Sexta-feira, 18.09.09

Nesse dia fomos fazer patrulha apeada

 

 

Nesse dia fomos fazer patrulha apeada para as bandas de Cuimba. Tudo calmo. Só era necessária mais cautela à passagem pelas sanzalas abandonadas. Havia uma coluna de reabastecimento vinda de São Salvador, e, dado haver indícios de que “eles” estavam a passar por uma picada mais ao sul – aquela onde descobrimos a escola debaixo de uma árvore, lembram-se? – Fomos para aquele lado. Havia um pelotão de Cuimba, que viria ao nosso encontro. Não fossem “eles” aproveitar para nos deixarem alguma má recordação.

Tudo corria normal, e finalmente avistámos o outro pelotão, com os homens sentados na berma da estrada, à nossa espera a descansar, o quico (boné ligeiro) poisado sobre o joelho, estava num alto, como convinha. Era visto, mas também via mais ao longe

 

Era malta conhecida mas com quem pouco conversámos, dadas as distâncias entre nós. E vieram as novidades: - O meu furriel sabe quem é aquele ali? E o soldado apontou na direcção de um outro muito velho para a média das nossas idades. Ele devia ter para aí 28, 30 anos! Não, quem é? Perguntei!

Não sabe? É o nosso “maçarico”, diz rindo o outro. Maçarico com aquela idade, retorqui eu. Então o soldado contou-me a história daquele homem. Era refractário, andou fugido à tropa, mas foi apanhado, diz o outro rindo. Foi fazer a recruta, e por cima teve ainda um prémio! Um prémio disse eu sem perceber onde ele queria chegar! Pois, um prémio. Então não é um prémio chegar a Angola e ser logo enviado para a fronteira norte, para o nosso Batalhão, para o “Rebenta”, como já é conhecido em Luanda? E ria a bandeiras despregadas, como se o que acabava de dizer lhe desse um grande gozo. Fiquem sem saber o que dizer!

Entretanto chega-se a nós o comandante do pelotão do Cuimba e repreende o soldado que com tanto gozo me havia contado a história do outro, que continuava de cabisbaixo e com um olhar ausente.

Era um rapaz novo, o Alferes. Tinha sido guarda-redes da Académica de Coimbra, e tinha facilidade de expressão. É o que recordo dele, e que foi ferido por uma mina anti-carro, tendo sido evacuado para Luanda.

-Agora, à falta de melhor, gozam com este desgraçado, diz-me!

Falámos, um pouco sobre outros assuntos que não a guerra, e entretanto chegou a coluna de reabastecimento, que deu boleia ao pelotão de Cuimba. Nós regressámos a pé ao nosso acampamento.

 

Chegados ao acampamento, é sempre a mesma coisa. Subir aos bidões a ver se havia água, para se poder tomar uma banhoca. Havia, mas pouca. Combinámos entre nós que seria só uma regadela. Não podia haver ensaboadela, se não só um podia tomar banho, e nós éramos três. Assim fizemos.

O primeiro a tomar banho põe-se aos berros: - Maldita água, que está quente de mais.

O dia fora quente, a água era pouca e aqueceu muito. A superfície dos bidões era a mesma, e a água pouca, e o resultado estava à vista! Filosofei eu. 

Melhor assim! A água chegou à vontade para o banho, lavámo-nos, mas o prazer de um banho fresco, foi-se!

 

Nesta terra é assim. Se queres tomar um banho fresco, tens que esperar que chova, ou então levantas-te cedo, antes do sol nascer! Mas cuidado sê rápido, se não terás de ouvir os teus colegas, quando ao levantarem-se não tiverem água para lavar ao menos a cara! Fazer a barba será quando calhar, e se calhar.

 

 A.Ribau Teixeira  (Memórias de um ex-combatente)

 

publicado por gatobranco às 21:42 | link do post | comentar

O PV2

                                             O PV2

 

 

Lá continuámos com a mesma vida. Só que perante tanta adversidade, o número de emboscadas tanto diurnas como nocturnas, os patrulhamentos apeados, toda a espécie de operações, aumentou, chegámos a uma altura em que não havia dia de descanso!

Havia tipo de operações que não estavam na “cartilha”. Recordo uma do nosso pelotão:

- Estávamos perto do rio Luvo a descansar, quando para o lado do rio pareceu-nos ouvir vozes! Ordem do Alferes; duas secções emboscam-se aqui -eu também fico – a outra secção volta para traz, vai pelo estrada de São Salvador até ao rio, segue o curso do rio para o sul. Quando estiverem no rio,  podem fazer barulho, tornar-se notados a ver se “eles” vem ao nosso encontro, que nós aqui damos-lhes as boas vindas!

 

A minha secção foi a que foi fazer uma espécie de cerco (recordei-me de quando era pequeno ter feito dessas coisas para “assombrar” os pintassilgos para a palma)

O rio era baixo nalguns sítios e tinha árvores e ramos caídos, que facilitavam o seu atravessamento. O resto era mata densa. Conversávamos uns com os outros; até me dei ao luxo de fumar um cigarro. “Eles” conheciam o cheiro do tabaco dos tropa, e nesta altura convinha. No rio a temperatura era amena. Entretanto ouve-se ao longe o ruído de um avião. Eh pá! Eu conheço aquele ruído. É um PV2. Eu conhecia bem aqueles aviões, que para aterrarem em São Jacinto, passavam por cima da minha casa. Devia andar em patrulha. Vinha da zona da fronteira, e seguia o curso do rio rumo ao sul.

Tive receio que nos confundisse com terroristas e ficámos parados. Disse ao homem do rádio que chamasse o avião, que podia dar-nos notícias, lá de cima, sobre o IN.

O homem começou tentando o contacto:

 - Atenção galo aqui cobra, diga se me ouve, escuto… silêncio total. O pedido foi repetido várias vezes e nada. Deixa isso. Ele já vai longe, disse eu. O homem exaltou-se e berrou:

- Filhos da… (e disse uma palavra que só se chama à mãe dos outros). Se calhar vão a ouvir música com os auscultadores nos ouvidos e por isso não nos ouvem a nós.

O homem estava irritadíssimo. Tentei acalmá-lo:

- Vês qual é a diferença entre um aviador e um militar de infantaria? Ele vê a mata de cima, nós vemo-la de baixo!

- Não tem graça nenhuma foi a resposta.

Nisto um bando de pássaros, pareciam aves do paraíso, deu por nós e levantou voo, num grande alarido.

Bem, faziam-se horas do regresso. Fizemos o caminho ao contrário, e quando chegámos ao ponto de encontro, apareceram as outras duas secções.

-  Então?

-  Não vimos nada foi a resposta recíproca.

 

Entretanto chegam as viaturas e regressámos ao acampamento.

 

Passa o tempo e nós nesta pasmaceira. Vem aí o Natal, mas ainda falta tanto tempo! Falta sempre mais tempo do que o tempo passado. O tempo que falta, leva muito tempo a passar. O tempo passado, passou. Dele só ficou a memória dos nossos actos, e a dos nossos inimigos sobre nós.

 

Por ser uma zona muito próximo da fronteira, por aqui não existe ninguém. Não há com quem conversar, a não ser com os nossos companheiros. Mas essas conversas são sempre as mesmas. Já cheiram mal!

Porque fugiriam os nativos? Porque fugiriam os brancos? O da casa que nós ocupámos e o da linda casa que nós vandalizámos? Teriam fugido, ou teriam sido apanhados pela raiva cega, vinda do Congo Léopoldville? Existia mais a norte do nosso acampamento, uma grande sanzala, com trinta e duas cubatas, completamente abandonadas, e indícios de ter sido abandonada há muito tempo. Chamava-se Pangala. Tomaram esse nome para o nosso acampamento. (...)

A.Ribau Teixeira  ( Memórias de um ex-combatemte)

publicado por gatobranco às 21:36 | link do post | comentar | ver comentários (1)

O CAPELÃO OPERACIONAL

                                                   O Capelão Operacional

 

 

Um dia – há sempre um dia – o nosso pelotão estava operacional. A operação era o patrulhamento, de dia, da nossa zona. O Capelão do Batalhão que estava de visita pastoral à nossa companhia, resolveu ir connosco. – Padre, disse-lhe eu, veja onde vai,

 

e onde nos pode ir meter. É a primeira vez que vamos para aquele sítio e não sabemos o que vamos encontrar! Não há-de haver problema disse-nos ele, na sua fé.

E lá fomos: Descemos das viaturas e embrenhámo-nos no mato que naquela zona era de capim alto, mais alto que um homem.

Era difícil avançar, mas com muito esforço lá íamos andando. Suávamos. Os fatos de combate já começavam a escurecer com o suor que nos corria pelas costas. Era dia de sol o que nos obrigava a maior esforço. Chegados a uma pequena clareira, à borda da mata, houve ordem para descansar, montou-se segurança, e sentámo-nos. Então acerquei-me do Padre Miguel e perguntei baixinho: - Então que tal? É difícil, respondeu-me, mas via-se andando. Homem de fé, pensei eu. - Ouça uma coisa Padre Miguel, se agora aparecessem os turras o que faria o senhor? – Nada disse-me ele, o problema era com vocês. – Está bem, ripostei eu. Mas, aparecia-lhe um turra pela frente … bem, diz o Padre não poderia deixar-me matar, tinha que me defender! – O padre Miguel tinha levado uma G3, mas ainda hoje duvido que soubesse utiliza-la. Era mais acção psicológica pessoal. Assim, o inimigo pensaria que era um simples soldado.

 Tinha chovido. O pó do capim pegava-se aos fatos de combate conspurcando-os! As botas de lona com aquela terra barrenta a pegar – se ás solas aumentavam de altura e dificultavam o caminhar. Ali não havia postos que nos distinguissem, nem convinha. Quantas vezes meti os óculos no bolso para ser como os outros soldados.

 

Continuámos a caminhada entrando na mata que parecia não ser muito extensa.

 Passado um bom bocado notamos vestígios de passagem de pessoal, embora não muito recentes. Redobramos de atenção não fosse o diabo tecê-las… mesmo com um padre junto de nós.

Mais adiante encontrámos uma sanzala pequena – meia dúzia de cubatas - . Duas secções fizeram o cerco e a terceira avançou cautelosamente para a sanzala. Nada, nem ninguém. A sanzala devia, pelos indícios encontrados, ter sido abandonada há muito tempo, o que não impediu um soldado – o “Sarreiro” – de encontrar uma máquina de costura, das utilizadas pelos nativos – marca Singer. São máquinas que tem só a cabeça, e na roda da cabeça uma manivela que era movimentada à mão pelo alfaiate.

O Sarreiro trouxe essa máquina ao ombro. E ela era pesada. 

 

 

Continuámos a caminhada. Nada de novo. Mais adiante vimos uma espécie de um lago. Atravessando-o, cortávamos caminho para o local de encontro com as viaturas que nos viriam buscar Observámos a profundidade. Era baixo, era uma lagoa, óptima para lavar as botas, que assim ficariam com uns quilitos a menos, mas…

Ao atravessar a lagoa sentimos o chão a faltar-nos debaixo dos pés – eram areias movediças – gritei para os homens se afastarem uns dos outros e que não deixassem de caminhar para a frente As areias eram balofas e cada vez nos enterrávamos mais. Disse aos homens que a única solução era rastejar naquela água baixa mas perigosa, o que fizemos, tendo conseguido chegar à margem sem mais problemas. Sentámo-nos na margem, quando se ouve uma voz. – Meu furriel acuda-me que não consigo sair daqui! Olho para trás e vejo o Sarreiro aflito, a arma numa das mãos e a máquina de costura na outra. Oh desgraçado, deixa a puta da máquina de costura, senão ainda morres afogado.

 

Qual quê. Tivemos de dar as mãos uns aos outros até chegar ao Sarreiro e assim conseguimos tirá-los da situação aflitiva em que se encontravam, ele, a espingarda e a máquina de costura.

 

Não sei que amor à primeira vista foi aquele pela máquina de costura. Se ele fosse alfaiate ainda serviria para matar saudade de profissão no “Puto”, mas a alcunha de “Sarreiro” veio-lhe da profissão ocasional de limpar as cubas do vinho, raspando a côdea deixada pelo vinho aí armazenado, a que chamavam “sairro”, que depois era vendida. Nunca cheguei a saber para que fim. E de sairreiro, como era difícil de pronunciar, passámos a chamar – lhe simplesmente Sarreiro.

 

E assim ficou conhecido até que um dia no Batalhão de Caçadores 5 em Lisboa – o

Batalhão de Caçadores Especiais 357 formou pela última vez para a despedida. Nunca mais o vi.

 

Aí, o comandante fez a chamada daqueles que a ela não podiam responder… o corpo tinha ficado em Angola, por quem haviam dado a vida; o espírito porventura estaria junto de nós, pairando por cima das nossas cabeças…num último adeus

.

Houve o toque de silêncio, um silêncio que nos apertava a garganta, uma homenagem aos ausentes…

 

Depois, o toque a destroçar. Foi como se nos tivessem soltado de uma prisão. Despedidas deste e daquele, um adeus até à vista, até sempre, e cada um vai para seu lado.

 

À espera de transporte para casa, comecei a sentir um grande desconforto. Durante mais de dois anos, embora muitas vezes nas situações mais adversas, nunca me senti tão sozinho, como agora me sentia sozinho no meio daquela multidão que passava apressada.

 

                                                                   *

 

 

No silêncio daquela primeira noite passada junto da família, o corpo estava cá, mas o espírito voava sempre para sul, as recordações não me deixavam descansar, e não eram recordações dos locais onde estivemos e onde não havia barafunda, onde não se ouvia o “Tango dos Barbudos”, era para o norte de Luanda; - Cuimba, São Salvador do Congo, Pangala! Tentei como tentava em Angola, esquecer os momentos maus passados. Lá conseguia-o, porque no dia seguinte teríamos outros momentos provavelmente piores. Aqui era pior esquecer, porque o dia de amanhã será um bom dia!

 

 

                                                                    *

 

 

Pedi na empresa onde me tinha sido guardado o “lugar” para começar imediatamente a trabalhar.

                                                             

O gerente chamou-me e disse-me para eu ir gozar um mês de férias. Expliquei-lhe o motivo porque queria começar imediatamente a trabalhar: – esquecer –. Pelo menos enquanto trabalhava, a cabeça tinha de estar no trabalho e não se distrair com o passado. Compreendeu. Eu agradeci-lhe.

                                                           

 A. Ribau Teixeira     (in Memórias de um ex-combatente )

 

 

 

 

 

 

 

publicado por gatobranco às 21:21 | link do post | comentar

TRAGÉDIA EM CABO LEDO

Em Cabo Ledo, exploração petrolífera da Petrangol orientada por Ingleses que se bastavam a si próprios, a CCE 306 alojada a cerca de quinhentos metros do corpo principal daquelas instalações, tinha muito pouco que fazer. A segurança era fácil, não havia qualquer ameaça, a zona em muitos hectares em redor era pacífica e as notícias da guerra chegavam esporádicas, trazidas por quem ia a Luanda, ou por indiscrições do pessoal das transmissões.

Depressa o tédio se instalou entre os militares que, libertos da tensão que os assoberbara na ZIN e mesmo em Luanda, no serviço de prontidão, vegetavam pelo acampamento. As partidas de futebol, inicialmente muito concorridas depressa saturaram e, muitos, invejavam os do terceiro pelotão que, dizia-se, na Muxima, para onde tinham sido destacados, tinham uma vida activa, contactavam com a população e faziam caçadas “de sobrevivência.”

Em Cabo Ledo, as acções mais disputadas eram aquelas que patrulhavam em direcção ao Sul, na maior parte das vezes pela beira-mar, aproveitando a maré baixa para que as viaturas pudessem ultrapassar pequenos promontórios e outros relevos que afloravam no imenso areal. 

Havia uma actividade diária que cativava ainda alguns dos que ficavam. Conforme o número dos pretendentes, uma GMC, um Unimog ou um simples jeep , levava-os para a praia de Cabo Ledo, um extenso areal na base da falésia onde se erguiam as instalações da Petrangol e da CCE.

Naquele dia, que viria a ser memorável, só quatro sargentos se manifestaram interessados em ir à praia e um jeep foi suficiente para o transporte.

Partiram pouco depois das nove horas, um deles equipado com uma” cana de pesca”, um longo bambu que erecto, rivalizava com a antena do rádio que o sargento de transmissões teimava em incluir no equipamento da viatura da praia. Todos desdenhavam desta precaução ridícula e muitos recusavam o equipamento mas, naquele dia, com o sargento de transmissões incluído no grupo, lá foi o rádio embora sob ameaça de também tomar banho.

Jogaram futebol, à beira-mar, num jogo de fintas e placagens empurraram-se para a água, um dos mais afoitos foi para lá da rebentação, outro tentou pescar com a cana e anzol improvisados e, por fim, estenderam-se na areia muito próximos de um toldo montado como barraca canadiana                                                                                                             Um deles, o das transmissões, resolveu andar um pouco e afastou-se para sul pisoteando a espuma das ondas que no início da preia-mar subiam progressivamente. A ida à praia lembrava-lhe sempre os bons momentos que tinha passado com a sua mulher numa praia, lá muito longe, na metrópole e quando essas recordações o assolavam preferia isolar-se.                                                                                     (…)Descobriu um rasto de tartaruga, seguiu-o, perdeu-o, mais adiante encontrou rastos de unguiculados – dizia-se que os veados, de noite, demandavam a beira-mar sequiosos de sal – seguiu-os por algum tempo, mas a  temperatura da areia aconselhou-o a procurar a espuma refrescante das ondas que progrediam areia adentro.

Quando se virou para iniciar o regresso apercebeu-se que as ondas lambiam já as rodas do jeep, inclinando-o para o mar. Gritou a plenos pulmões para alertar os amigos que, com o toldo interposto entre eles e a viatura, não se apercebiam do problema que se estava a gerar. Correu desalmadamente como se demónios o perseguissem, gritou como possesso, mas só muito perto se fez ouvir e já sem fôlego apontou o jeep que se afundavam na areia. Um deles correu para a viatura, sentou-se no lugar do condutor e accionou o motor de arranque, mas com as ondas a lamberem o capot, não obteve resposta. Quando chegou, juntou o seu esforço ao dos que tentavam empurrar a viatura, mas sem sucesso.                                                                                                                                                                     Com o refluxo de cada onda, o jeep parecia afundar-se um pouco mais e a areia começava já a invadi-lo. O sargento de transmissões, com mãos trémulas, ainda ofegante, conseguiu desapertar os dois francaletes que seguravam o rádio à estrutura do carro, e com ele acima da cabeça, correu para o areal seco. Rezando a todos os santos do seu conhecimento – poucos, convenhamos – accionou a chave de ligação, uma luz verde piscou e o ponteiro da potência de saída galgou dois terços do visor. Atendeu-o a voz calma e sonolenta do operador de serviço a quem ordenou que levasse de imediato o aparelho ao sargento Lino.

Retomada a serenidade própria das ocasiões de perigo, explicou-lhe a situação e pediu-lhe urgência numa GMC com guincho para puxarem o jeep ou, pelo menos, o ancorarem  durante a maré cheia.                 

 A viatura chegou com prontidão, conduzida pelo próprio sargento mecânico e de imediato iniciou -se  a difícil tarefa de passar o cabo por um ponto forte da estrutura da viatura afogada. No refluxo conseguiram fixar o cabo ao suporte do pára choques frontal e só depois de o cabo estar bem tenso o sargento mecânico Lino deu largas a um chorrilho de impropérios com que brindou os banhistas. Eles tentaram contra argumentar invocando distracção, azar e outros fados, mas face à carranca do Lino, enveredaram por outro caminho mais profícuo. Teriam que aguardar a baixa-mar para desenterrar o jeep. Contas feitas, só lá para o meio da tarde o mar recuaria o suficiente para iniciarem os trabalhos.

 Entretanto, na falésia, pequenos pontos começavam a adensar-se. A notícia já se espalhara e havia uma boa dezena de militares debruçados, tentando ver o que se passava.

Em baixo, organizava-se a  estratégia de procedimento: o Lino e outro, iriam almoçar, ficando três de vigia (Vocês deviam ficar o dia inteiro sem comer, de castigo, resmungou o sargento mecânico, mas pelo rádio pediu um Unimog para o transporte. Regressaram em menos de uma hora, os outros foram e voltaram com algumas pás e a promessa de muitos voluntários para ajudar.

Sentados no areal, protegidos pela tenda canadiana aberta na sua maior amplitude, aguardavam. O jeep afogado, ancorado pela GMC mantinha-se estacionário, mas no pico da maré alta, só o pára-brisas aflorava no refluxo das ondas.

Mais uma vez, como estrategas reunidos para delinearem uma missão de alto risco, discutiram procedimentos para iniciar as manobras necessárias ao salvamento da viatura. Puxá-la pura e simplesmente com o guincho, não resultaria. O cabo partiria ou o motor não teria força suficiente. Seria necessário desenterrá-lo pelo menos em parte para depois então aplicar toda a força de tracção. Equacionavam a possibilidade de fixar o cabo do guincho do Unimog a outro ponto da viatura quando um jeep em grande velocidade, entrou no areal e, vertiginoso, se acercou e travou levantado nuvens de areia. O Comandante da companhia, conduzindo ele próprio a viatura, saltou com relativa destreza e acercando-se gritou, olhando em volta:

-- Onde está o jeep?

Foi o das transmissões que respondeu, apontando as ondas:

--Ali…

--Ali?...Onde?

--Debaixo das ondas, só aparece de vez em quando…

O comandante da companhia, desorbitado, apopléctico, gritou:

-- Debaixo das ondas? Ai minha cabeça! Está perdido! Vocês… vocês, estão feitos! É uma porrada grande, a que vão levar. O jeep é material de guerra, vão ser acusados de uso indevido de material de guerra! É cadeia! Já não embarcam com a Companhia, ficam cá em prisão, em prisão, ouviram? — Tomando fôlego, quis saber – Quem é o mais antigo, quem é?...

O Lino levantou um dedo, sem qualquer palavra. Com um dedo espetado no peito do sargento, o comandante gritou de novo:

-- O nosso sargento vai fazer uma lista de todos os implicados e entregá-la na secretaria. Depois apresentam-se ao oficial de dia. O nosso sargento é responsável por estas viaturas – apontou a GMC e o Unimog – fez uma pausa e completou: e pelo jeep também! A sua porrada ainda há-de ser maior.

Uma onda, recuando deixou ver parte do pára-brisas e do capot do carro submerso e o capitão lamentou-se:

--Ai o meu jeep… ai o meu jeep, a Companhia vai ficar sem um jeep! – Como que iluminado, exclamou – não fica, não, vocês vão pagá-lo, hão-de ficar cá até o vosso pré pagar o jeep…

Trémulo, retomou o lugar no seu carro e arrancou com as quatro rodas a arremessarem areia para cima dos sargentos.

--Estamos feitos! – Murmurou um dos visados. Outro, depois de um curto silêncio, filosofou:

--Eu, até não me importa muito. Estava a pensar se não seria melhor ficar cá em vez de ir para o Puto, sem emprego…

--Deixem-se de gozos! O homem até tem razão. Está com um cagaço dos diabos de perder uma viatura, mas eu garanto-vos que vamos recuperar aquele anfíbio – o riso do enfermeiro, embora forçado, foi contagiante.

-- Mas, mesmo assim, vamos para a cadeia? — Interrogava-se outro e, com isso conseguiu uma explosão de riso colectivo.

--Vamos ao que interessa – era o Lino a perorar – a maré parece que está a começar a baixar e eu vou lá acima buscar uns voluntários para ajudarem a cavar e… olhem, se eu me demorar é porque fiquei já em prisão…

Todos riram, com o fantasma da porrada mais afastado.

Era quase noite quando, com a viatura “afogada”a reboque da GMC deram entrada no aquartelamento. O jeep foi estacionado nas instalações do Lino e, secundado pelos outros, demandaram o primeiro-sargento para fazer e entregar a lista dos condenados.

Com um meio sorriso, encarou-os:

-- Ainda bem que safaram o jeep, porque o nosso capitão está mesmo bravo. Quis que eu começasse logo a redigir o castigo. Foi preciso explicar-lhe que precisávamos primeiro de um auto que tramitaria para o Comando do Batalhão e mais uma coisas que inventei… o carro é recuperável?

-- Em dois dias fica a trabalhar – asseverou o sargento mecânico.

--Ainda bem – congratulou-se o primeiro-sargento e acrescentou – agora vão tomar um bom banho e ver do jantar, que fome não vos deve faltar…

Agradeceram e demandaram a porta, mas ele chamou-os:

-- Um conselho: evitem que o nosso capitão vos veja! – Pontuou a frase com um piscar de olho e ficou a vê-los sair, sorrateiros.

J. E. Tendeiro   (Angola 62/64—Notas )

 

 

 

 

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