FÉRIAS

 

 

 

 

Férias

 

A guerra, com o seu cortejo de horrores e misérias, cria amizades indeléveis, resistentes ao passar do tempo e às dificuldades da vida.

Também, em indivíduos carentes, receosos do dia de amanhã, gera ligações que noutros cenários seriam inviáveis – são os conhecidos amores de guerra.

 

O sócio maioritário de uma grande imobiliária elegera como seu consultor o advogado de sucesso que, em Angola, durante mais de dois anos partilhara com ele as agruras das “Terras do Norte”, no distante ano de 62.

Recebido sem cerimónia ou protocolo, o presidente da Imobiliária expôs os seus problemas e, enquanto o amigo tomava notas e as englobava em círculos, debruçou-se sobre a vasta secretária e apoderou-se de um cartucho de uma metralhadora antiaérea que, esventrado do seu conteúdo e tornado inerte, apontava o bico aguçado do projéctil para o tecto, como torre de catedral gótica. A meio  do estrangulamento do cartucho, um pequeno aro metálico, uma aliança, parava a sua progressão no alargar do cartucho.

Olhando o amigo, com um sorriso, inquiriu:

- Até quando vais conservar isto?

- Até sempre – respondeu o advogado e, melancólico, prosseguiu – Isso, como sabes, é o Alfa e o Ómega da minha, guerra. O cartucho e o projéctil, são o Alfa: a dor, o sofrimento e a morte. A argola, o Ómega, o fim, o prazer gratificante, a consecução ainda que breve de um sonho…

 

 

Já tinham decorrido um ano e cinco meses desde que o Quanza, velho paquete das linhas de África, o despejara em Luanda para pouco depois marchar para o Norte numa penosa e longa viagem de reconstrução de pontes e caminhos recentemente destruídos.

Faltavam sete meses, mais coisa menos coisa. Nunca eram os vinte e quatro certos.

Estava de férias! E na capital da colónia! Chamam-lhe província, parte de Portugal, uno, indivisível e todas essas coisas que inventaram para tramar uma geração.

Do que lhe pagavam, pouco gastara para além dos cigarros, cervejas e uísques contrabandeados de Cabinda. Acumulara, por isso mesmo, algum dinheiro, parte numa conta na Metrópole – o Puto – e a maior parte, tinha-a consigo.

Era uma promessa antiga que fizera a si mesmo nas noites tenebrosas dos orfanatos por onde decorrera a sua infância e adolescência: ter umas férias sem grande preocupação com dinheiro, instalar-se bem, comer em restaurantes finos, ter um carro, ir a lugares de selecção.

De compleição atlética (era para ele um mistério como tinha ido parar a Infantaria e não a Cavalaria, Polícia Militar ou qualquer outro ramo para onde são enviados os mais avantajados) passara pelos orfanatos sem ser molestado, mas recusara sempre liderar. A sua primeira liderança notória acontecera na tropa, à frente de um pelotão, substituindo o alferes ausente. O tempo que mediara entre a saída do orfanato e a incorporação militar gastara-o num humilde trabalho de ajudante de escriturário num tribunal de província deslocando-se a Coimbra para frequências. No seu horizonte, a licenciatura em Direito permanecia intacta.

 

E ali estava ele em Luanda, de férias, instalado num bom hotel, comendo em restaurantes da Ilha e, à noite, frequentando os lugares de melhor nome. Negociara com uma garagem o aluguer de um carro vistoso, forrado a cabedal. Só tinha um senão, o consumo, mas estava em vias de conseguir abastecimento num quartel.

O seu sonho de criança, acalentado ao longo de uma adolescência de privação e quase miséria, cumpria-se. Era um pouco menos que um mês, mas realizara-o.

 

Aconteceu na manhã do sexto dia. Como habitualmente – já estabelecera algumas rotinas – desceu do quarto no primeiro andar e rumou à recepção para depositar a chave.

A recepcionista, que via pela primeira vez, olhou-o com um sorriso talvez profissional e o mundo desmoronou-se. Os olhos negros, grandes, amendoados, contrastando violentamente com o branco límpido do globo ocular, colaram-no ao chão e teve dificuldade em responder à pergunta da jovem se podia mandar iniciar a limpeza do aposento.

Tomou o pequeno-almoço eufórico. Era o que lhe faltava naquelas férias. Uma mulher assim seria a cereja a coroar o bolo. Regressou à recepção e pediu permissão desnecessária para consultar a imprensa matinal, Encantou-se de novo com a voz dela e folheou dois jornais sem reparar numa única letra. Queria vê-la fora do balcão. Obedecendo talvez a uma ordem telepática, a recepcionista abandonou o resguardo e veio ao seu encontro para retirar da mesa um cinzeiro com algumas pontas de cigarro que podia estar a incomodá-lo.

E o militar entrou em êxtase. Seios fartos, pontiagudos e alçados, cintura estreita, ancas proporcionadas, pernas torneadas… e aquele perfume subtil que ficou a envolvê-lo quando se retirou para o seu abrigo, carregando o cinzeiro!...

Saiu, procurando o ar da manhã, enquanto devolvia o sorriso que ela lhe endossava. A luz quente da manhã, inebriou-o.

Tomou café numa pastelaria próxima inventando cenários para uma conversa mais demorada com aquela mulher fascinante.

A ocasião proporcionou-se dois dias depois. A meio da tarde, com a sala da recepção vazia, elogiando-lhe os olhos, o cabelo e o recorte da boca, elogios que ela aceitou com um sorriso cândido de modéstia, convidou-a para jantar.

Alarmado com a sua ousadia, aterrado pelo silêncio dela, queria encontrar maneira de se desculpar quando ela, fuzilando-o com os olhos amendoados, a prefigurarem um sorriso que a boca completava, lhe respondeu que tinha muita pena em não poder aceitar, mas que, no dia seguinte, podia ser.

Jantaram na Ilha, ela com um vestido ousado que despertou olhares de protesto em algumas senhoras.

Resguardados do piscar intermitente do farol trocaram as primeiras intimidades e o militar convidou-a para passar a noite no seu quarto, no hotel.

Meio escandalizada, alegando que se o patrão soubesse corria com ela, demandaram outro poiso longe do seu lugar de trabalho.

Como medida de precaução, ela sugeriu que se transferisse para aquele hotel, para um quarto de casal.

Os dias voaram numa vertigem de felicidade.

 

Encostada à grade da varanda do aeroporto, viu o velho Nord-Atlas subir penosamente e virar para Norte. Guardava consigo a promessa de que ele lhe escreveria e que teria à sua cabeceira a foto que lhe dera.

 

Até regressar a Luanda, integrado na Companhia, para embarque, aerogramas e cartas fervilharam nos dois sentidos.

 

De novo no mesmo hotel que os recebera anteriormente, ele contou-lhe um projecto que amadurecera no mato: explicou-lhe pela primeira vez o que fazia na Metrópole, empolgou-se com a possibilidade de ser promovido – aqueles dois anos diziam que contavam a dobrar – e o dinheiro que tinha já devia dar para a entrada da compra de uma casa. Depois era só amealhar mais um pouco para lhe comprar a passagem para a Metrópole. Entretanto continuaria a estudar como voluntário e em dois anos acabaria o curso, abriria cartório e a vida daria um salto qualitativo.

Ela olhou-o reticente, ele jurou que estava a falar muito a sério e selaram a proposta com mais um longo serão de amor.

 

O Vera Cruz acolheu o seu batalhão, numa manhã límpida, com o sol a pratear o mar da baía e o cordame do paquete.

Encostado à amurada, o espaço entre o casco e o paredão do cais a aumentar, acenou-lhe um último adeus, ela a corresponder em bicos de pés. Quando as figuras se tornaram irreconhecíveis, abandonou a amurada e foi sentar-se no lado contrário, deserto. Angustiava-se interrogando-se se teria feito bem em aliciá-la. Afinal, naqueles breves dias de convivência, tinha-lhe proporcionado uma vida quase principesca. Estaria ela preparada para encarar a vida modesta de um ajudante de escriturário numa comarca de província a estudar pela noite fora e a acumular privações? Atabalhoadamente, procurou um cigarro e acendeu-o mirando com delongas a aliança prateada que ela introduzira no seu dedo. Retirou-a sem esforço e, com um encolher de ombros, meteu-a no bolso.

 

A recepcionista abandonou o cais de embarque, recuperou o carro que ele deixara ao seu cuidado entregar na garagem e rolou lentamente pela marginal. Flectiu para a Ilha, percorreu-a em toda a sua extensão e foi estacionar na rotunda arenosa do farol, muito próximo das pedras que as ondas lambiam com desleixo. Não, não era aquilo que ela queria da vida. Um modesto ajudante de escriturário esperançado em ser promovido e a estudar durante a noite? Não! Queria largar a recepção do hotel e entrar na vida como rainha, como naqueles dias que tinham passado juntos. Mas fora só um deslumbramento, ela soubera-o desde princípio.

Encostada ao carro, alongou a vista e conseguiu ainda vislumbrar o barco que se afastava. Devagar, retirou do dedo a aliança prateada que ele lhe oferecera, beijou-a demoradamente e num gesto longo lançou-a em direcção ao ponto negro que era o barco no horizonte.

Sentou-se ao volante. Sacudiu violentamente a cabeça, como que a afastar qualquer pensamento residual nefasto. Tinha ainda três dias de aluguer pagos. Precisava de os aproveitar bem.

Aquele alferes médico do quarto ao lado que lhe mirava descaradamente as pernas e espreitava os seus seios…

 

Covilhã, FEV 68 (revisto em JUL09)

J. Eduardo Tendeiro “Apontamentos”

 

 

 

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 17:11 | link do post | comentar