O PÁRA-QUEDISTA

O Paraquedista

 

 

“Para quem chega a uma terra estranha, por muito desinibido que seja, encontrar alguém conhecido tem o efeito de uma tábua de salvação oferecida a um náufrago perdido em alto mar. O Ribau teve sorte.

Também eu me comovi com as flores e papéis que dos prédios altos da Marginal de Luanda tombavam sobre nós.Ritual de boas vindas aos jovens em quem se depositava a salvação de uma crise grave? Talvez, mas eu interrogava-me: quantos de nós não iremos a enterrar nesta terra que não é nossa, sem uma pétala em sinal de agradecimento?

Provavelmente, estávamos a recebê-las por antecipação”.

J. Eduardo Tendeiro

 

 

 

Tínhamos acabado de desembarcar e aguardávamos as viaturas militares que nos transportariam ao destino, o Campo Militar do Grafanil.

Ainda meio zonzos pelo barulho da Cidade, íamos olhando à nossa volta.

Luanda era uma cidade grande com prédios grandes, alguns de muitos andares. Havia assistência, que naquelas alturas costumava presenciar o desfile da tropa, que aplaudia pensando certamente que aquela juventude acabada de chegar seria a sua salvação. Nós olhávamos para tudo aquilo, que era novidade para nós. Um ráter de um carro que passava despertou-nos, tendo alguns de nós, por instinto, deitado a mão à arma que nos acompanhava. Depois tudo voltou à normalidade da espera e observação do ambiente que nos rodeava...

 

- Eh Ângelo… Ouvi uma voz conhecida. Olhei e vi o Fernando que era pára-quedista e se dirigia a mim. Ao aproximar-se, fez a continência. Eu era furriel miliciano e ele soldado…

- É pá deixa-te dessas paneleirices e diz-me como é isto por aqui.

- Por aqui, em Luanda é uma beleza. O pior é mais a norte, lá para os Dembos e para a fronteira. Olha o Silvério é que teve um azar…

- O que foi pá?

- Fazia parte dos pára-quedistas que foram lançados numa operação, sobre a Serra da Canda, na fronteira Norte, o pára-quedas de um colega não abriu e aí vinha ele a toda a velocidade direito ao chão. Mas bateu no Silvério e por instinto agarrou-se a ele. Sorte a sua. Aí vêem os dois pendurados num só pára-quedas (peso demais) estatelando-se os dois, primeiro numa árvore, e depois no chão. O Silvério ficou com uma perna partida e o outro com um braço.

- Onde está ele?- Perguntei.- Gostava de estar com ele!

- Estamos aquartelados na Fortaleza de Luanda. Ele está lá na enfermaria, pode ser visitado das 6 às 7 da noite.

- Diz-lhe que se eu puder passo por lá a falar com ele.

Entretanto iam chegando as viaturas, houve ordem de embarque e lá fomos ver o que era o Grafanil.

- Adeus Fernando. As melhoras para o Silvério e até à vista…

-Tchau, foi a resposta. Serão entregues.

 

Passados dois dias lá consegui arranjar tempo e dirige-me à fortaleza, fardado como convinha, o que facilitou a minha entrada e movimentos dentro da fortaleza.

Dando conhecimento ao que ia na casa da “Guarda”, fui conduzido à enfermaria onde localizei a cama do Silvério,à qual me dirigi, tendo-o encontrado com uma perna toda engessada.

- Então Silvério, digo-lhe eu, como vês é perigoso dar boleia…

- É Ângelo deixa-te de coisas! As dores na perna parece que nunca mais acabam! Mas tudo bem. Se o “gajo” não se tinha agarrado a mim, a esta hora já cá não estava…

- E agora?

- Agora tenho de aguentar, e esperar que isto se cure…

 

- A tua família está bem lá pelas Gafanhas! Agora tenho de me ir embora. Tenho de aproveitar a boleia de uma viatura militar para o Grafanil.

 

- Já sabes para onde vão?

- Não sei para onde, mas dizem – nos que é para a fronteira norte!

- Hum!!! Bem, boa sorte e poucos tiros. Qualquer dia encontramo-nos outra vez em Luanda.

- Adeus, até à vista.

 

 

Ângelo Ribau

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 10:47 | link do post | comentar