O RÁDIO HITACHI

 

 

 

 

O Rádio Hitachi

 

 

O tempo custava a passar. Qualquer coisa de diferente chamava a nossa atenção. Eu andava desconfiado com uma encomenda que o meu companheiro Costa Pereira tinha trazido de São Salvador, mas não queria cometer a inconfidência de lhe perguntar do que se tratava. Teria de ser eu a descobrir.

O passar rápido pelas brasas como era seu hábito tornava-se agora mais frequente ao anoitecer, por volta das sete horas. Quem entrasse na caserna por essa hora, veria o meu

amigo Costa Pereira estendido na cama, a cabeça bem assente na cabeceira, com os braços por baixo, como que abraçando, eu sei lá, qualquer coisa de muito querido…

Talvez sonhasse com alguém que estava lá muito longe…

 

Naquele fim de tarde, o Lino que vinha a sair da caserna, cruzou-se comigo e diz-me:

-Ó Ribau, o Costa Pereira deve estar com problemas.

-Com problemas porquê? Perguntei eu.

-Está deitado na cama e a rir-se que nem um perdido…

Eu que tinha estado com ele ainda não havia uma hora, e não lhe notando nada de anormal, resolvi ir indagar.

 

 

                                                       

 

 

 

Aproximei-me da cama, não sem alguma preocupação. Ele continuava de olhos fechados, mas já não ria. Chamei de vagar:

-Costa Pereira, estás com algum problema?

Ele que estava de barriga para baixo, de modo a poder abraçar a cabeceira, e qualquer outra coisa que estava por debaixo da cabeceira, voltou-se abriu os olhos, e diz-me:

-Não; Estava só a ouvir o “Folhetim do Tide” transmitido pela Rádio Brazaville. É quase igual do “Puto”. Por vezes torna-se engraçado… E mostrou-me o rádio, a tal encomenda, que eu andava a tentar saber o que era, qual coscuvilheira para depois ir contar às vizinhas…

Mais uma lembrança de Pangala!

 

Ângelo Ribau Teixeira

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 19:28 | link do post | comentar