VENTANIA

 

 

A tarde estava a findar, eram horas do “jantar”. Lá fomos à comida, que mastigámos com apreensão. O vento tinha subido de intensidade e já soprava com violência. Alguns olhavam para a cobertura da caserna – (se o vento como está pega “nisto”, vai tudo pelo ar) já se ouvia!
E assim foi. O telhado começou a bater tal era a intensidade do vento! Parecia querer levantar voou.
Nisto ouve-se um berro do Lino: Cada um dependura-se no seu barrote, se não ficamos sem telhado. Assim fizemos, aguentando dependurados, ouvindo o rugido do vento. Passado um bocado o vento começou a amainar.
Então ouviu-se a ordem do “Eng.º. Lino”: - Podemos largar, que já não deve haver azar!
Assim fizemos. Deixamo-nos cair para o chão, ajeitámos a fralda da camisa, que, dada a posição em que tínhamos estado estava toda destrilhada. O vento continuou a acalmar, e passado um bocado estava quase calmaria. O furriel Silveira, que estava de serviço (era um maçarico que viera substituir um colega ferido em combate) saiu da caserna para ir fazer a ronda. Era chato fazer a ronda com aquele terreno todo enlameado. Passado um pouco aparece-me à porta da caserna: - É pá anda ver o espectáculo!
Curiosidade minha. Saí.
 
Dei com o Silveira de cabeça no ar a olhar para a lua!
As nuvens tinham desaparecido com o vento, o céu estava límpido, o ar tinha sido lavado pela chuva, só se viam uns castelos de nuvens branca muito ao longe, sobre a Serra da Canda, e sobre nós as estelas brilhavam, só ofuscadas belo brilho daquele luar belo, lindo!
O Silveira nunca tinha visto tal espectáculo. Só conhecia as noites sem luar, que são escuras como breu. Como é possível, dizia ele extasiado!
Estivemos um bocado a olhar para o infinito, sem dizer palavra. Com a chuva a noite tinha esfriado. Vou até lá dentro diz o Silveira. E entrou na caserna.
 
Fiquei mais um pouco a desfrutar daquela maravilha que a natureza me oferecia, e resolvi ir até ao posto de observação, para ver como era de lá!
Subi, sentei-me e acendi um cigarro, ficando a olhar ao longe a paisagem já minha conhecida, mas que ao luar não parecia tão crua.
O tempo fresco fez-me lembrar o luar de Janeiro na minha terra. Também era brilhante, mas não tanto como este. A minha terra… a minha terra…
 
E pensei no que andamos nós aqui a fazer! Porque fizeram os terroristas tantos mortes, porque mataram mulheres e crianças. Essas pessoas não lhes fizeram mal concerteza.
 A nossa missão é evitar que actos destes se repitam. Por isso neste lugar a nossa missão é evitar a sua passagem do Congo para o interior de Angola. Era difícil, nem sempre se conseguia!
Tanto manda cada um em sua casa que, mesmo depois de morto são precisos quatro para o tirarem de lá para fora…
 
E pensei na minha terra, na minha família, nos colegas da escola. Por que pensa a cabeça quando o corpo está descansado? Até a dormir a cabeça não descansa. Rara é a noite em que ela não sonha com coisas extravagantes, como o estarmos a beijar o nosso filho, estarmos a ser cumprimentados pelo nosso vizinho Sarabando – então vizinho, diz-me ele; como era aquilo por lá? Como se eu já tivesse regressado!...
E eu ali no Posto de Observação, pensando, olhando o luar daquela noite. Era lindo, mas não era o da minha terra!
 
A. Ribau Teixeira ( in Memórias de um ex-combatente)
publicado por gatobranco às 10:05 | link do post | comentar