Segunda-feira, 02.07.18

A MEDALHA DE COBRE

 

    Já lá vão muitos anos, quase meio século que deixei para trás a “guerra de Angola”.

   Deixar para trás é uma força de expressão porque, tantos anos depois, uma palavra, um acontecimento, o encontro com um antigo companheiro de aqueles tempos e ela aí está! Episódios que supúnhamos esquecidos saltam para a ribalta, atordoam-nos, fazem-nos ranger o dentes e com desalento, vem a pergunta: para quê, para que morreram tantos jovens cuja única culpa foi terem vinte anos naquela amargurada época.

   Mas, pessoalmente, não me posso queixar muito: regressei sem mazelas físicas ─ alguns a meu lado e para meu horror tombaram vitimados por balas, minas ou circunstâncias adversas ─ a família recebeu-me carinhosamente e a minha Mulher , pacientemente, ajuda-me a superar danos colaterais entranhados no mais fundo de mim mesmo.

   Seis meses depois de vaguear em busca de emprego ─ tinha mulher e um filho para ajudar a sustentar ─ encontrei trabalho numa seguradora. Não sabia nada de seguros além de ter de pagar anualmente a maquia que me cobravam pelo carro em segunda mão  que alegrava os nossos fins de semana e me levava para o escritório nos dias de temporal. Contudo, adaptei-me bem e hoje, com “trinte e tantos anos de casa” chefio a agência que me deu abrigo quando voltei da guerra sofrida em Angola. Até tive tempo de, na Universidade ali ao lado, fazer um curso de economia.

   De os amigos de aqueles tempos, companheiros de armas como por vezes nos apelidávamos, só o Mota vive aqui nesta cidade à beira-mar plantada. Vemo-nos com frequência, lanchamos por aí e, de vez em quando, aparece na Agência da Companhia a clamar que o arruíno com o preço dos seguros.

 

   O episódio que vos vou narrar tem início precisamente com uma visita sua, de recibo na mão clamando “Mas tu pensas que sou rico para pagar esta fortuna”?

   Acalmei-o com a oferta de um calendário de bolso e a promessa de que num fim de semana a combinar juntaríamos as famílias para um jantar a expensas da Companhia (A expensas minhas evidentemente).

   Sentado à minha frente, já para lá da hora de expediente, com aquele sorriso irritante que o comandante do pelotão  tanto detestava, acalmado com a promessa do jantar e com o pequeno calendário aconchegado na volumosa carteira de negociante de gado, recostou-se conferindo pela enésima vez os “luxos” do meu gabinete e da minha vasta secretária: computador topo de gama, impressora “industrial” no seu dizer, cadeira anatómica, aquecimento para os pés quando se justificava, um “enorme “ armário arquivador, ar condicionado todo o ano, enfim, o necessário para bem exercer a profissão que o Matos  considerava luxo pago por ele e tantos outros clientes impiedosamente “ esfolados”  por mim em nome de uma multinacional.

   Enquanto carimbava o seu recibo e resguardava o respectivo cheque na gaveta da direita, o Matos endireitou-se, debruçou-se sobre a mesa que nos separava e apoderou-se de uma medalha de cobre que jazia num pequeno tabuleiro de mistura com alguns clips e um arranca-agrafos.

   ─ Que é isto? È tua? Não me lembro de teres sido agraciado com medalha! Tiveste, tivemos um louvorzito e ficámos aviados!...

   E aqui começa verdadeiramente a história de hoje.

   ─ Isso é uma medalha de bons e relevantes serviços prestados em campanha e é certo que não é minha ─ fiquei a olhar para o meu amigo Matos, sargento duma secção de armas pesadas  naqueles longínquos tempos e acrescentei ─ e não sei de quem é…

   Dona Maria Júlia a mais recente secretária do meu escritório interrompeu-me com uma questão a resolver para o correio do dia e afastando-se foi seguida pelo olhar apreciador do Matos que, satisfeito, transferiu para mim aquele sorriso irritante.

   ─ Nem te atrevas! ─ Travado pela minha ameaça, com um encolher de ombros, convidou:

   ─ Conta lá o resto da história da medalha.

   Retomei a narrativa:

   ─ Há dias, aquele rádio de campanha, o” Hitachi, made in Japan”, lembras-te?  que eu considerava eterno, avariou para meu desgosto. Na oficina, o senhor Abel, experiente de uma vida nestas coisas de receptores e televisores, foi abanando a cabeça. Instado por mim, refletindo, deu-me uma hipótese:

   ─ O mercado já não tem disto, mas se encontrar um rádio igual, talvez eu consiga alguma coisa.

    Porém, onde é que eu encontraria um rádio portátil com quase  cinquenta anos?

   Abanando a cabeça e arreganhando os lábios, sugeriu:

   ─ Só se for no “Prego”. Talvez encontre por lá um aparelho destes, mesmo avariado…

   Ignorando o sorriso de esguelha do Matos, prossegui o relato.

   ─ E este teu amigo lá foi caminho do “Prego “com o pequeno rádio escondido  numa pasta.

   ─ Mas o que é que o rádio tem a ver com a medalha? Evidentemente  o rádio foi para o lixo─ Agastado, o meu amigo revirava a medalha na concha da mão. Indiferente à interrupção prossegui:

   ─ Como acabaste de dizer não tive sorte, mas passeando o olhar por aquele bricabraque que é a loja do Prego, vi um camuflado pendurado numa cruzeta. Curioso, quis saber a proveniência daquele trajo ali tão deslocado. O dono do prego, já não me lembro do nome dele, contou-me que um dia lhe entrou pela porta adentro um jovem com um embrulho debaixo do braço, o camuflado. Queria livrar-se daquilo e acrescentou ao fato uma faca de mato e aquela medalha. Perante a insistência do rapaz o dono do prego lá lhe deu qualquer coisa por todo o espólio. Face à minha curiosidade de saber o que iria fazer com o camuflado , explicou:

   ─ Isso… tenho que esperar pelo carnaval. Nessa época aparece por aqui muita gente em busca de fatos antigos e adereços. De certeza que vendo ou alugo aquele fato da guerra e, olhe, até lhe dou a medalha como bónus.

   ─ Senti uma revolta tão grande, o camuflado e a medalha, principalmente a medalha achincalhados numa  comédia de carnaval que, num impulso, me propus comprar a medalha tanto mais que ele não tinha ficado com a identificação ou sequer o endereço do jovem vendedor.

   ─ Não se quis identificar nem receber o talão que passo a quem vem empenhar alguma coisa, para o caso de querer reaver o que aqui deixam. Saiu porta fora garantindo que nunca mais queria ver aquilo.

   O Matos entregando-me a medalha  por sobre a mesa  quis saber:

   ─ E agora o que vais fazer com isso?

   ─ Sei lá… Isto é uma medalha de cobre atribuída a sargentos ou praças que se distinguiram em situações de combate ou praticaram feitos relevantes…

   ─ Como nós…─ Casquinou o Matos recuperando aquele sorriso que todos detestavam e sugeriu ─ põe isso na lapela…

    Contrapus:

   ─ Eras capaz? ─ Reforçando o desafio, acrescentei  ─ Eu dou-ta.

   Sério, resguardando o sorriso, retrucou pausado:

   ─ Claro que não, nem tu… mas olha: o que teria levado aquele rapaz, ex-combatente pela certa, a desfazer-se daquele espólio, particularmente a medalha. Necessidade material?

   ─ Pelo pouco que terá recebido não me parece…  Talvez a necessidade de esquecer algum facto doloroso que aquele espólio avivava…

   ─ Talvez…

   E por ali nos ficámos lutando com o incómodo das nossas próprias recordações da guerra já tão distante no tempo, mas sempre tão presente.

FIM    (JAN18)

 

 

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DESABAFO

Desabafo pungente este que encontrei hoje:

 

   "Afinal, os que me ensinaram a arte de bem matar, foram os mesmos profissionais que, mais tarde, nos disseram que não tínhamos razão"

   A. RIBAU T.

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Domingo, 01.07.18

MEMÓRIAS QUE NÃO SE APAGAM

CINQUENTA E SEIS ANOS VOLVIDOS, EVOCAMOS A TARDE TRÁGICA DE UM DE JULHO DE 1962 E A MADRUGADA DO DIA SEGUINTE.

Uma mina anticarro destrói um jeep e causa as primeiras baixas dando-nos a dimensão real da situação de guerra em que nos encontrávamos e ainda se não tinha manifestado.

Os anos passaram mas os nomes daqueles nossos camaradas de armas e amigos permanecem vivos.

CARVALHO, BARRIGUINHA, MONTEIRINHO,falecidos no dia um

O DAVID sobreviveu até à madrugada do dia seguinte.

Sacrificados por uma causa duvidosa, sobrevivem na nossa memória e na das suas famílias.

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Sexta-feira, 15.06.18

RUI MALHA

“PERDER UM AMIGO É FICAR MAIS POBRE”

 

   Nos primeiros dias deste mês de Junho ficámos mais pobres.

   Perdemos o RUI MALHA.

   A amizade forjada nas angústias, incertezas e perigos dos longínquos anos de 1962/64, em Angola, faz-nos chorar a perda deste Amigo.

   Está na Casa do Pai mas sentimos a sua falta.

   Adeus Malha. Estamos mais pobres mas aquele teu sorriso permanece connosco.

DESCANSA EM PAZ

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Quarta-feira, 24.02.16

MARIA IVONE

 

                                                                         

   MARIA IVONE

Conheci-a fugazmente no aeroporto, na noite do nosso embarque de regresso a Angola. O mês de férias esgotara-se e ali estávamos, o Costa Pereira e eu, aguardando a última chamada para o embarque.

Serena, apoiada no braço dele, compunha um breve sorriso, alento para nós. Lágrimas, que as tinha, guardava-as para si.

Recordo-a acenando um discreto adeus.

Encontrei-a de novo já casados. Tinham vindo visitar-me. Os olhos tristes do aeroporto eram agora límpidos, cativadores, espelhando felicidade que todos partilhámos.

Encontrámo-nos ainda mais duas vezes antes de a doença a assediar.

 

Deus Misericordioso pôs fim ao teu sofrimento levando-te para junto de Ele, mas aqui, sentimos a tua falta.

                   MARIA IVONE  CRAVEIRO LOPES JANUÁRIO PEREIRA recordamos-te com saudade.

 (4 de Fevereiro de 2016)

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Quarta-feira, 26.06.13

Um dia "calmo"

Um pelotão fora era um dia de tensão e como praticamente todos os dias havia um pelotão em acção, o stress era contínuo.

A companhia tinha quatro pelotões operacionais. Quando um saía para uma missão, ficava outro “em prontidão” preparado para uma acção de socorro ou qualquer outra missão específica.

Com este esquema estavam sempre dois pelotões de folga. De folga era um eufemismo que poderia significar dormir o dia inteiro, tratar da roupa – tarefa árdua – escrever longas cartas ou um simples “bate-estradas”, os famosos aerogramas que o Movimento Nacional Feminino distribuía a mãos cheias, que o comando da companhia também fornecia, mas que tinham pouco uso considerando o tempo que demoravam a chegar ao destino. Daí o nome.

Dos que ficavam, alguns eram escalados para serviços de apoio ao acampamento: abastecimento de água, limpezas,  apoio à cozinha, pequenos serviços de manutenção daquela ilha encalhada próximo da fronteira norte de Angola, a casa que detestavam, mas por absurdo os acolhia e lhes conferia algum conforto.

Naquele dia um pelotão saíra cedo, com ração de combate para o dia. Tinha por missão patrulhar a estrada que ligava o acampamento à “via” principal, S. Salvador/Cuimba, procurar vestígios do IN e garantir que não tinha havido implantação de minas anti- carro, as famigeradas minas que tantas baixas causavam e desmoralizavam as NTs. Recolheriam ao acampamento ao pôr do sol.

Na “sala” da “casa dos sargentos” o sargento de transmissões olhava abstracto para um pequeno livro aberto à sua frente. Com uma dotação de rádios emissores- receptores de campanha inadequados às condições de terreno e tipo de missões que deveriam servir, preocupava-se.

A missão daquele dia não era das piores do ponto de vista das transmissões. Decorrendo durante o dia tinha sido possível fornecer ao pelotão dois rádios de AM que seriam inúteis com o por do sol. A estática – milhões de grilos, cigarras, pregos raspando em grades de metal e todo um cortejo de ruídos inqualificáveis -- tornariam impossível a sua utilização. Mas com um esplendoroso dia de sol e porque a acção decorria quase sempre em terreno aberto, as primeiras comunicações tinham sido limpas, eficientes e de bom augúrio, tudo “ó kapa”, sintetizara o radiotelegrafista do pelotão deslocado.

Já era qualquer coisa mas no campo das transmissões avizinhava-se outra crise: as baterias de reserva dos rádios portáteis estavam a acusar o uso e já não recebiam a carga necessária para uma missão mais longa. Do Comando do Batalhão viera uma resposta vaga possivelmente confrontados com o mesmo problema: “Vamos ver isso.” Mais um nesta guerra de problemas. Aliás o grande problema era a guerra em si – a guerra , o problema magno.

Deixando escorrer entre os dedos as folhas dos livro recebido do continente, atacado por um tédio que lhe esvaía forças e vontade própria consentiu que o pensamento voasse milhares de quilómetros e, deleitado, viu a jovem esposa a brincar com o pequenito cuja foto mais recente servia de marcador entre as páginas do livro que não lia.

-- Acorda, pá! – À sua frente o tenente Brás, seu condiscípulo no liceu, olhava-o carrancudo. – Já dei volta à city a ver de ti. A patrulha?

-- Boas notícias, aliás sem notícias. Fizeram o itinerário um sem problemas e estão no dois para os lados de Salvador.

-- Antes isso! – tirando-lhe o livro da frente, inquiriu – Que estás a ler?

-- Ler…. Um romance de Agatha Christie, mas não consigo concentração para acompanhar as deduções do seu Poirot. Já o comecei várias vezes…

Encontrou a fotografia, mirou-a longamente e comentou:

--Belo pimpolho! – acusador, prosseguiu – E é com esta foto entre as páginas do livro que queres criar concentração para o teu Poirot?

-- Era o que tinha  mais à mão para fazer de marcador… -- os  olhos cruzaram-se num diálogo mudo que acabou por verbalizar – e o teu?

-- Mais terrorista que qualquer grupo desses gajos que andam por aí a lixar-nos a vida – o brilho fugaz que se tinha acendido nos seus olhos esmoreceu – Isto é lixado, não podemos pensar nisto a toda a hora, acabamos malucos…

Meneou a cabeça num gesto de assentimento.

-- … Já te lembraste – prosseguiu em voz baixa, como se contasse um segredo ao seu confessor – que amanhã, depois, num dia qualquer, os nossos filhos podem estar felizes a brincar com as mães sem saberem que já são órfãos e elas viúvas?...

Um silêncio de morte envolveu-os. Olharam em redor, evitando que os olhos se cruzassem.

O sargento de transmissões brincou com o livro, tirou a foto do filho das mãos do tenente e depositou-a entre as páginas  como se a depositasse no mais precioso relicário.

-- Raios! – rugiu o Brás – Daqui a pouco estamos para aqui a chorar. Vamos embora daqui.

O outro não reagiu e o tenente insistiu:

-- Vamos lá guardar as lágrimas para a noite. Um homem não chora, muito menos um caçador especial! – A voz, quase no falsete, desmentia a bravata.

Sem combinação prévia encaminharam-se para o bar.

-- Cerveja, comandou o oficial, mas o sargento recusou com uma só palavra: uísque.

-- Dizes bem – Reforçou o pedido para lá do balcão e por ali se ficaram fazendo horas para o almoço. Sobre o balcão improvisado, entre as páginas do romance policial, o serrilhado da fotografia anunciava a sua presença.

Já o segundo uísque se tinha esgotado tragado pelo silêncio que o barman não se atrevia a quebrar quando à porta assomou o cabo radiotelegrafista de serviço.

Vendo-o, o chefe do serviço de transmissões  interrogou-o:

-- Algum azar com a patrulha?

-- Não. Só que estamos a perder a ligação.

-- Tenta avisá-los para que mudem para a frequência de recurso e abre escuta nas duas frequências.

Com um “ó kapa” mal mastigado, o cabo afastou-se. O tenente ficou a olhá-lo e acabou por perguntar:

-- Não vais lá ver o que se passa?

-- Não há mais nada a fazer… Aliás, o meu pessoal é muito eficiente, capaz de resolver estas pequenas coisas sozinho. Confio em absoluto neles. Daqui a pouco passo lá e garanto-te que está tudo em ordem. Vens comigo?

-- Não, prefiro ir até à enfermaria ver se há alguma maca disponível.

Com um piscar de olho para o antigo condiscípulo levantou-se e comandou para o balcão:

-- Aponta a despesa na minha conta. – Abalou apressado esquivando o quico[i] com que o sargento  o pretendia agredir.

No posto de rádio tinham sido abertas as duas escutas e a recepção melhorara o suficiente para se entender que tudo corria com normalidade e procuravam um lugar para “atacarem” a ração de combate.

Considerando que o meio-dia se aproximava e já havia algum movimento para os lados da cozinha, foi-se caminho da casa dos sargentos e por ali ficou até que a comida chegou.

As refeições não eram particularmente um tempo de diálogos. A maior parte empenhava-se em  pôr à mostra as amolgadelas do fundo do prato de lata e contemplava-as como pitonisa consultando vapores sulfurosos.

Depois da refeição chegava a cafeteira do café, oferta do cozinheiro. Utilizando o copo do cantil, chávenas mais ou menos esboceladas – recolhidas numa qualquer sanzala abandonada à pressa pelos seus moradores -- tomava-se o café de fim de refeição e o fumo dos cigarros enevoava o ambiente enrolando-se caprichoso nas grossas traves do tecto.

Recolhidos os pratos e limpa a mesa, alguns dos seus anteriores ocupantes dispersavam-se, outros ficavam. Um baralho de cartas concretizava-se do nada e longas séries de King e sete-e-meio tinham inicio. Outros, poucos, na ponta da mesa mais afastada, escreviam laboriosamente a carta que dias depois seguiria para S. Salvador. Dos que sorrateiros se tinham eclipsado, uns estavam já estendidos sobre a manta-colcha da cama fitando as chapas de zinco da cobertura. Um pequeno grupo dispersava-se pelo acampamento e só um ou outro demandava o bar para “um digestivo” e o acampamento amadorrava-se.

No posto de rádio  o cabo radiotelegrafista assobiava em surdina, talvez buscando inspiração para utilizar o bloco de papel de carta que tinha à sua frente. Correspondendo à pergunta do sargento das transmissões explicou:

-- A patrulha já está a andar. A ligação está limpa, mas mesmo assim tenho a frequência de recurso aberta…

Com uma palmada de felicitação no dorso nu do operador, o sargento prometeu:

-- Se quiseres meter o chico[ii] faço-te um relatório que és logo promovido a furriel…

Com um olhar magoado, raiando a ofensa, o operador respondeu:

-- Porra, meu sargento! Não me rogue tal praga.

A patrulha foi recolhida a tempo de participar no jantar da companhia.

O sol, vermelho e retalhado, considerando a missão do dia cumprida, foi-se.

Lá muito ao norte de Angola a noite abateu-se impiedosa sobre o acampamento daquela Companhia de Caçadores Especiais.


j. eduardo tendeiro

[i]  Pequeno boné de duas palas, uma cobrindo o pescoço e outra os olhos feito de tecido camuflado.

[ii] Continuar na tropa passando ao Quadro Permanente.

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Segunda-feira, 03.09.12

ÂNGELO RIBAU TEIXEIRA

                                                                

 

                Faleceu o Ângelo Ribau Teixeira. Partiu para Deus, para uma bem merecida paz e bem-aventurança eterna.

                Era um homem de bem, grande simpatia, riso franco, muita solidariedade e alma grande.

                Conhecemo-nos há quatro anos, em meados de 2009, por via eletrónica. Ele enviou-me uma mensagem a pedir uma informação sobre o meu livro “Angola – As Brumas do Mato”. E desde então, o relacionamento eletrónico nunca mais terminou. Com grande frequência ele enviava mensagens, diaporamas, pequenos vídeos sobre vida e cultura, história e arte, ciência e natureza, imagens de paz e de guerra, temas de otimismo e solidariedade, de reflexão e de humor…

                Mais tarde, há três anos, teve a gentileza de me oferecer o seu livro “Retalhos das Memórias de um Ex-Combatente” (Angola 1962-1964) em que fala sobretudo das aventuras e desventuras do seu pelotão e da Comp. Caç. Especiais 306, integrada no Batalhão Caçadores Especiais 357.

                Logo no início impressionou-me que ele, parafraseando um conhecido romance, dedicasse aquelas páginas “àqueles que lutaram mas, por eles, nem os sinos dobraram”.

                Li-o de fio a pavio, com um enorme interesse. Tanto mais que em muitas páginas quase me parecia que estava também a reviver as picadas e as noites, sustos e medos, momentos e paisagens dos vários pelotões e companhias do meu Batalhão – o Batalhão Caçadores 1930. Há páginas de um realismo dramático, muito sofrimento e pormenor.

                Com uma grande emoção vi na pág. 4 uma dedicatória já mais especial aos seus pais. Um pai “marmoto e agricultor, seco de carnes, mas com ossos duros de roer, temperados pelo sal das águas da Ria” de Aveiro, na Gafanha da Nazaré. E uma mãe “doméstica e agricultora”, mas com grande fé em Deus e amor aos filhos. E foram estes pais, heróis no trabalho e na dedicação do dia a dia que “tiveram quatro filhos na tropa ao mesmo tempo, três dos quais na Zona de Intervenção Norte”. A grande fé de sua mãe “foi compensada pois todos regressaram sãos e salvos”.

                No prefácio, o seu grande amigo e companheiro de armas, J. Eduardo Tendeiro, da Covilhã, evoca o “stress pós-traumático de guerra que tantas perturbações origina pela vida fora” (pág. 6). E é precisamente para exorcizar esses fantasmas da guerra que o Ângelo Ribau Teixeira, como tantos outros ex-combatentes – entre os quais me incluo – descarregou para o papel essas noites e pesadelos, rebentamentos de minas e mortes, sedes e cervejas, negruras e picadas envolvidas em pó, sonolências e febres, emboscadas e morros, tudo isso vivido e revivido no quotidiano da guerra colonial.

                Ao receber a triste notícia do falecimento do Ângelo Ribau Teixeira todas essas páginas do seu livro – tão duras e tão reais – desfilaram na minha mente, ao mesmo tempo como pesadelo e alívio. E foi também um certo alívio que o Ribau Teixeira deve ter sentido ao passar para o papel as suas memórias de guerra. Mas elas são memória futura de toda uma geração que partiu e penou em terras africanas, em tempos de ditadura.

                Agora, definitivamente na Pátria Celeste, paz para o Ribau Teixeira, junto de Deus.

                Carvalhos, 2 setembro 2012

                Manuel Leal Fernandes

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Domingo, 26.08.12

HOMENAGEM AO MEU AMIGO E COMPANHEIRO DE ARMAS, ÂNGELO RIBAU TEIXEIRA.(17/11/937 -11/08/2012)

 

 

Que melhor homenagem te posso prestar que a de alinhar alguns excertos do muito que escreveste sobre a guerra?

Neles ressaltam a tua sensibilidade e oportunidade crítica, mas também muito do  sofrimento   que a guerra  nos impôs.

Sobram projectos que tínhamos! São eles que também vão ditar a continuidade da tua memória.

 

                           

 

 

 

“Os óculos iam para o bolso e do bolso saia um lenço, que era o lenço usado pela tropa. Era verde, grande, a lembrar o lenço tabaqueiro que o meu pai usava, e que nos fazia muito jeito. Era amarrado por cima do nariz e dava-se um nó atrás da cabeça. Assim podíamos respirar menos mal. (A caminho d Norte)”

“ Até que chegámos ao local. Desolados encontrámos a tal casa abandonada. Ficava antes da sanzala chamada Pangala, mas era ali que a nossa companhia iria ficar, mais de um ano. Que tristeza.”

 

“O Armando Barriguinha, o Adelino Carvalho e o José Monteirinho pereceram de imediato.

O David o sempre bem-disposto David, o amigo incondicional de todos nós, sobreviveu algumas horas”

 

“Mina, palavra terrível. Não é um buraco no chão donde nasce agua. É um buraco no chão, donde vem a morte. Morte terrível, corpos despedaçados...para quê?”

 

 

“É hoje o dia 30 de Setembro de 1962. Quatro meses de mato, e nada que se veja! O terceiro pelotão está operacional. Logo à noite temos de ir fazer uma emboscada. O Alferes resolve que iremos emboscar-nos na picada do Quelo. Mais uma, pensámos nós. “Tantas emboscadas feitas naquela picada, sem resultados. É mais uma, pensámos (….) As armas dispararam até que o Alferes mandou parar o fogo. (…)De madrugada descemos à picada. Eu nem queria acreditar no que via.”

 

“E pensei na minha terra, na minha família, nos colegas da escola. Por que pensa a cabeça quando o corpo está descansado? Até a dormir a cabeça não descansa. Rara é a noite em que ela não sonha com coisas extravagantes, como o estarmos a beijar o nosso filho, estarmos a ser cumprimentados pelo nosso vizinho Sarabando.”

 

“Hoje é dia de descanso do nosso pelotão. Levantei-me com a alvorada, tomei o meu café e fui à mala da roupa ver o que por lá havia. Deparei com um saco de plástico cheio de roupa suja.”

 

“Quantas vezes levei a minha máquina fotográfica comigo, e nunca consegui fotografar aquela casa. Tinha vergonha daquilo que nos tinham mandado fazer.”

 

“Nesse dia fomos fazer patrulha apeada para as bandas de Cuimba. Tudo calmo. Só era necessária mais cautela à passagem pelas sanzalas abandonadas. Havia uma coluna de reabastecimento vinda de São Salvador,”

 

 

 “Os tempos do “Norte” acabaram. As seguranças às colunas de

reabastecimento também. Com essas operações ficámos a conhecer muitas terras dos Dembos: - Nambuangongo, Quipedro, São José de Encoje, Vista Alegre…(Luanda,63)”

 

“A Rádio Ecclésia transmitia músicas de Natal. A que comecei a ouvir foi “ Noite Santa Noite Serena”, cantada pelo conjunto coral “Os Pequenos Cantores de Viena”.

Automaticamente a minha mente mudou-se para a minha terra – os meus filhos, a minha mulher, os meus pais, enfim a minha família…a Ceia de Natal na casa do forno, estavam tão longe e ali tão perto na minha memória! Natal/63”

 

“A minha secção foi a que foi fazer uma espécie de cerco (recordei-me de quando era pequeno ter feito dessas coisas para “assombrar” os pintassilgos para a palma)

O rio era baixo nalguns sítios e tinha árvores e ramos caídos, que facilitavam o seu atravessamento. O resto era mata densa”

 

“Passei em frente à igreja da Nossa Senhora da Muxima. Estava fechada. Mesmo assim não deixei de parar por momentos, e, mentalmente agradecer à Senhora da Muxima o facto de o Zé estar salvo.”

 

“No fim daquele dia, recebemos uma boa notícia.

-Amanhã vamos almoçar à Fazenda do Pai do Fernando, diz-nos o Alferes”

 

“A semana passou, e, finalmente recebemos ordens: -iríamos para Catete. Não era nada que se comparasse com Luanda, mas o Pelotão ficaria sozinho, sob as ordens do Alferes.”

 

“Afinal, os que nos ensinaram a arte de bem matar, foram os mesmos profissionais que mais tarde nos disseram que nós não tínhamos razão...”

 

 

“E nunca mais se fala do nosso regresso à Metrópole. Já passaram os dois anos e meses e nada”

 

 

“Pedi na empresa onde me tinha sido guardado o “lugar” para começar imediatamente a trabalhar.

O gerente chamou-me e disse-me para eu ir gozar um mês de férias. Expliquei-lhe o motivo porque queria começar imediatamente a trabalhar: – esquecer –. Pelo menos enquanto trabalhava, a cabeça tinha de estar no trabalho e não se distrair com o passado. Compreendeu. Eu agradeci-lhe.”

 

“Os momentos maus, vêm sempre ao de cima. Infelizmente…”

 

“Aí as bateiras dividiam-se. Umas iam para a “Cale do Oiro” onde o Ti Zé Rito amanhava uma marinha, outras seguiam em frente para as “Leitoas”, marinha amanhada pelo Ti Manuel da Branca, outras ainda seguiam para o Esteiro de Sama, onde se situava a marinha que íamos “botar a sal”.(…) Afinal tinha estado a sonhar com a mocidade, mas com tantos pormenores, que me parece ter estado a viver aqueles momentos!”

 

“À medida que o pai ia gadanhando o estrume, o Toino ia-o enfeixando, depois apertava o feixe com uma corda e transportava-o à cabeça para a bateira. O estrume era leve e a bateira estava perto, pelo que o serviço até ia correndo bem!”

 

“Magro, escanzelado, vestia uns trapos, que mesmo como trapos já haviam conhecido melhores dias, com o seu chapéu roto, mais parecia um espantalho das searas, do que um ser humano que Deus ao mundo tenha posto

Era assim o Ti António da Bicha”

 

 

“Acertada a ementa, em conversas cruzadas, o passado emergiu. Ribau e Tendeiro embrenharam-se pela fotografia, tema que os unira durante a guerra.( Almeirim, 2009)”

 

 

“Comentar para quê? Curvemo-nos perante a lei da vida, e que o Padre Arnaldo esteja no lugar que merece, com toda a sua fé.”

 

 

“É assim a vida. Tudo tem um fim. Hoje um, amanhã outro e depois outro...
E nós já cansados da vida, a nosso tempo também iremos.”

 

Adeus Ribau. Até sempre.

J.Eduardo Tendeiro

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Domingo, 01.07.12

UM DE JULHO

 

 

 

Um de Julho de dois mil e doze

Breve é a nossa passagem pela vida

Parece que foi ontem. A dor é a mesma! A saudade fere com igual intensidade mas a revolta cresceu, acumulou-se.

Jovens generosos deram a sua vida por uma causa que todos auguravam perdida.

Foi lá para o Norte de Angola, na estrada S. Salvador – Cuimba, antes de o cruzamento para Pangala, aquartelamento da nossa Companhia de Caçadores Especiais nº 306. Um jipe da  coluna de reabastecimento accionou uma mina anticarro transformando-o numa amálgama de ferros torcidos pintados com o sangue dos ocupantes.

O Armando Barriguinha, o Adelino Carvalho e o José Monteirinho pereceram de imediato.

O David o sempre bem-disposto David, o amigo incondicional de todos nós, sobreviveu.

Com os cuidados do médico e do enfermeiro, das nossas preces e  juras raivosas de retaliação, manteve
um sopro de vida até à madrugada do dia seguinte.

 O coração parou, o rictus de dor adoçou-se e os lábios entreabriram-se numa prefiguração daquele
sorriso muito seu.

Foi há cinquenta anos.

 

(J. Eduardo Tendeiro)

publicado por gatobranco às 15:53 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Domingo, 24.06.12

A PRIMEIRA ACÇÃO DE GUERRA DA CCE 306

Nota prévia:

Para melhor enquadrar a nossa primeira “acção de fogo” pareceu-nos acertado dividir este relato A PRIMEIRA ACÇÃO DE GUERRA DA CCE 306 em dois capítulos que serão publicados em separado.

Um primeiro relembra a nossa deslocação para o Norte de Angola (De Luanda a Cuimba) e o segundo capítulo, (de Cuimba a Pangala)  o relato da primeira acção de fogo da CCE 306.

 

I

De Luanda a Cuimba

 

Depois de algum tempo no Grafanil, campo militar às portas de Luanda, os boatos superavam as acções a desempenhar e escolhíamos os que nos pareciam mais favoráveis “Vamos para o Norte!” Isso todos sabíamos. “Vamos para S. Salvador, vai ser bestial, dizem que aquilo é bom, até temos avião para vir a Luanda”.

Porém, um dia, depois de nos terem mandado comprar artigos de higiene "para algum tempo", uma notícia
tirou-nos ilusões de opção: íamos para o norte, pois claro, para a fronteira com o Congo tapar linhas de infiltração e fazer a segurança da zona .

 

No dia 11 de Junho daquele ano de 62, antes de o sol timidamente começar a anunciar a sua presença a nascente, tingindo de vermelho os telhados de zinco, uma serpente a perder de vista de enorme que era, vomitada pelos portões escancarados do Grafanil, fez-se à estrada. Eram os primeiros momentos da deslocação de uma longa coluna auto que nos levava para o norte, para os nossos destinos.

Nomes que conhecíamos do estudo da geografia como locais importantes da “província Ultramarina de Angola” foram desfilando ante nós. Salazar, Camabatela, Negage, o já famoso Negage, na ainda curta história da “guerra de Angola”, decepcionantes  pequenos aglomerados com algumas, poucas, centenas de residentes incluindo as forças militares estacionadas, recebiam-nos para abrigo de uma noite passada de qualquer modo, dentro ou debaixo das viaturas. Geralmente, só os oficiais tinham melhor abrigo. Para cada etapa partíamos cedo evitando o sol a que não estávamos habituados e que nos martirizaria ao longo da jornada amassando pó com suor abundante.

À medida que progredíamos para norte, sempre para Norte, a presença humana diluía-se, os pequenos agrupamentos de autóctenes rareavam e não voltámos a ter crianças a correrem ao lado das viaturas à espera de bolachas ou chocolate subtraídos das rações de combate.

 

(vendo a tropa passar)

 

Ultrapassado o Bungo, estacionámos em Maquela e aí ouvimos histórias de diamantes desviados que arranjavam a vida de alguns, de estradas cortadas e pontes destruídas.

Como habitualmente, bem cedo, marchámos para Cuimba, última paragem antes de nos lançarmos na aventura de conquistar Pangala, uma casa de adobes coberta de zinco, perdida algures, num ponto mal definido da carta militar.

Foi-nos dada a garantia de que duas pontes que iríamos utilizar estavam operacionais e, manhã cedo fizemo-nos à estrada. Capim alto, verdejante, engolia as viaturas.

Uma picada mais estreita do que as que vínhamos trilhando, acusando manifesta falta de uso era a estrada de ligação Maquela- Cuimba - S. Salvador, na qual encontraríamos um desvio para a direita em direcção a Buela. Aí se situava o local onde iríamos construir o nosso aquartelamento sinalizado pela já famosa casa com telhado de zinco que, obviamente, albergaria o comando e que teria o nome da sanzala mais próxima--Pangala.

A antena do ANGR-C9 que equipava o jeep do Comandante da Companhia no qual um rádio telegrafista e eu nos
deslocávamos ocupando o banco traseiro, matraqueava os caules grossos das beiras da picada ao sabor das oscilações da viatura, imitando  rajadas de metralhadora. Em abono da verdade se diga que em cerca de mil quilómetros trilhados não tinha havido um único disparo ou ameaça à progressão da coluna, o que nos conferia um certo à-vontade.
No entanto, em Maquela, tínhamos sido prevenidos de algumas acções hostis de terroristas que destruíam pontes e atravessavam árvores nos caminhos.

(Por vezes, a picada era um lago)

 

O primeiro pontão foi ultrapassado sem história e, quilómetros à frente, surgiu a ponte sobre um rio mais caudaloso: grossos troncos  lançados  de margem  a margem  forrados  com duas linhas de pranchas nas
quais era suposto os condutores serem capazes de alinhar as rodas das suas viaturas.  Por precaução o pessoal passou a pé e os condutores, ajudados por uma multidão de voluntários que se contradiziam, lá foram deslizando pelas pranchas. As viaturas pesadas, de rodado duplo sobre pranchas vergadas com o peso, rodas exteriores 
abocanhando o vazio  também atingiram a outra margem.

Com a tropa de novo montado, comentando o feito, ironizando o suor dos condutores, alguns deles ainda de
mãos trémulas chupando ávidos o cigarro que os acalmaria, a coluna venceu uma pequena subida que a retirou do vale do rio e atingimos Cuimba sem dificuldades de monta.

publicado por gatobranco às 19:17 | link do post | comentar

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