Segunda-feira, 02.07.18

A MEDALHA DE COBRE

 

    Já lá vão muitos anos, quase meio século que deixei para trás a “guerra de Angola”.

   Deixar para trás é uma força de expressão porque, tantos anos depois, uma palavra, um acontecimento, o encontro com um antigo companheiro de aqueles tempos e ela aí está! Episódios que supúnhamos esquecidos saltam para a ribalta, atordoam-nos, fazem-nos ranger o dentes e com desalento, vem a pergunta: para quê, para que morreram tantos jovens cuja única culpa foi terem vinte anos naquela amargurada época.

   Mas, pessoalmente, não me posso queixar muito: regressei sem mazelas físicas ─ alguns a meu lado e para meu horror tombaram vitimados por balas, minas ou circunstâncias adversas ─ a família recebeu-me carinhosamente e a minha Mulher , pacientemente, ajuda-me a superar danos colaterais entranhados no mais fundo de mim mesmo.

   Seis meses depois de vaguear em busca de emprego ─ tinha mulher e um filho para ajudar a sustentar ─ encontrei trabalho numa seguradora. Não sabia nada de seguros além de ter de pagar anualmente a maquia que me cobravam pelo carro em segunda mão  que alegrava os nossos fins de semana e me levava para o escritório nos dias de temporal. Contudo, adaptei-me bem e hoje, com “trinte e tantos anos de casa” chefio a agência que me deu abrigo quando voltei da guerra sofrida em Angola. Até tive tempo de, na Universidade ali ao lado, fazer um curso de economia.

   De os amigos de aqueles tempos, companheiros de armas como por vezes nos apelidávamos, só o Mota vive aqui nesta cidade à beira-mar plantada. Vemo-nos com frequência, lanchamos por aí e, de vez em quando, aparece na Agência da Companhia a clamar que o arruíno com o preço dos seguros.

 

   O episódio que vos vou narrar tem início precisamente com uma visita sua, de recibo na mão clamando “Mas tu pensas que sou rico para pagar esta fortuna”?

   Acalmei-o com a oferta de um calendário de bolso e a promessa de que num fim de semana a combinar juntaríamos as famílias para um jantar a expensas da Companhia (A expensas minhas evidentemente).

   Sentado à minha frente, já para lá da hora de expediente, com aquele sorriso irritante que o comandante do pelotão  tanto detestava, acalmado com a promessa do jantar e com o pequeno calendário aconchegado na volumosa carteira de negociante de gado, recostou-se conferindo pela enésima vez os “luxos” do meu gabinete e da minha vasta secretária: computador topo de gama, impressora “industrial” no seu dizer, cadeira anatómica, aquecimento para os pés quando se justificava, um “enorme “ armário arquivador, ar condicionado todo o ano, enfim, o necessário para bem exercer a profissão que o Matos  considerava luxo pago por ele e tantos outros clientes impiedosamente “ esfolados”  por mim em nome de uma multinacional.

   Enquanto carimbava o seu recibo e resguardava o respectivo cheque na gaveta da direita, o Matos endireitou-se, debruçou-se sobre a mesa que nos separava e apoderou-se de uma medalha de cobre que jazia num pequeno tabuleiro de mistura com alguns clips e um arranca-agrafos.

   ─ Que é isto? È tua? Não me lembro de teres sido agraciado com medalha! Tiveste, tivemos um louvorzito e ficámos aviados!...

   E aqui começa verdadeiramente a história de hoje.

   ─ Isso é uma medalha de bons e relevantes serviços prestados em campanha e é certo que não é minha ─ fiquei a olhar para o meu amigo Matos, sargento duma secção de armas pesadas  naqueles longínquos tempos e acrescentei ─ e não sei de quem é…

   Dona Maria Júlia a mais recente secretária do meu escritório interrompeu-me com uma questão a resolver para o correio do dia e afastando-se foi seguida pelo olhar apreciador do Matos que, satisfeito, transferiu para mim aquele sorriso irritante.

   ─ Nem te atrevas! ─ Travado pela minha ameaça, com um encolher de ombros, convidou:

   ─ Conta lá o resto da história da medalha.

   Retomei a narrativa:

   ─ Há dias, aquele rádio de campanha, o” Hitachi, made in Japan”, lembras-te?  que eu considerava eterno, avariou para meu desgosto. Na oficina, o senhor Abel, experiente de uma vida nestas coisas de receptores e televisores, foi abanando a cabeça. Instado por mim, refletindo, deu-me uma hipótese:

   ─ O mercado já não tem disto, mas se encontrar um rádio igual, talvez eu consiga alguma coisa.

    Porém, onde é que eu encontraria um rádio portátil com quase  cinquenta anos?

   Abanando a cabeça e arreganhando os lábios, sugeriu:

   ─ Só se for no “Prego”. Talvez encontre por lá um aparelho destes, mesmo avariado…

   Ignorando o sorriso de esguelha do Matos, prossegui o relato.

   ─ E este teu amigo lá foi caminho do “Prego “com o pequeno rádio escondido  numa pasta.

   ─ Mas o que é que o rádio tem a ver com a medalha? Evidentemente  o rádio foi para o lixo─ Agastado, o meu amigo revirava a medalha na concha da mão. Indiferente à interrupção prossegui:

   ─ Como acabaste de dizer não tive sorte, mas passeando o olhar por aquele bricabraque que é a loja do Prego, vi um camuflado pendurado numa cruzeta. Curioso, quis saber a proveniência daquele trajo ali tão deslocado. O dono do prego, já não me lembro do nome dele, contou-me que um dia lhe entrou pela porta adentro um jovem com um embrulho debaixo do braço, o camuflado. Queria livrar-se daquilo e acrescentou ao fato uma faca de mato e aquela medalha. Perante a insistência do rapaz o dono do prego lá lhe deu qualquer coisa por todo o espólio. Face à minha curiosidade de saber o que iria fazer com o camuflado , explicou:

   ─ Isso… tenho que esperar pelo carnaval. Nessa época aparece por aqui muita gente em busca de fatos antigos e adereços. De certeza que vendo ou alugo aquele fato da guerra e, olhe, até lhe dou a medalha como bónus.

   ─ Senti uma revolta tão grande, o camuflado e a medalha, principalmente a medalha achincalhados numa  comédia de carnaval que, num impulso, me propus comprar a medalha tanto mais que ele não tinha ficado com a identificação ou sequer o endereço do jovem vendedor.

   ─ Não se quis identificar nem receber o talão que passo a quem vem empenhar alguma coisa, para o caso de querer reaver o que aqui deixam. Saiu porta fora garantindo que nunca mais queria ver aquilo.

   O Matos entregando-me a medalha  por sobre a mesa  quis saber:

   ─ E agora o que vais fazer com isso?

   ─ Sei lá… Isto é uma medalha de cobre atribuída a sargentos ou praças que se distinguiram em situações de combate ou praticaram feitos relevantes…

   ─ Como nós…─ Casquinou o Matos recuperando aquele sorriso que todos detestavam e sugeriu ─ põe isso na lapela…

    Contrapus:

   ─ Eras capaz? ─ Reforçando o desafio, acrescentei  ─ Eu dou-ta.

   Sério, resguardando o sorriso, retrucou pausado:

   ─ Claro que não, nem tu… mas olha: o que teria levado aquele rapaz, ex-combatente pela certa, a desfazer-se daquele espólio, particularmente a medalha. Necessidade material?

   ─ Pelo pouco que terá recebido não me parece…  Talvez a necessidade de esquecer algum facto doloroso que aquele espólio avivava…

   ─ Talvez…

   E por ali nos ficámos lutando com o incómodo das nossas próprias recordações da guerra já tão distante no tempo, mas sempre tão presente.

FIM    (JAN18)

 

 

publicado por gatobranco às 11:32 | link do post | comentar

DESABAFO

Desabafo pungente este que encontrei hoje:

 

   "Afinal, os que me ensinaram a arte de bem matar, foram os mesmos profissionais que, mais tarde, nos disseram que não tínhamos razão"

   A. RIBAU T.

publicado por gatobranco às 10:36 | link do post | comentar
Domingo, 01.07.18

MEMÓRIAS QUE NÃO SE APAGAM

CINQUENTA E SEIS ANOS VOLVIDOS, EVOCAMOS A TARDE TRÁGICA DE UM DE JULHO DE 1962 E A MADRUGADA DO DIA SEGUINTE.

Uma mina anticarro destrói um jeep e causa as primeiras baixas dando-nos a dimensão real da situação de guerra em que nos encontrávamos e ainda se não tinha manifestado.

Os anos passaram mas os nomes daqueles nossos camaradas de armas e amigos permanecem vivos.

CARVALHO, BARRIGUINHA, MONTEIRINHO,falecidos no dia um

O DAVID sobreviveu até à madrugada do dia seguinte.

Sacrificados por uma causa duvidosa, sobrevivem na nossa memória e na das suas famílias.

publicado por gatobranco às 18:54 | link do post | comentar

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