Domingo, 30.10.11

Os queijinhos do David

                    

 

Agora me lembrei. Eram restos do mês deAbril de 1962. Estávamos em Faro. Os sargentos que prescindiram da sua cantina,

recebiam os subsídios de alimentação e contrataram com o restaurante “Verde-mar”as suas refeições . Entretanto a minha esposa tinha chegado com o meu filhopara passar comigo os últimos dias antes do embarque de que não sabíamos ainda
a data, e comia connosco no restaurante.

 

Uma tarde de sábado apeteceu-nos ir tomar uma cerveja ao restaurante. Fomos alguns sargentos, a minha mulher e
evidentemente o meu filho. Entre nós estava o David, que andava sempre (quando podia) com o meu filho ao colo, sentou-o em cima da mesa, e descuidou-se. Obebé desequilibrou-se e deitou um copo de cerveja ao chão. Peguei-lhe e dei-lhe
uma palmada no traseiro.

 

Em má hora o fiz, pois o David levanta-se, dirige-se a mim e não fora o Miranda teria eu levado uma valente
bofetada. Às crianças não se bate, diz o David.

 

Ao que se dizia, o David era filho demãe solteira, governanta de uma casa rica alentejana, rapaz nervoso.

 

Entretanto embarcámos. Num camarote ficámos, o David, eu, o Miranda e creio que o Carneiro. Os dias corriam
devagar, até que começou a aparecer um cheiro esquisito no camarote. Ao entrar notei a vigia aberta e nela depositados uma série de queijinhos alentejanos.

Como só o David era alentejano, pensei que ele os trouxe para matar saudades.

Passeavamos nós pelo convés quando aparece o David com cara de mau:

- Ouçam lá. Quem foi a besta que pôs fora os queijinhos que se encontravam na vigia a arejar?

- Fui eu, diz o Miranda! Cheiravam mal, eram para pôr fora… foram ao mar.

 

Então fui eu que tive de intervir para evitar que, desta vez, fosse o Miranda a levar na cara.

 

 

Ângelo Ribau Teixeira

publicado por gatobranco às 17:55 | link do post | comentar
Domingo, 23.10.11

O S.P.M. ( Serviço Postal Militar

O S.P.M. (Serviço Postal Militar)

 

 

Era o dia 25 de Dezembro de 1962. Tínhamos passado a noite de consoada, ceando todos juntos, tentando esquecer o lugar onde nos encontrávamos. A noite de consoada tinha passado, não sem alguma dificuldade. Era dia de Natal, não havia operações, mas o serviço de ir à água, e a segurança ao acampamento, não poderiam ser esquecidos…

 

Almoçámos e andávamos por ali tentando consumir o tempo, passeando pela parada ou entrando numa ou noutra caserna a meter conversa com o pessoal, que se mostrava pouco interessado em conversar. Normalmente, a maior parte desses militares estavam deitados nas suas camas, barrigas para cima e o quico a tapar-lhe os olhos. Dormiriam?!

 

Vou andando. Entro na caserna do “meu” pelotão. A mesma calma, o mesmo silêncio. Só o Cabo Braga sentado na cama escrevia um “bate estradas”. Aproximo-me:

- Então meu furriel? Interroga-me, mas ao que me pareceu, sem esperar resposta! Só para meter conversa…

- Tudo bem, respondi encolhendo os ombros!

Nisto ouve-se muito ao longe um ruído nosso conhecido. Apurámos o ouvido.

- Eh meu furriel. É um Teco-Teco (nome por que eram reconhecidos os pequenos aviões de reconhecimento) diz o Braga alvoroçado. É correio, é correio…

A palavra ecoou por todo o acampamento, e toda a gente apareceu na parada, de nariz no ar. É correio, é o nosso Comandante do Batalhão, que nos vem trazer o correio. Hoje é dia de Natal e é ele mesmo que vem. Já nos acenou!

Como não tínhamos pista de aterragem, o avião deu a volta por cima do campo de futebol, como a indicar-nos que era ali que iria largar a encomenda! Todos se dirigiram para lá.

Então o avião larga um saco pequeno e a seguir outro maior.

 

Ao bater no chão o saco pequeno rompe-se e dele saem muitas amêndoas. Quase ninguém ligou e todos se dirigiram para o saco maior que ao bater no chão continuou intacto.

 

- É o correio, é o correio gritava-se. Cuidado ao abrir não se vá romper alguma carta. Não se rompeu ao cair porque é papel…

O saco foi aberto com cuidado…

- Ora porra, diz o militar que se encarregou de  o abrir, ao verificar o seu conteúdo: - Figos passados do Algarve…

Toda a gente desmobilizou, desmoralizada.

 

Os figos foram entregues na cozinha para serem distribuídos ao jantar.

Fiquei por ali maldizendo a nossa sorte, quando me aparece o “Puler”

- Eh meu furriel, ninguém apanhou as amêndoas, posso eu ir apanha-las?

- Olha que estão cheias de pó…

- Não faz mal. Eu lavo­-as…

 

Ângelo Ribau Teixeira (CCE 306 Angola 62/64)

 

publicado por gatobranco às 14:37 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 06.10.11

R I P

 

 

A notícia apanhou-me de surpresa e cruamente:

“Mais um que se foi!”

 

Conheci-o, melhor, conhecemo-nos na primeira noite da viagem para Angola.

Sem sono, angustiado, deixando para trás a Mulher e um filho que não sabia se voltaria a ver, sem vontade de conversar, refugiei-me na amurada do Quanza a fumar um cigarro.

Chegou silencioso e  encostou-se a alguns metros de mim, respeitando privacidade ou querendo preservar a sua.

Desinteressei-me do cigarro, lancei a ponta em arco, acompanhei-a por breves segundos e via-a desaparecer no mar calmo. Ele fez o mesmo e, em simultâneo vencemos a distância que nos separava

-Sem sono?-- inquiri à falta de melhor argumento.

Encolheu os ombros, procurou novo cigarro que não acendeu e confessou:

-Não suporto o ruído do camarote. É um ruído soturno que enche todo o barco – aqui mal de ouve – parece que isto é um animal vivo a resfolgar...

-É... realmente parece vivo! – aguardei um pouco e como não obtivesse resposta, avancei. – Também já o senti: Um ruído pesado, mistura de ruídos, o motor, as condutas de ar a resfolgarem...

De novo o silêncio nos envolveu. Um tripulante passou, olhou-nos e seguiu sem uma palavra. Carne para canhão, terá pensado.

A noite anterior, passada num  incómodo comboio que de Faro nos largou no cais de embarque, começou a pesar em mim e, depois de uma breve apresentação – “Eu sou da 306”, eu da CCS”, lado a lado, enfrentámos o calor e o ruido surdo das entranhas do mastodonte.

Durante a viagem encontrámo-nos algumas vezes no espaço limitado do barco. Desembarcámos lado a lado e no cais de Luanda fomos apartados como gado, por Companhias.

Voltámo-nos a encontrar no dia seguinte na campo militar do Grafanil, a alguns quilómetros de Luanda onde ficaríamos algum tempo, “em adaptação”, antes de seguirmos para o Norte, destino mais adivinhado que informado.

 

Em Cuimba, bem ao Norte, já a CCS estava instalada quando lá chegámos e pernoitámos. Foi ele que me encontrou e me arrastou para uma cama vaga, debaixo de telha, melhor dizendo, debaixo de lata, um barracão coberto com zinco. Regressei ao “perímetro” da Companhia a tempo de partilhar o copo de café com leite, quente,e um pouco de pão mole.

Naquela longa deslocação de dias intermináveis, viajava no jeep do comandante da companhia como coordenador das ligações interpelotões e do comandante para os pelotões em coluna de marcha e também com a sede do batalhão. Partilhava o assento de trás com o cabo rádio telegrafista, o operador do comando. Ainda não havia notícia de minas anti-carro e e comandante da companhia deslocava-se à frente,  afoito, livre de pó, ciente de que o poletão que viajava imediatamente atrás era a sua escolta pessoal.

Antes de transpor o cavalete de arame farpado, o meu amigo de viagem lá estava e ao adeus breve juntou uma palavra “sorte”!

No ano de “estadia” em Pangala, nosso destino, voltei a ver aquele meu amigo pelo menos duas vezes, aquando das minhas deslocações ao Comando para resolver problemas que afligiam a “minha” secção de rádio. Encontrámos tempo para conversar e, numa ocasião em que tive que ficar alguns dias preso pela reparação de um rádio e falta de transporte de retorno, conseguiu-me uma cama no seu alojamento. Conversámos calmamente as nossas saudades da família, o problema das minas que assoberbava todos e aumentava o número de baixas. Havia um sargento que, diariamente, aparecia com uma anedota e nos fazia rir com gosto afastando mágoas e tristezas.

Uma coluna do comando para S. Salvador, passando no cruzamento para Pangala cortou aqueles dias que pareceram férias.

No cruzamento, uma patrulha da 306 esperava-me e, com os rádios operacionais, regressei a Pangala.

 

Só nos voltámos a encontrar em Luanda, para onde fomos descansar das agruras do norte.

Para fugir às precárias instalações do Grafanil e não ser pasto dos mosquitos que, aos milhares nos marcavam como se estivéssemos com sarampo, quase todos procurámos quartos na cidade.

Aí, de novo nos encontrámos com o mesmo propósito e estivemos em vias de partilhar um quarto para os lados dos correios, mas, por uma vicissitude qualquer que já não recordo, o intento não se concretizou e acabei partilhando parte de um apartamento frente ao Hotel dos Oficiais com o Costa Pereira e o Ribau. Por vezes cruzava com o meu fugaz amigo, íamos ao cinema, ao L'Étoile deliciarmo-nos com a cantora de serviço e a beber uns copos.

 

A 306 foi para Cabo Ledo com um pelotão na Muxima e só nos encontrámos nas vésperas do tão almejado embarque de regresso às nossas casas, ao seio dos nossos familiares dando-lhes o contentamento de regressarmos vivos.

Na pressa da saída, cada um tentando o mais rapidamente libertar-se das últimas “obrigações” não o voltei a ver e apercebi-me então que nunca tínhamos trocado endereços...

 

Num restaurante de comida ao balcão, em Lisboa, dois anos depois, lá estava ele. Escandalizámos os presentes com os longos abraços que trocámos e as palmadas nas costas ecoaram amizade, uma forma simples de amizade imperecível.

Lado a lado, com os olhos no relógio embora, ele deu-me uma imagem que permanece para a vida inteira:

-Somos como dois cometas cujas órbitas por vezes se encontram e fazem um grande festival de luz!

Nos encontros anuais do Batalhão a que tanto tenho faltado, procurávamo-nos e renovávamos o prazer de novo encontro.

 

Chocado ainda com a notícia do seu passamento, numa última recordação de saudade, não posso deixar de pensar nos cometas. A sua órbita abriu-se apontando para o infinito. Também a minha, mais tarde ou mais cedo, se abrirá e quem sabe, se voltarão a cruzar.

Até lá, Quirino, arrastarei comigo a saudade de um bom amigo e daqueles dias fortuitos que tanto nos ligaram.

 

    28SET2011

J. Eduardo Tendeiro

   CCE 306

 Angola, 62/64

 

 

publicado por gatobranco às 18:51 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 05.10.11

O meu Hitachi

                                                                      

 

   O famoso HITACHI, companheiro de muitas horas de solidão, com as marcas de uma campanha (62/64) e do peso da idade.

   A despeito das facilidades que o posto de rádio me concedia na escuta de múltiplas estações de rádio, na intimidade da camarata, com ele escutava a Rádio Eclésia e, com o auscultador, Rádio Moscovo, Rádio Argel e Brazaville eram passados a pente fino.

   Não raras vezes sabia assim por antecipação, baixas nas NT que os Sitrep tardavam em reportar.

   Mas por ele passavam também alguns bons momentos de descontração.

 

                                                                                     

 

                                O meu Hitachi em" trajo de combate"

 

 

J. Eduardo Tendeiro

CCE 306

publicado por gatobranco às 19:45 | link do post | comentar | ver comentários (2)

O RÁDIO HITACHI

 

 

 

 

O Rádio Hitachi

 

 

O tempo custava a passar. Qualquer coisa de diferente chamava a nossa atenção. Eu andava desconfiado com uma encomenda que o meu companheiro Costa Pereira tinha trazido de São Salvador, mas não queria cometer a inconfidência de lhe perguntar do que se tratava. Teria de ser eu a descobrir.

O passar rápido pelas brasas como era seu hábito tornava-se agora mais frequente ao anoitecer, por volta das sete horas. Quem entrasse na caserna por essa hora, veria o meu

amigo Costa Pereira estendido na cama, a cabeça bem assente na cabeceira, com os braços por baixo, como que abraçando, eu sei lá, qualquer coisa de muito querido…

Talvez sonhasse com alguém que estava lá muito longe…

 

Naquele fim de tarde, o Lino que vinha a sair da caserna, cruzou-se comigo e diz-me:

-Ó Ribau, o Costa Pereira deve estar com problemas.

-Com problemas porquê? Perguntei eu.

-Está deitado na cama e a rir-se que nem um perdido…

Eu que tinha estado com ele ainda não havia uma hora, e não lhe notando nada de anormal, resolvi ir indagar.

 

 

                                                       

 

 

 

Aproximei-me da cama, não sem alguma preocupação. Ele continuava de olhos fechados, mas já não ria. Chamei de vagar:

-Costa Pereira, estás com algum problema?

Ele que estava de barriga para baixo, de modo a poder abraçar a cabeceira, e qualquer outra coisa que estava por debaixo da cabeceira, voltou-se abriu os olhos, e diz-me:

-Não; Estava só a ouvir o “Folhetim do Tide” transmitido pela Rádio Brazaville. É quase igual do “Puto”. Por vezes torna-se engraçado… E mostrou-me o rádio, a tal encomenda, que eu andava a tentar saber o que era, qual coscuvilheira para depois ir contar às vizinhas…

Mais uma lembrança de Pangala!

 

Ângelo Ribau Teixeira

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 19:28 | link do post | comentar

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