Quarta-feira, 18.04.12

História breve do noventa e um

 

 

 

Começou quando o Jota, fazendo arrumações, encontrou uma ponta de filme, cerca de um metro de películade trinta e cinco milímetros, a preto e branco. Negativos da guerra!

Naquele tempo a técnica da cor estava ainda pouco divulgada e, em campanha, não havia condições para manipular tal novidade.

Era um pequeno contentor, um cilindro translúcido que deixava ver o conteúdo de modo
indistinto. Aberto, como cobra liberta de longa hibernação, escorregou encaracolado por entre os dedos do seu descobridor.

Quase cinquenta anos tinham passado! Com uma mescla de saudade, inquietação e coração acelerado, pô-lo à transparência contra a luz da janela.

Os primeiros negativos, manchados com riscos negros, nada diziam. Depois o Zé Pais, em negativo com grandes barbas brancas, sorria para a objectiva. Nos seguintes, o cerimonial da lavagem da roupa estava bem documentado. Um outro costurava enquanto nas suas
costas o comandante de companhia repousava, a sua actividade predilecta que
alternava com a de bem comer. Sentados na frente de um jeep dois posavam para a
posteridade. Tudo gente conhecida. Os nomes emergiam lentamente com um sorriso
de satisfação.

Com a tira de negativos encostados ao vidro da janela, Jota deliciava-se. Mais à frente a horta experimental do Moreirinha criava dúvidas sobre a sua viabilidade. Que pena  ter partido tão prematuramente. Um outro, sentado sobre os sacos de terra do ninho da metralhadora da porta sul era quem?
Os seguintes documentavam os trabalhos de cobertura das casernas que iriam
abrigar os militares da companhia até então dispersos por barracas improvisadas, algumas verdadeiras obras de invenção e criatividade.
Empoleirados, lá estavam o Mira, o João, o carpinteiro e o …. Quem era aquele?

Jota não se esforçou na pesquisa dos nomes que lhe faltavam.

Nos dias seguintes esforçou-se sim em encontrar um digitalizador para recuperar os negativos.
Acabou por encontrar e com as fotos a preto e branco numa pen, marchou para casa entusiasmado. Pouco depois as fotografias com quase cinquenta anos circulavam já na internet com o pedido de identificação dos que não conseguira reconhecer.

E as respostas não tardaram. O que afanosamente esfregava uma camisa ensaboada, “Sou eu, então não se vê logo?” declarou o próprio.

O do ninho da metralhadora do lado sul também foi identificado facilmente por três dos
ciber-correspondentes.

Três, jocosamente, não reconheceram o comandante da companhia “ Quem é o gajo que está estendido atrás do Jota que faz trabalhos de costura?” “Aquele gajo que está estendido numa cadeira de repouso, também andou na guerra connosco?”ou “Se não me queres estragar o dia, corta esse tipo da fotografia”.

A maior dificuldade residiu na identificação do que estava empoleirado na estrutura do telhado, junto ao carpinteiro. Só na reunião anual do batalhão foi reconhecido: era o
noventa e um.

Este jovem minhoto, ferido no primeiro acidente com a explosão de uma mina que causou mortes, ficou traumatizado e teve que ser evacuado para Luanda onde, à custa de antidepressivos, vegetou largos meses e só reintegrou a Companhia quando esta se deslocou para o sul.

Apagado, triste, receoso, vivia afastado de todos e frequentemente foi dispensado das acções de reconhecimento que eram tidas como passeios pela  zona atribuída, com as deslumbrantes paisagens que a  reserva da Quissama, pródiga, oferecia a perder de vista.

“Que é feito dele?”

“Já morreu” – declarou secamente o que o identificara e explicou – “ Foi um infeliz. Nunca se recompôs. Parece que deixou de tomar os remédios, fugiu de casa e andava a mendigar quando se meteu à frente de um autocarro”.

O silêncio foi petrificando e pairou denso sobre eles, feito de recolhimento e de morte anunciada.

 O que sabia aquela história, num sopro gelado, concluiu:

 – Mais um que a guerra desgraçou.

J. Eduardo Tendeiro              ( 2012março)

Angola, 62/64 CCE 306

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Terça-feira, 03.04.12

O agricultor Gafanhão

                               O AGRICULTOR GAFANHÃO – 1

 

 

 

Chegados àGafanha, cada um foi para sua casa, tendo combinado que no dia seguinte
estariam nos viveiros lá para as oito horas da manhã. 

 O tempo estava na verdade melhor no dia seguinte, e, manhã cedo, lá fomos nós, o pai de
gadanha e engaço ao ombro e o Toino com as duas varas, em direcção à bateira.

O dia não era de chuva, mas a manhã estava fria. Notou-se logo ao meter os pés na
lama para alcançar a bateira. Soltada esta do moirão aí vamos nós para Esteiro do
Oudinot. Salto para a margem com a cirga na mão, estico-a ponho-a ao ombro, e
vá de puxar a bateira. São dois quilómetros de extensão, contra a maré. Chegado
ao fim é recolhida a cirga, entro para a bateira, pegamos nas varas e vá de atravessar
a cale, sempre com muita atenção, não vá aparecer algum navio, que nos
atrapalhe a manobra. Chegados ao fundão, vá de “paijar” com as varas como se
fossem remos, dado que a cale era muito funda e as varas não atingiam o fundo.

Passámos sem problemas e da outra banda voltámos a empurrar a bateira com as varas, até
que chegamos à marinha, amarrámos a bateira e toca de começar a trabalhar. O
pai do Toino a gadanhar o estrume e o Toino sempre com o olho à viva, (não
fosse aparecer outra cobra) ia-o juntando e enfeixando na corda. Quando o molho
estava com a quantidade suficiente era amarrado. O Pai puxava a corda de um
lado e o Toino do outro, apertavam-no, davam um nó, o pai ajudava a pô-lo na
cabeça do Toino, e aí vai ele correndo com o molho de estrume à cabeça, sempre
a pensar nalguma cobra…

Este serviço repetia-se vezes sem conta, até que a bateira estivesse carregada.

Depois era o regresso pelo Esteiro do Oudinot, o carro dos bois à espera, o
descarregar da bateira…

Este serviço era executado dias sem conta, sempre que o tempo o permitisse, até que
houvesse estrume suficiente, para as camas do gado durante o inverno, que aí
vinha.

O tempo ia piorando. O vento e as chuvas anunciavam o tempo que aí vinha, a
chegada do inverno. Já havia dias de chuva, que permitiam ao Toino ler uns bons
pedaços do livro que andava a ler, até ser “acordado” do sonho que a leitura
lhe provocava, por ordens do pai que dada a ordem continuava na sua leitura:

-Oh Toino vai dar uma gabela de palha aos bois, ou;

 -Dá uma gabela de erva à vaca.

O Toino deixava a leitura, e ia confirmar a ordem junto do pai, não que não
tivesse ouvido bem, mas para confirmar qual o livro que o pai estava a ler.
Punha o olho de lado, e lá ia cumprir a ordem.

De regresso, ainda se atreveu:

-Olha lá oh pai, quantas vezes já leram esse livro? (era o Mártir do Golgota) …

-Não sei, mas gosto muito dele. Tem aqui uma personagem que me faz pensar: e
continuou; era o cantor da Galileia, e ia fazer serenatas a Madalena a
pecadora. Chamava-se Boanerges. Se um dia tiver um neto gostava que lhe dessem
esse nome…

 

E lá continuavam, cada um com a sua leitura, até que da casa do forno se ouviu a
vós da mãe:

–Eh pessoal, vamos à janta que o comer já está na mesa!

Só nessa altura o Toino se lembrou, de ter ouvido o meio-dia tocar no sino da igreja.

E lá deixaram as leituras e foram para a mesa. O Toino olha para a comida e
resmunga:

–Mais uma vez caldo de feijões…

– E é para quem quer, responde-lhe a mãe, Se não quiseres vai para a panela e
fica para logo à noite. Nesta casa não se estraga nada…

E como naquela casa só se falava o necessário, a solução era comer do que havia e
bico calado!

O tempo ia passando, sem o Toino fazer ideia do que aí vinha, Agora era tudo um
mar de rosas. Ler, ir ao pasto para os bois, fazer qualquer outro serviço que
fosse necessário, e ler, ler!

Mas o tempo começava a esfriar ainda mais. O vento assobiava por entre os ramos das
árvores agora já nuas, sem folhas. O inverno estava a chegar e parece que iria
ser de muito frio.

-O futuro o dirá, foi a resposta do pai do Toino à pergunta do filho sobre o
assunto. Ele, que no verão prevía o tempo, agora mostrava uma certa reserva,
sobro o inverno que se aproximava. Parecia preocupado!

 

-Comprámos o moliço dos viveiros da Corte do Paraíso, e temos de o apanhar antes
do fim de Fevereiro e transportá-lo para as terras. O tempo de o apanhar está a
chegar. Comprei o moliço mais dois dos teus tios e domingo vamos combinar
quando começamos a apanha-lo! Vai começar uma época de trabalho.

 

-Com o frio que parece vir aí, deve ser bonito, pensa consigo o Toino! Ele que
já tinha sentido o frio que a geado provocava nos pés, ao pisar a lama branca
de geada. Só não compreendia que, no tempo em que andava na escola primária,
quando geava, a sua mãe o obrigava a levar tamancos de sola de madeira, que
eram normalmente comprados na feira dos treze, na Vista Alegre.

No entanto, mal desaparecia das vistas da mãe, era vê-lo a pegar num tamanco em
cada mão, e toca a correr, que para os lados da Escola da Ti Zefa já se ouvia a
algazarra da malta a jogar a bola - tudo descalço - e não havia frio que se
sentisse. Topada numa pedra sucedia de vez em quando; mas nada que um trapo ou
um lenço amarrados no local ferido, logo ali, não resolvesse!

 

-Grandes tempos aqueles! - Pensava consigo o Toino. Agora havia
que trabalhar, e o que aí vinha não era trabalho “mole”…

Chegouo domingo à noite e foi – lhe dado conhecimento da resolução da apanha do
moliço.

-
Mas pai, diz-lhe o Toino. Estamos em Janeiro e o tempo está tão frio! Podíamos
ir um pouco mais tarde…

-O frio não faz mal nenhum, cura…

-E o trabalho aquece – foi a resposta…

-
Este homem tem sempre uma resposta resmungou o Toino, pensando já no frio que
iria passar…

 

Começava mais uma época de trabalhos, que era exclusiva dos marnotos da Gafanha, já que
os de Aveiro não tendo terras se limitavam a consumir o tempo, visitando de vez
em quando a salina, acautelando alguma “ cambeia” que as marés vivas tenham
provocado, ou passeando debaixo dos arcos do Hotel Arcada, local soalheiro e
abrigado dos ventos do nordeste, que no inverno enregelavam o corpo até aos
ossos…

Enfim,cada qual nasce, para o que nasce!

E para o Toino não era nada bom ser filho de lavrador.com terras!

 
lá foram na segunda-feira seguinte para os viveiros da “Corte do Paraíso”
começar com a apanha do moliço. O pai do Toino com um ancinho e a gadanha ao
ombro, o Toino com um ancinho, montam cada um na sua bicicleta e toca a andar
em direcção ao “Paraíso”…???!!!.

Atravessaram a ponte de madeira que liga á estrada que dá a Aveiro e aí foram em direcção
aos “moinhos”, onde se localizava o Paraíso.

O vento norte corria de mansinho, mas frio como gelo. As orelhas e as mãos
sentiam-no bem. Pior seria quando tivessem – ao chegar ao viveiro – de tirar as
calças, ficar em cuecas e entrar na lama.

Enfim, veremos; ia cogitando o Toino, tentando meter uma mão no bolso e conduzindo a
bicicleta sem mãos.

 

Chegaram.
Calças fora, cuecas arregaçadas e toca de descer para o viveiro.

-
È pá, diz o pai do Toino para um cunhado. Está mesmo frio…

-Toca a gadanhar para aquecer. Enquanto nós cortamos o moliço, o Toino com o ancinho
vai-o juntando em montes pequenos para depois serem “zurrados” (empurrados)
para junto da estrada, d´onde mais tarde serão carregados para os carros de
bois, que o conduzirão às terras, na Gafanha.

Com o correr do dia, e como o céu se encontrava límpido, o sol ia aquecendo o ar
ambiente, mas não a lama onde se enterravam os trabalhadores. O corpo com o
trabalho, aquecia. Mas as pernas e os pés, valha-lhes Deus, nem os sentiam…


para o meio da tarde o sol
começou a descer no horizonte, para os lados do mar. A temperatura começou
também a descer, o ar ambiente ia ficando cego, uma espécie de pó finíssimo
pairava no ar. Para o fim da tarde
o ar já enregelava os ossos!

-
Mau, mau, diz o cunhado Zé. Se isto assim continua, amanhã vai ser o bom e o
bonito – querendo com isto dizer que seria ainda um dia de mais frio –
esperemos que o tempo não encubra, porque então vai ser frio de rachar…

A
noite ia chegando e resolveram regressar a casa.

-
Por hoje chega de trabalho, diz o pai do Tónio, que era o mais velho dos
cunhados. Vamos até casa, que amanhã também é dia.

Lavaram
a lama das pernas e dos pés, enfiam as calças e aí vão de abalada até à
Gafanha.

Porca
de vida, ia pensando o Tónio enquanto pedalava em destina à Gafanha. Isto não é
vida para mim. Isto não pode continuar. Tenho de pensar noutro modo de vida.
Não se passa fome, mas o trabalho é de escravo! Lá que o pai e os tios, aceitem
este modo de vida certamente por não terem alternativa, é lá com eles.

 Eu é que tenho, não posso aguentar este modo
de vida. Não sei o que ganho. Só sei que trabalho que nem um escravo, embora os
meus catorze anos!

 

Há muito que a noite trouxera o silêncio. A despeito de manter os olhos abertos,
mal conseguia vislumbrar os adobes da parede. Uma pergunta nasceu em mim e
tomou forma:  “ E se tivesses queescolher entre aquela vida tão dura e esta que tens agora?”

Tateando, escorreguei por entre os cobertores, encontrei  posição, cerrei os olhos e aguardei o sono que
tardava.

Pouco faltaria para que o sol deslizasse pelo zinco dos telhados e inundasse o
acampamento de Pangala.

 

Ângelo Ribau

CCE 306

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Sexta-feira, 02.03.12

ENCONTRO EM BRUXELAS

 

 

 

 

 

 

 

A guerra entra na nossa vida como um cometa. Um cometa que passa, mas com uma cauda enorme, infindável que se enleia em nós, a poeira cósmica carregada de recordações, umas latentes, outras bem vivas, sempre presentes. Uma poeira que nos envolve, invisível, cada grão pulsando à espera que um gesto, uma palavra, um acto ou um feito lhes dê vida.
Grãos que explodem, dilaceram, trazem à superfície o horror daqueles dias, o stress que ficou, a dor que, liberta, rasga, reabre feridas nunca curadas.
Raramente nos traz uma boa recordação. Também as há, particularmente as que nascidas nos momentos difíceis, geraram amizades que nem o tempo pode apagar.

 

 

 

Deambulava pelo largo passeio daquela avenida imerso num mar de línguas diferentes onde predominava o
francês. Um francês diferente do de Paris, mas entendível. Duas senhoras avantajadas passaram por mim falando alemão. Japoneses tagarelando a sua língua, negros, muitos negros com os seus dialectos apressados, muçulmanas de longas vestes, cabeças cobertas, olhar triste e silenciosas.

Mergulhado nesta cacofonia, de súbito ouvi atrás de mim um berro bem português, gritando o meu nome.

Estaquei, virei-me e dei com um ancião calvo, de vente proeminente, agitando no ar o que me pareceu uma bengala.

Fulminante como um raio, vi-o no seu camuflado desleixado, o cinto descaído, um eterno cigarro entre os lábios .

Furei por entre as pessoas distribuindo “pardon”e “sorry” à esquerda e direita e abraçámo-nos com vigor.

- Que fazes aqui?

- Passeio. E tu?

- Eu? Eu moro aqui!

- Tu? Emigraste ou quê?

Não respondeu, preferindo reforçar o prazer do encontro inesperado:

- Tão longe que estava de te ver!... Quando passei por ti fiquei especado. Eras tu, de certeza! Experimentei
gritar o teu nome e respondeste... – apontando uma esplanada, arrastou-me para lá – vamos aqui celebrar, isto não acontece todos os dias. Sabes quantos anos já lá vão?...

- Quarenta e tantos, respondi.

Sentados na esplanada, com enormes canecas de cerveja à nossa frente, repeti a pergunta anteriormente
formulada:

- Afinal, o que fazes aqui?

- Já te disse, moro aqui, sou de cá...

- Como é que arranjaste isso? Conta lá!...

Ajeitou o corpo rubicundo na cadeira, bebeu dois goles generosos de cerveja e satisfez a minha curiosidade:

- Quando regressámos – uns meses depois de ti – não tinha emprego nem qualificações específicas. Sabia um pouco de electricidade, reparava rádios…

- Sem trabalho, emigraste, foi?

- Nem mais. Uns amigos dos meus pais deram-me guarida e vim para cá.

- Fazer o quê?

- Boa pergunta. Tudo o que aparecia. Limpezas, obras, foi duro, mas queria vencer...

- E acabaste a fazer o quê?

- Calma, pá! Isto dava um romance, daqueles de muitas páginas... Um dia fui fazer uma obra num hospital
como ajudante de electricista. Sabia umas coisas e o patrão até me tinha aumentado, mas conheci lá uma enfermeira...

Limitei-me a sorrir, lembrando a sua apetência por mulheres.

- Não te rias, pá! A coisa foi séria! Apaixonámo-nos, fui viver com ela. Por seu intermédio consegui no
hospital um lugar de ajudante de electricista: Vê bem, pá: eu rádio-montador, credenciado em instalações eléctricas, ajudante de electricista! Mas estava com ela, tínhamos horários compatíveis... Comecei a mostrar os meus conhecimentos, fiz cursos e, dois anos depois, era electricista estagiário.

Casámos, veio o primeiro filho, mudámos de casa.

- Tens mais filhos? – Perguntei para aliviar o relato.

- Tenho mais um, uma, um casal. Já me deram netos. Olha bem para mim: eu, avô!

- Que novidade! Eu também já sou avô. Mas conta mais.

- Pouco mais há que contar. O engenheiro chefe começou a notar os meus conhecimentos, entregou-me a gestão
das rádio-comunicações do hospital e fiz carreira. Já me aposentei, ela sai para o ano e contamos ir passar uns tempos a Portugal. Como está aquilo por lá???

Tardei a responder.

- Vai preparado para encontrares pouco de bom. Maus governos, partidos incapazes de se entenderem, ninguém a incentivar criação de trabalho, justiça só para pobres...delapidaram o tesouro do Salazar, amanha-se cada um para seu lado, os tipos que passam pelo governo ficam com reformas brutais, olha, pá: vai num pé e volta noutro. Evita pensar naqueles nossos dois anos tão mal empregados e no celebrado vinte e cinco de Abril

- E ninguém faz nada?

- Quem? A tropa? Não te esqueças que tudo isto decorre dentro de um governo eleito pelo povo e os militares, sem nada que fazer, estão acomodados.

Vieram mais duas canecas, recuseia terceira e resolvi espicaçá-lo um pouco, prospectando antigas “fraquezas”:

- Mas tu não podes dizer mal da  guerra. Se não tivesses aprendido umas coisas de rádio não estavas aqui agora, aposentado a beber cerveja e a pensar nos netos...

- Não gozes, pá. Eu, tu, todos nós, dispensávamos bem aquela experiência por que passámos, até por respeito para com os que lá deixámos...

- Tens razão, mas aqui só entre nós, foi na psico que até aprendeste a dar injecções, naquelas grandes filas que vinham para as vacinas e tratamentos.

- Lá isso é verdade!

- E às mulheres era sempre na nádega, não era?...

Com um belo sorriso, corrigiu-me:

- Só às mais novas …

  

FIM

 

 

Bruxelas,25 de Agosto de 2010

 

NOTA DO AUTOR

Este, do meu encontro em Bruxelas,foi sargento  rádio-montador no comando
de um batalhão  operacional, no nosso tempo em Angola.

 

Conheci-o já no Grafanil, vindo também do norte e gastei algumas horas do meu tempo livre na sua bancada de
trabalho perscrutando entranhas de rádios que naquele tempo estavam ao nosso serviço.

Encontrámo-nos ainda algumas vezes em Luanda, antes da nossa ida para lá do Quanza.

 

(J. Eduardo Tendeiro

ex sargento de transmissões da CCE306

  Angola, 62/64)

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Quarta-feira, 29.02.12

Férias no “Puto”

 

 

 

Havia passado muito tempo, pouco para o necessário para podermos pensar no regresso. Meu Deus onde vinha ele!

Parecia-me que nunca mais veria, o meu segundo filho!

Tinha nascido já eu me encontrava em Angola. Conhecia-o pelas fotografias que me eram enviadas. Olhava-as, tentava imaginar os gestos que faria, o seu choro, enfim todos os gestos e movimentos que vi no primeiro filho…

 

Um dia, numa deslocação à sede do Batalhão em Cuimba, ouvi falar que já tínhamos tempo suficiente de “mato” (cerca de um ano) para podermos gozar um mês de férias, que poderia ser no “Puto”! Só que as despesas de deslocação seriam por conta do “felizardo”.

Logo ali colhi informações sobre o assunto. A Companhia tinha de autorizar, (por causa da sua operacionalidade) e o Batalhão de garantir o pagamento da viagem. Logo pensei no assunto a fundo e que se arranjasse um colega para viajar comigo seria mais fácil, especialmente o regresso a Angola. Mas quem?! Talvez o Miranda! Sim o Miranda. Éramos como irmãos desde o R.I. 10 em Aveiro, amizade cimentada depois de uma queda de mota que demos na estrada entre Condeixa e Tomar, quando nos dirigíamos para Santa Margarida, onde estávamos aquartelados.

 

Falei com ele que logo acedeu. Havia o problema da operacionalidade do Pelotão, dado que ambos pertencíamos ao mesmo. Contactado o Alferes Miranda este não levantou problemas. "Vocês têm nas vossas secções, cabos que tem capacidade suficiente para vos substituírem durante as férias." Agradecemos, e pusemos mãos à obra…

Sabida a hora e dia da partida do avião dos TAA que de São Salvador fazia a ligação com o da TAP, aproveitámos a boleia da coluna de reabastecimento a São Salvador, e, munidos de toda a documentação necessária, aí vamos de abalada. O avião seria no dia seguinte. Dormimos no “hotel”, num quarto com o pé direito muito alto, forrado a madeira junto aos barrotes. As entradas e saídas dos morcegos durante a noite, não nos deixaram dormir. Mas nessa noite já não havia sono…

Levantámo-nos cedo e por aí andámos até que o avião da TAA chegou. Houve passageiros a desembarcar. Nós aproximamo-nos do velho Dakota, que nos aguardava impávido e sereno. O agente na localidade entregou-nos os bilhetes das passagens, e convidou os passageiros a entrar e ocupar os seus lugares.

O avião fez-se à pista e aí vamos nós até Luanda. Passadas umas horas aterrámos.

Fomos informados no balcão da TAP  que o “nosso” avião partiria três horas depois. Era só o tempo suficiente para pegar um táxi e ir à casa de um amigo onde tinha deixado a minha roupa civil (para o mato tinha só levado as roupas militares) trocar de roupa, com o táxi à espera, e ir novamente para o aeroporto. Não podíamos perder aquele avião por nada deste mundo. O Miranda esperava-me apreensivo…

 

À espera de se fazerem horas de embarque fomos ao bar do aeroporto beber uma cuca gelada. Era meio da tarde e o sol queimava, como o preço das cervejas nos queimou o bolso ao pagar…

Saímos para o lado das pistas, onde um Super Constelation abastecia. Era grandalhão e tinha dois depósitos suplementares, um na ponta de cada asa, que aumentariam a sua distância de voo.

Embarcámos e seguimos as instruções de levantar voo, com o avião no início da pista. Finalmente levantou voo na direcção do Sul, deu a volta sempre a subir e quando passou, já lá nas alturas por cima de Luanda, mal se viam as luzes que começavam a acender-se. Entrou em velocidade de cruzeiro, houve ordem de à-vontade. Começava a viajem!

A imaginação começou a trabalhar, ia ver o meu menino, mas o ronronar daqueles quatro possantes motores, absolutamente sincronizados, venceram o cansaço e o stress daquele dia. Olhei pela vigia do avião. Era  noite cerrada. As nuvens já ficavam por baixo de nós. No entanto o meu companheiro de viagem continuava a olhar para fora, pela vigia do avião, talvez pensando como iria encontrar a família!

Eu adormeci e só acordei com a instalação sonora de bordo anunciando  que iríamos aterrar no aeroporto de Kano, na Nigéria, onde almoçaríamos.

Assim foi. Almoçámos e seguimos viagem.

Sobre o deserto do Sara,fomos informados de que  íamos passar  numa zona de poços de ar, e era conveniente apertar os cintos.

Olhei para fora. O sol nascia no deserto, parece que rompia daquela areia que devia ser quente. Acordei o meu colega para que pudesse gozar aquele espectáculo. O avião de vez em quando tremia nos poços de ar, e as suas asas abanavam como qualquer gaivota voando sobre a Ria.

Entretanto tudo aquilo passou, e recebemos a notícia da aproximação a Lisboa, onde chegámos era mais de meio da tarde.

A aproximação a Lisboa foi como um sonho. O Estuário do Tejo, os farrapos de nuvens que de vez em quando passavam por nós e o meu colega de viagem, que olhei de lado, enquanto ele limpava uma lágrima teimosa que lhe escorria pela face…

- Então Miranda?!...

- Olha Ribau - respondeu-me ele- Quando “apanhei” com aquela bala na virilha, pensei que nunca mais veria Lisboa…

- Mas vê-la agora. Olha ali em baixo. Daqui a pouco estamos em terra. Não penses mais nisso! Oxalá haja comboio que ainda hoje vamos ficar a casa.

Aterrámos e desembarcámos, tendo sido informados que dois dias antes do reembarque, tínhamos de confirmar a nossa partida, ainda que fosse por telefone.

Tomámos um táxi que nos deixou em Santa Apolónia, e onde comprámos bilhetes para o comboio que partiria dentro de minutos para Aveiro. Daqui eu segui para a Gafanha e o Miranda tomou o autocarro que o levaria a São João da Madeira.

- Que todos os teu estejam bem!

- E também os teus e os teus meninos, foi a resposta do Miranda.

 

Apanhei um táxi para me levar a casa. Enquanto percorria os sete quilómetros que dela me separavam ia pensando no que iria lá encontrar. A minha esposa com os meus filhos, os meus pais já velhos, cansados com o peso de três filhos em Angola na zona de guerra! Será que esta minha visita os aliviará, a todos, daquele sofrimento motivado pela incerteza de que provavelmente os seus filhos teriam de matar para não serem mortos?!

- Número dez, é aqui, diz o taxista, ao chegar à porta da minha casa e parou.

Paguei a corrida, peguei no saco de viagem, despedi-me do homem do táxi e entrei em casa.

Lá encontrei a família à minha espera, e até o meu filho mais velho estava ainda acordado, pois queria ver o pai. O mais novo dormia descansado, como se aquele momento não lhe dissesse respeito.

Comi qualquer coisa (o almoço em Kano tinha sido leve, como convinha a quem viaja de avião), e comecei a sentir o stress causado por todas as emoções daquele dia.

 

Deitei-me e adormeci sossegado. O dia de amanhã será concerteza um dia mais descansado que os anteriores.

 

 

Ângelo Ribau CCE 306

Angola 1962/64

 

 

 

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Sábado, 18.02.12

A Apanha do Estrume

 

 

 

 

 

Aquela emboscada nocturna foi mais longe do que o habitual. Largados das viaturas, tivemos de andar quilómetros a pé até ao local pré definido. Felizmente que durante a noite nada de anormal se passou, e de manhã regressámos ao local acordado com as viaturas, andando mais quilómetros, pois não poderíamos regressar pelo caminho de ida. Era perigoso.

Chegados ao acampamento, tomámos o café, e o nosso pelotão estava livre!

 

Eu cansado, estendi-me sobre a cama, adormeci e creio que sonhei…

 

O tempo estava na verdade melhor no dia seguinte, e, manhã cedo, lá fomos nós, o pai de gadanha e engaço ao ombro e o Toino com as duas varas, em direcção à bateira.

O dia não era de chuva, mas a manhã estava fria. Notou-se logo ao meter os pés na lama para alcançar a bateira. Soltada esta do moirão aí vamos nós para Esteiro do Oudinot. Salto para a margem com a cirga na mão, estico-a ponho-a ao ombro, e vá de puxar a bateira. São dois quilómetros de extensão, contra a maré. Chegado ao fim é recolhida a cirga, entro para a bateira, pegamos nas varas e vá de atravessar a cale, sempre com muita atenção, não vá aparecer algum navio, que nos atrapalhe a manobra. Chegados ao fundão, vá de “paijar” com as varas como se fossem remos, dado que a cale era muito funda e as varas não atingiam o fundo.

Passámos sem problemas e da outra banda voltámos a empurrar a bateira com as varas, até que chegamos à marinha, amarrámos a bateira e toca de começar a trabalhar. O pai do Toino a gadanhar o estrume e o Toino sempre com o olho à viva, (não fosse aparecer outra cobra) ia-o juntando e enfeixando na corda. Quando o molho estava com a quantidade suficiente era amarrado. O Pai puxava a corda de um lado e o Toino do outro, apertavam-no, davam um nó, o pai ajudava a pô-lo na cabeça do Toino, e aí vai ele correndo com o molho de estrume à cabeça, sempre a pensar nalguma cobra…

Este serviço repetia-se vezes sem conta, até que a bateira estivesse carregada.

Depois era o regresso pelo Esteiro do Oudinot, o carro dos bois à espera, o descarregar da bateira…

Este serviço era executado dias sem conta, sempre que o tempo o permitisse, até que houvesse estrume suficiente, para as camas do gado durante o inverno, que estava a chegar.

O tempo ia piorando. O vento e as chuvas anunciavam o tempo que aí vinha, a chegada do inverno. Já havia dias de chuva, que permitiam ao Toino ler uns bons pedaços do livro que andava a ler, até ser “acordado” do sonho que a leitura lhe provocava, por ordens do pai que dada a ordem continuava na sua leitura:

- Oh Toino vai dar uma gabela de palha aos bois, ou;

-Dá uma gabela de erva à vaca.

O Toino deixava a leitura, e ia confirmar a ordem junto do pai, não que não tivesse ouvido bem, mas para confirmar qual o livro que o pai estava a ler. Punha o olho de lado, e lá ia cumprir a ordem.

De regresso, ainda se atreveu:

- Olha lá oh pai, quantas vezes já leram esse livro? (era o Mártir do Golgota) …

- Não sei, mas gosto muito dele. Tem aqui uma personagem que me faz pensar: e continuou; era o cantor da Galileia, e ia fazer serenatas a Madalena a pecadora. Chamava-se Boanerges. Se um dia tiver um neto gostava que lhe dessem esse nome…

 

E lá continuavam, cada um com a sua leitura, até que da casa do forno se ouviu a vós da mãe:

- Eh pessoal. Vamos à janta que o comer está na mesa…

 

Acordei com o ruído do pessoal que se dirigia para o almoço, levantei-me e fiz o mesmo.

 

Ângelo Ribau CCE 306

Angola 62/64

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Quinta-feira, 22.12.11

Mãe, simplesmente Mãe

                                   MÃE, SIMPLESMENTE MÃE

 

 

Ela, era a mãe de um simples soldado. Vivia na sua terra, só, pois o  marido tinha falecido havia uns tempos. Era pescador numa traineira da pesca da sardinha, que ao entrar na barra com o intenso nevoeiro que se fazia sentir e com a falta de radar que naquela altura ainda não estava instalado na traineira, como a pesca tinha sido muito boa a traineira vinha carregada de sardinha da proa à ré ,“pesada” como se dizia na gíria, bateu contra o molhe e afundou-se, tendo falecido grande parte da tripulação.

 

Recebi a notícia lida num jornal que vinha a embrulhar uma encomenda de um companheiro de guerras.

 

Conhecia a maior parte dos tripulantes, alguns meus colegas de escola, outros desconhecidos, pessoas mais velhas, onde reconheci o pai do tal soldado, que se encontrava no Leste de Angola. Perguntei à minha mulher como tinha reagido aquela mãe, que, viúva e com o filho longe…sem mais ninguém…

 

- Mal, muito mal, foi a resposta. Anda aí pela rua gritando:

 

- O mar levou-me o marido. Os “outros” o meu filho. Malvados.

 

Era mais uma mãe. Simplesmente uma mãe só no mundo. Como tantas naquele tempo.

 

 

                 Ângelo Ribau Teixeira 

 

(Ex-Combatente em Angola, CCE 306, 62/64) 

publicado por gatobranco às 09:45 | link do post | comentar
Domingo, 30.10.11

Os queijinhos do David

                    

 

Agora me lembrei. Eram restos do mês deAbril de 1962. Estávamos em Faro. Os sargentos que prescindiram da sua cantina,

recebiam os subsídios de alimentação e contrataram com o restaurante “Verde-mar”as suas refeições . Entretanto a minha esposa tinha chegado com o meu filhopara passar comigo os últimos dias antes do embarque de que não sabíamos ainda
a data, e comia connosco no restaurante.

 

Uma tarde de sábado apeteceu-nos ir tomar uma cerveja ao restaurante. Fomos alguns sargentos, a minha mulher e
evidentemente o meu filho. Entre nós estava o David, que andava sempre (quando podia) com o meu filho ao colo, sentou-o em cima da mesa, e descuidou-se. Obebé desequilibrou-se e deitou um copo de cerveja ao chão. Peguei-lhe e dei-lhe
uma palmada no traseiro.

 

Em má hora o fiz, pois o David levanta-se, dirige-se a mim e não fora o Miranda teria eu levado uma valente
bofetada. Às crianças não se bate, diz o David.

 

Ao que se dizia, o David era filho demãe solteira, governanta de uma casa rica alentejana, rapaz nervoso.

 

Entretanto embarcámos. Num camarote ficámos, o David, eu, o Miranda e creio que o Carneiro. Os dias corriam
devagar, até que começou a aparecer um cheiro esquisito no camarote. Ao entrar notei a vigia aberta e nela depositados uma série de queijinhos alentejanos.

Como só o David era alentejano, pensei que ele os trouxe para matar saudades.

Passeavamos nós pelo convés quando aparece o David com cara de mau:

- Ouçam lá. Quem foi a besta que pôs fora os queijinhos que se encontravam na vigia a arejar?

- Fui eu, diz o Miranda! Cheiravam mal, eram para pôr fora… foram ao mar.

 

Então fui eu que tive de intervir para evitar que, desta vez, fosse o Miranda a levar na cara.

 

 

Ângelo Ribau Teixeira

publicado por gatobranco às 17:55 | link do post | comentar
Domingo, 23.10.11

O S.P.M. ( Serviço Postal Militar

O S.P.M. (Serviço Postal Militar)

 

 

Era o dia 25 de Dezembro de 1962. Tínhamos passado a noite de consoada, ceando todos juntos, tentando esquecer o lugar onde nos encontrávamos. A noite de consoada tinha passado, não sem alguma dificuldade. Era dia de Natal, não havia operações, mas o serviço de ir à água, e a segurança ao acampamento, não poderiam ser esquecidos…

 

Almoçámos e andávamos por ali tentando consumir o tempo, passeando pela parada ou entrando numa ou noutra caserna a meter conversa com o pessoal, que se mostrava pouco interessado em conversar. Normalmente, a maior parte desses militares estavam deitados nas suas camas, barrigas para cima e o quico a tapar-lhe os olhos. Dormiriam?!

 

Vou andando. Entro na caserna do “meu” pelotão. A mesma calma, o mesmo silêncio. Só o Cabo Braga sentado na cama escrevia um “bate estradas”. Aproximo-me:

- Então meu furriel? Interroga-me, mas ao que me pareceu, sem esperar resposta! Só para meter conversa…

- Tudo bem, respondi encolhendo os ombros!

Nisto ouve-se muito ao longe um ruído nosso conhecido. Apurámos o ouvido.

- Eh meu furriel. É um Teco-Teco (nome por que eram reconhecidos os pequenos aviões de reconhecimento) diz o Braga alvoroçado. É correio, é correio…

A palavra ecoou por todo o acampamento, e toda a gente apareceu na parada, de nariz no ar. É correio, é o nosso Comandante do Batalhão, que nos vem trazer o correio. Hoje é dia de Natal e é ele mesmo que vem. Já nos acenou!

Como não tínhamos pista de aterragem, o avião deu a volta por cima do campo de futebol, como a indicar-nos que era ali que iria largar a encomenda! Todos se dirigiram para lá.

Então o avião larga um saco pequeno e a seguir outro maior.

 

Ao bater no chão o saco pequeno rompe-se e dele saem muitas amêndoas. Quase ninguém ligou e todos se dirigiram para o saco maior que ao bater no chão continuou intacto.

 

- É o correio, é o correio gritava-se. Cuidado ao abrir não se vá romper alguma carta. Não se rompeu ao cair porque é papel…

O saco foi aberto com cuidado…

- Ora porra, diz o militar que se encarregou de  o abrir, ao verificar o seu conteúdo: - Figos passados do Algarve…

Toda a gente desmobilizou, desmoralizada.

 

Os figos foram entregues na cozinha para serem distribuídos ao jantar.

Fiquei por ali maldizendo a nossa sorte, quando me aparece o “Puler”

- Eh meu furriel, ninguém apanhou as amêndoas, posso eu ir apanha-las?

- Olha que estão cheias de pó…

- Não faz mal. Eu lavo­-as…

 

Ângelo Ribau Teixeira (CCE 306 Angola 62/64)

 

publicado por gatobranco às 14:37 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 06.10.11

R I P

 

 

A notícia apanhou-me de surpresa e cruamente:

“Mais um que se foi!”

 

Conheci-o, melhor, conhecemo-nos na primeira noite da viagem para Angola.

Sem sono, angustiado, deixando para trás a Mulher e um filho que não sabia se voltaria a ver, sem vontade de conversar, refugiei-me na amurada do Quanza a fumar um cigarro.

Chegou silencioso e  encostou-se a alguns metros de mim, respeitando privacidade ou querendo preservar a sua.

Desinteressei-me do cigarro, lancei a ponta em arco, acompanhei-a por breves segundos e via-a desaparecer no mar calmo. Ele fez o mesmo e, em simultâneo vencemos a distância que nos separava

-Sem sono?-- inquiri à falta de melhor argumento.

Encolheu os ombros, procurou novo cigarro que não acendeu e confessou:

-Não suporto o ruído do camarote. É um ruído soturno que enche todo o barco – aqui mal de ouve – parece que isto é um animal vivo a resfolgar...

-É... realmente parece vivo! – aguardei um pouco e como não obtivesse resposta, avancei. – Também já o senti: Um ruído pesado, mistura de ruídos, o motor, as condutas de ar a resfolgarem...

De novo o silêncio nos envolveu. Um tripulante passou, olhou-nos e seguiu sem uma palavra. Carne para canhão, terá pensado.

A noite anterior, passada num  incómodo comboio que de Faro nos largou no cais de embarque, começou a pesar em mim e, depois de uma breve apresentação – “Eu sou da 306”, eu da CCS”, lado a lado, enfrentámos o calor e o ruido surdo das entranhas do mastodonte.

Durante a viagem encontrámo-nos algumas vezes no espaço limitado do barco. Desembarcámos lado a lado e no cais de Luanda fomos apartados como gado, por Companhias.

Voltámo-nos a encontrar no dia seguinte na campo militar do Grafanil, a alguns quilómetros de Luanda onde ficaríamos algum tempo, “em adaptação”, antes de seguirmos para o Norte, destino mais adivinhado que informado.

 

Em Cuimba, bem ao Norte, já a CCS estava instalada quando lá chegámos e pernoitámos. Foi ele que me encontrou e me arrastou para uma cama vaga, debaixo de telha, melhor dizendo, debaixo de lata, um barracão coberto com zinco. Regressei ao “perímetro” da Companhia a tempo de partilhar o copo de café com leite, quente,e um pouco de pão mole.

Naquela longa deslocação de dias intermináveis, viajava no jeep do comandante da companhia como coordenador das ligações interpelotões e do comandante para os pelotões em coluna de marcha e também com a sede do batalhão. Partilhava o assento de trás com o cabo rádio telegrafista, o operador do comando. Ainda não havia notícia de minas anti-carro e e comandante da companhia deslocava-se à frente,  afoito, livre de pó, ciente de que o poletão que viajava imediatamente atrás era a sua escolta pessoal.

Antes de transpor o cavalete de arame farpado, o meu amigo de viagem lá estava e ao adeus breve juntou uma palavra “sorte”!

No ano de “estadia” em Pangala, nosso destino, voltei a ver aquele meu amigo pelo menos duas vezes, aquando das minhas deslocações ao Comando para resolver problemas que afligiam a “minha” secção de rádio. Encontrámos tempo para conversar e, numa ocasião em que tive que ficar alguns dias preso pela reparação de um rádio e falta de transporte de retorno, conseguiu-me uma cama no seu alojamento. Conversámos calmamente as nossas saudades da família, o problema das minas que assoberbava todos e aumentava o número de baixas. Havia um sargento que, diariamente, aparecia com uma anedota e nos fazia rir com gosto afastando mágoas e tristezas.

Uma coluna do comando para S. Salvador, passando no cruzamento para Pangala cortou aqueles dias que pareceram férias.

No cruzamento, uma patrulha da 306 esperava-me e, com os rádios operacionais, regressei a Pangala.

 

Só nos voltámos a encontrar em Luanda, para onde fomos descansar das agruras do norte.

Para fugir às precárias instalações do Grafanil e não ser pasto dos mosquitos que, aos milhares nos marcavam como se estivéssemos com sarampo, quase todos procurámos quartos na cidade.

Aí, de novo nos encontrámos com o mesmo propósito e estivemos em vias de partilhar um quarto para os lados dos correios, mas, por uma vicissitude qualquer que já não recordo, o intento não se concretizou e acabei partilhando parte de um apartamento frente ao Hotel dos Oficiais com o Costa Pereira e o Ribau. Por vezes cruzava com o meu fugaz amigo, íamos ao cinema, ao L'Étoile deliciarmo-nos com a cantora de serviço e a beber uns copos.

 

A 306 foi para Cabo Ledo com um pelotão na Muxima e só nos encontrámos nas vésperas do tão almejado embarque de regresso às nossas casas, ao seio dos nossos familiares dando-lhes o contentamento de regressarmos vivos.

Na pressa da saída, cada um tentando o mais rapidamente libertar-se das últimas “obrigações” não o voltei a ver e apercebi-me então que nunca tínhamos trocado endereços...

 

Num restaurante de comida ao balcão, em Lisboa, dois anos depois, lá estava ele. Escandalizámos os presentes com os longos abraços que trocámos e as palmadas nas costas ecoaram amizade, uma forma simples de amizade imperecível.

Lado a lado, com os olhos no relógio embora, ele deu-me uma imagem que permanece para a vida inteira:

-Somos como dois cometas cujas órbitas por vezes se encontram e fazem um grande festival de luz!

Nos encontros anuais do Batalhão a que tanto tenho faltado, procurávamo-nos e renovávamos o prazer de novo encontro.

 

Chocado ainda com a notícia do seu passamento, numa última recordação de saudade, não posso deixar de pensar nos cometas. A sua órbita abriu-se apontando para o infinito. Também a minha, mais tarde ou mais cedo, se abrirá e quem sabe, se voltarão a cruzar.

Até lá, Quirino, arrastarei comigo a saudade de um bom amigo e daqueles dias fortuitos que tanto nos ligaram.

 

    28SET2011

J. Eduardo Tendeiro

   CCE 306

 Angola, 62/64

 

 

publicado por gatobranco às 18:51 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 05.10.11

O meu Hitachi

                                                                      

 

   O famoso HITACHI, companheiro de muitas horas de solidão, com as marcas de uma campanha (62/64) e do peso da idade.

   A despeito das facilidades que o posto de rádio me concedia na escuta de múltiplas estações de rádio, na intimidade da camarata, com ele escutava a Rádio Eclésia e, com o auscultador, Rádio Moscovo, Rádio Argel e Brazaville eram passados a pente fino.

   Não raras vezes sabia assim por antecipação, baixas nas NT que os Sitrep tardavam em reportar.

   Mas por ele passavam também alguns bons momentos de descontração.

 

                                                                                     

 

                                O meu Hitachi em" trajo de combate"

 

 

J. Eduardo Tendeiro

CCE 306

publicado por gatobranco às 19:45 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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