Segunda-feira, 18.01.10

FÉRIAS

 

 

 

 

Férias

 

A guerra, com o seu cortejo de horrores e misérias, cria amizades indeléveis, resistentes ao passar do tempo e às dificuldades da vida.

Também, em indivíduos carentes, receosos do dia de amanhã, gera ligações que noutros cenários seriam inviáveis – são os conhecidos amores de guerra.

 

O sócio maioritário de uma grande imobiliária elegera como seu consultor o advogado de sucesso que, em Angola, durante mais de dois anos partilhara com ele as agruras das “Terras do Norte”, no distante ano de 62.

Recebido sem cerimónia ou protocolo, o presidente da Imobiliária expôs os seus problemas e, enquanto o amigo tomava notas e as englobava em círculos, debruçou-se sobre a vasta secretária e apoderou-se de um cartucho de uma metralhadora antiaérea que, esventrado do seu conteúdo e tornado inerte, apontava o bico aguçado do projéctil para o tecto, como torre de catedral gótica. A meio  do estrangulamento do cartucho, um pequeno aro metálico, uma aliança, parava a sua progressão no alargar do cartucho.

Olhando o amigo, com um sorriso, inquiriu:

- Até quando vais conservar isto?

- Até sempre – respondeu o advogado e, melancólico, prosseguiu – Isso, como sabes, é o Alfa e o Ómega da minha, guerra. O cartucho e o projéctil, são o Alfa: a dor, o sofrimento e a morte. A argola, o Ómega, o fim, o prazer gratificante, a consecução ainda que breve de um sonho…

 

 

Já tinham decorrido um ano e cinco meses desde que o Quanza, velho paquete das linhas de África, o despejara em Luanda para pouco depois marchar para o Norte numa penosa e longa viagem de reconstrução de pontes e caminhos recentemente destruídos.

Faltavam sete meses, mais coisa menos coisa. Nunca eram os vinte e quatro certos.

Estava de férias! E na capital da colónia! Chamam-lhe província, parte de Portugal, uno, indivisível e todas essas coisas que inventaram para tramar uma geração.

Do que lhe pagavam, pouco gastara para além dos cigarros, cervejas e uísques contrabandeados de Cabinda. Acumulara, por isso mesmo, algum dinheiro, parte numa conta na Metrópole – o Puto – e a maior parte, tinha-a consigo.

Era uma promessa antiga que fizera a si mesmo nas noites tenebrosas dos orfanatos por onde decorrera a sua infância e adolescência: ter umas férias sem grande preocupação com dinheiro, instalar-se bem, comer em restaurantes finos, ter um carro, ir a lugares de selecção.

De compleição atlética (era para ele um mistério como tinha ido parar a Infantaria e não a Cavalaria, Polícia Militar ou qualquer outro ramo para onde são enviados os mais avantajados) passara pelos orfanatos sem ser molestado, mas recusara sempre liderar. A sua primeira liderança notória acontecera na tropa, à frente de um pelotão, substituindo o alferes ausente. O tempo que mediara entre a saída do orfanato e a incorporação militar gastara-o num humilde trabalho de ajudante de escriturário num tribunal de província deslocando-se a Coimbra para frequências. No seu horizonte, a licenciatura em Direito permanecia intacta.

 

E ali estava ele em Luanda, de férias, instalado num bom hotel, comendo em restaurantes da Ilha e, à noite, frequentando os lugares de melhor nome. Negociara com uma garagem o aluguer de um carro vistoso, forrado a cabedal. Só tinha um senão, o consumo, mas estava em vias de conseguir abastecimento num quartel.

O seu sonho de criança, acalentado ao longo de uma adolescência de privação e quase miséria, cumpria-se. Era um pouco menos que um mês, mas realizara-o.

 

Aconteceu na manhã do sexto dia. Como habitualmente – já estabelecera algumas rotinas – desceu do quarto no primeiro andar e rumou à recepção para depositar a chave.

A recepcionista, que via pela primeira vez, olhou-o com um sorriso talvez profissional e o mundo desmoronou-se. Os olhos negros, grandes, amendoados, contrastando violentamente com o branco límpido do globo ocular, colaram-no ao chão e teve dificuldade em responder à pergunta da jovem se podia mandar iniciar a limpeza do aposento.

Tomou o pequeno-almoço eufórico. Era o que lhe faltava naquelas férias. Uma mulher assim seria a cereja a coroar o bolo. Regressou à recepção e pediu permissão desnecessária para consultar a imprensa matinal, Encantou-se de novo com a voz dela e folheou dois jornais sem reparar numa única letra. Queria vê-la fora do balcão. Obedecendo talvez a uma ordem telepática, a recepcionista abandonou o resguardo e veio ao seu encontro para retirar da mesa um cinzeiro com algumas pontas de cigarro que podia estar a incomodá-lo.

E o militar entrou em êxtase. Seios fartos, pontiagudos e alçados, cintura estreita, ancas proporcionadas, pernas torneadas… e aquele perfume subtil que ficou a envolvê-lo quando se retirou para o seu abrigo, carregando o cinzeiro!...

Saiu, procurando o ar da manhã, enquanto devolvia o sorriso que ela lhe endossava. A luz quente da manhã, inebriou-o.

Tomou café numa pastelaria próxima inventando cenários para uma conversa mais demorada com aquela mulher fascinante.

A ocasião proporcionou-se dois dias depois. A meio da tarde, com a sala da recepção vazia, elogiando-lhe os olhos, o cabelo e o recorte da boca, elogios que ela aceitou com um sorriso cândido de modéstia, convidou-a para jantar.

Alarmado com a sua ousadia, aterrado pelo silêncio dela, queria encontrar maneira de se desculpar quando ela, fuzilando-o com os olhos amendoados, a prefigurarem um sorriso que a boca completava, lhe respondeu que tinha muita pena em não poder aceitar, mas que, no dia seguinte, podia ser.

Jantaram na Ilha, ela com um vestido ousado que despertou olhares de protesto em algumas senhoras.

Resguardados do piscar intermitente do farol trocaram as primeiras intimidades e o militar convidou-a para passar a noite no seu quarto, no hotel.

Meio escandalizada, alegando que se o patrão soubesse corria com ela, demandaram outro poiso longe do seu lugar de trabalho.

Como medida de precaução, ela sugeriu que se transferisse para aquele hotel, para um quarto de casal.

Os dias voaram numa vertigem de felicidade.

 

Encostada à grade da varanda do aeroporto, viu o velho Nord-Atlas subir penosamente e virar para Norte. Guardava consigo a promessa de que ele lhe escreveria e que teria à sua cabeceira a foto que lhe dera.

 

Até regressar a Luanda, integrado na Companhia, para embarque, aerogramas e cartas fervilharam nos dois sentidos.

 

De novo no mesmo hotel que os recebera anteriormente, ele contou-lhe um projecto que amadurecera no mato: explicou-lhe pela primeira vez o que fazia na Metrópole, empolgou-se com a possibilidade de ser promovido – aqueles dois anos diziam que contavam a dobrar – e o dinheiro que tinha já devia dar para a entrada da compra de uma casa. Depois era só amealhar mais um pouco para lhe comprar a passagem para a Metrópole. Entretanto continuaria a estudar como voluntário e em dois anos acabaria o curso, abriria cartório e a vida daria um salto qualitativo.

Ela olhou-o reticente, ele jurou que estava a falar muito a sério e selaram a proposta com mais um longo serão de amor.

 

O Vera Cruz acolheu o seu batalhão, numa manhã límpida, com o sol a pratear o mar da baía e o cordame do paquete.

Encostado à amurada, o espaço entre o casco e o paredão do cais a aumentar, acenou-lhe um último adeus, ela a corresponder em bicos de pés. Quando as figuras se tornaram irreconhecíveis, abandonou a amurada e foi sentar-se no lado contrário, deserto. Angustiava-se interrogando-se se teria feito bem em aliciá-la. Afinal, naqueles breves dias de convivência, tinha-lhe proporcionado uma vida quase principesca. Estaria ela preparada para encarar a vida modesta de um ajudante de escriturário numa comarca de província a estudar pela noite fora e a acumular privações? Atabalhoadamente, procurou um cigarro e acendeu-o mirando com delongas a aliança prateada que ela introduzira no seu dedo. Retirou-a sem esforço e, com um encolher de ombros, meteu-a no bolso.

 

A recepcionista abandonou o cais de embarque, recuperou o carro que ele deixara ao seu cuidado entregar na garagem e rolou lentamente pela marginal. Flectiu para a Ilha, percorreu-a em toda a sua extensão e foi estacionar na rotunda arenosa do farol, muito próximo das pedras que as ondas lambiam com desleixo. Não, não era aquilo que ela queria da vida. Um modesto ajudante de escriturário esperançado em ser promovido e a estudar durante a noite? Não! Queria largar a recepção do hotel e entrar na vida como rainha, como naqueles dias que tinham passado juntos. Mas fora só um deslumbramento, ela soubera-o desde princípio.

Encostada ao carro, alongou a vista e conseguiu ainda vislumbrar o barco que se afastava. Devagar, retirou do dedo a aliança prateada que ele lhe oferecera, beijou-a demoradamente e num gesto longo lançou-a em direcção ao ponto negro que era o barco no horizonte.

Sentou-se ao volante. Sacudiu violentamente a cabeça, como que a afastar qualquer pensamento residual nefasto. Tinha ainda três dias de aluguer pagos. Precisava de os aproveitar bem.

Aquele alferes médico do quarto ao lado que lhe mirava descaradamente as pernas e espreitava os seus seios…

 

Covilhã, FEV 68 (revisto em JUL09)

J. Eduardo Tendeiro “Apontamentos”

 

 

 

 

 

 

 

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OBRIGADINHO

vvvvvv

 

Obrigadinho….

 

Encontrei-o há pouco tempo, melhor dizendo, foi ele que me reconheceu e chamou.

Tive grande dificuldade em reconhecer nele o atlético cabo  Simas da Companhia de caçadores especiais condecorado por feitos nas terras do norte de Angola. Alquebrado, calvo, olhos sem brilho, ventre dilatado e coxeando ostensivamente, vendo a minha dificuldade socorreu-me:

-Não me diga que estou assim tão mal, para já não reconhecer o Simas! Daquela vez, em Luanda….

Não o deixei prosseguir. Abracei-o longamente e arrastei-o para uma esplanada. Conversámos com delongas, o passado a emergir…

Despedimo-nos com a promessa de novo encontro.

Parti contente e tranquilo. O Simas trabalhava há cinco anos numa exploração agrícola,

 

 

Aos vinte e quatro anos era segurança duma discoteca, mas um dia, impondo ordem na entrada, usou de violência desmesurada e perdeu o emprego.

Foi acompanhante de um comerciante de ouro e tão bem desempenhou o seu cargo que enviou para o hospital os assaltantes que tiveram a triste ideia de lhes montar uma emboscada, um deles com fractura de coluna.

Como guarda-nocturno numa fábrica de produtos alimentares. a situação repetiu-se. O sem abrigo que quis apoderar-se de algumas latas de carne foi violentamente espancado.

Começou a ter cada vez mais dificuldade em encontrar emprego. A sua fama de violento incontrolado, afastou-o do que ele melhor sabia fazer.

Empregado numa oficina auto, ajudante de distribuidor de fruta, descarregador de peixe na doca, foram marcados por conflitos que, sucessivamente o afastaram e o lançaram numa situação de indigência que a sua magra pensão não mitigava.

Foi então que descobriu um novo talento: assaltar pessoas, espoliá-las dos seus bens.

Encapuzado, enluvado e rodeado de todos os cuidados, prosperou com aquela actividade. No círculo da especialidade, cedo se evidenciou. Os que o contestaram foram vítimas da sua violência e aprenderam que era preferível a cooperação à contestação. Inimizades e ódios cercaram-no e um dos violentados denunciou-o.

A sua captura precedida de perseguição automóvel durou quatro sangrentas horas. Barricado, utilizando técnicas de tiro que surpreenderam os captores e feriu agentes da autoridade.

O julgamento foi aguardado com curiosidade mórbida e a sala de audiências encheu-se.

O advogado de defesa, num longo libelo, recordou os feitos heróicos daquele jovem transviado: Nambuangongue, Zala, Quipedro, foram algumas das operações que lhe mereceram louvores pela sua bravura e abnegação até que, numa emboscada mal  sucedida, foi ferido numa coxa.

Meses de internamento, sucessivas intervenções cirúrgicas não evitaram que ficasse a coxear. O exército dispensou-o de todo o serviço militar e mandou-o para casa. Casa que já não tinha.

Começou então  a vender o seu talento, aquilo que lhe tinham ensinado ao longo de cinco anos: matar se necessário fosse para se defender.

O seu advogado tentou ler os louvores que lhe tinham sido concedidos pelos  actos de bravura, mas o juiz pouco sensibilizado para tal defesa,  desvalorizou também  a invocação do stress pós traumático de guerra.

Foi então que o arguido, até aí calmo e de olhos pregados no chão como se estivesse particularmente interessado nas fisgas assimétricas do soalho da sala de audiências, se levantou e, num rompante clamou:

- Ó senhor advogado! Não vê que o juiz não está interessado em nada disso? O que ele quer é enfiar-me uma porrada e ir à vidinha dele….

- Cale-se! – bramou o juiz do alto do seu poleiro – o réu deve manter-se em silêncio!

-Em silêncio o tanas! – Retrucou ele e elevando a voz prosseguiu – o que é que você sabe de guerra? Pôs lá os pés? Claro que não!... Já era velho demais para essas coisas! Enquanto eu e tantos outros demos o coiro ao manifesto, o que é que você fazia? Comia e bebia do melhor…

- Tirem-me esse marginal daqui para fora, uivou o juiz.

Os dois guardas prisionais que acompanhavam o réu aproximaram-se, um deles exibindo umas algemas.

O réu estendeu os braços como se quisesse facilitar a tarefa dos guardas.

No momento seguinte, apoiando-se no ombro do mais próximo, elevou-se, enlaçou o pescoço do outro e derrubou-o. Mas, enquanto caía, atingiu-o ainda com uma patada brutal na testa. O guarda, projectado com violência foi bater contra o estrado do suporte da mesa do juiz.

Rodando sobre si mesmo e passando por baixo do braço do guarda que o segurava, colocou-se atrás dele, retirando-lhe a arma do coldre. Segurando-o pelo pescoço e encostando-lhe o cano da arma ao  ouvido, avisou-o:

- Se te portares bem, nada te acontece. Mexe-te e levas um tiro na pinha. – Reduzindo a voz a um murmúrio, explicou – Já destravei a arma…

- Chamem reforços, alguém faça alguma coisa – clamava o juiz do alto do seu estrado.

-Não se canse ó senhor Juiz. Isto não vai durar nada. Só lhe quero dizer duas palavrinhas. – Virando o cano da arma para o guarda que tentava levantar-se, comandou – devagar, só com dois dedos, como nos filmes de polícias, tira a pistola e empurra-a para o pé de mim. Mas cuidado que estou a apontar ao teu peito e a esta distância, nem um ceguinho falhava.

Acompanhou o executar da sua ordem e, como se agradecesse, disse:

-Homem ajuizado! Agora deita-te de barriga para baixo com as mãos atrás da cabeça enquanto falo com o senhor Juiz….

- Alguém faça alguma coisa… –  repetia o apavorado juiz.

O réu, frio e sereno, deslocou-se com o seu escudo até encostar as costas a uma das paredes e retomou a palavra:

-Ó senhor juiz, se calhar vou começar por lhe dar um tiro na perna para ficar a coxear como eu. Não lhe faz diferença para o seu emprego, mas sempre se vai lembrar de que os gajos que vêm da guerra, deitados fora como trampa, ficam malucos da cabeça e mereciam ser tratados. Não deviam ser deitados fora como eu fui. Já não presto para a tropa, sou coxo… e sabe por que é que sou coxo? Porque levei um balázio na perna enquanto defendia em Angola os donos do café e do açúcar. Se calhar também lá tem qualquer coisinha.

-Cale-se que está a dar cabo da sua vida… – murmurou o advogado encarregue da sua defesa.

- Deixe lá senhor advogado. Eu sei que até se esforçou. Ele – apontou para o trémulo juiz – ele é que não deixou. Sabe que entrei aqui já condenado. Mas sabe uma coisa engraçada? Enquanto estive na cadeia descobri que não se está lá mal de todo. Depois de dar uma tareia num engraçadinho, o gajo queria… percebe?... Depois disso, descobri que a cama não é má, a comida sempre é melhor que os restos que apanhava por aí e dão-me roupa lavada, tomo banho… – virando-se para o juiz, prosseguiu – espero que me dê uns bons anos de cadeia, pode dar perpétua, não se importe que eu, se me fartar, arranjo maneira de me pirar. Sabe? Também me ensinaram evasão… é engraçado, não é? Mas já chega de paleio. Levante-se lá para lhe dar o tirito na perna.

Na sala fez-se um silêncio de morte. Afundado no cadeirão, os dedos brancos pelo esforço de apertar os braços do assento, o juiz tremia, uma súplica estampada nos olhos.

- Cagarola! Pronto, não lhe dou o tiro, mas olhe que o merecia. Acabou o espectáculo. Já disse o que queria.

Empurrando para a frente o guarda que lhe servira de escudo e vendo o outro levantar-se, disse-lhes:

- Vocês, desculpem o mau jeito, mas o sacana do juiz estava a pedi-las.

Com um gesto largo entregou a arma ao guarda e ainda para o juiz concluiu:

- Pela porrada grande que me vai dar, obrigadinho!

A coronha da arma do guarda abateu-se brutalmente sobre a sua cabeça e caiu inerte, um fio de sangue a nascer no temporal esquerdo.

 

FIM         

 (Covilhã, Maio de 2005 Relato ficcionado dedicado aos "Simas" daquela guerra)

 

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Sábado, 16.01.10

O SONHO

 

O SONHO

 

 

Estávamos na Muxima. Para quem vinha da Fronteira Norte era como se estivessemos numa estância de férias.

Acabado o almoço, uma bifalhada de cêfo, carne tenra e bem preparada, como era costume do Zé Cozinheiro, tomámos um café no “Hotel”. Tudo parecia correr bem. Dei uma volta pelo jardim. O bom almoço começou a deixar-me molengão. A temperatura era agradável. Digo aos meus colegas:

- Vou descansar um pouco. Vou até à caserna…

- Vai, que nós ficamos por aqui, dizem-me o Miranda e o Costa Pereira.

Ao entrar, verifiquei que a sentinela, “O Alvor” assim baptizado, por ser dessa terra e Algarvio de gema, estava sentado á entrada, e a cabeça de vez em quando, batia nos joelhos! Oh diabo: -Está com mais sorna do que eu. Vou pregar-lhe um susto… pensei, avançando resolutamente para a entrada.

Travo-me em qualquer coisa e vejo um pé do Alvor, levantar como se fosse dar um chuto uma bola!

Ele para não ser apanhado desprevenido, tinha amarrado um fio ao seu pé e do outro lado ao ferrolho do portão…

- Eh! Para já! Gritou…

Ao ver que era eu pediu-me desculpa, que a armadilha não era para mim!

- Não tens que pedir desculpa. Estavas no teu posto e cumpriste a tua obrigação!

Olhámos um para o outro e pusemo-nos a rir a bandeiras despregadas.

Quem nos visse naquele propósito pensaria que estávamos loucos.

- Se precisares de alguma coisa, avisa, que eu vou descansar um pouco.

Entrei e estendi-me na cama. Ainda estremeci umas duas vezes com o riso, ao recordar a cena.

Depois mais descansado adormeci…

 

               

 

  

Pois é meu menino. Reprovaste no exame de admissão ao liceu. Agora vais saber como elas te mordem. Vais aprender a comer o pão que o diabo amassou! Diz-lhe o pai.

 

O Toino nem sabia o que dizer. Ele que na quarta classe fora dos melhores alunos. Só ele e outro foram no exame, aprovados com distinção, e agora, passado um ano (esteve um ano sem fazer a admissão ao liceu, a conselho do professor, por ser muito novo), chumbou!

 

A ordem em casa era: - Chumbou, o estudo acabou…

 

Foi o que aconteceu ao Toino. Agora, com o pai marnoto, já sabia o que o esperava:

-Marinha. E nós, os filhos da casa sabíamos muito bem o que era o trabalho nas marinhas de sal pois, durante as férias grandes, sempre éramos “convidados”, a ir dar uma ajuda na marinha…

 

- Os que ficavam em casa a ajudar a mãe, que agricultava as suas terras, também tinham os seus trabalhos. Ainda agora o Toino se recorda que não eram autorizados a ir nadar no esteiro pequeno, sem primeiro desmantarem dois cabazes de espigas de milho…

 

Na marinha, o trabalho de rêr (juntar o sal dos meios para o tabuleiro), de encher as canastras, de as transportar para o monte no malhadal (que ficava num sítio alto, para que as águas da ria não o atingissem), sempre a correr, era muito pesado até para um homem. Para nós, malta nova era um suplício! E as férias eram grandes…

 

Agora o trabalho do Toino seria o de moço do próprio pai, andando sempre com ele em todas as suas labutas. De verão era a marinha, no Outono a apanha do estrume para as camas do gado, que seria utilizado no Inverno, e no Inverno era a apanha do moliço, que serviria para adubar as terras, que depois seriam semeadas na primavera.

O Toino não sabia fazer nada disto. Nunca o tinha feito.

- Tu aprendes, diz-lhe o pai, que eu ensino-te. Aprendes e depressa. Se não “ é porrada e água à jarra”!

Eu sabia o significado daquela frase, o que não me deixava nada descansado! O meu corpo é que iria pagar, como se tivesse sido eu o culpado no chumbo na admissão ao liceu.

Havia ainda outra coisa terrível. Quando vínhamos da marinha, tínhamos de pegar nos bois, pô-los ao carro, e ir com eles buscar carradas de milho às terras, para no dia seguinte ser desmantado. Não havia sapatos para os pés, não havia qualquer protecção.

Os troços do milho eram duros e feriam-nos os pés, especialmente entre os dedos. No dia seguinte, na marinha, era uma desgraça pôr os pés naquela moira tão salgada. Só quem já sentiu tais dores, pode na verdade avaliar esse sofrimento!

Tanto valia pôr “pachos” (pedaços de pano embebidos em colódio) nessas feridas como não. Ia-se à farmácia, comprava-se o colódio, e antes de ir para a moira, enchiam-se os “poços” (buracos feitos na carne pelo sal e a moira), com o colódio, que se colava na carne, por algum tempo.

As canelas, que enfolavam com o bater do sal, eram protegidas com “encoiras” normalmente de borracha, e que iam do pé até ao joelho, sendo amarradas com fio. 

Tudo isto, quando se estavam a tirar resultados de muitos trabalhos anteriores, tais como a preparação da marinha, sua limpeza das lamas acumuladas durante o Inverno, preparação e arranjo das barachas (separações em madeira nas partes de baixo da marinha e que nas partes de cima eram em lama e alternadas com as canejas, também em lama e que era necessário anafar) para que quando viesse o calor elas não rachassem o que daria lugar à passagem de moira de uns meios para outros, o que era prejudicial, pois uns ficariam cheios de moira e outros vazios, o que não era conveniente.

 

E porque não era conveniente, isso tinha de ser evitado…

 

A época da marinha começava normalmente por alturas da Páscoa.

Era pelo abrir da bomba de tubo que tudo começava. Ia-se escoando a água da marinha, ao mesmo tempo que se ia apanhando algum moliço que existisse, começando pelos algibés, a parte mais alta e que primeiro secava. Depois reforçavam-se as barachas com a lama existente junto das mesmas, que era anafada enquanto se encontrava ainda mole, o que facilitava este serviço.

Este serviço era repetido à medida que as diversas partes da marinha, iam ficando secas,

- Algibés

- Talhos

- Sobrecabeceiras

- Cabeceiras

- Marinha Nova (parte de cima)

- Marinha Nova (Parte de baixo)

- Marinha Velha (Parte de cima)

- Marinha Velha (Parte de baixo)

Todas as lamas eram arrastadas andaina (parte de cima+parte de baixo), a andaina até serem depositadas no intervalo, onde eram deixadas a endurecer.

Endurecida, era baldeada à pá para a malhada, onde ficava a secar.

Seca, era novamente baldeada agora para o malhadal para aumentar a sua altura e evitar que as marés vivas entrassem nas marinhas, servindo também para aumentar a altura das eiras do sal, protegendo-o também das águas das marés vivas.

A baldeação das lamas para o malhadal era normalmente feita quando havia tempo de chuva, que não permitisse que se trabalhasse na marinha.

Assim quando nós víamos tempo de chuva, logo pensávamos: -Hoje vou dormir um bocado na tarimba. Puro engana. Logo vinha a ordem para os moços:

- Não está tempo de trabalhar na marinha. Peguem nas pás e vão baldear mais um bocado de malhada até o tempo estiar…

 

Quando a lama era muita – o Inverno tinha sido muito pesado – e não era possível arrasta-la até ao intervalo, por as almajarras (arrastadeiras com cerca de dois metros de largura, que tinham de ser manejadas pelo menos por dois homens) se tornarem muito pesadas com a quantidade de lama, esta era deixada a secar nas partes de cima da marinha. Depois de seca era tirada, em canastras, para o malhadal.

Se os marnotos tinham posses, era falado (contratado) pessoal extra que vinha ajudar a transportar essas lamas.

Depois de tiradas as lamas, estava a marinha “limpa”, e iniciava-se o tratamento das praias das partes de baixo, que eram sêcas até que ficassem duras, o que levava o seu tempo, dependendo do vento, da temperatura e do sol que fizesse.

Com a praia com a dureza necessária, e isso dependia do marnoto (um verdadeiro técnico), era pisada com um círcio – objecto feito de um toro de pinheiro, com uns quarenta centímetros de diâmetro e cerca de um metro de comprimento – era pesado e tinha de cada lado um eixo, onde se aplicavam as “maueiras” que serviam para puxar e empurrar o círcio, que ia e vinha do tabuleiro do meio até ao tabuleiro do sal em movimento contínuo.

Era meio-dia a passear para baixo e para cima, até que todos os meios estivessem círciados. Só as partes de baixo onde iria ser colhido o sal, levavam este tratamento, que era dado com a praia quente, para evitar que a lama se colasse ao círcio.

Era uma praia que tinha de ficar lisa e nivelada para que a moira ficasse com a mesma altura em todos os lados do “meio”, o que aumentava a produção de sal.

Para que cada meio ficasse devidamente nivelado, era “arreada” (passada) a água que se encontrava nas partes de cima para as partes de baixo. Essa água servia de nível.

Onde se encontrasse um cabeço era rapado com um rasoilo, (rasoila pequena com cerca de vinte centímetros, com o dente protegido por chapa zincada) e essa lama era retirada para o malhadal. Era um serviço moroso, e de paciência para que ficasse bem feito e sempre vigiado pelo marnoto!

Findo este serviço a água que tinha estado nas partes de baixo foi apurando o grau de salinidade, e era aproveitada, sendo ugalhada – (atirada com um galho) para a parte de cima, onde continuava a apurar.

Nas partes de baixo continuava o serviço de preparação do terreno dos meios. Seriam essas superfícies onde se iria colher o sal, pelo que teriam de estar bem niveladas e limpas.

 

Um dia destes, quando o tempo o permitir e a marinha estiver pronta, será destinado o dia da “botadela”. Normalmente será a um domingo. O marnoto dará um almoço, que será feito e servido na própria marinha, para o qual convidará os amigos. Para a comezaina e para ajudar na botadela que é um trabalho muito duro!

O tempo continuou propício, os dias foram de calor desde o nascer ao pôr-do-sol. Aproximava-se o dia da botadela. O anúncio foi feito:

 

 - Será no próximo domingo…

 

A areia já estava pronta havia uns dias. Tinha sido trazida do Bico do Muranzel, por barco saleiro, e descarregada em três pontos do malhadal, (os areeiros) de modo a ficar o mais próximo dos meios, para onde depois seria transportada.

Era uma areia miudinha e amarelada, muito limpa, como convinha.

No sábado anterior à botadela, na casa do marnoto era uma azáfama com o preparar dos componentes para o almoço da botadela. Eram as panelas, as batatas, as cebolas, e o inevitável bacalhau. O almoço era sempre batatas com bacalhau, por ser o mais fácil de confeccionar, no dizer do marnoto.

Nunca eram convidadas mulheres ou raparigas para a botadela, ainda hoje estou para saber porquê! O serviço era muito pesado, mas, pelo menos, poderiam ser elas a confeccionar a refeição…

 

Chegou o sábado à tardinha e apareceram-nos em casa os convidados:

- Então amanhã a que horas é?

- Amanhã vamos à missa da manhã, vocês passam pela minha casa para ajudar a levar as panelas. A bateira está ao pé da seca do Egas. É lá que a gente embarca. Quem não estiver a horas, fica em terra… diz o marnoto.

E assim foi. Tudo como o combinado. O sol estava esplendoroso, nem uma nuvem no céu como convinha num dia de botadela. O pessoal embarcou, sentando-se na borda da bateira. Os moços pegaram nos remos preparando-os para remar. Dois dos convidados mais mexidos quiseram ajudar a remar e sentaram-se nos devidos lugares.

Foi retirado o cadeado que prendia a bateira ao moirão, e com um pequeno empurrão esta afastou-se de terra. Saímos do esteiro e entrámos na cale. Era necessário cuidado, pois ao domingo toda a gente ia à missa da manhã (o pessoal trabalha ao domingo) e a saída para as marinhas era à mesma hora para todos. Eram centenas de embarcações que se iam espalhando por aquela ria.

Eh, pá, olha! Diz um dos convidados levantando-se e apontando na direcção norte para onde se dirigia o maior número de embarcações. A bateira abanou violentamente.

 

Senta-te, gritou o marnoto que ia ao leme. Ainda botas a bateira ao fundo!

 

O espectáculo era, para quem não o conhecesse, de pasmar. Dezenas e dezenas de bateiras saídas ao mesmo tempo do ancoradouro, tentando adiantar-se umas às outras, em verdadeira competição.

Não admira que na altura o “Clube dos Galitos de Aveiro” fosse durante uma série de anos Campeão Nacional, de remo.(Enquanto houve marnotos para remar).

 

Com o pessoal todo sentado lá seguimos viajem, até que chegámos à “Ilha do Robocho” (Ilha de Sama”)

Aí as bateiras dividiam-se. Umas iam para a “Cale do Oiro” onde o Ti Zé Rito amanhava uma marinha, outras seguiam em frente para as “Leitoas”, marinha amanhada pelo Ti Manuel da Branca, outras ainda seguiam para o Esteiro de Sama, onde se situava a marinha que íamos “botar a sal”.

Cruzamo-nos neste esteiro com o Firmino Piaca, acompanhado pelos seus dois filhos, - eram cagareus - e eram dos melhores remadores do “Galitos”, que se dirigiam para a marinha que amanhava, mais a Norte.

 

 

O sol começava a aquecer. Os remadores já suavam. Chegamos finalmente à Ilha do Robocho, virámos a estibordo, seguimos mais um pouco e chegámos ao nosso destino: -A marinha, conhecida por Novazinha das Canas ou pelo seu nome oficial “Novazinha de Sama”.

Espetámos uma vara, amarrámos a bateira, cada um levou ao ombro a sua carga, e lá fomos pelos machos abaixo, deixando tudo junto ao palheiro.

Agora ia começar a botadela.

Cada um pega na sua canastra, e toca de acarretar a areia dos areeiros para os meios. Os moços mais velhos iam dizendo qual a quantidade necessária para cada meio, ao mesmo tempo que, com uma pá grande, chamada pá de arear, iam espelhando a areia, que tinha de ficar com uma espessura tanto quanto possível igual.

Para que isso acontecesse usavam uma técnica especial. Enchiam a pá de areia, e enquanto a espalhavam, a pá era progressivamente voltada ao contrário, de modo a que, quando acabava a areia a pá estava de pernas para o ar. 

 

     

 

 

 

 Findo este trabalho, o moço mais velho que era habilidoso a cozinhar, foi tratar da bacalhoada, enquanto eram ultimados outros serviços.

Aproximava-se o meio-dia velho, hora de mais calor, altura em que se deveria abrir o tabuleiro do meio, dando passagem à água das partes de cima, para as partes de baixo, onde se iria formar o sal.

Era um trabalho altamente especializado, que ficava a cargo do marnoto. Era executado com a pá de tabuleiro, uma pá em forma de cunha, que abria uma pequena passagem no portal existente no tabuleiro de meio. Dessa passagem dependia que a marinha “pegasse” bem, isto é, começasse a fazer sal logo no dia seguinte, ou não. Era uma greta pequena, que permitia a passagem de uma pequena quantidade de água, que vagarosamente se ia espalhando pela areia do meio.

Este serviço tinha de ser executado em todos os meios, um a um. Era um trabalho moroso, numa marinha que tinha cerca de cerca de cento e cinquenta meios.

Quando todas as passagens estivessem abertas, era dada uma volta mais rápida pelos tabuleiros, aqui abre mais um pouco este, que a parte de baixo ainda tinha pouca moira, mais alem aperta um pouco a passagem com a pá, e apertando a lama com o pé, que o meio já quase tinha a moira suficiente…

 

Quando a água passava das partes de cima para as de baixo (depois da botadela) era-lhe dado o nome de moira.

 

Agora, enquanto o tabuleiro era amanhado, o pessoal aproveitava para almoçar.

A comida era despejada do panelão, numa travessa grande, e todo o pessoal comia dessa travessa. Cada um pegava no seu garfo, partia um pedaço de boroa e toca a comer, que a manhã tinha sido de muito trabalho e tinha puxado pelo corpo…

No final da refeição, aquele que não estivesse satisfeito, pegava num bocado do miolo da boroa que tivesse sobrado, e fazia migas no resto do caldo da bacalhoada. Era saboroso. Mas, azar! Não tínhamos trazido colheres. Só uma colher grande de pau, que serviu para mexer a comida enquanto era cozinhada, e para prová-la, para saber se estava bem temperada. Não faz mal.

-Come um de cada vez e anda à roda, foi o alvitre!

 Assim fizemos, e não constou que alguém tenha adoecido!

Tinha acabado a botadela. Agora havia que amanhar a marinha (meter água nas zonas que haviam ficado em seco), serviço este que passaria a ter de ser feito todos os dias.

Foram fechados todos os portais dos tabuleiros do meio.

Foram abertos os furos com um moiradoiro que permitiam a passagem da água das canejas, para as partes de cima.

A ligeira aragem que se fazia sentir e mexia a água que ia entrando, era a indicação da quantidade de água necessária. Nestes casos a prática é tudo!

 

Assim, foram "amanhados" (repostos os níveis de água) -nas sobre-cabeceiras, nos talhos e nos algibeses ficando a marinha amanhada para o dia seguinte.

Nestes não eram abertos furos. Em cada um havia uma pequena bomba, que era aberta para a passagem das águas, levantando-se as palmetas.

 

E assim se passou o dia da botadela. Eram cinco horas da tarde, de um domingo qualquer, de um mês de Julho de um ano qualquer…

Toca a arrumar as alfaias no palheiro, o moço mais novo com a jarra da água, agora vazia, ao ombro, e bota p´ra bateira, de regresso a casa. Içava-se a vela, que o norte era fresco, e aí vínhamos nós!

Chegados à seca do Egas, amarrava-se a bateira ao moirão com o cadeado. Só agora estava terminado o dia. Salta para terra…

 

Estava terminado o domingo, dia de trabalho. E porque era domingo, nesse dia não haveria trabalho na terra.

 

 

                                                      ******

 

 

Agora, por cerca de três meses, será sempre, todos os dias, uma repetição do que se fará a partir de amanhã, terça-feira.

 

Hoje, segunda-feira, o tempo continua bom, com sol. A marinha “pegará macia”, o que quer dizer que o primeiro sal a ser colhido, será de “pedra” fina.

 

Logo que a moira aqueceu, o marnoto e o moço mais velho, pessoas experientes, pegam nos galhos e vão “bulir” (mexer) a moira, misturando-a, para que toda aqueça ao mesmo tempo.

Quando o tempo se mantém sereno, sem vento, esta operação tem de ser repetida, à tarde, agora não para misturar a moira, mas para quebrar as “peles”, que, por falta de vento, se acumularam à superfície.

“Peles”, é uma camada finíssima de sal que se forma à superfície, quasi como farinha, e que serve para temperar as saladas.

Autorizados pelo marnoto, os moços mais novos aproveitavam esse sal, que depois vendiam a quem lho encomendava.

- …"

- Oh Ribau…

- Que há, perguntei…acordando estremunhado

- Estás aí há uma série de horas, a dormir, e daqui a pouco são horas e Jantar, diz o Miranda. Toca a levantar!

- Já vou…

Acabei por acordar completamente. Sentei-me na cama a pensar, tentando conciliar o sonho com a realidade.

 

Afinal tinha estado a sonhar com a mocidade, mas com tantos pormenores, que me parece ter estado a viver aqueles momentos!

 

 

Ângelo Ribau

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por gatobranco às 16:39 | link do post | comentar | ver comentários (3)

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