A casa abandonada

                    A casa abandonada

 
 
Daquela  vez  não  houve ou. Era  mesmo  verdade. O comandante da Companhia tomou conhecimento de que existia, abandonada, a casa de um branco, à esquerda da estrada que vai para S. Salvador, na descida para o Rio Luvo.
Era uma casa pequena mas linda, caiada por fora e por dentro, tinha cinco divisões, a casa de banho completa com lava mãos, sanita, bidé; a cozinha também completa com lava-loiça.
Era uma pérola no meio do mato. Só um português muito confiante poderia fazer, ali, aquela obra, a sua casa.
O pelotão formou, o Alferes informou qual era a missão nesse dia:
 - Ir àquela casa arrancar todas as loiças sanitárias, para serem montadas na casa do comando para os serviços dos Senhores Oficiais.
Chamei a atenção do Alferes que a nossa missão era respeitar e fazer respeitar a propriedade alheia, e que mesmo tendo recebido ordens taxativas do Capitão, – não podendo desobedecer-lhe, como me disse – devia pedir-lhe  essa  ordem  por  escrito, para  não  poder  ser responsabilizado mais tarde. Não o fez, não queria chatices com o Capitão.
E lá fomos, vandalizámos a casa e trouxemos os sanitários para o acampamento.
Ainda hoje recordo a cara de felicidade do Capitão dirigindo--se ao Alferes:
– Então Miranda, não partiram nada?
Imaginei-o sentado na sanita, largando a “poia” que deveria ser farta. Aquele homem só sabia comer, dormir e evacuar, pois quem muito come muito larga.
 
Numa companhia há sempre habilidosos e até pessoal especializado. Foram logo escalados meia dúzia deles que executaram a obra. O Nosso Capitão já podia “obrar” à vontade.
 
Quantas vezes levei a minha máquina fotográfica comigo, e nunca consegui fotografar aquela casa. Tinha vergonha daquilo que nos tinham mandado fazer.
 
A.Ribau Teixeira (Memórias de um ex-combatente)
 
 
 
 
 
 
 
                                              
 
publicado por gatobranco às 17:26 | link do post | comentar