O Ti António da Bicha

                                    “  O Ti António da Bicha”

 

 

Magro, escanzelado, vestia uns trapos, que mesmo como trapos já haviam conhecido melhores dias, com o seu chapéu roto, mais parecia um espantalho das searas, do que um ser humano que Deus ao mundo tenha posto

Era assim o Ti António da Bicha, um pobre pedinte que, quando eu era ainda moço, dos meus sete, oito anos, aparecia na nossa casa, a pedir esmola.

 Batia ao portão, abria a aldraba – naquele tempo não era necessário fechar as portas à chave – e pedia uma esmolinha por amor de Deus, para lhe matar a fome, com a cara triste de pedinte como era conveniente!

 

Nós, os filhos da casa tínhamos por este homem, não sei se respeito, se mêdo.

- Vai ao portão ver quem é, diz a minha mãe!

Fui.

- Mãe, é o Ti António da Bicha a pedir esmola!

- Ele que espere um pouco e tu vem cá.

Cheguei à casa do forno onde minha mãe tinha já posto sobre a mesa um naco de boroa e duas batatas. Esperei. A minha mãe veio do lado da salgadeira trazendo na mão um pedaço de toucinho salgado.

- Leva isto ao pobre. Estamos em vésperas de Natal e ele tem de ter com que matar a fome!

Fui.

 

Ao entregar a esmola, notei que deu uma dentada na boroa, guardando o resto num dos lados do saco. As batatas guardou-as noutro.

Ao receber o toucinho, olhou-o, como duvidando da dádiva que estava a receber. Guardou-o com cuidado, olhou-me e sorriu. Foi a única vez que viaquele rosto sorrir.

 

- Deus vos dê saúde e sorte para o poderem ganhar, foi o agradecimento que lhe ouvi, ao mesmo tempo que murmurava uma Ave-maria, que acabaria logo que eu deixasse de o ouvir!

 

E seguiu a sua viajem para o portão próximo, o do Vizinho Sarabando.

 

Eu estava descansado. Sentia calor deixei-me ficar de olhos fechados, pensando no que se tinha passado. Acordei calmamente olhando em redor, sem compreender. Estava deitado na minha cama, na nossa caserna em Pangala. Tinha estado a sonhar com um caso passado há tantos anos…

Tentei coordenar as minhas ideias. O caso era real. Mas passados tantos anos, era como se o acabasse de o viver.

Os meus companheiros dormiam era ainda cedo. Levantei-me sem fazer ruído e fui tomar o fresco da manhã para coordenar ideias.

Ah! Pois é, além de amanhã é a noite de ceia, pensei. Como é que a cabeça foi buscar esse “registo”, com mais de quinze anos de existência!

 

 

 

 

Ângelo Ribau

 

publicado por gatobranco às 18:35 | link do post | comentar