Quarta-feira, 29.02.12

Férias no “Puto”

 

 

 

Havia passado muito tempo, pouco para o necessário para podermos pensar no regresso. Meu Deus onde vinha ele!

Parecia-me que nunca mais veria, o meu segundo filho!

Tinha nascido já eu me encontrava em Angola. Conhecia-o pelas fotografias que me eram enviadas. Olhava-as, tentava imaginar os gestos que faria, o seu choro, enfim todos os gestos e movimentos que vi no primeiro filho…

 

Um dia, numa deslocação à sede do Batalhão em Cuimba, ouvi falar que já tínhamos tempo suficiente de “mato” (cerca de um ano) para podermos gozar um mês de férias, que poderia ser no “Puto”! Só que as despesas de deslocação seriam por conta do “felizardo”.

Logo ali colhi informações sobre o assunto. A Companhia tinha de autorizar, (por causa da sua operacionalidade) e o Batalhão de garantir o pagamento da viagem. Logo pensei no assunto a fundo e que se arranjasse um colega para viajar comigo seria mais fácil, especialmente o regresso a Angola. Mas quem?! Talvez o Miranda! Sim o Miranda. Éramos como irmãos desde o R.I. 10 em Aveiro, amizade cimentada depois de uma queda de mota que demos na estrada entre Condeixa e Tomar, quando nos dirigíamos para Santa Margarida, onde estávamos aquartelados.

 

Falei com ele que logo acedeu. Havia o problema da operacionalidade do Pelotão, dado que ambos pertencíamos ao mesmo. Contactado o Alferes Miranda este não levantou problemas. "Vocês têm nas vossas secções, cabos que tem capacidade suficiente para vos substituírem durante as férias." Agradecemos, e pusemos mãos à obra…

Sabida a hora e dia da partida do avião dos TAA que de São Salvador fazia a ligação com o da TAP, aproveitámos a boleia da coluna de reabastecimento a São Salvador, e, munidos de toda a documentação necessária, aí vamos de abalada. O avião seria no dia seguinte. Dormimos no “hotel”, num quarto com o pé direito muito alto, forrado a madeira junto aos barrotes. As entradas e saídas dos morcegos durante a noite, não nos deixaram dormir. Mas nessa noite já não havia sono…

Levantámo-nos cedo e por aí andámos até que o avião da TAA chegou. Houve passageiros a desembarcar. Nós aproximamo-nos do velho Dakota, que nos aguardava impávido e sereno. O agente na localidade entregou-nos os bilhetes das passagens, e convidou os passageiros a entrar e ocupar os seus lugares.

O avião fez-se à pista e aí vamos nós até Luanda. Passadas umas horas aterrámos.

Fomos informados no balcão da TAP  que o “nosso” avião partiria três horas depois. Era só o tempo suficiente para pegar um táxi e ir à casa de um amigo onde tinha deixado a minha roupa civil (para o mato tinha só levado as roupas militares) trocar de roupa, com o táxi à espera, e ir novamente para o aeroporto. Não podíamos perder aquele avião por nada deste mundo. O Miranda esperava-me apreensivo…

 

À espera de se fazerem horas de embarque fomos ao bar do aeroporto beber uma cuca gelada. Era meio da tarde e o sol queimava, como o preço das cervejas nos queimou o bolso ao pagar…

Saímos para o lado das pistas, onde um Super Constelation abastecia. Era grandalhão e tinha dois depósitos suplementares, um na ponta de cada asa, que aumentariam a sua distância de voo.

Embarcámos e seguimos as instruções de levantar voo, com o avião no início da pista. Finalmente levantou voo na direcção do Sul, deu a volta sempre a subir e quando passou, já lá nas alturas por cima de Luanda, mal se viam as luzes que começavam a acender-se. Entrou em velocidade de cruzeiro, houve ordem de à-vontade. Começava a viajem!

A imaginação começou a trabalhar, ia ver o meu menino, mas o ronronar daqueles quatro possantes motores, absolutamente sincronizados, venceram o cansaço e o stress daquele dia. Olhei pela vigia do avião. Era  noite cerrada. As nuvens já ficavam por baixo de nós. No entanto o meu companheiro de viagem continuava a olhar para fora, pela vigia do avião, talvez pensando como iria encontrar a família!

Eu adormeci e só acordei com a instalação sonora de bordo anunciando  que iríamos aterrar no aeroporto de Kano, na Nigéria, onde almoçaríamos.

Assim foi. Almoçámos e seguimos viagem.

Sobre o deserto do Sara,fomos informados de que  íamos passar  numa zona de poços de ar, e era conveniente apertar os cintos.

Olhei para fora. O sol nascia no deserto, parece que rompia daquela areia que devia ser quente. Acordei o meu colega para que pudesse gozar aquele espectáculo. O avião de vez em quando tremia nos poços de ar, e as suas asas abanavam como qualquer gaivota voando sobre a Ria.

Entretanto tudo aquilo passou, e recebemos a notícia da aproximação a Lisboa, onde chegámos era mais de meio da tarde.

A aproximação a Lisboa foi como um sonho. O Estuário do Tejo, os farrapos de nuvens que de vez em quando passavam por nós e o meu colega de viagem, que olhei de lado, enquanto ele limpava uma lágrima teimosa que lhe escorria pela face…

- Então Miranda?!...

- Olha Ribau - respondeu-me ele- Quando “apanhei” com aquela bala na virilha, pensei que nunca mais veria Lisboa…

- Mas vê-la agora. Olha ali em baixo. Daqui a pouco estamos em terra. Não penses mais nisso! Oxalá haja comboio que ainda hoje vamos ficar a casa.

Aterrámos e desembarcámos, tendo sido informados que dois dias antes do reembarque, tínhamos de confirmar a nossa partida, ainda que fosse por telefone.

Tomámos um táxi que nos deixou em Santa Apolónia, e onde comprámos bilhetes para o comboio que partiria dentro de minutos para Aveiro. Daqui eu segui para a Gafanha e o Miranda tomou o autocarro que o levaria a São João da Madeira.

- Que todos os teu estejam bem!

- E também os teus e os teus meninos, foi a resposta do Miranda.

 

Apanhei um táxi para me levar a casa. Enquanto percorria os sete quilómetros que dela me separavam ia pensando no que iria lá encontrar. A minha esposa com os meus filhos, os meus pais já velhos, cansados com o peso de três filhos em Angola na zona de guerra! Será que esta minha visita os aliviará, a todos, daquele sofrimento motivado pela incerteza de que provavelmente os seus filhos teriam de matar para não serem mortos?!

- Número dez, é aqui, diz o taxista, ao chegar à porta da minha casa e parou.

Paguei a corrida, peguei no saco de viagem, despedi-me do homem do táxi e entrei em casa.

Lá encontrei a família à minha espera, e até o meu filho mais velho estava ainda acordado, pois queria ver o pai. O mais novo dormia descansado, como se aquele momento não lhe dissesse respeito.

Comi qualquer coisa (o almoço em Kano tinha sido leve, como convinha a quem viaja de avião), e comecei a sentir o stress causado por todas as emoções daquele dia.

 

Deitei-me e adormeci sossegado. O dia de amanhã será concerteza um dia mais descansado que os anteriores.

 

 

Ângelo Ribau CCE 306

Angola 1962/64

 

 

 

publicado por gatobranco às 18:53 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Sábado, 18.02.12

A Apanha do Estrume

 

 

 

 

 

Aquela emboscada nocturna foi mais longe do que o habitual. Largados das viaturas, tivemos de andar quilómetros a pé até ao local pré definido. Felizmente que durante a noite nada de anormal se passou, e de manhã regressámos ao local acordado com as viaturas, andando mais quilómetros, pois não poderíamos regressar pelo caminho de ida. Era perigoso.

Chegados ao acampamento, tomámos o café, e o nosso pelotão estava livre!

 

Eu cansado, estendi-me sobre a cama, adormeci e creio que sonhei…

 

O tempo estava na verdade melhor no dia seguinte, e, manhã cedo, lá fomos nós, o pai de gadanha e engaço ao ombro e o Toino com as duas varas, em direcção à bateira.

O dia não era de chuva, mas a manhã estava fria. Notou-se logo ao meter os pés na lama para alcançar a bateira. Soltada esta do moirão aí vamos nós para Esteiro do Oudinot. Salto para a margem com a cirga na mão, estico-a ponho-a ao ombro, e vá de puxar a bateira. São dois quilómetros de extensão, contra a maré. Chegado ao fim é recolhida a cirga, entro para a bateira, pegamos nas varas e vá de atravessar a cale, sempre com muita atenção, não vá aparecer algum navio, que nos atrapalhe a manobra. Chegados ao fundão, vá de “paijar” com as varas como se fossem remos, dado que a cale era muito funda e as varas não atingiam o fundo.

Passámos sem problemas e da outra banda voltámos a empurrar a bateira com as varas, até que chegamos à marinha, amarrámos a bateira e toca de começar a trabalhar. O pai do Toino a gadanhar o estrume e o Toino sempre com o olho à viva, (não fosse aparecer outra cobra) ia-o juntando e enfeixando na corda. Quando o molho estava com a quantidade suficiente era amarrado. O Pai puxava a corda de um lado e o Toino do outro, apertavam-no, davam um nó, o pai ajudava a pô-lo na cabeça do Toino, e aí vai ele correndo com o molho de estrume à cabeça, sempre a pensar nalguma cobra…

Este serviço repetia-se vezes sem conta, até que a bateira estivesse carregada.

Depois era o regresso pelo Esteiro do Oudinot, o carro dos bois à espera, o descarregar da bateira…

Este serviço era executado dias sem conta, sempre que o tempo o permitisse, até que houvesse estrume suficiente, para as camas do gado durante o inverno, que estava a chegar.

O tempo ia piorando. O vento e as chuvas anunciavam o tempo que aí vinha, a chegada do inverno. Já havia dias de chuva, que permitiam ao Toino ler uns bons pedaços do livro que andava a ler, até ser “acordado” do sonho que a leitura lhe provocava, por ordens do pai que dada a ordem continuava na sua leitura:

- Oh Toino vai dar uma gabela de palha aos bois, ou;

-Dá uma gabela de erva à vaca.

O Toino deixava a leitura, e ia confirmar a ordem junto do pai, não que não tivesse ouvido bem, mas para confirmar qual o livro que o pai estava a ler. Punha o olho de lado, e lá ia cumprir a ordem.

De regresso, ainda se atreveu:

- Olha lá oh pai, quantas vezes já leram esse livro? (era o Mártir do Golgota) …

- Não sei, mas gosto muito dele. Tem aqui uma personagem que me faz pensar: e continuou; era o cantor da Galileia, e ia fazer serenatas a Madalena a pecadora. Chamava-se Boanerges. Se um dia tiver um neto gostava que lhe dessem esse nome…

 

E lá continuavam, cada um com a sua leitura, até que da casa do forno se ouviu a vós da mãe:

- Eh pessoal. Vamos à janta que o comer está na mesa…

 

Acordei com o ruído do pessoal que se dirigia para o almoço, levantei-me e fiz o mesmo.

 

Ângelo Ribau CCE 306

Angola 62/64

publicado por gatobranco às 09:52 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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