Quarta-feira, 25.04.12

INTRÉPIDOS

LUANDA,
MAIO DE 1962

 

 
 

ALGUNS DOS “INTRÉPIDOS”
QUE, COM A CCE 306, PELAS TERRAS DE ANGOLA FIZERAM HISTÓRIA

DA ESQUERDA PARA A
DIREITA, TEMOS

RIBAU, AZEVEDO,CARVALHO,GASTÃO,M.ALVES, MALHA, FIDALGO

 

EM BAIXO

CURA, SOARES,TENDEIRO, COSTAPEREIRA, MIRANDA

 

FALTAM AQUI

 RESENDE

LINO

 PEREIRA

 DAVID

 CARNEIRO

 

Mais tarde, em
substituições individuais, chegaram

F. BRANCO (1º sarg.),
DIAS CORREIA,  LUZ e SILVEIRA

publicado por gatobranco às 17:44 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 18.04.12

História breve do noventa e um

 

 

 

Começou quando o Jota, fazendo arrumações, encontrou uma ponta de filme, cerca de um metro de películade trinta e cinco milímetros, a preto e branco. Negativos da guerra!

Naquele tempo a técnica da cor estava ainda pouco divulgada e, em campanha, não havia condições para manipular tal novidade.

Era um pequeno contentor, um cilindro translúcido que deixava ver o conteúdo de modo
indistinto. Aberto, como cobra liberta de longa hibernação, escorregou encaracolado por entre os dedos do seu descobridor.

Quase cinquenta anos tinham passado! Com uma mescla de saudade, inquietação e coração acelerado, pô-lo à transparência contra a luz da janela.

Os primeiros negativos, manchados com riscos negros, nada diziam. Depois o Zé Pais, em negativo com grandes barbas brancas, sorria para a objectiva. Nos seguintes, o cerimonial da lavagem da roupa estava bem documentado. Um outro costurava enquanto nas suas
costas o comandante de companhia repousava, a sua actividade predilecta que
alternava com a de bem comer. Sentados na frente de um jeep dois posavam para a
posteridade. Tudo gente conhecida. Os nomes emergiam lentamente com um sorriso
de satisfação.

Com a tira de negativos encostados ao vidro da janela, Jota deliciava-se. Mais à frente a horta experimental do Moreirinha criava dúvidas sobre a sua viabilidade. Que pena  ter partido tão prematuramente. Um outro, sentado sobre os sacos de terra do ninho da metralhadora da porta sul era quem?
Os seguintes documentavam os trabalhos de cobertura das casernas que iriam
abrigar os militares da companhia até então dispersos por barracas improvisadas, algumas verdadeiras obras de invenção e criatividade.
Empoleirados, lá estavam o Mira, o João, o carpinteiro e o …. Quem era aquele?

Jota não se esforçou na pesquisa dos nomes que lhe faltavam.

Nos dias seguintes esforçou-se sim em encontrar um digitalizador para recuperar os negativos.
Acabou por encontrar e com as fotos a preto e branco numa pen, marchou para casa entusiasmado. Pouco depois as fotografias com quase cinquenta anos circulavam já na internet com o pedido de identificação dos que não conseguira reconhecer.

E as respostas não tardaram. O que afanosamente esfregava uma camisa ensaboada, “Sou eu, então não se vê logo?” declarou o próprio.

O do ninho da metralhadora do lado sul também foi identificado facilmente por três dos
ciber-correspondentes.

Três, jocosamente, não reconheceram o comandante da companhia “ Quem é o gajo que está estendido atrás do Jota que faz trabalhos de costura?” “Aquele gajo que está estendido numa cadeira de repouso, também andou na guerra connosco?”ou “Se não me queres estragar o dia, corta esse tipo da fotografia”.

A maior dificuldade residiu na identificação do que estava empoleirado na estrutura do telhado, junto ao carpinteiro. Só na reunião anual do batalhão foi reconhecido: era o
noventa e um.

Este jovem minhoto, ferido no primeiro acidente com a explosão de uma mina que causou mortes, ficou traumatizado e teve que ser evacuado para Luanda onde, à custa de antidepressivos, vegetou largos meses e só reintegrou a Companhia quando esta se deslocou para o sul.

Apagado, triste, receoso, vivia afastado de todos e frequentemente foi dispensado das acções de reconhecimento que eram tidas como passeios pela  zona atribuída, com as deslumbrantes paisagens que a  reserva da Quissama, pródiga, oferecia a perder de vista.

“Que é feito dele?”

“Já morreu” – declarou secamente o que o identificara e explicou – “ Foi um infeliz. Nunca se recompôs. Parece que deixou de tomar os remédios, fugiu de casa e andava a mendigar quando se meteu à frente de um autocarro”.

O silêncio foi petrificando e pairou denso sobre eles, feito de recolhimento e de morte anunciada.

 O que sabia aquela história, num sopro gelado, concluiu:

 – Mais um que a guerra desgraçou.

J. Eduardo Tendeiro              ( 2012março)

Angola, 62/64 CCE 306

publicado por gatobranco às 09:51 | link do post | comentar
Terça-feira, 03.04.12

O agricultor Gafanhão

                               O AGRICULTOR GAFANHÃO – 1

 

 

 

Chegados àGafanha, cada um foi para sua casa, tendo combinado que no dia seguinte
estariam nos viveiros lá para as oito horas da manhã. 

 O tempo estava na verdade melhor no dia seguinte, e, manhã cedo, lá fomos nós, o pai de
gadanha e engaço ao ombro e o Toino com as duas varas, em direcção à bateira.

O dia não era de chuva, mas a manhã estava fria. Notou-se logo ao meter os pés na
lama para alcançar a bateira. Soltada esta do moirão aí vamos nós para Esteiro do
Oudinot. Salto para a margem com a cirga na mão, estico-a ponho-a ao ombro, e
vá de puxar a bateira. São dois quilómetros de extensão, contra a maré. Chegado
ao fim é recolhida a cirga, entro para a bateira, pegamos nas varas e vá de atravessar
a cale, sempre com muita atenção, não vá aparecer algum navio, que nos
atrapalhe a manobra. Chegados ao fundão, vá de “paijar” com as varas como se
fossem remos, dado que a cale era muito funda e as varas não atingiam o fundo.

Passámos sem problemas e da outra banda voltámos a empurrar a bateira com as varas, até
que chegamos à marinha, amarrámos a bateira e toca de começar a trabalhar. O
pai do Toino a gadanhar o estrume e o Toino sempre com o olho à viva, (não
fosse aparecer outra cobra) ia-o juntando e enfeixando na corda. Quando o molho
estava com a quantidade suficiente era amarrado. O Pai puxava a corda de um
lado e o Toino do outro, apertavam-no, davam um nó, o pai ajudava a pô-lo na
cabeça do Toino, e aí vai ele correndo com o molho de estrume à cabeça, sempre
a pensar nalguma cobra…

Este serviço repetia-se vezes sem conta, até que a bateira estivesse carregada.

Depois era o regresso pelo Esteiro do Oudinot, o carro dos bois à espera, o
descarregar da bateira…

Este serviço era executado dias sem conta, sempre que o tempo o permitisse, até que
houvesse estrume suficiente, para as camas do gado durante o inverno, que aí
vinha.

O tempo ia piorando. O vento e as chuvas anunciavam o tempo que aí vinha, a
chegada do inverno. Já havia dias de chuva, que permitiam ao Toino ler uns bons
pedaços do livro que andava a ler, até ser “acordado” do sonho que a leitura
lhe provocava, por ordens do pai que dada a ordem continuava na sua leitura:

-Oh Toino vai dar uma gabela de palha aos bois, ou;

 -Dá uma gabela de erva à vaca.

O Toino deixava a leitura, e ia confirmar a ordem junto do pai, não que não
tivesse ouvido bem, mas para confirmar qual o livro que o pai estava a ler.
Punha o olho de lado, e lá ia cumprir a ordem.

De regresso, ainda se atreveu:

-Olha lá oh pai, quantas vezes já leram esse livro? (era o Mártir do Golgota) …

-Não sei, mas gosto muito dele. Tem aqui uma personagem que me faz pensar: e
continuou; era o cantor da Galileia, e ia fazer serenatas a Madalena a
pecadora. Chamava-se Boanerges. Se um dia tiver um neto gostava que lhe dessem
esse nome…

 

E lá continuavam, cada um com a sua leitura, até que da casa do forno se ouviu a
vós da mãe:

–Eh pessoal, vamos à janta que o comer já está na mesa!

Só nessa altura o Toino se lembrou, de ter ouvido o meio-dia tocar no sino da igreja.

E lá deixaram as leituras e foram para a mesa. O Toino olha para a comida e
resmunga:

–Mais uma vez caldo de feijões…

– E é para quem quer, responde-lhe a mãe, Se não quiseres vai para a panela e
fica para logo à noite. Nesta casa não se estraga nada…

E como naquela casa só se falava o necessário, a solução era comer do que havia e
bico calado!

O tempo ia passando, sem o Toino fazer ideia do que aí vinha, Agora era tudo um
mar de rosas. Ler, ir ao pasto para os bois, fazer qualquer outro serviço que
fosse necessário, e ler, ler!

Mas o tempo começava a esfriar ainda mais. O vento assobiava por entre os ramos das
árvores agora já nuas, sem folhas. O inverno estava a chegar e parece que iria
ser de muito frio.

-O futuro o dirá, foi a resposta do pai do Toino à pergunta do filho sobre o
assunto. Ele, que no verão prevía o tempo, agora mostrava uma certa reserva,
sobro o inverno que se aproximava. Parecia preocupado!

 

-Comprámos o moliço dos viveiros da Corte do Paraíso, e temos de o apanhar antes
do fim de Fevereiro e transportá-lo para as terras. O tempo de o apanhar está a
chegar. Comprei o moliço mais dois dos teus tios e domingo vamos combinar
quando começamos a apanha-lo! Vai começar uma época de trabalho.

 

-Com o frio que parece vir aí, deve ser bonito, pensa consigo o Toino! Ele que
já tinha sentido o frio que a geado provocava nos pés, ao pisar a lama branca
de geada. Só não compreendia que, no tempo em que andava na escola primária,
quando geava, a sua mãe o obrigava a levar tamancos de sola de madeira, que
eram normalmente comprados na feira dos treze, na Vista Alegre.

No entanto, mal desaparecia das vistas da mãe, era vê-lo a pegar num tamanco em
cada mão, e toca a correr, que para os lados da Escola da Ti Zefa já se ouvia a
algazarra da malta a jogar a bola - tudo descalço - e não havia frio que se
sentisse. Topada numa pedra sucedia de vez em quando; mas nada que um trapo ou
um lenço amarrados no local ferido, logo ali, não resolvesse!

 

-Grandes tempos aqueles! - Pensava consigo o Toino. Agora havia
que trabalhar, e o que aí vinha não era trabalho “mole”…

Chegouo domingo à noite e foi – lhe dado conhecimento da resolução da apanha do
moliço.

-
Mas pai, diz-lhe o Toino. Estamos em Janeiro e o tempo está tão frio! Podíamos
ir um pouco mais tarde…

-O frio não faz mal nenhum, cura…

-E o trabalho aquece – foi a resposta…

-
Este homem tem sempre uma resposta resmungou o Toino, pensando já no frio que
iria passar…

 

Começava mais uma época de trabalhos, que era exclusiva dos marnotos da Gafanha, já que
os de Aveiro não tendo terras se limitavam a consumir o tempo, visitando de vez
em quando a salina, acautelando alguma “ cambeia” que as marés vivas tenham
provocado, ou passeando debaixo dos arcos do Hotel Arcada, local soalheiro e
abrigado dos ventos do nordeste, que no inverno enregelavam o corpo até aos
ossos…

Enfim,cada qual nasce, para o que nasce!

E para o Toino não era nada bom ser filho de lavrador.com terras!

 
lá foram na segunda-feira seguinte para os viveiros da “Corte do Paraíso”
começar com a apanha do moliço. O pai do Toino com um ancinho e a gadanha ao
ombro, o Toino com um ancinho, montam cada um na sua bicicleta e toca a andar
em direcção ao “Paraíso”…???!!!.

Atravessaram a ponte de madeira que liga á estrada que dá a Aveiro e aí foram em direcção
aos “moinhos”, onde se localizava o Paraíso.

O vento norte corria de mansinho, mas frio como gelo. As orelhas e as mãos
sentiam-no bem. Pior seria quando tivessem – ao chegar ao viveiro – de tirar as
calças, ficar em cuecas e entrar na lama.

Enfim, veremos; ia cogitando o Toino, tentando meter uma mão no bolso e conduzindo a
bicicleta sem mãos.

 

Chegaram.
Calças fora, cuecas arregaçadas e toca de descer para o viveiro.

-
È pá, diz o pai do Toino para um cunhado. Está mesmo frio…

-Toca a gadanhar para aquecer. Enquanto nós cortamos o moliço, o Toino com o ancinho
vai-o juntando em montes pequenos para depois serem “zurrados” (empurrados)
para junto da estrada, d´onde mais tarde serão carregados para os carros de
bois, que o conduzirão às terras, na Gafanha.

Com o correr do dia, e como o céu se encontrava límpido, o sol ia aquecendo o ar
ambiente, mas não a lama onde se enterravam os trabalhadores. O corpo com o
trabalho, aquecia. Mas as pernas e os pés, valha-lhes Deus, nem os sentiam…


para o meio da tarde o sol
começou a descer no horizonte, para os lados do mar. A temperatura começou
também a descer, o ar ambiente ia ficando cego, uma espécie de pó finíssimo
pairava no ar. Para o fim da tarde
o ar já enregelava os ossos!

-
Mau, mau, diz o cunhado Zé. Se isto assim continua, amanhã vai ser o bom e o
bonito – querendo com isto dizer que seria ainda um dia de mais frio –
esperemos que o tempo não encubra, porque então vai ser frio de rachar…

A
noite ia chegando e resolveram regressar a casa.

-
Por hoje chega de trabalho, diz o pai do Tónio, que era o mais velho dos
cunhados. Vamos até casa, que amanhã também é dia.

Lavaram
a lama das pernas e dos pés, enfiam as calças e aí vão de abalada até à
Gafanha.

Porca
de vida, ia pensando o Tónio enquanto pedalava em destina à Gafanha. Isto não é
vida para mim. Isto não pode continuar. Tenho de pensar noutro modo de vida.
Não se passa fome, mas o trabalho é de escravo! Lá que o pai e os tios, aceitem
este modo de vida certamente por não terem alternativa, é lá com eles.

 Eu é que tenho, não posso aguentar este modo
de vida. Não sei o que ganho. Só sei que trabalho que nem um escravo, embora os
meus catorze anos!

 

Há muito que a noite trouxera o silêncio. A despeito de manter os olhos abertos,
mal conseguia vislumbrar os adobes da parede. Uma pergunta nasceu em mim e
tomou forma:  “ E se tivesses queescolher entre aquela vida tão dura e esta que tens agora?”

Tateando, escorreguei por entre os cobertores, encontrei  posição, cerrei os olhos e aguardei o sono que
tardava.

Pouco faltaria para que o sol deslizasse pelo zinco dos telhados e inundasse o
acampamento de Pangala.

 

Ângelo Ribau

CCE 306

publicado por gatobranco às 19:25 | link do post | comentar

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