O SEGREDO

  

 

 

 

 

 

 


Há muitos anos, talvez demasiados, que guardo este segredo comigo.

Os segredos de longa data são um fenómeno especial. Por vezes  passamos tempos sem os lembrar, arrumados que estão em qualquer escaninho do nosso cérebro. Mas pensar que estão mortos, que desapareceram de vez, é um engano. De vez em quando, despertados por qualquer pequeno senão, emergem, ocupam todo o nosso ser, libertam-se, ferem e quanto maior é o tempo que dormem dentro de nós, pior é o despertar.

Sucedeu comigo há dias, lendo o título duma publicação local – A carta.

 

Recuemos para Pangala, aos tempos negros que sucederam ao terrível desastre que levou para sempre três dos nossos companheiros.

O ambiente era pesado. Falava-se pouco. Cada um deambulava para seu lado e, quando, sem nada que fazer nos reuníamos, as anedotas, os chistes as provocações próprias e características de jovens de vinte anos não saíam com naturalidade ou apareciam a despropósito.

Um sentimento colectivo instalara-se no mais fundo de cada um: a vingança, o desejo cego de retaliar. Víamo-lo nos nossos olhos, nas frases sincopadas.

Foi neste ambiente que, numa madrugada, a coluna de reabastecimento partiu para S. Salvador, trilhando o mesmo caminho que fora fatal para os nossos companheiros. Partiram de cenho cerrado, olhos brilhantes, sem olharem para trás. Entre os que ficaram, ninguém se atreveu a formular as graças do costume: “Traz-me uma branca novinha”… “preta também serve”… “Dá uma por mim”…

Passei o dia vigiando o posto de rádio, em escuta permanente.

Fartos do indicativo “Cobra”, naquele dia carregaram um batráquio:”Sapo”. Assim, de meia em meia hora, não havendo qualquer “azar”, o operador de rádio da coluna dizia o que tantos ambicionávamos ouvir: “Delta Lima, aqui sapo, sem serviço”

O OK que eu ou o operador do Posto rádio respondia era a descompressão daquela meia hora de espera.

Fez-se um intervalo correspondente ao almoço deles e trabalhos de carga dos víveres e combustível e retomou-se a ligação quando iniciaram a viagem de regresso.

Chegaram cedo, antes da hora do jantar, com o sol a espreguiçar-se a poente, alquebrados não tanto pela rudeza da viagem como pela tensão nervosa, olhos avermelhados pelo esforço de fixação na estrada, tentando ver algum alto, alguma cova, qualquer coisa que pudesse indiciar uma mina.

Esperava-os sentado nos degraus da casa do comando, frente ao jardim com as letras de cimento a gritarem “Pangala”, perto do posto de rádio.

O Cura viu-me fez-me sinal e atirou-me um saco de lona, mais pequeno que os nossos, também fechado a cadeado, esperou que o encaixasse e depois foi a vez da chave atada a uma pequena tabuleta de madeira que viajou até mim como um cometa:

--Entrega isso na secretaria…

O primeiro-sargento abriu o saco e separou o correio do envelope que trazia o dinheiro para os pagamentos à Companhia.

Apoderei-me do correio, quebrei o fio que emassava talvez trinta cartas e, pesquisando o meu nome, fui fazendo a separação: o dos oficiais para um lado, o dos sargentos para outro, restando o dos soldados que talvez fosse separado por pelotões ou “cantado” para toda a gente reunida na parada.

Tirei uma carta para mim, agradado com o reconhecimento da letra – era de minha Mulher – entreguei uma ao primeiro-sargento, pus de parte duas para os alferes e estaquei aterrorizado pelo endereço da que estava à minha frente.

O primeiro-sargento ter-se-á apercebido da minha reacção porque, levantando os olhos da folha que lia, quis saber:

-- O que foi?

--Nada…. – Titubeei, juntando a carta à minha.

Acabei a separação do correio, o sargento de dia apareceu e tomou conta das cartas respeitando a separação feita e foi-se resmungando que nunca lhe passara pela cabeça fazer de carteiro. Desculpei o seu mau humor: para ele não havia qualquer carta.

Demandei o centro de cifra, deserto àquela hora. O cifrador, que passava o dia nas suas instalações ou nas proximidades do posto de rádio, ao fim do dia, antes e particularmente depois de jantar, não havendo serviço, ia para qualquer uma caserna e só voltaria para dormir no seu “quarto individual”. De uma das toscas prateleiras retirei uma pasta qualificada na lombada como “arquivo morto.” Retirei dela um grande envelope identificado a marcador vermelho como “particular” com a minha rubrica por baixo e meti nele uma das cartas. Recoloquei tudo nos lugares e, finalmente, sentei-me no banco alto da bancada de trabalho do centro de cifra e li deleitado as pequenas habilidades do meu filho e dori-me com as saudades da Mãe.

Deitei-me cedo, não sem antes reler a carta recebida.

Num sono agitado, por entre frases de carinho e dor de minha Mulher, várias vezes a lombada daquela pasta se me desenhou em letras enormes : ARQUIVO MORTO.

O tempo rolou e, lentamente, a lombada da pasta diluiu-se e só esporadicamente surgia num flash de imediato rechaçado.

 

Quando a notícia de que a rendição se faria dentro de dias, para além da explosão de alegria que abalou o acampamento, iniciámos os trabalhos necessários para a entrega do “património” aos vindouros. O Lino atarefou-se com as reparações em curso e intermináveis conferências de ferramentas; na cozinha, sob a égide do Cura, depois de alguns momentos de quase pânico, concluiu-se que tudo batia certo; na enfermaria pensos, seringas, macas e adesivos foram inventariados pelo Pereira com os seus maqueiros; na secretaria montes de papéis foram conferidos e catalogados com o auxílio (?) do Resende que via ali uma razão para continuar a fazer o menos possível e, pela minha parte surgiu uma preocupação: faltava um microtelefone de um emissor portátil. Bem a contra gosto do pessoal das transmissões, empenhado nas conferências do material, despejaram-se todos os acessórios em pequenos montes, por equipamento e o malfadado microtelefone apareceu numa bolsa que não era a sua.

No centro de cifra a situação era mais melindrosa porque obrigava a uma conferência exaustiva dos MCPEs[1] em serviço, caducados e em reserva. Entretanto chegara do Comando do Batalhão, autorização para proceder à destruição do arquivo morto, já muito volumoso.

O cabo cifrador, o Gonçalves, sobre quem eu descansara todas as tarefas burocráticas, lendo as NEPEs[2] determinou que a destruição de material cripto devia ser feita pelo fogo, com duas testemunhas que assinariam os autos de destruição lavrados por mim.

Concedi~lhe esse prazer, bem o merecia! Os dois cabos da guarnição do posto de rádio do Comando da Companhia foram indigitados como testemunhas e, um dia, a meio da tarde, marchámos em cortejo rumo à cozinha.

Enquanto dezenas de folhas se contorciam no lume avivado por aquele combustível suplementar, do envelope assinalado “Particular” com marcador vermelho, retirei algumas folhas que dobrei e meti no bolso da camisa, outras foram para a fogueira e só restou a carta fechada que lá depositara há muito tempo.

Com reverência, evitando que os outros vissem o endereço, li-o pela última vez com as chamas a lamberem-no: ANTÓNIO LUCRÉCIO DAVID, SPM….me cedo, nlho do centro de cifra e li deleitado as pequenas habilidades do meu filho e dori-me com as saudades da mlto da

 

Covilhã,30/SET/09

J. Eduardo Tendeiro

 

Nota do autor:

Tanto tempo depois, interrogando-me se teria procedido bem, continuo a pensar que fiz o que se impunha. Se a carta chegasse às mãos do primeiro-sargento ou do capitão, certamente que a devolveriam com a indicação de “destinatário falecido” e iria abrir novas chagas na martirizada família.

Para quê submetê-la a mais aquela provação? Assim e na dúvida, poderiam pensar que ele a tinha recebido.

Se procedi mal, que o David me perdoe.



[1] Material Cripto do Exército

[2] Normas de Execução Permanentes 

 

 

 

 

 


 
publicado por gatobranco às 11:24 | link do post | comentar | ver comentários (4)