ENCONTRO EM LUANDA

 

 

Estávamos em Luanda.

Depois de doze meses no Norte, numa zona de rotas de infiltração do inimigo, estávamos na capital da colónia numa situação de prontidão. Significava isso que estávamos prontos para avançar para onde quer que fossemos necessários. Entretanto, fazíamos trabalhos menores: escoltas, serviço à rede de defesa de Luanda, guarda de pontos considerados estratégicos e reforços.

Embora a minha especialidade me pusesse a salvo desses serviços, com praticamente nada para fazer, não me opus a que o primeiro-sargento da Companhia me incluísse na escala dos reforços. Era uma noite e sempre ficava com o dia seguinte oficialmente livre.

 

Naquele dia estava escalado para o reforço à penitenciária.

Jantei cedo com a secção que me foi atribuída e ao pôr do sol demandei o oficial de dia à penitenciária, fui remetido para o sargento de dia e encontrei-o no pequeno cubículo anexo ao dormitório das praças.

Depois de um breve cumprimento – Olá, sou o sargento do reforço – cumprindo a praxe, fizemos um reconhecimento dos postos de vigia e regressámos ao cubículo para organizar os reforços. Durante a noite, cada posto de vigia seria guarnecido por duas praças. Acertámos as nossas rondas e estendemo-nos nos catres que, com uma mesa que já conhecera melhores dias, guarneciam a pomposa sala dos sargentos.

Durante o reconhecimento, mirando o meu companheiro de trabalho, senti um certo incómodo: parecia-me que já vira aquela face em qualquer sítio mas não conseguia lembrar-me. No entanto, como tinha uma certa propensão para me parecer que conhecia toda a gente ou quase, não divulguei as minhas dúvidas.

Ao meu lado, o sargento de dia, de vez em quando mirava-me enrugando a testa.

Desinteressado, pelo menos de momento, de um possível reconhecimento, fechei os olhos e passei pelo sono.

Acordei com o grito do meu companheiro de catre:

- És o Zé! Zé Tendeiro!

Sentado no colchão de espuma, olhei-o espantado, mas o seu grito, libertou a minha memória:

- Vítor! Vítor Salino!

Abraçámo-nos com emoção.

- Há quanto tempo, murmurei quase no seu ouvido.

- Eu digo-te. Desde aquele baile no Clube em que nos encontrámos sem saber que ambos estávamos lá...

- Foi.... mas antes disso foi no nosso segundo ano, lembras-te? O teu colégio não podia fazer exames e foste para minha casa, para o fazeres no meu liceu...

- Mas antes disso, nas férias também demos umas voltas juntos e não sabíamos que ambos estávamos lá até nos encontrarmos...

- E agora aqui, em casa do diabo mais velho...

- Cá estamos nós outra vez! Estás cá há muito tempo?

- Faltam-me quatro meses que vou passar aqui em Luanda!

- Como é isso? – Interroguei espantado.

Com aquele largo sorriso que me tinha despertado reminiscências, explicou:

- A minha Unidade está ao serviço do COMDEL, percebes?

Não percebi mas invejei-o.

Tagarelámos longamente sobre a nossa infância, até que ele, olhando para os meus dedos, inquiriu:

- Casaste?

- E já tenho um pimpolho de um ano e tal e espero que não fique órfão de pai....

- ‘tás parvo, pá! Donde vieste, para onde vais?

- Vim do Norte, lá pertinho da fronteira.... deixámos lá quatro dos nossos... para onde vou? Diz-se que para o sul a curar mazelas, mas entretanto vamos fazendo escoltas, reforços, serviço à rede... e tu? – apontando-lhe um finíssimo aro amarelo no dedo anelar perguntei – casaste?

Respondeu-me com um balancear de cabeça com o queixo a bater no peito.

- Casei ,mas possivelmente já não sou casado.— A sua expressão alegre fechou-se num ríctus de preocupação.

Respeitei o seu silêncio antevendo problemas.

Rodou lentamente a aliança no dedo olhando alternadamente para o anel e para mim.

- Queres contar? — Vocalizei a medo.

- Conto, pá mas é uma chatice. Já vem de longe... a minha garota engravidou. Assumimos a situação e no seu terceiro mês de gravidez, casámos. Mas este incidente estragou os nossos planos e os atritos entre nós começaram a surgir. Quando fui mobilizado, ela abortou. A minha sogra responsabilizou-me pelo aborto, discuti com ela e embarquei sem mais lhe olhar para a cara.

No dia do anos dela apareci lá. Mal empregado dinheiro que gastei na viagem... Quando me colocaram aqui em Luanda com a certeza de que já daqui não saia, aluguei uma casa e convidei-a vir. Burrice minha!

Parou. Tardou a reatar o seu relato:

- Mas isto, para ti, é uma seca. Vamos falar de outras coisas....

Não – cortei com vigor – quero saber o resto.

Com um encolher de ombros, prosseguiu:

- Veio cheia de exigências, algumas delas incompatíveis com a minha condição militar... – repetindo o gesto de encolher os ombros, acrescentou – foi-se embora, ruminando ameaças de divórcio. Nem consentiu que a levasse ao aeroporto. Não chegou a estar cá um mês. Juro-te, pá, que fiz o possível por salvar este casamento, mas enchi. Já lhe mandei uma declaração certificada anunciando a minha vontade de me divorciar...

Recuperando algum do seu sorriso de bonomia, finalizou:

- Ainda serei casado? Mas isto não te diz nada, foi um azar meu.

- Claro que diz, lamento por ti.

- Não tenhas pena. Mudemos de assunto: amanhã tens alguma coisa que não possas desmarcar?

- Não....

- Óptimo. Então almoças comigo, damos por aí umas voltas, passamos por minha casa, bebemos umas coisas e ao jantar faço-te uma surpresa!

- Surpresa?

Mirou-me cuidadosamente, retirou o sorriso e, sério, informou:

- Quero apresentar-te uma senhora.

Perante o meu mutismo, acrescentou:

- Aconteceu depois de a minha mulher se ter ido.

- Coisa séria?

Olhou-me longamente, acendeu um cigarro, imitei-o e só então prosseguiu:

- Respeitamo-nos. A nossa relação tem como baliza temporal o dia do meu embarque para a metrópole, a não ser que.... – deixou a ideia em suspenso como se precisasse de incentivo para prosseguir. – estimulei-o com um gesto.

-...A não ser que resolva ficar por cá. É uma hipótese que tenho trabalhado. Tenho emprego garantido numa casa de venda de máquinas agrícolas e de abertura de estradas. Também já me ofereceram sociedade numa empresa de venda de seguros com aplicação de algum capital meu.

- Como é ela? Quem é? O que faz?

- Porra, pá! Parece que estás a fazer um interrogatório tipo Pide!

- Tens razão –penitenciei-me.

- Mas digo-te: É viúva, mais velha que nós, tem trinta feitos e uma filha de dez anos. Vive bem com um negócio de fotografias que o marido lhe deixou e tem uma quota qualquer num negócio de exportação de açúcar e café. Acima de tudo, dá-me o que há muito não tinha: carinho, respeito e sexo. Chocado?

Tardei a responder:

- No quadro matrimonial que me descreveste não tenho nada contra o que me contas.    

-Amanhã vais conhecê-la e estafo-te se não gostares dela.

Rimo-nos de novo. Consultando o relógio, foi fazer a primeira ronda.

 

De manhã, aguardando as viaturas que nos levariam de volta às respectivas Unidades, o Vítor quis saber a que horas eu regressaria à cidade.

Respondi-lhe que ficava pendente de qualquer viatura que, do Grafanil, viesse a Luanda.

- Nada disso. Vou buscar-te às nove e meia.

- Tens carro? – espantei-me.

- Bem... lá carro é... mas é mais velho que nós e, às vezes, tem caprichos…

 

Às nove e meia, o Vitor chegou conduzindo um Ford Prefect do final  dos anos trinta

No regresso, tagarelando, informou:

- Já telefonei à Mila. Ficou encantada com o nosso encontro e quer conhecer-te. Portanto, jantar confirmado. E no domingo vais connosco para a praia. Temos pensada uma viagem ao Mussulo para passar a tarde. Ela e mais umas amigas levam almoço, certo?

- E nós, não levamos nada? – Quis saber um pouco reticente.

- Levamos, pois! A nossa companhia e boa disposição. Achas pouco?...

A palmada que me aplicou na perna fez-me protestar.

 

 

Agosto de 2010

 

J. Eduardo Tendeiro

publicado por gatobranco às 23:00 | link do post | comentar