salvador, e, dado haver indícios de que “eles” estavam a passar por uma picada mais ao sul – aquela onde descobrimos a escola debaixo de uma árvore, lembram-se? – Fomos para aquele lado. Havia um pelotão de Cuimba, que viria ao nosso encontro. Não fossem “eles” aproveitar para nos deixarem alguma má recordação.

Tudo corria normal, e finalmente avistámos o outro pelotão, com os homens sentados na berma da estrada, à nossa espera a descansar, o quico (boné ligeiro) poisado sobre o joelho, estava num alto, como convinha. Era visto, mas também via mais ao longe

 

Era malta conhecida mas com quem pouco conversámos, dadas as distâncias entre nós. E vieram as novidades: - O meu furriel sabe quem é aquele ali? E o soldado apontou na direcção de um outro muito velho para a média das nossas idades. Ele devia ter para aí 28, 30 anos! Não, quem é? Perguntei!

Não sabe? É o nosso “maçarico”, diz rindo o outro. Maçarico com aquela idade, retorqui eu. Então o soldado contou-me a história daquele homem. Era refractário, andou fugido à tropa, mas foi apanhado, diz o outro rindo. Foi fazer a recruta, e por cima teve ainda um prémio! Um prémio disse eu sem perceber onde ele queria chegar! Pois, um prémio. Então não é um prémio chegar a Angola e ser logo enviado para a fronteira norte, para o nosso Batalhão, para o “Rebenta”, como já é conhecido em Luanda? E ria a bandeiras despregadas, como se o que acabava de dizer lhe desse um grande gozo. Fiquem sem saber o que dizer!

Entretanto chega-se a nós o comandante do pelotão do Cuimba e repreende o soldado que com tanto gozo me havia contado a história do outro, que continuava de cabisbaixo e com um olhar ausente.

Era um rapaz novo, o Alferes. Tinha sido guarda-redes da Académica de Coimbra, e tinha facilidade de expressão. É o que recordo dele, e que foi ferido por uma mina anti-carro, tendo sido evacuado para Luanda.

-Agora, à falta de melhor, gozam com este desgraçado, diz-me!

Falámos, um pouco sobre outros assuntos que não a guerra, e entretanto chegou a coluna de reabastecimento, que deu boleia ao pelotão de Cuimba. Nós regressámos a pé ao nosso acampamento.

 

Chegados ao acampamento, é sempre a mesma coisa. Subir aos bidões a ver se havia água, para se poder tomar uma banhoca. Havia, mas pouca. Combinámos entre nós que seria só uma regadela. Não podia haver ensaboadela, se não só um podia tomar banho, e nós éramos três. Assim fizemos.

O primeiro a tomar banho põe-se aos berros: - Maldita água, que está quente de mais.

O dia fora quente, a água era pouca e aqueceu muito. A superfície dos bidões era a mesma, e a água pouca, e o resultado estava à vista! Filosofei eu. 

Melhor assim! A água chegou à vontade para o banho, lavámo-nos, mas o prazer de um banho fresco, foi-se!

 

Nesta terra é assim. Se queres tomar um banho fresco, tens que esperar que chova, ou então levantas-te cedo, antes do sol nascer! Mas cuidado sê rápido, se não terás de ouvir os teus colegas, quando ao levantarem-se não tiverem água para lavar ao menos a cara! Fazer a barba será quando calhar, e se calhar.

 

 A.Ribau Teixeira  (Memórias de um ex-combatente)

 

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O PV2

                                             O PV2

 

 

Lá continuámos com a mesma vida. Só que perante tanta adversidade, o número de emboscadas tanto diurnas como nocturnas, os patrulhamentos apeados, toda a espécie de operações, aumentou, chegámos a uma altura em que não havia dia de descanso!

Havia tipo de operações que não estavam na “cartilha”. Recordo uma do nosso pelotão:

- Estávamos perto do rio Luvo a descansar, quando para o lado do rio pareceu-nos ouvir vozes! Ordem do Alferes; duas secções emboscam-se aqui -eu também fico – a outra secção volta para traz, vai pelo estrada de São Salvador até ao rio, segue o curso do rio para o sul. Quando estiverem no rio,  podem fazer barulho, tornar-se notados a ver se “eles” vem ao nosso encontro, que nós aqui damos-lhes as boas vindas!

 

A minha secção foi a que foi fazer uma espécie de cerco (recordei-me de quando era pequeno ter feito dessas coisas para “assombrar” os pintassilgos para a palma)

O rio era baixo nalguns sítios e tinha árvores e ramos caídos, que facilitavam o seu atravessamento. O resto era mata densa. Conversávamos uns com os outros; até me dei ao luxo de fumar um cigarro. “Eles” conheciam o cheiro do tabaco dos tropa, e nesta altura convinha. No rio a temperatura era amena. Entretanto ouve-se ao longe o ruído de um avião. Eh pá! Eu conheço aquele ruído. É um PV2. Eu conhecia bem aqueles aviões, que para aterrarem em São Jacinto, passavam por cima da minha casa. Devia andar em patrulha. Vinha da zona da fronteira, e seguia o curso do rio rumo ao sul.

Tive receio que nos confundisse com terroristas e ficámos parados. Disse ao homem do rádio que chamasse o avião, que podia dar-nos notícias, lá de cima, sobre o IN.

O homem começou tentando o contacto:

 - Atenção galo aqui cobra, diga se me ouve, escuto… silêncio total. O pedido foi repetido várias vezes e nada. Deixa isso. Ele já vai longe, disse eu. O homem exaltou-se e berrou:

- Filhos da… (e disse uma palavra que só se chama à mãe dos outros). Se calhar vão a ouvir música com os auscultadores nos ouvidos e por isso não nos ouvem a nós.

O homem estava irritadíssimo. Tentei acalmá-lo:

- Vês qual é a diferença entre um aviador e um militar de infantaria? Ele vê a mata de cima, nós vemo-la de baixo!

- Não tem graça nenhuma foi a resposta.

Nisto um bando de pássaros, pareciam aves do paraíso, deu por nós e levantou voo, num grande alarido.

Bem, faziam-se horas do regresso. Fizemos o caminho ao contrário, e quando chegámos ao ponto de encontro, apareceram as outras duas secções.

-  Então?

-  Não vimos nada foi a resposta recíproca.

 

Entretanto chegam as viaturas e regressámos ao acampamento.

 

Passa o tempo e nós nesta pasmaceira. Vem aí o Natal, mas ainda falta tanto tempo! Falta sempre mais tempo do que o tempo passado. O tempo que falta, leva muito tempo a passar. O tempo passado, passou. Dele só ficou a memória dos nossos actos, e a dos nossos inimigos sobre nós.

 

Por ser uma zona muito próximo da fronteira, por aqui não existe ninguém. Não há com quem conversar, a não ser com os nossos companheiros. Mas essas conversas são sempre as mesmas. Já cheiram mal!

Porque fugiriam os nativos? Porque fugiriam os brancos? O da casa que nós ocupámos e o da linda casa que nós vandalizámos? Teriam fugido, ou teriam sido apanhados pela raiva cega, vinda do Congo Léopoldville? Existia mais a norte do nosso acampamento, uma grande sanzala, com trinta e duas cubatas, completamente abandonadas, e indícios de ter sido abandonada há muito tempo. Chamava-se Pangala. Tomaram esse nome para o nosso acampamento. (...)

A.Ribau Teixeira  ( Memórias de um ex-combatemte)

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O CAPELÃO OPERACIONAL

                                                   O Capelão Operacional

 

 

Um dia – há sempre um dia – o nosso pelotão estava operacional. A operação era o patrulhamento, de dia, da nossa zona. O Capelão do Batalhão que estava de visita pastoral à nossa companhia, resolveu ir connosco. – Padre, disse-lhe eu, veja onde vai,

 

e onde nos pode ir meter. É a primeira vez que vamos para aquele sítio e não sabemos o que vamos encontrar! Não há-de haver problema disse-nos ele, na sua fé.

E lá fomos: Descemos das viaturas e embrenhámo-nos no mato que naquela zona era de capim alto, mais alto que um homem.

Era difícil avançar, mas com muito esforço lá íamos andando. Suávamos. Os fatos de combate já começavam a escurecer com o suor que nos corria pelas costas. Era dia de sol o que nos obrigava a maior esforço. Chegados a uma pequena clareira, à borda da mata, houve ordem para descansar, montou-se segurança, e sentámo-nos. Então acerquei-me do Padre Miguel e perguntei baixinho: - Então que tal? É difícil, respondeu-me, mas via-se andando. Homem de fé, pensei eu. - Ouça uma coisa Padre Miguel, se agora aparecessem os turras o que faria o senhor? – Nada disse-me ele, o problema era com vocês. – Está bem, ripostei eu. Mas, aparecia-lhe um turra pela frente … bem, diz o Padre não poderia deixar-me matar, tinha que me defender! – O padre Miguel tinha levado uma G3, mas ainda hoje duvido que soubesse utiliza-la. Era mais acção psicológica pessoal. Assim, o inimigo pensaria que era um simples soldado.

 Tinha chovido. O pó do capim pegava-se aos fatos de combate conspurcando-os! As botas de lona com aquela terra barrenta a pegar – se ás solas aumentavam de altura e dificultavam o caminhar. Ali não havia postos que nos distinguissem, nem convinha. Quantas vezes meti os óculos no bolso para ser como os outros soldados.

 

Continuámos a caminhada entrando na mata que parecia não ser muito extensa.

 Passado um bom bocado notamos vestígios de passagem de pessoal, embora não muito recentes. Redobramos de atenção não fosse o diabo tecê-las… mesmo com um padre junto de nós.

Mais adiante encontrámos uma sanzala pequena – meia dúzia de cubatas - . Duas secções fizeram o cerco e a terceira avançou cautelosamente para a sanzala. Nada, nem ninguém. A sanzala devia, pelos indícios encontrados, ter sido abandonada há muito tempo, o que não impediu um soldado – o “Sarreiro” – de encontrar uma máquina de costura, das utilizadas pelos nativos – marca Singer. São máquinas que tem só a cabeça, e na roda da cabeça uma manivela que era movimentada à mão pelo alfaiate.

O Sarreiro trouxe essa máquina ao ombro. E ela era pesada. 

 

 

Continuámos a caminhada. Nada de novo. Mais adiante vimos uma espécie de um lago. Atravessando-o, cortávamos caminho para o local de encontro com as viaturas que nos viriam buscar Observámos a profundidade. Era baixo, era uma lagoa, óptima para lavar as botas, que assim ficariam com uns quilitos a menos, mas…

Ao atravessar a lagoa sentimos o chão a faltar-nos debaixo dos pés – eram areias movediças – gritei para os homens se afastarem uns dos outros e que não deixassem de caminhar para a frente As areias eram balofas e cada vez nos enterrávamos mais. Disse aos homens que a única solução era rastejar naquela água baixa mas perigosa, o que fizemos, tendo conseguido chegar à margem sem mais problemas. Sentámo-nos na margem, quando se ouve uma voz. – Meu furriel acuda-me que não consigo sair daqui! Olho para trás e vejo o Sarreiro aflito, a arma numa das mãos e a máquina de costura na outra. Oh desgraçado, deixa a puta da máquina de costura, senão ainda morres afogado.

 

Qual quê. Tivemos de dar as mãos uns aos outros até chegar ao Sarreiro e assim conseguimos tirá-los da situação aflitiva em que se encontravam, ele, a espingarda e a máquina de costura.

 

Não sei que amor à primeira vista foi aquele pela máquina de costura. Se ele fosse alfaiate ainda serviria para matar saudade de profissão no “Puto”, mas a alcunha de “Sarreiro” veio-lhe da profissão ocasional de limpar as cubas do vinho, raspando a côdea deixada pelo vinho aí armazenado, a que chamavam “sairro”, que depois era vendida. Nunca cheguei a saber para que fim. E de sairreiro, como era difícil de pronunciar, passámos a chamar – lhe simplesmente Sarreiro.

 

E assim ficou conhecido até que um dia no Batalhão de Caçadores 5 em Lisboa – o

Batalhão de Caçadores Especiais 357 formou pela última vez para a despedida. Nunca mais o vi.

 

Aí, o comandante fez a chamada daqueles que a ela não podiam responder… o corpo tinha ficado em Angola, por quem haviam dado a vida; o espírito porventura estaria junto de nós, pairando por cima das nossas cabeças…num último adeus

.

Houve o toque de silêncio, um silêncio que nos apertava a garganta, uma homenagem aos ausentes…

 

Depois, o toque a destroçar. Foi como se nos tivessem soltado de uma prisão. Despedidas deste e daquele, um adeus até à vista, até sempre, e cada um vai para seu lado.

 

À espera de transporte para casa, comecei a sentir um grande desconforto. Durante mais de dois anos, embora muitas vezes nas situações mais adversas, nunca me senti tão sozinho, como agora me sentia sozinho no meio daquela multidão que passava apressada.

 

                                                                   *

 

 

No silêncio daquela primeira noite passada junto da família, o corpo estava cá, mas o espírito voava sempre para sul, as recordações não me deixavam descansar, e não eram recordações dos locais onde estivemos e onde não havia barafunda, onde não se ouvia o “Tango dos Barbudos”, era para o norte de Luanda; - Cuimba, São Salvador do Congo, Pangala! Tentei como tentava em Angola, esquecer os momentos maus passados. Lá conseguia-o, porque no dia seguinte teríamos outros momentos provavelmente piores. Aqui era pior esquecer, porque o dia de amanhã será um bom dia!

 

 

                                                                    *

 

 

Pedi na empresa onde me tinha sido guardado o “lugar” para começar imediatamente a trabalhar.

                                                             

O gerente chamou-me e disse-me para eu ir gozar um mês de férias. Expliquei-lhe o motivo porque queria começar imediatamente a trabalhar: – esquecer –. Pelo menos enquanto trabalhava, a cabeça tinha de estar no trabalho e não se distrair com o passado. Compreendeu. Eu agradeci-lhe.

                                                           

 A. Ribau Teixeira     (in Memórias de um ex-combatente )

 

 

 

 

 

 

 

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TRAGÉDIA EM CABO LEDO

Em Cabo Ledo, exploração petrolífera da Petrangol orientada por Ingleses que se bastavam a si próprios, a CCE 306 alojada a cerca de quinhentos metros do corpo principal daquelas instalações, tinha muito pouco que fazer. A segurança era fácil, não havia qualquer ameaça, a zona em muitos hectares em redor era pacífica e as notícias da guerra chegavam esporádicas, trazidas por quem ia a Luanda, ou por indiscrições do pessoal das transmissões.

Depressa o tédio se instalou entre os militares que, libertos da tensão que os assoberbara na ZIN e mesmo em Luanda, no serviço de prontidão, vegetavam pelo acampamento. As partidas de futebol, inicialmente muito concorridas depressa saturaram e, muitos, invejavam os do terceiro pelotão que, dizia-se, na Muxima, para onde tinham sido destacados, tinham uma vida activa, contactavam com a população e faziam caçadas “de sobrevivência.”

Em Cabo Ledo, as acções mais disputadas eram aquelas que patrulhavam em direcção ao Sul, na maior parte das vezes pela beira-mar, aproveitando a maré baixa para que as viaturas pudessem ultrapassar pequenos promontórios e outros relevos que afloravam no imenso areal. 

Havia uma actividade diária que cativava ainda alguns dos que ficavam. Conforme o número dos pretendentes, uma GMC, um Unimog ou um simples jeep , levava-os para a praia de Cabo Ledo, um extenso areal na base da falésia onde se erguiam as instalações da Petrangol e da CCE.

Naquele dia, que viria a ser memorável, só quatro sargentos se manifestaram interessados em ir à praia e um jeep foi suficiente para o transporte.

Partiram pouco depois das nove horas, um deles equipado com uma” cana de pesca”, um longo bambu que erecto, rivalizava com a antena do rádio que o sargento de transmissões teimava em incluir no equipamento da viatura da praia. Todos desdenhavam desta precaução ridícula e muitos recusavam o equipamento mas, naquele dia, com o sargento de transmissões incluído no grupo, lá foi o rádio embora sob ameaça de também tomar banho.

Jogaram futebol, à beira-mar, num jogo de fintas e placagens empurraram-se para a água, um dos mais afoitos foi para lá da rebentação, outro tentou pescar com a cana e anzol improvisados e, por fim, estenderam-se na areia muito próximos de um toldo montado como barraca canadiana                                                                                                             Um deles, o das transmissões, resolveu andar um pouco e afastou-se para sul pisoteando a espuma das ondas que no início da preia-mar subiam progressivamente. A ida à praia lembrava-lhe sempre os bons momentos que tinha passado com a sua mulher numa praia, lá muito longe, na metrópole e quando essas recordações o assolavam preferia isolar-se.                                                                                     (…)Descobriu um rasto de tartaruga, seguiu-o, perdeu-o, mais adiante encontrou rastos de unguiculados – dizia-se que os veados, de noite, demandavam a beira-mar sequiosos de sal – seguiu-os por algum tempo, mas a  temperatura da areia aconselhou-o a procurar a espuma refrescante das ondas que progrediam areia adentro.

Quando se virou para iniciar o regresso apercebeu-se que as ondas lambiam já as rodas do jeep, inclinando-o para o mar. Gritou a plenos pulmões para alertar os amigos que, com o toldo interposto entre eles e a viatura, não se apercebiam do problema que se estava a gerar. Correu desalmadamente como se demónios o perseguissem, gritou como possesso, mas só muito perto se fez ouvir e já sem fôlego apontou o jeep que se afundavam na areia. Um deles correu para a viatura, sentou-se no lugar do condutor e accionou o motor de arranque, mas com as ondas a lamberem o capot, não obteve resposta. Quando chegou, juntou o seu esforço ao dos que tentavam empurrar a viatura, mas sem sucesso.                                                                                                                                                                     Com o refluxo de cada onda, o jeep parecia afundar-se um pouco mais e a areia começava já a invadi-lo. O sargento de transmissões, com mãos trémulas, ainda ofegante, conseguiu desapertar os dois francaletes que seguravam o rádio à estrutura do carro, e com ele acima da cabeça, correu para o areal seco. Rezando a todos os santos do seu conhecimento – poucos, convenhamos – accionou a chave de ligação, uma luz verde piscou e o ponteiro da potência de saída galgou dois terços do visor. Atendeu-o a voz calma e sonolenta do operador de serviço a quem ordenou que levasse de imediato o aparelho ao sargento Lino.

Retomada a serenidade própria das ocasiões de perigo, explicou-lhe a situação e pediu-lhe urgência numa GMC com guincho para puxarem o jeep ou, pelo menos, o ancorarem  durante a maré cheia.                 

 A viatura chegou com prontidão, conduzida pelo próprio sargento mecânico e de imediato iniciou -se  a difícil tarefa de passar o cabo por um ponto forte da estrutura da viatura afogada. No refluxo conseguiram fixar o cabo ao suporte do pára choques frontal e só depois de o cabo estar bem tenso o sargento mecânico Lino deu largas a um chorrilho de impropérios com que brindou os banhistas. Eles tentaram contra argumentar invocando distracção, azar e outros fados, mas face à carranca do Lino, enveredaram por outro caminho mais profícuo. Teriam que aguardar a baixa-mar para desenterrar o jeep. Contas feitas, só lá para o meio da tarde o mar recuaria o suficiente para iniciarem os trabalhos.

 Entretanto, na falésia, pequenos pontos começavam a adensar-se. A notícia já se espalhara e havia uma boa dezena de militares debruçados, tentando ver o que se passava.

Em baixo, organizava-se a  estratégia de procedimento: o Lino e outro, iriam almoçar, ficando três de vigia (Vocês deviam ficar o dia inteiro sem comer, de castigo, resmungou o sargento mecânico, mas pelo rádio pediu um Unimog para o transporte. Regressaram em menos de uma hora, os outros foram e voltaram com algumas pás e a promessa de muitos voluntários para ajudar.

Sentados no areal, protegidos pela tenda canadiana aberta na sua maior amplitude, aguardavam. O jeep afogado, ancorado pela GMC mantinha-se estacionário, mas no pico da maré alta, só o pára-brisas aflorava no refluxo das ondas.

Mais uma vez, como estrategas reunidos para delinearem uma missão de alto risco, discutiram procedimentos para iniciar as manobras necessárias ao salvamento da viatura. Puxá-la pura e simplesmente com o guincho, não resultaria. O cabo partiria ou o motor não teria força suficiente. Seria necessário desenterrá-lo pelo menos em parte para depois então aplicar toda a força de tracção. Equacionavam a possibilidade de fixar o cabo do guincho do Unimog a outro ponto da viatura quando um jeep em grande velocidade, entrou no areal e, vertiginoso, se acercou e travou levantado nuvens de areia. O Comandante da companhia, conduzindo ele próprio a viatura, saltou com relativa destreza e acercando-se gritou, olhando em volta:

-- Onde está o jeep?

Foi o das transmissões que respondeu, apontando as ondas:

--Ali…

--Ali?...Onde?

--Debaixo das ondas, só aparece de vez em quando…

O comandante da companhia, desorbitado, apopléctico, gritou:

-- Debaixo das ondas? Ai minha cabeça! Está perdido! Vocês… vocês, estão feitos! É uma porrada grande, a que vão levar. O jeep é material de guerra, vão ser acusados de uso indevido de material de guerra! É cadeia! Já não embarcam com a Companhia, ficam cá em prisão, em prisão, ouviram? — Tomando fôlego, quis saber – Quem é o mais antigo, quem é?...

O Lino levantou um dedo, sem qualquer palavra. Com um dedo espetado no peito do sargento, o comandante gritou de novo:

-- O nosso sargento vai fazer uma lista de todos os implicados e entregá-la na secretaria. Depois apresentam-se ao oficial de dia. O nosso sargento é responsável por estas viaturas – apontou a GMC e o Unimog – fez uma pausa e completou: e pelo jeep também! A sua porrada ainda há-de ser maior.

Uma onda, recuando deixou ver parte do pára-brisas e do capot do carro submerso e o capitão lamentou-se:

--Ai o meu jeep… ai o meu jeep, a Companhia vai ficar sem um jeep! – Como que iluminado, exclamou – não fica, não, vocês vão pagá-lo, hão-de ficar cá até o vosso pré pagar o jeep…

Trémulo, retomou o lugar no seu carro e arrancou com as quatro rodas a arremessarem areia para cima dos sargentos.

--Estamos feitos! – Murmurou um dos visados. Outro, depois de um curto silêncio, filosofou:

--Eu, até não me importa muito. Estava a pensar se não seria melhor ficar cá em vez de ir para o Puto, sem emprego…

--Deixem-se de gozos! O homem até tem razão. Está com um cagaço dos diabos de perder uma viatura, mas eu garanto-vos que vamos recuperar aquele anfíbio – o riso do enfermeiro, embora forçado, foi contagiante.

-- Mas, mesmo assim, vamos para a cadeia? — Interrogava-se outro e, com isso conseguiu uma explosão de riso colectivo.

--Vamos ao que interessa – era o Lino a perorar – a maré parece que está a começar a baixar e eu vou lá acima buscar uns voluntários para ajudarem a cavar e… olhem, se eu me demorar é porque fiquei já em prisão…

Todos riram, com o fantasma da porrada mais afastado.

Era quase noite quando, com a viatura “afogada”a reboque da GMC deram entrada no aquartelamento. O jeep foi estacionado nas instalações do Lino e, secundado pelos outros, demandaram o primeiro-sargento para fazer e entregar a lista dos condenados.

Com um meio sorriso, encarou-os:

-- Ainda bem que safaram o jeep, porque o nosso capitão está mesmo bravo. Quis que eu começasse logo a redigir o castigo. Foi preciso explicar-lhe que precisávamos primeiro de um auto que tramitaria para o Comando do Batalhão e mais uma coisas que inventei… o carro é recuperável?

-- Em dois dias fica a trabalhar – asseverou o sargento mecânico.

--Ainda bem – congratulou-se o primeiro-sargento e acrescentou – agora vão tomar um bom banho e ver do jantar, que fome não vos deve faltar…

Agradeceram e demandaram a porta, mas ele chamou-os:

-- Um conselho: evitem que o nosso capitão vos veja! – Pontuou a frase com um piscar de olho e ficou a vê-los sair, sorrateiros.

J. E. Tendeiro   (Angola 62/64—Notas )

 

 

 

 

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Domingo, 13.09.09

A T R O V O A D A

 

 
 
 
 
A TROVOADA
 
 
         Foi a primeira grande trovoada que nos assolou em Pangala.
         Já tinha havido um ribombar ou outro, relâmpagos a iluminar o céu, mas pouco mais.
         Aconteceu depois do jantar. A atmosfera pesava sobre nós, alguns queixavam-se de dor de cabeça. Era fácil prever uma tempestade. Todos tínhamos ainda bem fresca na memória uma tempestade acompanhada com ventos fortes que ameaçaram levar as coberturas de zinco das nossas casernas. A partir daí a estrutura do telhado foi reforçada com sacos de areia pendurados nas traves mestras, junto às paredes de apoio. Presumíamos com isso manter a cobertura das casas que tanto nos tinha custado a erguer. Tudo aquilo era nosso. Nascera em nós um estranho sentido de pertença que nos dava satisfação a despeito de representar um parco abrigo contra a eventual investida do inimigo. Mas havia o plano de defesa, as trincheiras, os morteiros as bazucas, as nossas armas automáticas e, acima de tudo, uma coragem que só os vinte anos é capaz de alimentar.
         O gerador, afinado quase todos os dia, zumbia calmo e as lâmpadas tremulavam no perímetro do acampamento. Nas casernas, na casa do comando, na enfermaria, no posto de rádio, uma pálida claridade filtrava-se pelas janelas escancaradas, numa busca de qualquer corrente de ar que tirasse de cima de nós aquele peso quente e esmagador que nos afligia.
         Estoirou  como chicotada ensurdecedora, logo acompanhada pelo trovão que rolou pelo céu, fez estremecer a terra  e tardou a extinguir-se.
Muitos sacudimos a cabeça na esperança de recuperar a audição mais rapidamente.
Aquele trovão pareceu ser o sinal para o início de uma das maiores trovoadas que sofremos. O céu, permanentemente incendiado por dezenas de relâmpagos que se entreteciam, serviam de cenário a trovões fortes, compassados, sobrepondo-se uns aos outros num ribombar aterrador. Os cães – ainda tínhamos os dois – surgiram à porta da casa dos sargentos, ganindo e procurando a protecção do dono. Ninguém os hostilizou embora estivesse “determinado” que, ali, os cães não entravam.
À porta  juntou-se um pequeno grupo a apreciar o espectáculo aterrador. Meio chegado para dentro, o sargento Resende, com o cigarro a tremer entre os dedos, garantia que aquilo não era nada. As trovoadas que ele tinha sofrido na Índia e em Moçambique eram cem vezes piores…
Todos lhe dávamos um largo desconto quando ele começava a contar as suas aventuras e desventuras de comissões anteriores.
Nas antenas de cobre que atravessavam o acampamento em diagonal, fazendo um V alargado, cujos braços confluíam para a casa do porto de rádio, a electricidade estática criava pequenas “línguas de fogo” que de extinguiam como Fogo de S. Telmo.
O radiotelegrafista de serviço surgiu correndo e ,pálido, queixou-se:
--Meu sargento, os rádios estão aos estalos, venha lá ver!...
No local, confirmada a anomalia, tentei encontrar alguma coisa isoladora, mas tive que me contentar com o alicate metálico envolto na camisa, pobre isolador…
Consegui libertar as antenas dos rádios, juntei-as numa só e enrolei-as directamente ao fio de terra, designação pomposa que dávamos a um bocado de fio de cobre grosso que esgueirando-se por entre os adobes da parede se enterrava no chão, preso a um bocado de metal achado ali mesmo.
Novo relâmpago iluminou o acampamento com uma luz branca, intensa que nos obrigou a fechar os olhos. Nos ouvidos ficou um zunido que se sobrepôs ao trovão. As chapas de zinco do telhado tilintaram vergadas pelo peso daquele som tremendo.
Depois, foi o silêncio. O gerador parara, talvez desligado por precaução ou sobrecarga. Nada se ouvia, nada se movia.
Saí, secundado pelo rádio telegrafista. Só na Canda havia ainda um ou outro desenho de faíscas, brilhado como pisca-pisca de viatura gigante.
-- Esta caiu perto!... – asseverou o telegrafista.
--À noite, não há bem a noção da distância – respondi mitigando o receio do meu operador.
O guarda da torre sul, materializou-se junto de nós e, de braço estendido, comentou:
--Esta, eu vi-a cair. Olhem além… o lume que fez  a espalhar-se. Uma grande labareda crescia. No silêncio da noite chegou até nós o crepitar do capim incendiado.
 
 
 
 
 
Felizmente, naquela noite, não havia nenhuma patrulha.
 
J.E. Tendeiro (Pangala, 62)
 
          
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Quinta-feira, 10.09.09

O CAPELÃO

                                 O Capelão

 

 

 

Finalmente houve novidade. O capelão vinha na semana seguinte fazer uma visita à Companhia. Era novidade. Fosse uma trovoada, uma cobra, tudo o que fosse anormal era novidade! Comeria com os oficiais, conversaria muito tempo com os soldados de quem procuraria saber as necessidades, e acabaria na conversa na caserna dos sargentos, já à luz da vela, pois a luz apagava sempre às vinte e três horas. 

Chegou finalmente a semana seguinte, e com ela o Padre Capelão do nosso Batalhão. Vinha com ar satisfeito, fato de combate novo, enfim, parecia um “maçarico”. Qualquer elemento que chegasse de novo à unidade, para ficar, era apelidado de maçarico.

Como se previa, almoçou com os oficiais, e depois foi para a parada e ia conversando com uns e outros. Como estava a correr a vida. Como era a alimentação. Das operações não perguntou nada. Tinha feito uma com o nosso pelotão, e parece que lhe bastou para ficar a saber como eram. Nisto o “Sapatelhas” – nome por que ficou conhecido por não conseguir dizer sapatilhas – era um bom jogador de futebol, rapaz natural de S. João da Madeira, atira:

-Sabe o que nos falta aqui? O Padre Arnaldo ficou a olhar para ele, a pensar no que faltaria ali.

- Sapatelhas, disse – lhe eu, vê lá o que vais dizer!

Todos sabíamos o que faltava naquele acampamento, naquele e noutros, que estavam completamente isolados. Éramos todos homens na casa dos vinte e tal anos…

O Sapatelhas acalmou-se, e as conversas prosseguiram noutro sentido, até que se fez hora do jantar. Nesse dia o Padre Arnaldo deu-nos a honra de jantar com os sargentos.

Depois do jantar, foi a conversa habitual do passar tempo. O Padre Arnaldo então atirou-me à queima-roupa:

- Ribau então na semana passada houve um problema consigo. O que se passou?

– Nada Padre. Mas o Doutor devia ter mantido o segredo profissional!

- O Doutor porquê? Não foi ele que me disse nada, ripostou o Padre. Foi um soldado que ao ouvir a lengalenga dos teus colegas tentou inteirar-se do que aquilo queria dizer, e alguém lho contou. - Com que então “nos cornos não que sou casado”! Sim senhor. Essa foi boa!

Fiquei embatucado, e não arranjei de momento resposta.

A conversa prosseguiu, e a minha cabeça a trabalhar. Tenho de arranjar processo de chatear também o Padre. E saiu-me esta.

- O padre Arnaldo sabe porque é que o sétimo mandamento tem um tracinho?

- Não respondeu – me.

- Então ouça:

-Quando Moisés foi ao Monte Sinai receber as Tábuas da Lei com os dez mandamentos, foi sozinho lá acima. Os restantes homens ficaram cá em baixo à espera.

Ao regressar tinha de ler o que diziam os mandamentos da Lei de Deus, para todos saberem. Moisés começou a ler;

- 1º Adorar a Deus sobre todas as coisas 

- 2º...

- 3º…

- 4º…

- 5º…

- 6º

E todos, os presentes iam acenando afirmativamente com a cabeça, em sinal de     

aprovação.

Chegado ao mandamento seguinte

- 7º Não desejar a mulher do próximo

Então todos os presentes em voz alta responderam. – CORTA!!!  Moisés como que envergonhado, fez um tracinho na perna do 7, mas, como era a  Lei de Deus, não podia anulá-la. E assim ficou o sete com um tracinho, até que apareceram os computadores, e os americanos decidiram que a perna do sete não precisava de tracinho.

Vê agora Padre a razão porque eu chamei a atenção ao Sapatelhas? Embora não houvesse mulher de ninguém próximo, o que ele desejava era mulher, quer fosse do próximo ou do afastado. Ele naquela altura também não concordava com o sétimo mandamento.

A conversa espevitou, embora alguns não concordassem com o que eu disse. O Miranda até disse que não valia a pena falar nesse caso. Era como a vingança do chinês. O Costa Pereira que era ligeiramente gago só disse: - Pois, pois! Não sei se aprovando se reprovando a minha “lição de moral”!

O certo é que a conversa pegou. Discutiu-se a alteração do tracinho do sete tinha sido pela razão apontada. A mim parece-me lógico. Não havia mulheres, só homens, quando Moisés desceu do monte Sinai. As mulheres ficavam em casa, não tinham voz activa. Os homens, até porque tinham recebido do Criador a missão “ Crescei e multiplicai-vos”, que queriam cumprir, é lógico que quisessem cortar o sétimo mandamento.

E já que falamos de religião:

- Quando era pequeno e andei a aprender a doutrina – católica, claro, – foi-me ensinado que Deus era um ser infinitamente bom, infinitamente amável, e que tinha feito o homem à sua imagem e semelhança. Das duas uma. – Ou Deus não era bom, ou não tinha feito o homem à sua imagem e semelhança.

Se fosse como me ensinaram, não haveria guerras, haveria a paz no mundo. Nós não estaríamos aqui neste fim de mundo. Estaríamos com as nossas famílias, nas nossas casas

-Aí pára, disse o Padre Arnaldo, meio zangado. Deus era bom, e era tão bom que deixou ao homem a liberdade de escolha. Talvez fosse esse o seu único erro quando fez o homem. Não o afirmo, mas, pelo que vemos no mundo em que vivemos, há qualquer coisa que não está bem. O homem não soube escolher.

O espírito do mal a que chamamos “demónio”, tem influência sobre o homem, e o próprio homem é que tem de decidir, qual o caminho que quer tomar. Não culpemos Deus por ter deixado ao homem a capacidade de decisão.

-Pelos vistos, Padre Arnaldo, o demónio tem mais força do que Deus. Os homens obedecem-lhe com mais facilidade de que obedecem a Deus. A prova está à vista. Olhemos o mundo. O que vemos? Só desgraças. Guerras em toda a parte. A ganância de mandar, do poder, do dinheiro. Ricos muito ricos, pobres muito pobres. Estes, por vezes sem uma côdea de pão para dar aos filhos que choram com fome.

A democracia – que linda palavra, deve vir de demo – que deveria distribuir igualitariamente a riqueza por todos, é o que vemos!

O comunismo, em que todos deveriam viver em comunidade – os que podem aos que precisam! – O que vemos nós? Vemos os que podem, meia dúzia deles, a explorar os que precisam, que são milhões. Seria para isto que o mundo foi feito? É caso para dizer, que foi a frase que aprendi: - Valha-nos Deus!

Afinal em que ficamos! Isto estava tão mal que o Criador, “enviou” à terra um seu emissário a que nós chamámos Jesus Cristo. Mas nem Cristo conseguiu endireitar os homens.

O Crava meteu conversa. Ele que não era católico, não era protestante, não era nada, quanto a religiões, parecia ter estado interessado na conversa. – Mas vocês acreditam que Cristo foi concebido por obra e graça do Espírito Santo, que desceu à terra num carro de fogo, que Maria a mãe de Jesus era virgem e continuou sempre virgem, mesmo depois de dar à luz um filho?

-Olha o Sargento Crava, disse eu. Parecia estar a dormitar e afinal estava com atenção no que se estava a passar.

- Ouça uma coisa: - No tempo em que a bíblia narrou esses factos, para que eles fossem considerados credíveis, não o podia ter feito de outro modo.

Hoje, se a bíblia fosse reescrita – e ela já o foi algumas vezes, de acordo com as conveniências de alguns Papas – e dado o avanço da ciência, que foi um bem dado por Deus, que nós não deturpámos, seria outra.

- Outra qual, perguntou o Crava?

- Quer ouvir?

- Sim, diga!

- Eu poderia explicar-lhe que a terra não é o único planeta a orbitar no espaço. Há mais.:

Um dia, num desses planetas houve problemas e os seus habitantes deslocaram-se para a terra, onde passaram a viver sob determinadas ordens – mandamentos. Mas fosse porque diabo fosse, os homens começaram a asnear. Então Deus resolveu enviar à Terra um seu emissário, mas fê-lo de modo a que os homens o aceitassem. Seria igual a eles, fisicamente, mas como ser superior que era, tinha uma inteligência também superior.

- Foi escolhida uma mulher terrena, pura fisicamente, de acordo com os cânones dos Deuses. Essa mulher chamava-se Maria. Ela daria à luz um ser superior. Assim foi.

- Foi enviado à Terra um emissário a que os antigos chamaram Espírito Santo. Veio num carro de fogo – hoje chamar-lhe-íamos, foguetão. Maria foi inseminada artificialmente, pelo que ficou virgem. Quando do nascimento, foi feita uma cesariana – pelo que Maria continuou virgem. Estes factos, na altura do acontecimento não poderiam ser narrados desta maneira, não haveria provas. Do facto continua a não haver provas, mas o que eu contei, tem, na actualidade, consistência. Já se fazem as duas coisas. A inseminação artificial e a cesariana! É uma explicação mais plausível.

-O Ribau hoje está com veia de filosofo! E quem se fosse deitar? Diz o Padre Arnaldo, como que a querer pôr termo à conversa! Era uma hora e meia da madrugada. Alguns já apresentavam os olhos pequeninos. Já mal se viam à luz da vela! Assim fizemos. O Padre foi dormir para a enfermaria numa maca, e nós começámos a preparar-nos para a deita. Tirar os camuflados, tirar as botas, e, como sempre, lá veio o cheiro a licor de peúga. Era sempre assim. Depois com o tempo, aquele aroma desaparecia. Alguns já sonhavam com o dia seguinte! Adormeci também.

No dia seguinte logo de manhã o primeiro pelotão preparou-se, para ir a São Salvador. Era dia de reabastecimento e calhava ao primeiro pelotão esse serviço. O terceiro pelotão – o nosso – estava de serviço ao acampamento. Serviço de segurança. O quarto pelotão de serviço à água e lenha. Para o segundo pelotão era dia de descanso.

Depois do almoço, o calor era tórrido. Como eu gostava de subir ao posto de observação e olhar a paisagem, quando estávamos de segurança, até que por vezes corria lá uma aragem fininha, agradável, por o local ser elevado, resolvi ir até lá. O calor não era tanto. Mas aragem nem vê-la. Sentei-me a olhar.

Para poente, logo a seguir ao arame farpado existia um profundo vale. Lá ao longe era a estrada para São Salvador. Não se via mas imaginava-se. Aquela hora a malta já devia estar a tratar de carregar as viaturas.

Olho para o relógio: - três horas da tarde, dia 2 de … Julho de 1962. Continuei a olhar, agora para noroeste. Era a saída do nosso acampamento para a Buela. Mais adiante a estrada virava à direita, para o norte, em direcção à Buela. Se deixássemos a estrada e

seguíssemos em frente, sempre para noroeste encontraríamos uma picada, que parecia ter sido muitas vezes calcada. Seguia sempre pelo cume de um monte com um vale profundo de cada lado. A visão era boa para todos os lados de maneira que ali não haviam possibilidades de emboscada. Explorámos essa picada e, mais uma vez surpresa. A picada terminava onde acabava o cume e no final estava implantado um marco geodésico. A seguir era o vale profundo e no fundo do vale mata luxuriante, com arvores que pareciam de grande porte. Só víamos as copas.

Para nascente a picada que nos levava à água e ao fundo o capim verdejante que nos indicou que ali havia água. Para poente a estrada que nos levava à estrada a São Salvador e a Cuimba.

 

 

 

                

                          O posto de observação e de meditação

Nada de novo. Desci, fui dar uma volta, conversar com as sentinelas e depois sentei-me na caserna a ler os restos de um jornal do puto que veio a embrulhar uma encomenda de um colega. Sempre a mesma coisa. O acampamento estava calmo, os militares que não estavam a trabalhar recolhiam às casernas, onde o calor era menos. Calmo demais para o meu gosto. A cantina estava aberta, mas sem clientela. O pelotão do reabastecimento já devia ter chegado. Talvez um furo, ou coisa parecida, os tenha atrasado. Oxalá!

 

Ângelo Ribau

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

v

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                   

 

publicado por gatobranco às 23:03 | link do post | comentar
Quarta-feira, 02.09.09

A QUEIMADA

                                     A queimada

 
 
Desta vez numa patrulha diurna, avistámos o inimigo ao longe atravessando a estrada de norte para sul. Eram meia dúzia deles. Não valia a pena fazer fogo àquela distância. Eram poucas as possibilidades de os atingirmos. Avançámos pela estrada e no local onde eles tinham penetrado no capim, seguimo-los, tentando apanhar alguns “à unha”. Vinham do Congo, e interrogados poderiam fornecer-nos elementos valiosos, ou mesmo poderiam trazer documentação com informações valiosas. O capim estava ressequido. Eles deviam estar por perto. O vento soprava do sul e sentia-se o odor a “catinga”. Íamos apanhá-los. Avançámos à confiança.
De repente vimos cerca de uns duzentos metros à nossa frente, começarem a aparecer chamas. Sacanas, eles é que nos tinham apanhado a nós. Lançaram fogo ao capim, e quanto mais o capim ardia, mais o vento aumentava de intensidade, e as chamas avançavam para nós com mais velocidade. Só tivemos uma solução: - Fugir!
 
Corríamos à frente das chamas conforme podíamos, com as chamas a lamber-nos as botas. O capim era alto e dificultava a nossa fuga. Nisto o municiador da Basuka, gritou: - Meu alferes, a granada da Basuka, caiu-me
 -Deixa a granada e salva-te tu, Foge! Diz o Alferes
Chegámos à estrada, mas as chamas não pararam. Tivemos de continuar a correr. Ao longe notámos árvores verdes. Ali deve passar o rio. Vamos para lá, gritei para o alferes.
 
Continuámos a corrida, alguns já sem folgo, as chamas continuavam a lamberem-nos as botas. Ao chegarmos à mata, verificámos que era mesmo o rio, onde nos metemos com água até ao pescoço, os braços no ar para segurar as armas fora de água, à espera de que as chamas parassem. Qual quê, as chamas eram de tal intensidade, que estavam a subir ás arvores, e a tentar passar o rio para a outra margem.
Olhávamos para cima. Então vimos um espectáculo, que eu nunca tinha visto; dezenas de pequenos macacos tentando também fugir das chamas, saltavam das copas das árvores e tentavam atingir a outra margem, orientando o salto com os seus compridos rabos, até que esse espectáculo acabou. As chamas não conseguiram passar para a outra margem e estavam a morrer.
Olho para a outra margem, vi qualquer coisa a mexer-se no capim e dou um grito: - Meu alferes, crocodilos! Todos fugimos da água como que movidos por uma mola. Porra, hoje é o nosso dia de azar diz o “Rossas”. Aguardámos na margem mais uns tempos até as chamas desaparecerem, e regressámos à estrada. A terra estava quente, aqui e acolá ainda ardiam pequenas chamas. Procurámos a granada da Basuka que encontrámos e balizámos. A temperatura não a tinha feito rebentar, infelizmente. No dia seguinte iria ser bonito para a recuperar. Sabíamos que era disparada por ignição eléctrica e com o impacto rebentava. Mas, e agora? Os fios eléctricos estavam queimados! Recupera-la assim? E trazê-la ao ombro?
 
Ouvido o relatório do Alferes, o Capitão deu ordem para o pelotão ir recuperar a granada, no dia seguinte, não sem primeiro criticar o Rossas, por a ter deixado cair. Nabo, pensei eu. Se lá estivesses naquela aflição, gostava de saber como reagirias!
Eu não gostava nada desse capitão, tanto pela sua petulância, como pela sua incompetência.
Imaginem que uma noite, estávamos a dar instrução nocturna em Caçadores 5 e aparece este alma de Deus.  -Então nosso furriel, qual é a instrução que estão a dar?
-Orientação nocturna meu Capitão. Mas está difícil porque o reflexo das luzes da cidade, não deixam ver bem as estrelas, respondi.
Dirigiu-se então a um soldado e pergunta, do alto dos seus galões. Ouve lá. Como é que tu encontras a estrela-polar?  
-Ainda não sei bem meu Capitão, foi a resposta.
-Pois é, vocês são umas bestas pá. Estamos quase a embarcar para Angola, e ainda não sabem encontrar a Estrela Polar. Depois quando lá tiverem de andar de noite, perdem-se!
Ainda retorqui a medo. A estrela-polar no Hemisfério-Sul, meu Capitão?
 
O Alferes Miranda, quando o Capitão se retirou, dirigiu-se a mim e disse-me.
-Oh Ribau, você ainda leva uma porrada. Qualquer dia ele corta-lhe o fim-de-semana!
-Meu Alferes. Acha que devia ficar calado? O que é que o Senhor faria se a pergunta fosse dirigida a um seu instruendo?
– Olha; eu virei as costas para que ele não me visse a rir.
- Mas eu estava de frente e se lhe virasse as costas era pior.
 
O Alferes Miranda tratava-me por você. Eu era o único Sargento casado no pelotão, e ele tinha vindo havia pouco tempo comandar o pelotão. Veio substituir o Alferes Silva, que, por não “concordar” com a guerra no Ultramar, se pirou.
E lá fomos no dia seguinte. Ao chegar ao local que tínhamos assinalado, lá estava “ela” como a tínhamos deixado no dia anterior. Nem se dignou rebentar para nos deixar, mais descansados.
Parecíamos hienas à volta de peça de caça abatida, mas com cuidado! Podia ainda estar viva!
Pensámos fazer fogo de longe sobre ela, tentando que com o impacto o percutor actuasse e a granada explodisse! Mas, e se não resultasse? Não estávamos preparados para um caso destes! Conferenciámos, os três sargentos e o alferes.
Os cabos eléctricos estavam queimados. A granada era sempre transportada com as empenas para baixo para no caso de cair não explodir. Confirmámos junto do municiador da Basuka como levava ele a granada às costas. Confirmou que ia com o “bico” para cima.
-Porra, diz o alferes. Está porcaria já me está a chatear. Vou eu buscar a granada e o municiador leva-a ao colo para o acampamento, que é para a outra vez aprender!
Ele tinha visto como as coisas se passaram. Fora ele que dera a ordem ao municiador, para fugir!
Compreendi. Era um desabafo, tentando acalmar os nervos que sentia, que todos afinal sentíamos.
Tirou a pistola do cinto atirando-a para o chão. Tudo para longe, foi a ordem que deu!
Aproximou-se da granada, rondou-a vagarosamente olhando-a! Parece ter perdido os nervos, que eu senti que ele sentia. Vagarosamente aproxima-se, pôs as mãos por baixo da granada e levanta-a, como se levantasse um bebé do berço para não o acordar. Nada aconteceu, felizmente.
- Municiador, chamou o Alferes. Toma; és tu que a lavas para o acampamento. Antes de lha entregar apertou-a contra o peito, como a provar que não haveria perigo, e entregou-lha.
Apanhei a pistola do chão e fui entrega-la ao Alferes. Ao recebe-la notei que as mãos lhe tremiam muito.
– Calma meu Alferes, o perigo já passou, disse-lhe eu. Pois passou diz-me ele. Quando mandei o pelotão afastar-se estava com uma calma celestial. Agora é que estou assim, vá uma pessoa saber porquê!
 
Problema de quem comanda e sabe comandar! Pensei eu!
 
Chegados ao acampamento, todos quiseram saber como se tinham passado as coisas, pois todos os que tinham ficado sabiam o perigo que podia haver.
Foi-lhe contada a história do que se tinha passado.
Vocês têm sorte com o comandante de pelotão que têm. Se fosse outro teria mandado um sargento ou um cabo fazer o serviço que ele fez.
 
Que vida esta, pensa uma pessoa. Não sei como há gente que segue a profissão de tropa, especialmente de infantaria.
 
-Os marinheiros andam no mar, e tem tudo o que necessitam, a bordo.
 
-Os aviadores andam no ar, cumprem a sua missão e regressão à base, que normalmente fica próximo de uma cidade.
 
-Os paraquedistas, são lançados do ar para o objectivo, cumprem a sua missão, são recolhidos pela infantaria, que os transporta a local onde serão recolhidos por avião ou helicóptero
.
-Os de infantaria estão num aquartelamento no meio do mato, e são-lhe dados objectivos que tem de alcançar, normalmente a pé, por terrenos desconhecidos. Quantas vezes pensamos que vamos surpreender, e somos surpreendidos pelo inimigo que conhece o terrenos melhor que nós, e nos surpreende, como foi o caso da granada da Basuka. Temos de tratar da nossa segurança e do nosso abastecimento, por vezes por “estradas” minadas.
Quando há operações na nossa zona, ou até às vezes fora dela, além de termos unidades a colaborar nelas, temos de fazer proceder ao transporte dos paras, nas viaturas de transportes colectivos lá do sítio – Unimog ou GMC –.
 
E ainda temos de suportar a incompreensão das altas esferas do “Ar condicionado”.
Imaginem que a nossa companhia recebeu uma comunicação de Luanda, de que os Unimog andavam a “gastar” muitos amortecedores. Foi indicado o motivo: - Todas as viaturas estavam atapetadas com sacos de areia, por causa das minas anti-carro, e quando chovia os sacos eram muito pesados mesmo.
 
- Que não podia ser, que os amortecedores eram caros
 
- Foi-lhe respondido textualmente segundo apurei mais tarde:
- Vexas têm razão. (Vossas Excelências têm razão).
Fiquei admirado com a resposta da Companhia. Eles tinham razão. Os amortecedores eram caros. A Companhia só confirmou que os amortecedores eram caros.
O Capitão passou-se? Falei ao médico, que me perguntou o que se tinha passado! Contei-lhe. Ele riu-se. O Capitão, só confirmou que os amortecedores eram caros …
Fiquei desconfiado. O assunto já devia sido discutido pelos oficiais durante a refeição. E todos os operacionais concordaram em não tirar os sacos, segundo vim a saber.
A resposta ambígua foi a devida.
 
A. Ribau Teixeira (Memórias de um ex-combatente)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                   
publicado por gatobranco às 21:24 | link do post | comentar | ver comentários (3)

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