O U T O N O

 

Outono

 

 

 

Foi feita a colheita do milho e do feijão.

Agora havia que preparar as terras para a sementeira das ervas que durante o Inverno iriam alimentar o gado. Os terrenos teriam de estar devidamente preparados, para que, com as primeiras chuvas, as sementes serem lançadas à terra.

 

Foram limpas as leiras, das felgas, e de todas as ervas daninhas. As milhãs eram apanhadas à foicinha, e iam servindo para a alimentação dos animais. Havia sempre qualquer coisa para fazer.

Agora que as terras estavam prontas a semear, tínhamos que esperar pela chuva, para as podermos semear. Entretanto, o pai do Toino diz:

- Enquanto não chove e há pouco que fazer, amanhã pegamos na bateira e vamos à marinha apanhar uma bateirada de estrume, que servirá para as camas do gado, quando chegar o Inverno!

E o Toino que pensava que iria chegar um período de acalmia no trabalho, que lhe daria a possibilidade de ler uns livros da biblioteca existente lá em casa e que tinha sido dos seus tios… Puro engano!

O Toino era novo. Tinha ainda pouca força para puxar a bateira à cirga, pelo que o pai saltou para terra e o Toino tomou o lugar de timoneiro, tentando governar a bateira, o que dada a falta de prática não foi nada fácil. A bateira ora batia contra as estacas de cimento, ora se afastava para o outro lado do esteiro, o que tornava difícil a sua progressão pelo esteiro adiante! E lá vinham as ameaças:

- Ó tu governas a bateira como deve ser, ó quando chegarmos ao fim do esteiro e eu saltar para bordo, levas com a vara pelas orelhas, que até te consolas, que é para aprenderes…

Chegámos ao fim do esteiro, ele entrou para a bateira, pegou na vara, e lá veio o castigo…

Enxugando as lágrimas à manga da camisa o Toino ia pensando: - Isto não pode ser vida para mim. Tenho de me desenrascar. Isto não pode ser…

Chegados à marinha a maré estava baixa. Encalhámos a bateira que ficou em seco, facilitando o transporte do estrume para bordo.

 

À medida que o pai ia gadanhando o estrume, o Toino ia-o enfeixando, depois apertava o feixe com uma corda e transportava-o à cabeça para a bateira. O estrume era leve e a bateira estava perto, pelo que o serviço até ia correndo bem! Mas…

Quando uma das vezes me dirigia para o local onde ia fazer o próximo feixe, vejo o meu pai atrapalhado, a correr atraz de qualquer coisa, com a gadanha em riste. Aproximo-me e o que vejo eu! Uma cobra cortada ao meio pela gadanha do meu pai!

Fiquei com medo!

- Esta já não faz mal a ninguém diz o meu pai…

- Esta não. E se aparece outra que tu não vês, e vai no feixe, apanha-me um dedo e morde-me? - Fiquei aterrorizado!

- Já não vai haver mais outra cobra e isto são cobras de água, não fazem mal a ninguém!

- Já não levo mais feixe nenhum, digo eu apavorado…

- Ai levas, levas! Se não queres levar o feixe à cabeça, levas com o cabo da gadanha pelas costas que é para aprenderes!

E o cabo da gadanha convenceu o Toino…

 

Continuámos com aquele serviço. Logo que sentia o feixe de estrume na cabeça, corria o mais que podia, em direcção à bateira. E assim, entre o feixe despejado na bateira, e novo feixe à cabeça, havia um período que eu prolongava o mais que podia, caminhando vagarosamente na direcção do meu pai, que continuava nervosamente gadanhando o estrume, até que eu chegasse para ele fazer novo feixe, e pô-lo na minha cabeça!

Enfim, lá carregámos a bateira já maré estava quase feita, e regressámos à Cambeia, onde nos esperava o carro de bois, para onde transferimos a carga da bateira. Estava quase terminado o dia de trabalho. Era amarrar a bateira no moirão, trazer o carro de bois com o estrume, chegar a casa, descarregar o estrume para o “rolheiro” meter os bois, dar-lhe o jantar, e estava feito!

 

Agora era só esperar pela nossa ceia, comer e o nosso dia de trabalho terminava.

Entretanto, enquanto esperava, peguei num livro que ia lendo aos pedaços, quando a disponibilidade de tempo mo permitia. Era “As Pupilas do Senhor Reitor” um livro leve e agradável, escrito por Júlio Dinis.

Terminado este, já punha o olho numa colecção de capas vermelhas que existia numa estante. Era uma extensa colecção do mesmo autor -Júlio Verne- vinte e tal livros que resolvi, logo que tivesse tempo, começar a ler.

Ordenei as minhas ideias, e decidi que começaria pelo número um: - “Da Terra à Lua”.

Logo que a disponibilidade de tempo mo permitia, era lido mais um bocado de livro. O que era necessário era estar tempo de chuva, pois se não chovesse, lá estavam as terras para semear.

Mesmo assim, sempre se arranjavam uns bocados de tempo para leitura, às vezes com a ajuda do pai do Toino, que já tinha lido toda a colecção, e, por vezes quando andava bem disposto, enquanto trabalhavam, ia contando parte daquilo que tinha lido!

Do primeiro livro, ao lê-lo, cheguei à conclusão de que já tinha lido aquilo em qualquer parte…

 

Tudo o que aquele autor escrevia, não era sobre o passado, nem tão pouco sobre o presente. Era sobre o futuro! E o Toino na idade em que estava, tinha era de pensar sobre o futuro, que para ele não se apresentava nada risonho! E estes livros davam-lhe a oportunidade de sonhar com o futuro.

Foi o autor que mais me impressionou em toda a minha juventude, e ainda agora, quando nele penso, fico impressionado quanto à visão futurista daquele extraordinário autor e as suas descrições.

- Nem sequer se pensava nisso e ele descreveu com extraordinário pormenor as viagens “Da Terra à Lua” e “à Roda da Lua”!

- Não de pensava em voar e ele descreveu “Cinco Semanas em Balão”!

- Não se pensava no mundo submarino e ele descreveu com pormenor que impressionou, as “Vinte Mil Léguas Submarinas”. Quem o leu nunca mais esqueceu o Capitão Nemo, o construtor e comandante do Nautilus.

Enfim, ler é viver quando não temos a possibilidade de viver, para depois escrever, e os outros lerem.

No entanto Júlio Verne descreveu sem viver. A sua imaginação prodigiosa parece nada ter inventado. Ele via antes de qualquer mortal o fazer. O futuro deu-lhe razão. Praticamente tudo o que ele escreveu, se concretizou.

Estou a recordar um dos seus mais extraordinários livros “ Miguel Strogoff”.

Custou-me a acreditar que tendo ele sido mandado cegar, passando-lhe um sabre aquecido ao fogo sobre as vistas, se verificasse, mais tarde, que as lágrimas que ele chorava, arrefeceram a lâmina do sabre, o que lhe evitou a cegueira.

Este facto consta de um dos comentários que li, e foram vários, que aconteceram à personagem do livro. E estes comentários têm muito poucos anos.

 

- Meu Furriel…

- Meu Furriel…

- Porra, parece que está morto. Mas respira…

- Dá-lhe um safanão…

O outro assim fez e eu acordei estremunhado.

- Ahhhh … que há?

-Está a chegar a hora da sua ronda…

Levantei-me, engoli em seco, olhei o relógio e lá fui fazer a minha ronda.

Que sonho estranho que eu tive, pensava enquanto percorria os diversos postos de vigia por onde tinha que passar.

 

 

A. Ribau Teixeira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 11:55 | link do post | comentar