Pesadelo

 

 

 

 

Aos que, ainda hoje, sentem aquela guerra, lá tão longe, tão perto de si.
 J. Eduardo Tendeiro
 
 
Pesadelo
 
 
 

O reconhecimento aéreo teimava que existia uma picada escondida no capim alto, com início ( ou fim) na estrada para S .Salvador.
Já dois pelotões tinham feito o reconhecimento, mas de picada, nada. Mas, quando uma noite, um dos sentinelas do lado sul, empoleirado no seu posto de vigia, viu “uma luz” em movimento, longe, já na estrada de S. Salvador - Cuimba, a informação do reconhecimento aéreo tomou nova credibilidade e, no dia seguinte, o terceiro pelotão,  que ainda não se tinha dedicado à procura de dita picada, meteu mãos à obra. Fazia parte da missão a detecção da picada, o seu reconhecimento e, ainda, a análise do terreno para uma eventual emboscada nocturna.
Saíram cedo. O alferes queria “todo o tempo do mundo para encontra a merda da picada que já cheirava mal”.
 
Perto das onze, um coro de assobios com várias modulações irrompeu dos altifalantes do posto de rádio da Companhia e o telefonista do pelotão em missão atroou os ares com o seu chamamento: “ Casa, casa, rato chama!” – código estúpido estabelecido para aquela missão – repetiu-o desnecessariamente várias vezes e só então deu azo a que o telefonista da base respondesse um lacónico “Aqui casa, escuto”.
A voz do alferes, perpassada por alguma euforia mandou avisar Charlie Mike – o Comandante da Companhia – de que o objectivo estava localizado e ia dar continuidade à operação.
Charlie Mike estendeu por bem não comentar e os alferes dos outros pelotões, os que tinham falhado nas pesquisas anteriores, fizeram sorrisos amarelos – questão de sorte, todos sabemos que é assim.
 
No terreno, a famosa picada não era mais que um ténue carreiro, por vezes um túnel, serpenteando por entre o canavial de capim alto e de caules grossos. Não passava mais que um homem de cada vez e parecia haver o cuidado de não o alargar. Efectivamente, só o reconhecimento aéreo o poderia ter detectado. Em fila indiana, gerida por secção, o pelotão iniciou a sua exploração com muito cuidado.
Alguém sussurrou: “Se os gajos nos estão a ver, basta-lhes um fósforo para ficarmos aqui assados que nem porcos…”
“Fecha a boca e aperta o cu para não te cagares de medo” – foi a réplica que outro lhe endereçou.
“Cheira aqui mal… o gajo já se borrou!”
O cenho franzido do furriel com um dedo sobre a boca, impôs silêncio.
Uma hora depois, com uma mata à vista para a qual parecia que o carreiro se encaminhava, atingiram uma pequena clareira. No chão terroso, havia vestígios de gente calçada e descalça. Um tronco derrubado parecia ter servido de assento. Mais ao lado, uma pedra grande dava algum abrigo do sol impiedoso.
“É aqui que os gajos descansam”
“Ou se juntam!”...
“Também pode ser”…
Da confabulação do alferes com os chefes de secção, acordou-se que iriam avançar um pouco mais, mas a entrada na mata foi vetada por unanimidade.
Tratava-se de encontrar referências no terreno para futura missão e, como tal, aproximaram-se cuidadosos da mata, tentando encontrar um curso de água ou qualquer outra referência evidente para a continuidade da operação, talvez com mais efectivos.
O “Reguila”, um cabo que carregava a bazuca, murmurou entre dentes “ Pois claro, eles vão ficar à nossa espera”.
Mas não esperaram. A primeira rajada estrondeou por entre o capim, nas suas costas, muito baixa, sem atingir ninguém. A resposta não se fez esperar mas teve o condão de desencadear fogo do lado da mata.
Entalados entre dois fogos, as secções manobraram em acções de recuo em direcção ao terreno rochoso, em busca de abrigo. Por entre os tiros de armas de repetição, ouvia-se com frequência alguma rajada dando a entender que o atacante tinha armas automáticas.
O fogo do lado da mata, a mais de cem metros, era pouco significativo e as secções, atingido o terreno rochoso, abrigaram-se e começaram a responder sistematicamente. As G3 abriam estradas no capim e foi possível ver movimentos que denunciavam o atacante que se aproximava.
O alferes conferenciou com um furriel e, por sinais, uma secção foi deslocada em arco, numa manobra de envolvimento.
Mas o Sabugo, correndo em campo aberto, trambolhou e gritou de dor agarrado a uma perna. No sítio onde ficara ia ser peça para tiro ao alvo.
Foi então que o furriel Jota berrou “Cubram-me” e logo que a fuzilaria começou, saltou do abrigo e, em ziguezagues de louco se aproximou do ferido, o carregou ao ombro e regressou com ele a salvo.
 
“Porra, pá! Vai berrar para outro lado! Eu quero dormir! Vê se te acalmas!”
Jota, enrolado na cama desfeita, encandeado com a luz, olhava o companheiro de quarto de olhos dilatados, com dificuldade em se situar.
Mais conformado, o que antes se irritara, com uma ponta de compreensão na voz, retomou:
“Estás encharcado em transpiração! Vai tomar um banho, engole aí um Valium e vê se descansas.” – Preocupado, quis confirmar – “ É aquela emboscada, não é?”
Nu e trémulo, Jota, a caminho da casa de banho, aquiesceu com a cabeça.
Estendendo o braço e aplicando uma palmada de amizade na omoplata do amigo, lembrou-lhe:
“Salvaste a vida ao Sabugo, foste um herói…”
Sem reagir, fechou de mansinho a porta da casa de banho e abriu o chuveiro. A água arrastou consigo o sabor amargo das lágrimas.
 
(Relato ficcionado)      “Memórias 62/64”
 
publicado por gatobranco às 15:14 | link do post