A EMBOSCADA (J. Eduardo Tendeiro)

A emboscada

 

 

E

ra uma das missões mais desagradáveis. Reconhecida como inevitável, motivo de bravatas, não deixava de criar em quem tinha que a executar um sentimento de recolha. Era uma espécie de traição que se praticava em relação ao inimigo. Era apanhá-lo desprevenido, dizimá-lo, sem olhar a mulheres nem crianças.

“Fazer o que eles fizeram e fazem sempre que podem”

“É ser como eles”

“Não é o que eles fazem?”

“É apanhá-los à traição”…

“É a guerra, filho! Se não matas, morres”, argumentos que se entrecruzavam com maior ou menor veemência e os pelotões lá partiam para as emboscadas, de dia ou de noite, conforme o objectivo.

A aproximação ao local da emboscada previamente reconhecido, a entrada em posição, a espera. A longa espera povoada de fantasmas e fantasias, a imagem obsessiva de um rosto querido, o silêncio quebrado por mil ruídos naturais mas que criavam um sentimento de angústia. O negro da noite derramado sobre militares deitados numa prefiguração de morte, a sensação de solidão que levava a estender o braço na procura da confirmação da presença do companheiro do lado, talvez agradecido por aquele toque subtil. As horas arrastadas como se tivessem centenas de minutos, os olhos lacrimejantes do esforço de penetrar a noite, a desviarem-se para nascente na expectativa dos primeiros alvores.

Pinceladas de vermelho antecedidas por um crepúsculo rápido, anunciavam o fim da missão.

“Merda, mais uma noite p’ra nada!”

“Vamos embora, meu alferes”

“Posso ligar o rádio e chamar as viaturas?”, frases de desabafo na manhã que se anunciava radiante.

“Graças a Deus que não houve nada” era o pensamento que perpassava pela mente de alguns menos interessados em retaliações sangrentas.

O telefonista, com o micro rente aos lábios, chamava “Delta Charlie, cobra dois chama”!

A resposta, roufenha, ecoava nos seus auscultadores “ cobra dois, escuto”

Próximo do telefonista, o alferes recebeu o micro e sem grandes preocupações informou “Aguardamos no local combinado… não, não houve nada… tragam água.”

E o pelotão punha-se em marcha para o local de reunião com sentimentos contraditórios: o de frustração por mais uma missão falhada e em alguns, poucos, a satisfação de não ter sido necessário matar.

 

Numa coluna de reabastecimento da nossa Companhia, no regresso de S. Salvador, antes do cruzamento para  Pangala, um jeep accionou uma mina e tivemos as nossas primeiras baixas.

A presença dos cadáveres dos nossos companheiros de armas, acima de tudo amigos, deu-nos a concretização trágica que nos faltava de uma guerra em que estávamos mergulhados. O inimigo, o IN, manifestara pela primeira vez a sua intenção.

Vimo-los partir numa GMC , imagem terrível de jovens como nós, esfacelados e enegrecidos pela explosão do engenho.

 

Redobraram-se os cuidados de segurança ao acampamento, à ida à água e ao lixo e as emboscadas aumentaram de frequência. Estas missões, particularmente a emboscada, revestiam-se então de um sentimento de raiva, um desejo de retaliação. Partiam de lábios cerrados, olhos brilhantes e dedos crispados no punho das armas. Regressavam tristes, frustrados:

“Ainda não foi desta, mas havemos de os apanhar!”

“Não perdem pela demora, os sacanas”

“Quando os apanharmos vão ver como é”

E o inevitável sucedeu. Uma emboscada do terceiro pelotão resultou. A zona de morte ficou pejada de mortos e feridos, algumas mulheres e uma criança entre eles.

Quando de madrugada a voz jovial do telefonista ecoou no altifalante do posto de rádio, pedindo que levassem pás e enxadas para enterrar uns quantos sacanas,  viatura para prisioneiros e respondendo a uma pergunta do sargento de transmissões, que muito antes do nascer do dia já cabeceava sentado no lugar do operador, informou “do nosso lado não houve azar”,a notícia explodiu literalmente no acampamento de Pangala. Houve vivas, muitas frases de prazer pela retaliação e foi difícil pôr ordem na multidão de voluntários que saltou para a GMC aprestada para corresponder ao pedido recebido.

Despejados da viatura a pontapé, talvez cinco homens, uma mulher e uma criança, ficaram expostos à curiosidade e aos impropérios dos que os miravam. Mal vestidos, quase andrajosos, sujos e feridos, eram uma imagem pouco edificante do IN que tinha já levado quatro dos nossos.

“Vou buscar uma corda, atam-se à GMC e fazem-se correr à volta do acampamento.”

“Não é preciso, eu trato deles à minha maneira. Quero ver como são por dentro…”

“A velha é para mim… com a fome com que estou…”

O médico e o enfermeiro chegaram para uma observação sumária dos ferimentos, gerando ondas de contestação.

“Não sujem a mãos nesses gajos!”

“Deixe-me tratar deles. Nem mercúrio vai ser preciso”

O olhar sereno do doutor Luciano pôs fim ao arrazoado vingativo e os que ficaram assistiram em silêncio.

A criança, quatro, cinco anos talvez, agarrada à velha, chorava e dificultava o trabalho do enfermeiro. Foi o sargento de transmissões que a arrancou dos braços da possível mãe e a carregou ao colo para os lados da “casa dos sargentos”. Alguém trouxe um pacote de bolachas das rações de combate e a criança, esfomeada, aquietou-se.

Qualquer tentativa de comunicação com ela ou com os outros foi inviável. Não os entendíamos e eles, talvez, não nos entendessem.

À tarde, obedecendo a um “rádio”, foram levados para o comando do batalhão.

Antes da hora de jantar, o CP, próximo do sargento de transmissões, queixou-se:

“Cheiras a preto, pá!”

Preocupado, o visado, embora admitindo essa possibilidade, retaliou com um pontapé que o CP esquivou, foi buscar uma toalha e demandou o chuveiro fazendo votos para que, se houvesse  água,  não estivesse demasiado quente, nos bidons expostos ao sol.

 

J. Eduardo Tendeiro   (Memórias )

 

 

 

publicado por gatobranco às 10:40 | link do post | comentar