"REQUIESCAT IN PACE"

REQUIESCAT IN PACE  

              

               (1936/01/21 - 2011/06/26)

 

No horizonte natural da vida, a Morte prefigura-se sem excepções. Desejada, temida. misericordiosa, inesperada, aguardada com sobressalto ou alívio, a Morte atinge os que leva consigo, mas também familiares e amigos.

Familiares e amigos do Padre Arnaldo, encontramo-nos de luto. A Morte levou-o inesperadamente não lhe concedendo mais margem de vida, para que pudéssemos ainda abraçá-lo e sentir em si o pulsar de um amigo.

Mitiga a nossa dor o facto de o sabermos um homem de Fé.

 

“Eu tenho Fé e por isso estou aqui junto de vós”.

Palavras do Padre José Arnaldo da Silva Monteiro Fernandes, Capelão do Batalhão de Caçadores Especiais nº 357 que serviu em Angola, 62/64.

Palavras que proferiu no final de uma longa diatribe com um grupo de milicianos da CCE 306, aquando de uma visita sua àquela unidade aquartelada em Pangala, no Norte de Angola.

O serão ia longo, o gerador tinha sido desligado mas, à luz de um petromax recuperado de uma sanzala abandonada, o Capelão seroava connosco. Alguns, mais cáusticos, ou mais desesperados, confrontavam-no com o seu Deus, o Deus de amor e misericórdia que ele pregava, mas que consentia aquela guerra em que estávamos envolvidos e nela morríamos, que matava indiscriminadamente o inimigo, fosse combatente, mulher ou criança. Por que não fazia Ele connosco como tinha feito com Moisés, separando águas para nós passarmos incólumes e fechando-as sobre os que nos acossavam.?..

Cansado, triste, com a humildade que lhe era característica, fechando o serão, proferiu:

“Quem sou eu para comentar ou explicar os desígnios de Deus? Eu tenho Fé, acredito Nele e, por isso, estou aqui junto de vós”[1].

O nosso encontro “pós-guerra”, particularmente o meu, tinha lugar no encontro anual dos militares do Batalhão.

Connosco celebrava a Eucaristia, encomendava a Deus os que aquele ano já não estavam entre nós e confraternizávamos. Bem disposto, circulava pelas mesas, recordando o nome de um, comentando com outro alguma viagem mais atribulada, avivando qualquer episódio que a memória esfumara já.

Tive o privilégio de o abraçar pela última vez no Encontro de 2010.

 

Regressado de Angola, paroquiou em Vilar de Mouros.

Novas comissões levaram-no  para África, integrado em tropas operacionais. Entre duas comissões, D. António dos Reis Rodrigues, Bispo das Forças Armadas, chamou-o para Lisboa, para o seu secretariado.

As Unidades de Figueira da Foz e Águeda (Escola de Sargentos) tiveram o privilégio dos seus serviços religiosos.

Regressado em 75 da sua última comissão de serviço em África, fez uma breve passagem pelo R.I.P. Do Porto rumou para o Q. General. Daí transitou para a PSP, onde permaneceu até 2000.

Desde esse ano até à data do seu passamento, desempenhou funções no Tribunal Eclesiástico, como Juiz[2]

Segundo o seu sobrinho  Daniel, no dia 26 de Junho, “ Vi-o sair da porta de casa da minha avó para nunca mais voltar.Perdi naquele dia um Pai e o País perdeu um Homem Bom”.

Foi a sepultar na paróquia de S. Cláudio de Barco, Guimarães, ao lado de seus pais.

                                         Cadaval,2010 

                   

Ciente de que Deus te chamou para junto de Si, P. Arnaldo, pede-Lhe que seja misericordioso para com os que, no final da caminhada, nos vamos apagando.

                                                                                                                          

 

J. Eduardo Tendeiro – CCE 306

Angola, 1962/64



[1]    In “Notas e apontamentos” do autor

 

[2]    Dados biográficos fornecidos pelo seu sobrinho João Daniel

publicado por gatobranco às 11:22 | link do post | comentar