Domingo, 26.06.11

LINHA DE CASCAIS

 

 

 

Uma guerra tão longa como foi a chamada “Guerra do Ultramar”, empenhando milhares de jovens cidadãos, associada a uma “Descolonização” apressada e sem regras, gera sequelas que, acidentalmente, em circunstâncias favoráveis vêm ao cimo.

Por vezes, são contornadas. Outras, explodem.

 

A todos os títulos, tinha sido um dia mau.

Logo pela manhã, um engarrafamento já próximo da estação, fizera-me perder o comboio habitual. No escritório, o chefe de secção olhou-me circunspecto, pesando o motivo invocado para o atraso. Acabou por me virar costas sem uma palavra. Privilégio de chefe. Chefe mal educado.

A segunda infelicidade surgiu como um incómodo indefinido quando virei a folha diária do calendário de mesa. Treze de Julho? Havia qualquer coisa ligada àquela data. O quê?... Um aniversário? De nascimento? Morte? Não consegui lembrar-me, mas aquele treze pulsava à minha frente, insidioso. A meio da manhã, acabou-se a tinta da fotocopiadora... A Aida estava de férias e, na sua ausência, era sobre mim que recaia a suja tarefa de meter novo cartucho de tinta.

O peixe do almoço estava intragável. Não acredito em superstições, mas aquele treze estava a cumprir a tradição que lhe é atribuída. Treze de Julho? O incómodo voltou, indefinido, subliminar.

Viajando de regresso, entre o Cais de Sodré e Oeiras, de comboio, por volta das dezoito horas, com a carruagem bem lotada, mas sem passageiros de pé, na primeira paragem entraram três meninos negros, muito endiabrados. Correndo pelas coxias, empurravam-se uns aos outros e tombavam frequentemente sobre os passageiros sentados. Sem um pedido de desculpa, prosseguiam na sua diversão. Uma senhora feriu-se levemente na face quando um deles lhe bateu nos óculos. Na carruagem seguiam cinco adultos de etnia africana que se divertiam imenso com o estranho comportamento dos seus congéneres, até porque a "brincadeira", em momento algum, os importunou.

      Perto de mim viajava um indivíduo branco, de cerca de cinquenta e poucos anos, ostentando no braço esquerdo a tatuagem de uma companhia de comandos que fizera serviço em Angola. A data inscrita na tatuagem explicava que a sua permanência na ex-colónia não tinha sido um passeio turístico.

A data! Sim, era isso! Treze de Julho!... Trinta anos! Quase uma vida... treze de Julho, data das primeiras baixas em combate, numa tarde amena, com uma brisa ligeira a ondear o capim, lembrando uma grande seara do Alentejo.

Disfarçadamente voltei a mirar a data. Tinha lá estado depois de mim. Maxilas cerradas, cabeça imóvel, só os olhos seguiam a brincadeira estúpida e provocatória dos jovens negros. E chegou a sua vez de receber no colo um dos tais meninos, cuja idade não ultrapassaria os doze, treze anos. Com bondade, mas com muita decisão, pediu-lhes que acabassem com a brincadeira porque se voltasse a ser incomodado, " as coisas podiam correr mal". Dito isto, acomodou-se no seu lugar. Os meninos, os três, entreolharam-se, linguajaram entre si e, abraçados no meio da coxia, começaram a tremer, compondo expressões de pânico, entrecortadas por risadas escarninhas. O ex-comando manteve-se indiferente, parecendo fruir a paisagem exterior. Subitamente, um dos meninos empurrou os outros dois que, facilitando a manobra, atingiram violentamente o homem de cabelos brancos. Este, mais atento do que o que queria dar a entender, recebeu facilmente o impacto, derrubou um, esbofeteou o outro, levantou o que estava prostrado na coxia e deu-lhe idêntico tratamento, enquanto o terceiro se escapulia para outra carruagem.

     Do grupo de congéneres negros, aqueles que tanto se divertiam com a actuação dos meninos rabinos, elevou-se um coro de protestos contra a brutalidade daquele branco contra "menino que só quer brincar" e um deles, de ar possante, levantou-se e ameaçou "fazer justiça". Encarando porém com os olhos brilhantes do ex-combatente, lendo neles algo que não lhe agradou, sentou-se e refugiou-se no seu "estranho linguajar".

Pela carruagem perpassou um abafado murmúrio de aprovação dirigido ao homem dos cabelos brancos que, no seu lugar, tremia, as unhas afundadas nas palmas das mãos, lutando contra fantasmas subitamente libertos do armário em que estavam precariamente acorrentados.

Na paragem seguinte à do incidente, os negros adultos saíram. Deslocando-se em direcção à porta, um deles, baixou-se ligeiramente e sussurrou ao meu companheiro de banco: “Vais t’arrepender...”

Tremia tão violentamente que não hesitei em lhe pôr a mão no braço. Saltou como se o tivesse queimado.

--Calma – murmurei aumentando a pressão e acrescentei – também lá estive, sei o que às vezes sentimos...

--Obrigado! – agradeceu circunspecto e voltou a fixar o olhar no nada.

Saí em Oeiras, ele prosseguiu viagem.

 

 

      Dias depois, por mero acaso – eles existem – li que, na linha de Cascais, "um cidadão de meia idade, cabelos brancos e com tatuagem da guerra de Angola", dera entrada num hospital, gravemente esfaqueado, salvo das mãos de um numeroso grupo de africanos por um corajoso taxista que passava.

 

 

 

JUL-01

 

 

( J. Eduardo Tendeiro)

Angola, 62/64

publicado por gatobranco às 11:49 | link do post | comentar | ver comentários (1)

PONTO FINAL

 

 

 

 

 

 

 

De cenho encrespado, estacou à porta do quarto e inquiriu a esposa.

-Que estás a fazer?

-Isto! – respondeu a visada apontando para a roupa espalhada sobre a cama que ia arrumando numa grande mala – Estou a arrumar algumas das minhas coisas.

-Vais viajar? – retrucou mordaz.

-Podes crê-lo. – A voz dela era tensa, seca.

-E para onde vai a beleza?

Atirando com uma peça de roupa para dentro da mala e calcando-a com força desnecessária, replicou:

-A beleza não, a Vaca! A Vaca vai pastar para longe daqui, vai deixar-te livre para fazeres o que quiseres da porcaria da tua vida. Enchi. Tenho feito tudo ao meu alcance para te ajudar, para fazer de ti um ser digno. És doente? Vieste tarado daquela maldita guerra? Não foste o único. Mas todos procuram tratamento, tu não! Queres ser o coitadinho com todos à tua volta. Vou-me embora porque cheguei à conclusão, e não só eu, que não queres tratar-te...

Produzindo o vagido longo de uma vaca, interrompeu-a e prosseguiu:

-… tadinha da vaca! – avançou ameaçador – se calhar a vaca está a precisar de umas boas porradas no lombo...

-Nem te atrevas! – mostrando os braços roliços, advertiu – nas minhas mãos tu não és nada! Olha para ti, definhado de nada fazeres! Não, não é verdade: fazes, sabes o que?Vês televisão de manhã à noite. Apodreces no sofá a veres filmes e a chorar os teus terrores.

-Vaca de merda! Se lá tivesses estado, se visses o que eu vi, se tivesses passado pelo que eu passei!...

-Sempre respeitei os teus problemas, a tua doença pós traumática de guerra. Fiz possíveis e impossíveis para te ajudar. Já esqueceste as noites em que dormias enrolado no meu colo com medo de que os pretos voltassem? Quem é que ao longo de mais de um ano te acompanhou fielmente ao psiquiatra? A vaca, pois claro! E de repente, sem mais quê, o senhor declara que já está bom que não é nenhum maluco para andar no psiquiatra, manda os remédios pelo cano abaixo e começa de novo com os seus terrores nocturnos, a esconder-se atrás dos móveis! Se quisesses tratar-te, estaria sempre a teu lado, nem que fosse para o resto da minha vida. Nunca me viste regatear as nódoas negras que me fizeste nos braços e onde conseguias deitar a mão nas tuas crises, nem as mãos cheia de cabelos que me arrepelavas.

-Cala-te, vaca de merda, não te ponhas a inventar, vaca gorda que nem para a cama serves!

Avançando um passo em direcção a ele e crescendo em toda a sua estatura, meneando a cabeça, com a voz despida de qualquer cólera, apiedada, respondeu:

-Cala-te, triste impotente! Há quanto tempo não és homem? Há quanto tempo não tens uma erecção, diz-me!

-Pudera, com uma vaca como tu, o que querias que acontecesse?

Os olhos vidrados por lágrimas que a custo continha, replicou lenta, sem alento:

-És injusto! – passou por ele, recolheu uma moldura e virando-a para o marido, apontou uma noiva graciosa no seu vestido de noivar – esta sou eu!

-Foste! – irinizou ele

-Sim, fui! E por que será que a vaca tem mais trinta quilos? Não é só à guerra que os devo...

De uma mesa de cabeceira recolheu a fotografia de uma jovem em “duas peças” e exibiu-a:

-Aqui a Vaca, um ano antes do nosso casamento, para tua arrelia, granhou o prémuio de Miss- Praia!

-Vai para lá agora com os teus cem quilos! – gargalhando, acrescentou – ganhavas o prémio de vaca leiteira... para o ano levo-te à feira de Santarém!

 

Calma, com a serenidade que a determinação confere, colocou as duas molduras entre a roupa acamada na mala, correu os fechos e com esforço puxou a mala para cima do tapete. Fitando-o, explicou como se estivesse a exercer a sua função de professora:

-Não levas não. A vaca vai-se embora. Mas, já agora, deixa-me lembrar-te uma coisa: Não peso cem quilos. Casámos tinha eu quarenta e nove.Nos dois anos da tua guerra, empanturrei-me de ansiolíticos para sofrer a tua ausência de notícias...

-Eram os aviões...

-.. cala-te mentiroso! Não me venhas com essa história dos aviões. A Sílvia, aqui ao lado com o namorado na mesma companhia, recebia carta todas as semanas! Mas já passou. Voltemos à vaca, só para te lembrares, quando eu, daqui a pouco, sair por aquela porta. Os ansiolíticos fizeram-me engordar, em dois anos aumentei quase quinze quilos. Pareço inchada, pois pareço. Mas o médico dizia-me que, quando voltasses, rapidamente os perdia. Tu voltaste desarranjado de todo e começámos a tomar doses cada vez maiores de comprimidos, tu para te curares, eu para conseguir alguma tranquilidade para te acompanhar e para poder trabalhar, ganhar alguma coisa para o nosso sustento, para além do que os nossos pais nos vão dando.

Parou desalentada. Num último esforço, concluiu:

-Graças a Deus, não tivemos filhos...

-Pudera! Vaca estéril...

-Uma vez mais te enganas! – O seu tom paciente acentuara-se – Quando depois das raras vezes em que consegui que a muito custo, completasses razoavelmente uma relação sexual vi que não engravidada, consultei uma ginecologista, fiz análises e verifiquei que, comigo estava tudo bem. Tu é que estás estéril, talvez não seja culpa tua, parece que os medicamentos que tomas podem fazer isso.

-Vaca de merda, agora a culpa é minha.

-Não vamos discutir isso. Vou sair daqui, mas vou dar-te seis meses. Se, ao longo desse tempo quiseres retomar os tratamentos, embora não esteja a viver contigo, acompanho-te.-- ignorando o impropéri soez do marido, prosseguiu – Se não quiseres mesmo, a vaca como tu dizes, vai perder trinta quilos e arranjar alguém com quem viver e ter um filho. Não vai ser difícil. Lembra-te dos ciúmes que tens do Rogério. Mesmo vaca, continua a olhar para mim e a considerar-me mal empregada... Quando tiver a barriga grande, venho mostrar-te a vaca estéril. Sai da frente.

Com a carteira a tiracolo, soltou a pega da mala e rebocou-a em direcção à porta.

-Se dás mais um passo, mato-te! – O grito nas suas costas siderou-a. Voltou-se devagar.

A poucos passos dela, o marido exibia um revólver, recordação de guerra. Com voz calma, átona, articulou:

-Também é uma solução: matas a vaca, vais para um hospício o resto da tua vida. Dás descanso a toda a gente. Mas olha, se realmente me quiseres matar, não dispares contra mim só uma vez. Descarrega isso tudo em mim, para teres a certeza de que me matas mesmo. É-me indiferente, acredita. Tudo é preferível ao inferno em que vivemos.

Atónito, incapaz de fixar a arma na mão que tremia violentamente, ameaçou:

-Todas não. A última enfio-a na minha cabeça.

-Também pode ser.

Pegando na trela da mala e encaminhando-se para a porta, indiferente, rematou sem se virar:

-Ponto final!

 

 

J.Eduardo Tendeiro

(ex combatente Angola, 62/64)

publicado por gatobranco às 10:34 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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