Os queijinhos do David

                    

 

Agora me lembrei. Eram restos do mês deAbril de 1962. Estávamos em Faro. Os sargentos que prescindiram da sua cantina,

recebiam os subsídios de alimentação e contrataram com o restaurante “Verde-mar”as suas refeições . Entretanto a minha esposa tinha chegado com o meu filhopara passar comigo os últimos dias antes do embarque de que não sabíamos ainda
a data, e comia connosco no restaurante.

 

Uma tarde de sábado apeteceu-nos ir tomar uma cerveja ao restaurante. Fomos alguns sargentos, a minha mulher e
evidentemente o meu filho. Entre nós estava o David, que andava sempre (quando podia) com o meu filho ao colo, sentou-o em cima da mesa, e descuidou-se. Obebé desequilibrou-se e deitou um copo de cerveja ao chão. Peguei-lhe e dei-lhe
uma palmada no traseiro.

 

Em má hora o fiz, pois o David levanta-se, dirige-se a mim e não fora o Miranda teria eu levado uma valente
bofetada. Às crianças não se bate, diz o David.

 

Ao que se dizia, o David era filho demãe solteira, governanta de uma casa rica alentejana, rapaz nervoso.

 

Entretanto embarcámos. Num camarote ficámos, o David, eu, o Miranda e creio que o Carneiro. Os dias corriam
devagar, até que começou a aparecer um cheiro esquisito no camarote. Ao entrar notei a vigia aberta e nela depositados uma série de queijinhos alentejanos.

Como só o David era alentejano, pensei que ele os trouxe para matar saudades.

Passeavamos nós pelo convés quando aparece o David com cara de mau:

- Ouçam lá. Quem foi a besta que pôs fora os queijinhos que se encontravam na vigia a arejar?

- Fui eu, diz o Miranda! Cheiravam mal, eram para pôr fora… foram ao mar.

 

Então fui eu que tive de intervir para evitar que, desta vez, fosse o Miranda a levar na cara.

 

 

Ângelo Ribau Teixeira

publicado por gatobranco às 17:55 | link do post | comentar