História breve do noventa e um

 

 

 

Começou quando o Jota, fazendo arrumações, encontrou uma ponta de filme, cerca de um metro de películade trinta e cinco milímetros, a preto e branco. Negativos da guerra!

Naquele tempo a técnica da cor estava ainda pouco divulgada e, em campanha, não havia condições para manipular tal novidade.

Era um pequeno contentor, um cilindro translúcido que deixava ver o conteúdo de modo
indistinto. Aberto, como cobra liberta de longa hibernação, escorregou encaracolado por entre os dedos do seu descobridor.

Quase cinquenta anos tinham passado! Com uma mescla de saudade, inquietação e coração acelerado, pô-lo à transparência contra a luz da janela.

Os primeiros negativos, manchados com riscos negros, nada diziam. Depois o Zé Pais, em negativo com grandes barbas brancas, sorria para a objectiva. Nos seguintes, o cerimonial da lavagem da roupa estava bem documentado. Um outro costurava enquanto nas suas
costas o comandante de companhia repousava, a sua actividade predilecta que
alternava com a de bem comer. Sentados na frente de um jeep dois posavam para a
posteridade. Tudo gente conhecida. Os nomes emergiam lentamente com um sorriso
de satisfação.

Com a tira de negativos encostados ao vidro da janela, Jota deliciava-se. Mais à frente a horta experimental do Moreirinha criava dúvidas sobre a sua viabilidade. Que pena  ter partido tão prematuramente. Um outro, sentado sobre os sacos de terra do ninho da metralhadora da porta sul era quem?
Os seguintes documentavam os trabalhos de cobertura das casernas que iriam
abrigar os militares da companhia até então dispersos por barracas improvisadas, algumas verdadeiras obras de invenção e criatividade.
Empoleirados, lá estavam o Mira, o João, o carpinteiro e o …. Quem era aquele?

Jota não se esforçou na pesquisa dos nomes que lhe faltavam.

Nos dias seguintes esforçou-se sim em encontrar um digitalizador para recuperar os negativos.
Acabou por encontrar e com as fotos a preto e branco numa pen, marchou para casa entusiasmado. Pouco depois as fotografias com quase cinquenta anos circulavam já na internet com o pedido de identificação dos que não conseguira reconhecer.

E as respostas não tardaram. O que afanosamente esfregava uma camisa ensaboada, “Sou eu, então não se vê logo?” declarou o próprio.

O do ninho da metralhadora do lado sul também foi identificado facilmente por três dos
ciber-correspondentes.

Três, jocosamente, não reconheceram o comandante da companhia “ Quem é o gajo que está estendido atrás do Jota que faz trabalhos de costura?” “Aquele gajo que está estendido numa cadeira de repouso, também andou na guerra connosco?”ou “Se não me queres estragar o dia, corta esse tipo da fotografia”.

A maior dificuldade residiu na identificação do que estava empoleirado na estrutura do telhado, junto ao carpinteiro. Só na reunião anual do batalhão foi reconhecido: era o
noventa e um.

Este jovem minhoto, ferido no primeiro acidente com a explosão de uma mina que causou mortes, ficou traumatizado e teve que ser evacuado para Luanda onde, à custa de antidepressivos, vegetou largos meses e só reintegrou a Companhia quando esta se deslocou para o sul.

Apagado, triste, receoso, vivia afastado de todos e frequentemente foi dispensado das acções de reconhecimento que eram tidas como passeios pela  zona atribuída, com as deslumbrantes paisagens que a  reserva da Quissama, pródiga, oferecia a perder de vista.

“Que é feito dele?”

“Já morreu” – declarou secamente o que o identificara e explicou – “ Foi um infeliz. Nunca se recompôs. Parece que deixou de tomar os remédios, fugiu de casa e andava a mendigar quando se meteu à frente de um autocarro”.

O silêncio foi petrificando e pairou denso sobre eles, feito de recolhimento e de morte anunciada.

 O que sabia aquela história, num sopro gelado, concluiu:

 – Mais um que a guerra desgraçou.

J. Eduardo Tendeiro              ( 2012março)

Angola, 62/64 CCE 306

publicado por gatobranco às 09:51 | link do post | comentar