Domingo, 01.09.19

ATÉ SEMPRE, CURA DOS SANTOS

 

              

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Deixaste-nos e com a tua ausência ficamos mais pobres.Mas não abalaste sem luta, como sempre fizeste.

 Quantas vezes, com um meio sorriso, enfrentaste a morte naquelas viagens  das colunas de reabastecimento trilhando picadas minadas, sempre com uma palavra de conforto para os mais temerosos!

Nas nossas reuniões, mesmo quando a saúde já não era a melhor, em ti buscávamos a alegria de uma confraternização e contavas um pequeno episódio que superava a tristeza de amigos já em falta.

Lá longe, nos tempos de Pangala, nos nossos momentos de reflexão, quando dúvidas nos assaltavam, lá estava o teu sorriso a garantir que “tudo vai correr bem.”

Deixaste-nos, mas fica a saudade imensa da tua presença, de ti.

Descansa em paz aguardando por nós.

1AGO19

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Sexta-feira, 16.08.19

COISAS DA GUERRA

 

 

 

Entrou de mansinho no quarto.

Frente à janela, a filha, debruçada sobre o papel de carta, permanecia estática

─ Vim só ver o menino. Está sossegado, não está? ─ Sem aguardar resposta, quis confirmar ─ Estás a escrever-lhe?

─ Estou… ─ Levantando os olhos chorosos para a mãe, confirmou ─  Estou para aqui a inventar um rol de mentiras!

─ Então, filha! Tempos melhores virão. O menino há de curar-se e ele, com a graça de Deus e de Nossa Senhora, vai voltar sem mazelas daquela maldita guerra.

─ Mas eu já nem sei que mais inventar! Doí-me a alma dizer-lhe que o nosso filho, aquele anjinho ali, está bem quando esta semana já fomos a correr com ele para o hospital duas vezes … ─ num gesto maternal a senhora mais velha abraçou os ombros da filha sem encontrar uma palavra de conforto ─ … como é que eu posso dizer-lhe que na fábrica as coisas vão mal, já despediram gente e eu estou à bica para novos despedimentos. Ó mãe, que vida a nossa!

─ Então filha! Tudo se vai consertar. Do menino ─ estacou, mirou longamente a filha e argumentou ─ até já me lembrou de o levar à senhora Assunção…

─ Mãe! ─ a indignação reverberou no ar ─ Não vais levar o nosso menino à bruxa!

─ A senhora Assunção não é bruxa nenhuma. Ela vai à missa e até o senhor prior lhe fala bem!

─ Isso não, mãe!

─ Escreve lá ao teu José e depois falamos.

─ Ao cabo dezanove, corrigiu com um breve e pálido sorriso, logo repreendida pela mãe:

─ Não chames isso ao rapaz. Tem nome, um bonito nome o de S. José, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.

─ Mas é isso que ele diz que o chamam lá na guerra!

─ Deixa lá. Escreve-lhe. Escreve que o menino teve uma dorzita de barriga mas já vai bem. Não lhe fales na fábrica.─ Confrangida, saiu de mansinho com um breve olhar para a criança cuja palidez rivalizava com a alvura dos lençóis do berço.

 

 

                                           -------XXX-------

 

 

─ O dezanove em meditação! ─ Casquinou o sargento Alves ao deparar com o cabo que, carrancudo, enfrentava uma folha de papel em branco.

─ Não goze, meu sargento! Estou para aqui a ver se invento boas notícias para mandar à minha Maria, sempre desejosa de notícias  minhas. Ela manda cartas tão bonitas! Conta as gracinhas do nosso filho e diz-me coisas lá da terra…

─ Desculpa lá! É chato, pá! Não lhe podes dizer que esta semana morreram mais três dos nossos e que estivemos uns dias a arroz com as conservas das rações de combate. Inventa aí qualquer coisa alegre…

─ Mas o quê? ─ Gemeu o dezanove.

─ Sei lá, pá… Olha! Conta-lhe que houve uma patrulha de caça. Saíram à caça para arranjar carne para o arroz, mas não lhe digas que não caçaram nada. Inventa que abateram veados e um porco. Diz-lhe que também foste e até acertaste num dos bichos…

─ Isso não, que ela é muito dorida com os animais.

─ Então inventa aí a festa que todos faríamos se a caçada tivesse dado resultado. ─ Sem transição, o Alves  inquiriu ─ Viste por aí o quarteleiro?

Face à negação do questionado afastou-se mas voltou atrás:

─ Olha, diz-lhe que tivemos cá o padre a dizer missa, mas não podes dizer que foi pela alma dos mortos, e que depois jogámos uma futebolada com ele a fazer de árbitro. ─ Contente com a sua achega, acrescentou ainda ─ Se queres fazê-la rir diz-lhe que passaste horas a coser dois botões… elas riem-se a valer com a nossa falta de habilidade para essas coisas da costura…

Cofiando a barba de muitos dias, deixou um último conselho ao outro:

─ Se fosse a ti guardava essa dos botões para outra carta.

Afastou-se em demanda do quarteleiro, contente com as suas sugestões.

 

Laboriosamente a escrita do cabo dezanove progrediu seguindo o conselho do sargento.

A Maria ia gostar de  ler aquela carta.

 

( In “Apontamentos”  )

J. Eduardo Tendeiro

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Segunda-feira, 01.07.19

Dias um e dois de Julho de 62

Dias negros, inesquecíveis da nossa juventude truncada -- um e dois de Julho de 1962.

Lá longe, muito longe, por onde nunca tínhamos presumido que andaríamos, o sacrifício do Monteirinho, do Barriguinha, do Carvalho e do nosso tão querido David, deu-nos a medida daquele momento: era a guerra.

Guerra que não conhecíamos, que não tínhamos experienciado ainda e que não queríamos.

Descansam em paz inscritos no memorial dos combatentes da guerra do ultramar e, para sempre, na nossa memória.

J. Eduardo Tendeiro

                                   ---oo---

        "Por quem nem os sinos dobraram" 

                        A. Ribau Teixeira

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Sexta-feira, 28.06.19

SONHAR...IMAGINAR

SONHAR, IMAGINAR

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   Deliciado, via o filho correr atrás da bola.

   Equilíbrio incipiente, pernas arqueadas pelo volume da fralda, ele corria com um riso de prazer. Quando conseguia apanhar a bola apertava-a contra o peito e com gritinhos de alegria, corria para o pai e entregava-lha aguardando o recomeço da brincadeira.

   A mãe, discreta, sorria,  os olhos húmidos lutando contra a ruga de preocupação que lhe vincava a testa. Só já faltavam doze dias para ele abalar de novo! Depois seriam mais dez meses de pesadelo, de ânsias por uma carta.

   Ele sabia e evitava olhá-la concentrando-se no filho que incansável, não deixava de perseguir a bola. Animando-se a si próprio, esforçando-se por pôr convicção no pensamento ruminava que dez meses iam passar e depois seria a felicidade plena libertos da guerra que os separara poucos meses após o casamento. Teriam uma vida pela frente para se reverem na felicidade do seu amor. Teriam mais filhos, haviam de ter, pelo menos mais dois. Ela hesitava, talvez só mais um, mas com um encolher de ombros, adiava :

   ─ Depois logo vemos…

   À sua frente o bebé requeria  atenção oferecendo-lhe a bola. Num gesto de ternura puxou-o para si e abraçados tombaram sobre a manta que forrava o canto do terraço.

       ______XX_____

   ─ Dormiste mal ou isso é só sorna? – Especado à sua frente o Nicolau empurrava-o com o joelho fazendo oscilar o banco em que se deitara.

   Abriu os olhos e, consternado, retrucou:

   ─ Não estava a dormir… pensava, imaginava, revia momentos de felicidade havidos e projectava-os no futuro…

   ─ Futuro… -- cortou o outro desdenhoso – grande futuro que nos espera…

   Contrariando-o, o que sonhava felicidade, insurgiu-se:

  ─ Não basta viver a vida, particularmente quando se trata da merda de vida que temos. É preciso sonhá-la para não darmos em doidos.

   -─ Tu lá sabes… Chega para lá.

   Sentados lado a lado no tosco banco aninhado na sombra que decrescia, fumaram em silêncio.

   Por fim, o que chegara, quis saber:

   ─ O que estavas a sonhar?

   A resposta tardou, cheia de reticências:

   ─ Era mais um imaginar que sonhar…

   ─Já sei… sonhavas com o filho…

   O movimento pendular da cabeça do questionado anunciou o longo silêncio que caiu entre os dois.

   - Casado e com um filho, esta porra torna-se bem pior… Se calhar fazes bem em sonhar…

   ─ E tu não sonhas, não imaginas o futuro fora deste inferno?

   ─ Para já, só penso na emboscada desta noite. Logo à tarde vou mentalizar os rapazes, verificar equipamentos… só água e balas, nada de tabaco… mas olha, também sonho com uma coisa…

   ─ Uma” zona de morte”[i] cheia deles? – interrompeu mordaz o dos sonhos.

   Levantando-se e sacudindo os calções coçados – gesto inútil – contemplou o amigo e contrapôs:

   ─ Não, pelo contrário: uma zona de morte vazia… vazia o tempo todo ─ Insistiu

   Abalou sisudo.

 

 

[i]  Zona de morte: Espaço físico em que se concentra o maior poder de fogo numa emboscada e onde é previsível que o IN sofra o maior número de baixas.

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Domingo, 23.06.19

O ESCORPIÃO

 

 

 

O ESCORPIÃO

 

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  Naqueles dias de Pangala – lá muito ao Norte de Angola,  perto da fronteira –  o tédio adensava-se sobre os militares ali estacionados.

 Patrulhas, escoltas, emboscadas (quase sempre inconsequentes)  e serviços de apoio ao estacionamento eram uma rotina que, em vez de serem dispersivos, contribuíam para adensar aquela sensação claustrofóbica que pesava sobre eles.

   Nesse tempo tudo servia de entretém, qualquer coisa inusitada era recebida com agrado e naquele já muito distante dia, aconteceu.

   Para os lados da cozinha, numa ponta do estacionamento, gerou-se um movimento inesperado que fez convergir para ali alguns militares.

   O tenente do segundo pelotão e o sargento das transmissões cruzaram-se , arrastando-se no lodo do seu tédio, vislumbraram o alvoroço e interrogaram-se sobre o que seria aquilo.

   Especado, testa enrugada, cofiando a barba áspera de alguns dias, o sargento encolheu os ombros em sinal de ignorância e o oficial secundou-o com um trejeito de lábios.

   Intrigados ficaram-se os dois a mirar o ajuntamento de meia dúzia de militares dos quais se destacou um que, em passo apressado se aproximou.

   Intersectado pelo tenente, o militar urgiu que tinham apanhado uma  alacrária[i] das grandes, que até tinha pelo nas patas e o sargento ironizou que ele estava a fugir com medo,

    Escandalizado, o interpelado  profetizou que se fosse só ele, já a tinha esborrachado com a bota, mas os outros queriam experimentar uma coisa…

   Face à curiosidade do oficial explicou que alguns estavam a dizer que as alacrárias, quando rodeadas pelo fogo  espetam o ferrão nelas  e queriam  experimentar. Entusiasmado informou que ia à enfermaria arranjar um bocado de algodão e álcool para fazer uma cerca e depois pegar-lhe fogo…

    Ironizando de novo, o das transmissões ironizou  que a lacrária estaria muito sossegadinha à espera que lhe fizessem o cerco de fogo para se suicidar. Sorrindo com ar superior o que deixara o grupo garantiu que ela não poderia escapar porque estava dentro de uma panela grande e  com esta informação apressou-se a caminho da enfermaria.

  E o comandante do segundo pelotão latinou:”Requiem para  scorpio/scorpionis.”

   Entreolhando-se, com novo encolher de ombros, decidiram assistir ao anunciado suicídio do aracnídeo.

   No fundo de uma grande panela, o escorpião tentava trepar a parede lisa do metal e um dos espectadores com um pau, enfurecia o animal para gáudio da assistência.

   Já o que fora buscar os instrumentos de tortura – o álcool e o algodão – se encaminhava para o grupo quando o cabo cozinheiro se aproximou e descarregou a sua ira querendo saber que merda era aquela, ali nos seus domínios.

   Brandindo o cutelo da cozinha, com um pontapé virou a panela e enquanto todos fugiam , cortou o lacrau em dois.

   Encarando os algozes do aracnídeo, vociferava que ia ficar com a panela empeçonhada e que eles é que teriam de  a esfregar…

   Vendo que o grupo se dispersava, socorreu-se do tenente para não os deixar fugir e fazê-los cumprir a limpeza da panela.

   Mas o oficial, arrastando o companheiro pelo braço, mastigando um sorriso, escusou-se assegurando que não estava de serviço e que não era nada com ele. Que fosse ao oficial de dia

   O que tinha ido buscar o álcool e o algodão, sorrateiro, arrepiou caminho de regresso à enfermaria.

FIM 

 

 

 

[i] Alacrária – Expressão popular para designar o lacrau ou escorpião.

 Lacrária  -  O mesmo que lacrau ou escorpião. Registado no dicionário electrónico de Cândido de Figueiredo

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Quinta-feira, 15.11.18

...

     "Cinquenta e seis anos passaram.

Mas a memória do dr. Luciano -- médico da CCE306, a nossa companhia -- reteve a angústia daqueles dias e partilha-a agora connosco.

   Obrigado , doutor Luciano"

(J. Eduardo Tendeiro) 

 

Ser médico, por vezes, implica ser corajoso e imaginativo

 

                                                   “Com facas e garfos também se opera”

                                                     Palestra do Prof. Cid dos Santos na Sociedade de Ciências médica de lisboa

                                                                                                                     

                No decurso das Guerras Coloniais- Angola 1962                                                          

                                                                       

Eram 17h numa tarde quente no norte de Angola, terra deserta de homens e ocupada por homens armados que, distraidamente jogavam ao voleibol para ginasticarem o corpo e distrair as ideias dum pensamento sempre atento ao perigo.

Estávamos em guerra e não sabíamos o que era a guerra.

 Coisa de filmes, exaltação patriótica fácil de cumprir sem pena e sem remorso ou vida dura para jovens lutando uns contra os outros?

Não interessava, era assim, e uma geração generosa foi fazer a guerra ali no norte de Angola sem conhecer as suas gentes, o terreno e quem o habitava. Não se sabia o que se estava a defender.

Eram 17horas, no aquartelamento, jogava-se o voleibol e, entre vários boladas, gargalhadas ou irritações passageiras ouviu-se um estrondo ao longe e todos pararam.

Um pelotão da companhia tinha ido reabastecer-se á cidade de S. Salvador do Congo situada a 80 k de Pangala lugar onde estacionámos e onde não havia alma, habitação ou qualquer vestígio de ocupação recente. Como se dizia:” estávamos em pleno mato”.

Todos pensaram:

Começou a guerra? Estamos a ganhar ou estamos a perder?

Seriam algumas bombas duma aviação insipiente que, de vez enquando nos sobrevoava ao fim do dia, para assustar quem não existia e a mostrar que estava ativa?

Não foi preciso esperar muito para saber o que era:

 Um Jeep acelerava e apitava repetidamente com soldados em fuga trazendo com eles pedaços de outros soldados esfacelados, queimados ou ainda a arder; três estavam já mortos e um Sargento, ainda vivo, estava a necessitar de cuidados altamente diferenciados que não podia receber ali por não haver nem meios nem médico treinado e competente para os praticar (isto não é critica ao médico porque o médico era eu, vinte e sete anos e formado há 2 meses, como tal, nada ou pouco saberia fazer),mas fez o pouco que sabia e o que julgou poder fazer.

Noutro Jeep apitando intermitentemente vinha o Tenente, que pensei estar morto, mas era só um desmaio de ocasião, tendo deixado na estrada, a alguns quilómetros fora do aquartelamento, todo o material de guerra nessa estrada de terra batida e agora com grande cratera provocada pela explosão duma mina anticarro e manchada com o sangue desta juventude generosa que, percebendo o que era uma guerra, rapidamente se tornou violenta com o desejo de desforra imediata.

A Guerra tinha começado.

Para mim comecei a imaginar o que poderia fazer, perante o que estava a ver, tendo apenas um jeep destinado aos serviços de saúde, um enfermeiro treinado para isso, sem o ser e um cabo para tratar as bolhas dos pés e distribuir comprimidas contra a malária e vitaminas recomendadas por Luanda.

No meio disto tudo, o capitão furioso dava ordens para irem ao local buscar todo o material abandonado, já que ele, Comandante não podia ir para manter a segurança deste aquartelamento ameaçado. Insultava de “cobardes” aquela boa gente, de Portugal, porque tinham abandonado material de guerra sujeito a cair nas mãos dos “Turras”.

Eu olhava para o amigo e sempre corajoso sargento David com respiração estridulosa e dificultada pela saída de espuma sanguinolenta e arejada, pela boca, sinal de edema agudo do pulmão com provável rotura na árvore pulmonar ou pneumotórax sob tensão.

Pensava nos bancos de urgência no Hospital de S.José bem como o que os mais velhos e graduados nos ensinavam a fazer, sempre acompanhados por graduados e cirurgiões de banco, altamente competentes.

 Ali, no Norte de Angola estava: Eu e o Jeep com 6 caixas de roupa limpa não esterilizada, pensos, luvas, medicamentos diversos um frascos com água oxigenada, outros de álcool e mercurocromo também frascos de Periston soro expansor 500 ml etc.

Num pequeno estojo havia peças dispersas para pequena cirurgia talvez para feridas superficiais, bolhas nos pés ou unhas encravadas.

 Uma tragédia e uma grande aflição!

Longe de Luanda, talvez a mil quilómetros, era um fim de tarde a escurecer havia ligação rádio, ao Quartel – General em Luanda só possível, duas vezes ao dia.

 A próxima ligação seria, com foi, às 18 horas.

Ruídos sonoros intermitentes com palavras de código indecifráveis e misturadas com longos silêncios estando o sargento responsável das comunicações atento a tudo que ouvia. De tudo o que se pedia, concluiu: Avião só pelas seis da manhã com pista de aterragem possível em Buela a 40 quilómetros a norte junto á fronteira com o Congo.

Era aí, onde rio vira a norte, já dentro de território congolês, que uma pequena pista poderia permitir aterragem ao avião de socorro.

O Sargento David afogava-se em secreções e não dispondo eu dum aspirado pensei: Tenho um tubo de borracha que serve de garrote para dar injeções nas veias, tenho molhos de compressas limpas porque esterilizadas era impossível sendo assim decidi: Com um bisturi consegui fazer uma traqueostomia, como aprendi no Banco do Hospital de S.José, apliquei a cânula de traqueostomia com as duas peças que se encaixavam que, depois de penetradas na traqueia, seriam seguras com um nastro que as atava ao pescoço para que ficassem bem ajustadas.

Foi assim que o David foi aliviado das secreções em que se estava a afogar e, a ser assim, esperei pelo que se seguiria e, ao reiniciar nova fase de secreções abundantes, comecei a aspirar as secreções, com a minha boca filtrada por compressa e através do garrote introduzido na traqueostomia, as secreções eram espessas e sanguinolentas limpando a boca com as compressas e cuspindo para o chão. Assim foi possível, aliviar durante algumas horas, as secreções que iam afogando este nobre soldado a lutar contra a morte que se adivinhava.

Durante horas isto foi-se repetindo toda a noite e só de manhã um avião, um pequeno Dornier, sobrevoa o acampamento comunicando, via rádio, para transportarem o ferido para a pista de Buela 40 quilómetros a norte.

O David tinha morrido às seis da manhã e, de raiva, insultei o piloto aviador

Foi dos momentos mais trágicos que vivi e hoje quando oiço queixas de banalidades fico pasmados com a intolerância e a insensibilidade para o que deve ser importante nas nossas vidas e penso na aventura de Portugal em África com tanta gente generosa a servi-la.

No dia seguinte era o desespero.

 Estávamos isolados a pensar que, se algo de semelhante acontecesse, o cenário seria igual.

 Abriram-se valas de proteção de sentinelas em todo o perímetro do aquartelamento e, num terreno longo e plano, toda a gente de enxada na mão desbastava mato e abria caminho a uma pista que permitisse um pequeno Dornier aterrar em situação de emergência,

Não demorou uma semana e a pista estava pronta.

No dia seguinte uma coluna militar, já com atenção às minas possíveis na estrada, avançou com os corpos destes jovens para o cemitério de Salvador do Congo onde, em talhão militar, foram enterrados os primeiros soldados mortos em combate naquela zona do norte de Angola. Perturbante inauguração com quatro corpos de gente tão jovem que embarcou a sonhar com a paz.

Em visita ao monumento dos mortos das guerras, ditas do Ultramar, li os nomes destes muito bons camaradas com quem privei numa generosidade sem fim, por vezes, incompreendida e nada recompensada por esquecida.

Quem ganha a guerra faz a história mas esta foi assim e por mim vivida.

 

Setúbal 11 novembro 2018

Luis machado Luciano

 

 

 

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Segunda-feira, 02.07.18

A MEDALHA DE COBRE

 

    Já lá vão muitos anos, quase meio século que deixei para trás a “guerra de Angola”.

   Deixar para trás é uma força de expressão porque, tantos anos depois, uma palavra, um acontecimento, o encontro com um antigo companheiro de aqueles tempos e ela aí está! Episódios que supúnhamos esquecidos saltam para a ribalta, atordoam-nos, fazem-nos ranger o dentes e com desalento, vem a pergunta: para quê, para que morreram tantos jovens cuja única culpa foi terem vinte anos naquela amargurada época.

   Mas, pessoalmente, não me posso queixar muito: regressei sem mazelas físicas ─ alguns a meu lado e para meu horror tombaram vitimados por balas, minas ou circunstâncias adversas ─ a família recebeu-me carinhosamente e a minha Mulher , pacientemente, ajuda-me a superar danos colaterais entranhados no mais fundo de mim mesmo.

   Seis meses depois de vaguear em busca de emprego ─ tinha mulher e um filho para ajudar a sustentar ─ encontrei trabalho numa seguradora. Não sabia nada de seguros além de ter de pagar anualmente a maquia que me cobravam pelo carro em segunda mão  que alegrava os nossos fins de semana e me levava para o escritório nos dias de temporal. Contudo, adaptei-me bem e hoje, com “trinte e tantos anos de casa” chefio a agência que me deu abrigo quando voltei da guerra sofrida em Angola. Até tive tempo de, na Universidade ali ao lado, fazer um curso de economia.

   De os amigos de aqueles tempos, companheiros de armas como por vezes nos apelidávamos, só o Mota vive aqui nesta cidade à beira-mar plantada. Vemo-nos com frequência, lanchamos por aí e, de vez em quando, aparece na Agência da Companhia a clamar que o arruíno com o preço dos seguros.

 

   O episódio que vos vou narrar tem início precisamente com uma visita sua, de recibo na mão clamando “Mas tu pensas que sou rico para pagar esta fortuna”?

   Acalmei-o com a oferta de um calendário de bolso e a promessa de que num fim de semana a combinar juntaríamos as famílias para um jantar a expensas da Companhia (A expensas minhas evidentemente).

   Sentado à minha frente, já para lá da hora de expediente, com aquele sorriso irritante que o comandante do pelotão  tanto detestava, acalmado com a promessa do jantar e com o pequeno calendário aconchegado na volumosa carteira de negociante de gado, recostou-se conferindo pela enésima vez os “luxos” do meu gabinete e da minha vasta secretária: computador topo de gama, impressora “industrial” no seu dizer, cadeira anatómica, aquecimento para os pés quando se justificava, um “enorme “ armário arquivador, ar condicionado todo o ano, enfim, o necessário para bem exercer a profissão que o Matos  considerava luxo pago por ele e tantos outros clientes impiedosamente “ esfolados”  por mim em nome de uma multinacional.

   Enquanto carimbava o seu recibo e resguardava o respectivo cheque na gaveta da direita, o Matos endireitou-se, debruçou-se sobre a mesa que nos separava e apoderou-se de uma medalha de cobre que jazia num pequeno tabuleiro de mistura com alguns clips e um arranca-agrafos.

   ─ Que é isto? È tua? Não me lembro de teres sido agraciado com medalha! Tiveste, tivemos um louvorzito e ficámos aviados!...

   E aqui começa verdadeiramente a história de hoje.

   ─ Isso é uma medalha de bons e relevantes serviços prestados em campanha e é certo que não é minha ─ fiquei a olhar para o meu amigo Matos, sargento duma secção de armas pesadas  naqueles longínquos tempos e acrescentei ─ e não sei de quem é…

   Dona Maria Júlia a mais recente secretária do meu escritório interrompeu-me com uma questão a resolver para o correio do dia e afastando-se foi seguida pelo olhar apreciador do Matos que, satisfeito, transferiu para mim aquele sorriso irritante.

   ─ Nem te atrevas! ─ Travado pela minha ameaça, com um encolher de ombros, convidou:

   ─ Conta lá o resto da história da medalha.

   Retomei a narrativa:

   ─ Há dias, aquele rádio de campanha, o” Hitachi, made in Japan”, lembras-te?  que eu considerava eterno, avariou para meu desgosto. Na oficina, o senhor Abel, experiente de uma vida nestas coisas de receptores e televisores, foi abanando a cabeça. Instado por mim, refletindo, deu-me uma hipótese:

   ─ O mercado já não tem disto, mas se encontrar um rádio igual, talvez eu consiga alguma coisa.

    Porém, onde é que eu encontraria um rádio portátil com quase  cinquenta anos?

   Abanando a cabeça e arreganhando os lábios, sugeriu:

   ─ Só se for no “Prego”. Talvez encontre por lá um aparelho destes, mesmo avariado…

   Ignorando o sorriso de esguelha do Matos, prossegui o relato.

   ─ E este teu amigo lá foi caminho do “Prego “com o pequeno rádio escondido  numa pasta.

   ─ Mas o que é que o rádio tem a ver com a medalha? Evidentemente  o rádio foi para o lixo─ Agastado, o meu amigo revirava a medalha na concha da mão. Indiferente à interrupção prossegui:

   ─ Como acabaste de dizer não tive sorte, mas passeando o olhar por aquele bricabraque que é a loja do Prego, vi um camuflado pendurado numa cruzeta. Curioso, quis saber a proveniência daquele trajo ali tão deslocado. O dono do prego, já não me lembro do nome dele, contou-me que um dia lhe entrou pela porta adentro um jovem com um embrulho debaixo do braço, o camuflado. Queria livrar-se daquilo e acrescentou ao fato uma faca de mato e aquela medalha. Perante a insistência do rapaz o dono do prego lá lhe deu qualquer coisa por todo o espólio. Face à minha curiosidade de saber o que iria fazer com o camuflado , explicou:

   ─ Isso… tenho que esperar pelo carnaval. Nessa época aparece por aqui muita gente em busca de fatos antigos e adereços. De certeza que vendo ou alugo aquele fato da guerra e, olhe, até lhe dou a medalha como bónus.

   ─ Senti uma revolta tão grande, o camuflado e a medalha, principalmente a medalha achincalhados numa  comédia de carnaval que, num impulso, me propus comprar a medalha tanto mais que ele não tinha ficado com a identificação ou sequer o endereço do jovem vendedor.

   ─ Não se quis identificar nem receber o talão que passo a quem vem empenhar alguma coisa, para o caso de querer reaver o que aqui deixam. Saiu porta fora garantindo que nunca mais queria ver aquilo.

   O Matos entregando-me a medalha  por sobre a mesa  quis saber:

   ─ E agora o que vais fazer com isso?

   ─ Sei lá… Isto é uma medalha de cobre atribuída a sargentos ou praças que se distinguiram em situações de combate ou praticaram feitos relevantes…

   ─ Como nós…─ Casquinou o Matos recuperando aquele sorriso que todos detestavam e sugeriu ─ põe isso na lapela…

    Contrapus:

   ─ Eras capaz? ─ Reforçando o desafio, acrescentei  ─ Eu dou-ta.

   Sério, resguardando o sorriso, retrucou pausado:

   ─ Claro que não, nem tu… mas olha: o que teria levado aquele rapaz, ex-combatente pela certa, a desfazer-se daquele espólio, particularmente a medalha. Necessidade material?

   ─ Pelo pouco que terá recebido não me parece…  Talvez a necessidade de esquecer algum facto doloroso que aquele espólio avivava…

   ─ Talvez…

   E por ali nos ficámos lutando com o incómodo das nossas próprias recordações da guerra já tão distante no tempo, mas sempre tão presente.

FIM    (JAN18)

 

 

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DESABAFO

Desabafo pungente este que encontrei hoje:

 

   "Afinal, os que me ensinaram a arte de bem matar, foram os mesmos profissionais que, mais tarde, nos disseram que não tínhamos razão"

   A. RIBAU T.

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Domingo, 01.07.18

MEMÓRIAS QUE NÃO SE APAGAM

CINQUENTA E SEIS ANOS VOLVIDOS, EVOCAMOS A TARDE TRÁGICA DE UM DE JULHO DE 1962 E A MADRUGADA DO DIA SEGUINTE.

Uma mina anticarro destrói um jeep e causa as primeiras baixas dando-nos a dimensão real da situação de guerra em que nos encontrávamos e ainda se não tinha manifestado.

Os anos passaram mas os nomes daqueles nossos camaradas de armas e amigos permanecem vivos.

CARVALHO, BARRIGUINHA, MONTEIRINHO,falecidos no dia um

O DAVID sobreviveu até à madrugada do dia seguinte.

Sacrificados por uma causa duvidosa, sobrevivem na nossa memória e na das suas famílias.

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Sexta-feira, 15.06.18

RUI MALHA

“PERDER UM AMIGO É FICAR MAIS POBRE”

 

   Nos primeiros dias deste mês de Junho ficámos mais pobres.

   Perdemos o RUI MALHA.

   A amizade forjada nas angústias, incertezas e perigos dos longínquos anos de 1962/64, em Angola, faz-nos chorar a perda deste Amigo.

   Está na Casa do Pai mas sentimos a sua falta.

   Adeus Malha. Estamos mais pobres mas aquele teu sorriso permanece connosco.

DESCANSA EM PAZ

publicado por gatobranco às 16:46 | link do post | comentar

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