MAIS UM... (J. E. Tendeiro)

Mais um…

Era um daqueles dias!

Lá fora o calor torrava. Na camarata, irradiado pelas chapas de zinco do telhado, tornava o ar pastoso, fazendo sobressair os noventa por cento de humidade.

O silêncio envolvia o acampamento, cortado esporadicamente por qualquer som que tinha o condão de lembrar que ali havia vida. Letárgica, mas havia.

Deitado sobre o lençol cujo branco já tinha visto melhores dias, só com uma pequena trousse vestida, tentava fixar-me na leitura de um livro de Raymond Chandler. Mas já o tinha lido e o pensamento derrapava, voava para onde eu não queria, para zonas que, aguçando a saudade, me faziam sofrer e me enraiveciam.

Não havia trabalho na cifra, nem no posto rádio. Tínhamos uma patrulha fora, uma nomadização que terminaria com o pôr do sol. Havia um canal aberto só para eles e durante o dia a comunicação era fácil. De hora a hora, ligavam, um breve contacto. Se houvesse qualquer emergência, no posto de rádio havia um receptor em standby.

Invejei o CP que, na cama ao lado, beatificamente dormia ressonando pianinho. Todos sabíamos a sua capacidade para “hibernar”: dormia um dia inteiro levantando-se somente para comer. Nesse campo, era feliz. Lá mais para o fundo da camarata, alguém ressonava forte, sem intenção de competir com o meu companheiro da cama ao lado.

Pus de parte o livro, definitivamente desinteressado da trama policial que já conhecia e fixei-me nos pequenos ruídos que o acampamento em letargia, produzia.

Do lado da cozinha um som metálico permitiu-me extrapolar que não se tinham esquecido do jantar. Um motor a acelerar frequentemente. Devia ser o L. a afinar uma máquina. Mais perto, na sala comum, o C., dos reabastecimentos, com uma praga, manifestou o seu desagrado para com as cartas que não lhe estavam a ser favoráveis. O L. devia ter conseguido o seu intento pois que, para os seus lados, reinou de novo o silêncio que se estendeu ao acampamento e imperou até que, do posto de rádio, a voz forte do cabo telegrafista do comando, o M., gritou para o micro: “OK… correcto, correcto e terminado.” Já desistira de lhe dizer que não era por muito gritar que melhor se faria ouvir no destinatário. Felizmente as comunicações eram recebidas em código de grupos de cinco letras supostamente aleatórias e só na secção de cifra tomariam forma. De contrário todo o acampamento saberia das notícias em primeira-mão e o capitão H. teria mais uma das suas crises de apoplexia.

No telhado de zinco que, com o declinar do sol começava a arrefecer, qualquer coisa deslizou sobre o ondulado. Talvez um pássaro a queimar as patas…

De novo o silêncio me recolheu no seu seio, não sem antes amaldiçoar o C. que, de novo, praguejava as cartas e a sorte.

Dormi.

Só acordei com alguns toques discretos na perna nua. Era o cifrador, o cabo GP que, confrangido, se desculpava.”Há aqui uma mensagem para assinar”…

Recolhi a folha que me estendia e, não por que fosse necessário pois confiava em absoluto no meu cifrador, passei uma vista de olhos pelo texto, troquei um sorriso de cumplicidade com ele, sobre o caixote que separava a minha cama da do CP, assinei a mensagem e recusei devolver-lha.

“Deixa ficar que vou lá eu”. Se o H. estiver a dormir – e a probabilidade era grande – vai dar pulos por o acordar para lhe entregar esta mensagem a informar que a Companhia recebeu uma dotação de mais dez cobertores …

Se a patrulha não trouxesse novidades, aquela seria a do dia: mais dez cobertores para aumentar à carga da Companhia. O primeiro sargento ia gostar daquela mais-valia!

Vesti-me disposto a enfrentar o “boss” de certeza na sesta da tarde.

 

J. Eduardo Tendeiro (Memórias)

 

 

publicado por gatobranco às 10:35 | link do post | comentar