Sexta-feira, 23.10.09

O SEGREDO

  

 

 

 

 

 

 


Há muitos anos, talvez demasiados, que guardo este segredo comigo.

Os segredos de longa data são um fenómeno especial. Por vezes  passamos tempos sem os lembrar, arrumados que estão em qualquer escaninho do nosso cérebro. Mas pensar que estão mortos, que desapareceram de vez, é um engano. De vez em quando, despertados por qualquer pequeno senão, emergem, ocupam todo o nosso ser, libertam-se, ferem e quanto maior é o tempo que dormem dentro de nós, pior é o despertar.

Sucedeu comigo há dias, lendo o título duma publicação local – A carta.

 

Recuemos para Pangala, aos tempos negros que sucederam ao terrível desastre que levou para sempre três dos nossos companheiros.

O ambiente era pesado. Falava-se pouco. Cada um deambulava para seu lado e, quando, sem nada que fazer nos reuníamos, as anedotas, os chistes as provocações próprias e características de jovens de vinte anos não saíam com naturalidade ou apareciam a despropósito.

Um sentimento colectivo instalara-se no mais fundo de cada um: a vingança, o desejo cego de retaliar. Víamo-lo nos nossos olhos, nas frases sincopadas.

Foi neste ambiente que, numa madrugada, a coluna de reabastecimento partiu para S. Salvador, trilhando o mesmo caminho que fora fatal para os nossos companheiros. Partiram de cenho cerrado, olhos brilhantes, sem olharem para trás. Entre os que ficaram, ninguém se atreveu a formular as graças do costume: “Traz-me uma branca novinha”… “preta também serve”… “Dá uma por mim”…

Passei o dia vigiando o posto de rádio, em escuta permanente.

Fartos do indicativo “Cobra”, naquele dia carregaram um batráquio:”Sapo”. Assim, de meia em meia hora, não havendo qualquer “azar”, o operador de rádio da coluna dizia o que tantos ambicionávamos ouvir: “Delta Lima, aqui sapo, sem serviço”

O OK que eu ou o operador do Posto rádio respondia era a descompressão daquela meia hora de espera.

Fez-se um intervalo correspondente ao almoço deles e trabalhos de carga dos víveres e combustível e retomou-se a ligação quando iniciaram a viagem de regresso.

Chegaram cedo, antes da hora do jantar, com o sol a espreguiçar-se a poente, alquebrados não tanto pela rudeza da viagem como pela tensão nervosa, olhos avermelhados pelo esforço de fixação na estrada, tentando ver algum alto, alguma cova, qualquer coisa que pudesse indiciar uma mina.

Esperava-os sentado nos degraus da casa do comando, frente ao jardim com as letras de cimento a gritarem “Pangala”, perto do posto de rádio.

O Cura viu-me fez-me sinal e atirou-me um saco de lona, mais pequeno que os nossos, também fechado a cadeado, esperou que o encaixasse e depois foi a vez da chave atada a uma pequena tabuleta de madeira que viajou até mim como um cometa:

--Entrega isso na secretaria…

O primeiro-sargento abriu o saco e separou o correio do envelope que trazia o dinheiro para os pagamentos à Companhia.

Apoderei-me do correio, quebrei o fio que emassava talvez trinta cartas e, pesquisando o meu nome, fui fazendo a separação: o dos oficiais para um lado, o dos sargentos para outro, restando o dos soldados que talvez fosse separado por pelotões ou “cantado” para toda a gente reunida na parada.

Tirei uma carta para mim, agradado com o reconhecimento da letra – era de minha Mulher – entreguei uma ao primeiro-sargento, pus de parte duas para os alferes e estaquei aterrorizado pelo endereço da que estava à minha frente.

O primeiro-sargento ter-se-á apercebido da minha reacção porque, levantando os olhos da folha que lia, quis saber:

-- O que foi?

--Nada…. – Titubeei, juntando a carta à minha.

Acabei a separação do correio, o sargento de dia apareceu e tomou conta das cartas respeitando a separação feita e foi-se resmungando que nunca lhe passara pela cabeça fazer de carteiro. Desculpei o seu mau humor: para ele não havia qualquer carta.

Demandei o centro de cifra, deserto àquela hora. O cifrador, que passava o dia nas suas instalações ou nas proximidades do posto de rádio, ao fim do dia, antes e particularmente depois de jantar, não havendo serviço, ia para qualquer uma caserna e só voltaria para dormir no seu “quarto individual”. De uma das toscas prateleiras retirei uma pasta qualificada na lombada como “arquivo morto.” Retirei dela um grande envelope identificado a marcador vermelho como “particular” com a minha rubrica por baixo e meti nele uma das cartas. Recoloquei tudo nos lugares e, finalmente, sentei-me no banco alto da bancada de trabalho do centro de cifra e li deleitado as pequenas habilidades do meu filho e dori-me com as saudades da Mãe.

Deitei-me cedo, não sem antes reler a carta recebida.

Num sono agitado, por entre frases de carinho e dor de minha Mulher, várias vezes a lombada daquela pasta se me desenhou em letras enormes : ARQUIVO MORTO.

O tempo rolou e, lentamente, a lombada da pasta diluiu-se e só esporadicamente surgia num flash de imediato rechaçado.

 

Quando a notícia de que a rendição se faria dentro de dias, para além da explosão de alegria que abalou o acampamento, iniciámos os trabalhos necessários para a entrega do “património” aos vindouros. O Lino atarefou-se com as reparações em curso e intermináveis conferências de ferramentas; na cozinha, sob a égide do Cura, depois de alguns momentos de quase pânico, concluiu-se que tudo batia certo; na enfermaria pensos, seringas, macas e adesivos foram inventariados pelo Pereira com os seus maqueiros; na secretaria montes de papéis foram conferidos e catalogados com o auxílio (?) do Resende que via ali uma razão para continuar a fazer o menos possível e, pela minha parte surgiu uma preocupação: faltava um microtelefone de um emissor portátil. Bem a contra gosto do pessoal das transmissões, empenhado nas conferências do material, despejaram-se todos os acessórios em pequenos montes, por equipamento e o malfadado microtelefone apareceu numa bolsa que não era a sua.

No centro de cifra a situação era mais melindrosa porque obrigava a uma conferência exaustiva dos MCPEs[1] em serviço, caducados e em reserva. Entretanto chegara do Comando do Batalhão, autorização para proceder à destruição do arquivo morto, já muito volumoso.

O cabo cifrador, o Gonçalves, sobre quem eu descansara todas as tarefas burocráticas, lendo as NEPEs[2] determinou que a destruição de material cripto devia ser feita pelo fogo, com duas testemunhas que assinariam os autos de destruição lavrados por mim.

Concedi~lhe esse prazer, bem o merecia! Os dois cabos da guarnição do posto de rádio do Comando da Companhia foram indigitados como testemunhas e, um dia, a meio da tarde, marchámos em cortejo rumo à cozinha.

Enquanto dezenas de folhas se contorciam no lume avivado por aquele combustível suplementar, do envelope assinalado “Particular” com marcador vermelho, retirei algumas folhas que dobrei e meti no bolso da camisa, outras foram para a fogueira e só restou a carta fechada que lá depositara há muito tempo.

Com reverência, evitando que os outros vissem o endereço, li-o pela última vez com as chamas a lamberem-no: ANTÓNIO LUCRÉCIO DAVID, SPM….me cedo, nlho do centro de cifra e li deleitado as pequenas habilidades do meu filho e dori-me com as saudades da mlto da

 

Covilhã,30/SET/09

J. Eduardo Tendeiro

 

Nota do autor:

Tanto tempo depois, interrogando-me se teria procedido bem, continuo a pensar que fiz o que se impunha. Se a carta chegasse às mãos do primeiro-sargento ou do capitão, certamente que a devolveriam com a indicação de “destinatário falecido” e iria abrir novas chagas na martirizada família.

Para quê submetê-la a mais aquela provação? Assim e na dúvida, poderiam pensar que ele a tinha recebido.

Se procedi mal, que o David me perdoe.



[1] Material Cripto do Exército

[2] Normas de Execução Permanentes 

 

 

 

 

 


 
publicado por gatobranco às 11:24 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Sábado, 10.10.09

NOVENTA E NOVE

 

 

Infelizmente, a guerra não acabou com o desembarque em Lisboa e o alijar da farda.

Para muitos, as feridas abertas na alma, os medos que o cérebro acumulou, perseguem-nos por muito tempo, talvez por toda a vida.

Outros, mais libertos desses fardos, no regresso são confrontados com o desemprego, com as oportunidades perdidas em pelo menos três anos em que as suas vidas nada significaram.

O noventa e nove foi um deles.

 

 

Virou para si o relógio de pulso pendurado num prego enterrado no tronco duma oliveira. Sabia que fora naquele prego que o avô sempre pendurava o seu relógio de bolso. Tinha uma vaga reminiscência: Uma figura alta, direita, sempre com um colete preto. Quando chegava à horta, a primeira coisa que fazia era tirar de um dos bolsos do colete o relógio de bolso, com grandes números, libertar a corrente da casa do botão e pendurá-lo naquele prego. Lembrava-se das vezes que ficara a olhá-lo vendo o ponteiro dos segundos deslizar num mostrador mais pequeno.

Depois fora o pai que, herdando o velho relógio, continuava a suspendê-lo no mesmo prego. Ele, quase de maneira automática, mas com um misto de satisfação, suspendia agora o seu relógio de pulso naquele mesmo prego que acusava a passagem de muitos Invernos.

Vinte para as sete.

Naquela manhã de um Julho tórrido, chegara à horta pouco passava das cinco. Era preciso fugir ao calor e permitir que a terra, arrefecida pela noite, recolhesse a água da rega.

Cofiou a barba longa que o acompanhara nos dois anos de guerra em Angola e, pela enésima vez, deitou contas à vida. Com o falecimento do pai – o  coração doente não resistira à sua mobilização –  pensar em viver daquela pequena courela era impensável. A mãe, desgastada pela idade e pelos desgostos, mesmo com a sua ajuda, não conseguiria tirar da terra mais que o sustento diário e utilizar a magra pensão para o pão ou, em dia mais festivo, um pouco de carne ou peixe.

Já dera umas voltas pela cidade a poucos quilómetros da sua aldeia a perguntar por emprego, já passara pelo serviço nacional de emprego onde recebeu a garantia de que se aparecesse alguma coisa o contactariam…

Havia uma vaga numa oficina auto para mecânico. O que aprendera na guerra olhando para os motores dos jeeps e dos Unimogs, não o credenciavam para tal.

Talvez tivesse que ir para Lisboa. “Ali toda a gente se safa”, argumentou para si.

Voltou a consultar o relógio: sete horas. A camioneta devia estar a chegar. Maria das Dores, a sua Maria, devia estar a embarcar com a  pequena lancheira debaixo do braço. Só regressaria depois de a sirene roufenha da fábrica a libertar às dezassete. Depois havia a espera pelo transporte de regresso e só perto das vinte chegaria a casa. Noite cerrada, no Inverno.

Casariam logo que ele arranjasse qualquer coisa. Por ela já teriam casado, mas ele, escudado no seu orgulho, queria primeiro arranjar emprego. Nem por sombras se imaginava a cultivar a horta e a explorar alguns bocados da família da Maria das Dores.

Levantou-se. Ali estendido não resolvia nada.

Maldita guerra que o fizera perder duas vagas na fábrica da namorada. Mais que namorada, noiva.

Resoluto, pôs-se a caminho de casa.

“Vou à cidade, Mãe. Vou ver de emprego” – disse à figura alquebrada que cortava hortaliças na cozinha.

“Filho! – estacou e olhou-a interrogativo – Corta essas barbas… pareces um judeu, para não dizer outra coisa mais feia. Assim não te dão emprego e fazes a vontade à tua Mariazinha. Ela já me pediu tantas vezes para te convencer! Isso só te faz lembrar a maldita guerra que matou o teu pai. Tira isso, sim?”

Cabisbaixo rumou para a casa de banho de onde emergiu muito depois com uma toalha enrolada à cintura.

Olhando-o, a mãe gritou de alegria:

“Filho! Graças a Deus! Agora já pareces o meu filho – correu para ele, afagou demoradamente a face branca, escanhoada – Que contente que a Mariazinha vai ficar!

Almoçou com a mãe uma sopa de hortaliças da horta e um pouco de carne desencantada no fundo da salgadeira outrora sempre bem provida.

Montado na sua mota comprada com os primeiros dinheiros que ganhara nas ceifas antes de ser incorporado, com o vento a cantarolar nos cabelos soltos, aspirando com prazer o ar que lhe afagava a face despida da protecção da barba de mais de dois anos, chegou à cidade e, lentamente, foi percorrendo ruas, procurando papeis que anunciassem empregos. Numa taberna aconselharam-no a perguntar na Câmara, mas o resultado foi infrutífero.

Deambulando a pé, o seu olhar foi atraído para um pedaço de cartão que, preso num portão, anunciava “Precisa-se sócio”.

Sorriu entristecido. Ele sócio, com os poucos tostões amealhados na maldita guerra? Mas, talvez por bravata, carregou no botão de chamada inserido na ombreira.

Voltou à rua cabisbaixo. O negócio parecia bom. Era uma panificação com boas máquinas e boa freguesia. Só na cidade tinha duas padarias e, depois, havia carrinhas de distribuição pelas aldeias. Ele trabalharia com uma dessas carrinhas e faria a supervisão das vendas sem ter nada a ver com o fabrico. Era bom! Boa paga e ainda percentagens de vendas! Mas onde é que ele iria arranjar duzentos contos?

Maria das Dores, antes de lhe saltar ao pescoço e o crivar de beijos, teve que olhar duas vezes para o reconhecer sem barbas. Sentada atrás dele, agarrando-o pela cintura com mais força que a necessária, mesmo durante a viagem de regresso à aldeia, não deixou de gritar o seu contentamento por o ver sem barbas.

À noite, no café, falou com o tio João. Passaram em revista as famílias da aldeia e concluíram que só duas poderiam emprestar-lhe duzentos contos. Um deles, o dono do café que, sondado, de imediato se escusou. Tinha feito obras recentes, ainda devia dinheiro ao banco… Aí abriu-se uma nova porta: um empréstimo ao banco. Mas era necessário um fiador. Quem na Aldeia? Só o senhor Doutor…

O senhor Doutor era um notário aposentado com mau relacionamento com a aldeia a ponto de poucos quererem trabalhar para ele. Correu o risco e voltou humilhado.

Inconformado, sem conseguir dormir, alargando para lá da aldeia a busca de um fiador, lembrou-se subitamente do seu irmão de sangue. “…Tudo o que precisares, amanhã, daqui por cem anos, conta comigo”. Parecia que o estava a ver, à saída do hospital, onde ele o fora esperar. Adormeceu pela madrugada, um sono sobressaltado.

O sargento Pires, atingido por dois estilhaços, incapaz de sair da zona de morte... Sentiu o peso dele nas costas, ao longo de vários quilómetros, acossados pelo fogo dos turras, o pelotão desorganizado e em fuga. A reorganização tardia já sem possibilidade de réplica, os pedidos de apoio e de evacuação…

Ele, também ferido, embora sem risco de vida, deu o seu sangue para a primeira transfusão e seguiu no helicóptero com o sargento Pires.

De madrugada, revolveu “a mala da guerra” até encontrar u pequeno cartão que o sargento Pires lhe dera na hora do desembarque: “Somos irmãos de sangue, não vou esquecer. Sem ti, já estava morto. Tudo o que precisares, amanhã, daqui por cem anos, conta comigo”.

Diferiu a rega da horta para a noite. Com o pequeno cartão escondido na palma da mão foi-se caminho do café – que também servia de posto telefónico – e, ansioso, esperou pelas nove horas. Não lhe parecia bem ligar antes daquela hora.

Sim, sim era a casa do senhor João Pires, mas ele tinha saído cedo. Só lá para a hora do almoço, se fosse almoçar. Que ligasse depois da uma.

A manhã foi longa. Ainda foi à horta queimar tempo porque o sol abrasador já desaconselhava qualquer serviço agrícola.

Almoçou mal, a mãe preocupada, ele a não querer dizer o que o consumia. Uma dúvida crescia nele: seria que o Pires, o sargento Pires (não sabia como havia de o tratar) ainda se lembrava dele? A dúvida nauseava-o e também a vergonha de o contactar para lhe pedir dinheiro. Bom, não era dinheiro. Ele só precisava que fosse seu fiador.

Ligou às treze e quinze. Quem atendeu mandou-o esperar porque ia chamar o senhor Pires.

“Sou o Pires. Quem fala?”— a voz grossa do seu irmão de sangue encheu o auscultador.

A medo, respondeu:

“Sou o noventa e nove…”

“Quem?!...”

“O noventa e nove… Angola"…

Houve um pequeno hiato e a voz potente do ex-sargento  berrou:

“Noventa e nove? És o Lemos? O meu irmão de sangue?"

“Sou..."

“Irra, pá! Ainda há dias falei em ti. Ficámos de nos encontrar e até agora nada! Onde estás?”

“Na minha aldeia e também gostava de o ver”

…"De o ver? ‘tás parvo, pá! Então já não nos tratamos por tu? Não te armes em parvo!”

Do telefonema resultou um encontro no fim de semana seguinte na cidade próxima da aldeia do Lemos, o noventa e nove da sua Companhia em Angola.

Foi uma jornada de fraternidade. João Pires, à frente de um armazém de materiais eléctricos em franca expansão, de imediato quis aliciar o amigo para trabalhar com ele, mas a distância, a pouca saúde da mãe e o seu noivado eminente levaram o noventa e nove a esquivar-se.  Confrangido, expôs o seu projecto de sociedade na panificação e a necessidade de um fiador para conseguir o empréstimo do banco.

“Fiador uma ova! Empresto-te a massa, compramos a padaria, conta comigo. Devo-te muito mais que a merda de uns contos de réis. Devo-te a vida – batendo no peito, acrescentou – aqui corre sangue teu, já te esqueceste, irmão? A propósito, tive que contar aos meus pais. Eles não se calavam com as minhas cicatrizes e falei-lhes em ti. Querem conhecer-te!

O ex-sargento escusou-se a visitar a sua aldeia, mas jurou que em breve o faria acompanhado pelos pais. Na despedida, sério, afirmou:

“Olha que eu vou ser o teu padrinho de casamento!”

 

À noite, pleno de satisfação, com a presença da Maria das Dores, alisando um cheque sobre a toalha da mesa, anunciou solene:

“Já tenho emprego. Vou ser sócio da panificação da cidade!”

                                    ______________x_______________

 

Dedico esta pequena história a todos os ex-combatentes que, sem um providencial irmão de sangue, sem a ajuda da sociedade ou do Estado que os enjeitaram, encontraram um lugar na vida.

 

Covilhã, Setembro de 09

J. Eduardo Tendeiro

publicado por gatobranco às 17:57 | link do post | comentar | ver comentários (2)

A EMBOSCADA

 30 Setembro 1962

Era domingo.

Os sargentos, na sua sala, procuravam passar o tempo. Uns entretinham-se num jogo de pocker, outros conversavam e, como eu, tomavam a sua bebida.

 Era meio da tarde. Aparece o Alferes Miranda.

- Ribau, Miranda, preparem o pessoal vamos sair para uma emboscada.

- Mas hoje é nossa folga, argumentamos.

- Ordens do nosso Capitão, responde-nos.

-Vamos sem comer?

-Levamos rações de combate.

Pouco tempo depois o pelotão estava pronto para avançar. Subimos para a GMC e seguimos na direcção da estrada de Cuimba. Chegados ao cruzamento, com a viatura em andamento, saltamos para a estrada. A GMC, sem parar, rodou e voltou para Pangala.

Em silêncio, caminhamos no sentido de S. Salvador. Íamos em busca da picada do Quelo.

 Disfarçada no meio duma pequena plantação de bananas, encontramo-la à nossa direita. Saímos da estrada e seguimos pela picada.

 Não era mais que um trilho estreito onde não se podia seguir senão em fila indiana. Caminhava-mos pela encosta do monte. O cimo, à nossa esquerda, ficava a pouco mais de dez metros, já o vale estava a uma distância bem maior.

Paramos. A noite aproximava-se e não podíamos correr o risco de ela nos apanhar sem estarmos instalados. Aquele lugar não era o melhor para montarmos a emboscada, não havia nada onde nos escondermos. Entendemos que seria mais seguro dividir o pelotão. Metade do pelotão ficou comigo ali e os outros foram instalar-se depois da curva que a picada fazia mais à frente. Sabíamos também que o inimigo se deslocava com um pequeno grupo de batedores para que, em caso de caírem em emboscada, pudessem reagir com o grosso da coluna que vinha mais a traz. Assim, ficou combinado que, no primeiro contacto, deixasse-mos passar os primeiros, que cairiam na emboscada mais à frente, para que pudéssemos apanhar o grosso da coluna.

Imediatamente, procuramos as melhores posições. No enfiamento da picada, virados para o lado contrário para onde tinham ido os nossos companheiros, instalou-se o Braga com a metralhadora Dryse com outro ao lado. No cimo do monte ficaram dois a defender-nos as costas. Os restantes ficaram em linha ao longo da picada, um pouco recuados em relação ao Braga. Coloquei-me a meio da linha. De seguida começamos a comer as rações que cada um levava consigo.

Mal tínhamos acabado de comer e já em completo silêncio, cai a noite. Foi como se estivéssemos a ser iluminados por uma lâmpada e alguém tivesse desligado o interruptor. De repente, deixamos de ver a picada. Não se via no céu uma única estrela. Nem longe nem perto se via o mais pequeno brilho.

Pensava-mos que, como em outras vezes, nada aconteceria. De qualquer maneira há que ficar atento.

Não se passou muito tempo para começarmos a ouvir um ssf-ssf que vinha do lado da estrada. Era um zumbido que, mesmo naquele silêncio sepulcral, mal se distinguia. Perguntei-me: Serão animais? Nunca vimos nenhum, mas dizia-se que havia por lá elefantes!

O que quer que fosse vinha na nossa direcção. Aproximava-se. Ninguém se mexia. Parecia que tínhamos deixado de respirar. À nossa frente projectou-se umas sombras, tão ténue que, se não estivessem a deslocar-se, ninguém se aperceberia. Não eram elefantes, eram homens. Estávamos estáticos. A ordem de fogo seria dada com o meu disparo.

 Quando as sombras passaram pela metralhadora, que estava próximo da picada, pareceu-me que deram pela sua presença. Premi o gatilho da FBP no momento que se ouviu o grito de aviso para os que vinham a traz. Aquele local transformou-se num inferno. As armas automáticas disparavam em rajada. Granadas de mão ofensivas, lançadas por dois homens, rebentavam na encosta e feriam-nos os tímpanos. De repente, dei um grito a mandar parar o fogo. ALTO! HÁ CRIANÇAS! Tinha ouvido uns gritos de crianças, que me petrificaram. Instantaneamente, parou o tiroteio. Deixaram-se de ouvir os gritos. Passou-se a ouvir o barulho dos que conseguiam fugir, em direcção ao vale. Logo, troaram as rajadas dos que estavam mais à frente. Eram o primeiro grupo que, pensando que estavam livres do inferno, correram ao encontro de outro. Ficaram lá.

O silêncio que se seguiu só era quebrado pelos gemidos dum ferido. Não víamos nada mas sabíamos que ficaram ali vários.

Tentava-mos ouvir algum ruído. Receava-mos que houvesse um contra-ataque. Os nossos olhos procuravam atravessar a escuridão a vislumbrar algum movimento.

De repente, rebenta uma tempestade. Não havia vento, mas os raios caíam à nossa frente como fogo de artifício. A chuva caía com tal intensidade que até custava respirar. De pé, aproveitava-mos a luz dos raios para tentar ver o que estava à nossa frente. Nada se via. O ferido gemia. Foram horas terríveis que pareciam nunca mais passar.

Finalmente, a aurora inundou todo o espaço.

 Descemos para a picada e fomos ver o que estava por ali.

Na picada, `a nossa frente, estavam duas mulheres com o terror estampado nos rostos. Uma era paralítica e estava em cima da padiola em que era transportada, a outra, um pouco mais velha, sentada, no chão, ao lado. Um pouco distante estavam duas crianças. Com os olhos muito abertos viam-nos aproximar. Uma parecia ter dez anos, a outra, sete ou oito. Notava-se um pequeno arranhão no nariz da mais velha. Por sorte, nem as mulheres nem as crianças estavam feridas.

Ao longo da picada estavam uma espécie de fardos enfiados em paus comprido que eram transportados cada um, aos ombros, por dois homens. Rebentamos as folhas de palmeira que os envolvia e vimos uma grande quantidade de peixe seco e carne fumada. Tratava-se duma coluna de reabastecimento. Aqueles a quem se destinava, iriam passar muita fome.

Chegou um pelotão que nos veio ajudar e abriram as covas para enterrar os mortos. O ferido que passou a noite a gemer também acabou por morrer. Além das crianças e das mulheres, não houve prisioneiros.

As crianças foram levadas ao colo, a mulher paralítica foi levada na padiola e a outra foi a pé ao lado dum soldado. Nenhuma foi maltratada.

 

                                                                a prisioneira

 

Nos rostos de todos havia um sorriso. A vingança pela morte dos nossos companheiros que há dois meses tinham sido vítimas duma mina, consumou-se. Era a guerra no seu horrível.

Dois dias depois, fizemos uma patrulha por aquela picada. Distante do local onde tudo aconteceu, dentro duma mata, ao lado da picada a terra tinha sido cavada, recentemente, numa superfície, relativamente, grande. Curiosos, aproximamo-nos. O Ribau, montou a baioneta na FBP e começou a revolver a terra. Duas ou três espetadelas e sai-lhe um braço dum homem para fora da terra. Assustado e enojado, aos vómitos, afasta-se. Eram sepulturas de feridos que não resistiram aos ferimentos mas que, certamente com ajuda, ainda conseguiram fugir do inferno.

Não tivemos interesse em saber quantos morreram.

Continuamos a percorrer a picada, que ia em direcção da fronteira.

No cume dum monte de onde se avistava Pangala, encontramos uma palmeira no cimo da qual estava colocado um patamar. Era um posto de vigia. De lá, o inimigo, procuravam controlar os nossos movimentos e saídas. Pelos resultados, não conseguiram.

 

Miranda

 

Junho/2009

 

 v

publicado por gatobranco às 17:35 | link do post | comentar
Sexta-feira, 09.10.09

AS OBRAS

 

 

  Uma casa inacabada, poucas árvores e muito capim foi tudo o que encontrámos no lugar a que chamam Pangala.  Era ali que iríamos permanecer durante, aproximadamente, um ano.

 

   Os oficiais, naturalmente, ocuparam a casa. Para os sargentos foi montada uma tenda de pronto socorros. Os soldados armaram as suas tendas. E assim ficamos alojados. Mas, um ano naquelas condições seria quase impossível. Havia que fazer alguma coisa para tornar a vida menos difícil.

  O sargento Lino, creio que na vida civil era desenhador, tomou em mãos o plano. Feito o projecto, passou-se à execução. Vários soldados eram pedreiros na vida civil. Eram esses que assumiam a construção ajudados por todos os outros. O acampamento transformou-se num enorme estaleiro. As paredes iriam ser construídas em blocos feitos com terra e água, pré-executados. Mandaram-se vir chapas de zinco para o telhado. Aproveitaram-se as árvores existentes no local para as armações. Para o chão, foram-se buscar tijolos burros que existiam em pequenos fornos que os habitantes locais faziam e que tinham sido abandonados. Menos de cinco meses depois tínhamos um quartel construído. Uma cozinha com dispensa, uma caserna com dois banhos, para cada pelotão, a casa dos sargentos com um quarto para cada quatro, um banho e uma sala de jantar. Não tinham janelas apenas as entradas sem portas e algumas frestas para o exterior.

 

                                      acabamentos na "casa dos sargentos

 

 

 

Era um luxo para aquelas paragens. Depois, com tempo, foi-se procedendo a melhoramentos. Foi um esforço enorme, tendo em conta que tudo foi feito sem prejuízo da parte operacional. Patrulhas, emboscadas e saídas aos reabastecimentos e correio em que TODOS participavam, foram sempre executadas. Ainda se arranjou na frente da casa dos oficiais um pequeno jardim em círculo onde no meio se implantou o mastro para a bandeira.

  Foram estas instalações que a tropa que nos rendeu encontrou. Sorte a deles…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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  Miranda

 

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 17:08 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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