E M C A B O L E D O (J.E. Tendeiro)

 

 

                                                                    NA PRAIA

 

Depois De Pangala – com o seu cortejo de frustrações, tensões indescritíveis, dor pela perda de amigos, sofrimento – e de ter passado por um serviço de prontidão em Luanda, com a angústia latente de ser chamado a qualquer hora para qualquer local para intervenção armada, como prémio (?) de tanto esforço, a Companhia de Caçadores Especiais nº 336, a nossa Companhia, foi mandada para Cabo Ledo, para instalações próximas da exploração de petróleo da Petrangol.
Instalados em pré-fabricados de razoável qualidade, com energia eléctrica fornecida sem racionamento pela Petrangol, sem carência de víveres, com facilidades de caça concedidas pela reserva da Quissama e sem problemas de insurreição na zona, a vida dos militares rapidamente entrou numa rotina  aprazível, mas a breve trecho saturante.
O pelotão destacado na Muxima, nos momentos de maior tédio, era invejado. Tinham contactos com a população local e sentiam-se úteis contrariamente ao que sucedia com os que ficaram em Cabo Ledo numa ilusória missão de segurança das instalações petrolíferas.
Na base da falésia em que fora construído o aquartelamento estendia-se um longo areal a perder de vista para o sul – a Praia de Cabo Ledo.
Quase diariamente, uma GMC, outras vezes um jeep, levavam um grupo de militares para passarem uma manhã ou uma tarde na praia. Eram momentos de descontracção com a actividade física lúdica a sobrepor-se às más recordações muito vivas ainda na memória de cada um. Crianças grandes a divertirem-se na praia, era o que qualquer um, no alto da falésia podia pensar.
Mas, quantas vezes, aquelas crianças grandes, caíam em si e, alongado o olhar para o horizonte daquele mar que, esperavam, um dia os levaria de volta aos seus lares, se aquietavam vergadas pelo peso da saudade.
Era um mal que rapidamente se espraiava pelo grupo e, de cabeça baixa, demandavam as viaturas. Ali, já não se sentiam bem.
                                                        
                                                              J. Eduardo Tendeiro (Memórias)
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