...

     "Cinquenta e seis anos passaram.

Mas a memória do dr. Luciano -- médico da CCE306, a nossa companhia -- reteve a angústia daqueles dias e partilha-a agora connosco.

   Obrigado , doutor Luciano"

(J. Eduardo Tendeiro) 

 

Ser médico, por vezes, implica ser corajoso e imaginativo

 

                                                   “Com facas e garfos também se opera”

                                                     Palestra do Prof. Cid dos Santos na Sociedade de Ciências médica de lisboa

                                                                                                                     

                No decurso das Guerras Coloniais- Angola 1962                                                          

                                                                       

Eram 17h numa tarde quente no norte de Angola, terra deserta de homens e ocupada por homens armados que, distraidamente jogavam ao voleibol para ginasticarem o corpo e distrair as ideias dum pensamento sempre atento ao perigo.

Estávamos em guerra e não sabíamos o que era a guerra.

 Coisa de filmes, exaltação patriótica fácil de cumprir sem pena e sem remorso ou vida dura para jovens lutando uns contra os outros?

Não interessava, era assim, e uma geração generosa foi fazer a guerra ali no norte de Angola sem conhecer as suas gentes, o terreno e quem o habitava. Não se sabia o que se estava a defender.

Eram 17horas, no aquartelamento, jogava-se o voleibol e, entre vários boladas, gargalhadas ou irritações passageiras ouviu-se um estrondo ao longe e todos pararam.

Um pelotão da companhia tinha ido reabastecer-se á cidade de S. Salvador do Congo situada a 80 k de Pangala lugar onde estacionámos e onde não havia alma, habitação ou qualquer vestígio de ocupação recente. Como se dizia:” estávamos em pleno mato”.

Todos pensaram:

Começou a guerra? Estamos a ganhar ou estamos a perder?

Seriam algumas bombas duma aviação insipiente que, de vez enquando nos sobrevoava ao fim do dia, para assustar quem não existia e a mostrar que estava ativa?

Não foi preciso esperar muito para saber o que era:

 Um Jeep acelerava e apitava repetidamente com soldados em fuga trazendo com eles pedaços de outros soldados esfacelados, queimados ou ainda a arder; três estavam já mortos e um Sargento, ainda vivo, estava a necessitar de cuidados altamente diferenciados que não podia receber ali por não haver nem meios nem médico treinado e competente para os praticar (isto não é critica ao médico porque o médico era eu, vinte e sete anos e formado há 2 meses, como tal, nada ou pouco saberia fazer),mas fez o pouco que sabia e o que julgou poder fazer.

Noutro Jeep apitando intermitentemente vinha o Tenente, que pensei estar morto, mas era só um desmaio de ocasião, tendo deixado na estrada, a alguns quilómetros fora do aquartelamento, todo o material de guerra nessa estrada de terra batida e agora com grande cratera provocada pela explosão duma mina anticarro e manchada com o sangue desta juventude generosa que, percebendo o que era uma guerra, rapidamente se tornou violenta com o desejo de desforra imediata.

A Guerra tinha começado.

Para mim comecei a imaginar o que poderia fazer, perante o que estava a ver, tendo apenas um jeep destinado aos serviços de saúde, um enfermeiro treinado para isso, sem o ser e um cabo para tratar as bolhas dos pés e distribuir comprimidas contra a malária e vitaminas recomendadas por Luanda.

No meio disto tudo, o capitão furioso dava ordens para irem ao local buscar todo o material abandonado, já que ele, Comandante não podia ir para manter a segurança deste aquartelamento ameaçado. Insultava de “cobardes” aquela boa gente, de Portugal, porque tinham abandonado material de guerra sujeito a cair nas mãos dos “Turras”.

Eu olhava para o amigo e sempre corajoso sargento David com respiração estridulosa e dificultada pela saída de espuma sanguinolenta e arejada, pela boca, sinal de edema agudo do pulmão com provável rotura na árvore pulmonar ou pneumotórax sob tensão.

Pensava nos bancos de urgência no Hospital de S.José bem como o que os mais velhos e graduados nos ensinavam a fazer, sempre acompanhados por graduados e cirurgiões de banco, altamente competentes.

 Ali, no Norte de Angola estava: Eu e o Jeep com 6 caixas de roupa limpa não esterilizada, pensos, luvas, medicamentos diversos um frascos com água oxigenada, outros de álcool e mercurocromo também frascos de Periston soro expansor 500 ml etc.

Num pequeno estojo havia peças dispersas para pequena cirurgia talvez para feridas superficiais, bolhas nos pés ou unhas encravadas.

 Uma tragédia e uma grande aflição!

Longe de Luanda, talvez a mil quilómetros, era um fim de tarde a escurecer havia ligação rádio, ao Quartel – General em Luanda só possível, duas vezes ao dia.

 A próxima ligação seria, com foi, às 18 horas.

Ruídos sonoros intermitentes com palavras de código indecifráveis e misturadas com longos silêncios estando o sargento responsável das comunicações atento a tudo que ouvia. De tudo o que se pedia, concluiu: Avião só pelas seis da manhã com pista de aterragem possível em Buela a 40 quilómetros a norte junto á fronteira com o Congo.

Era aí, onde rio vira a norte, já dentro de território congolês, que uma pequena pista poderia permitir aterragem ao avião de socorro.

O Sargento David afogava-se em secreções e não dispondo eu dum aspirado pensei: Tenho um tubo de borracha que serve de garrote para dar injeções nas veias, tenho molhos de compressas limpas porque esterilizadas era impossível sendo assim decidi: Com um bisturi consegui fazer uma traqueostomia, como aprendi no Banco do Hospital de S.José, apliquei a cânula de traqueostomia com as duas peças que se encaixavam que, depois de penetradas na traqueia, seriam seguras com um nastro que as atava ao pescoço para que ficassem bem ajustadas.

Foi assim que o David foi aliviado das secreções em que se estava a afogar e, a ser assim, esperei pelo que se seguiria e, ao reiniciar nova fase de secreções abundantes, comecei a aspirar as secreções, com a minha boca filtrada por compressa e através do garrote introduzido na traqueostomia, as secreções eram espessas e sanguinolentas limpando a boca com as compressas e cuspindo para o chão. Assim foi possível, aliviar durante algumas horas, as secreções que iam afogando este nobre soldado a lutar contra a morte que se adivinhava.

Durante horas isto foi-se repetindo toda a noite e só de manhã um avião, um pequeno Dornier, sobrevoa o acampamento comunicando, via rádio, para transportarem o ferido para a pista de Buela 40 quilómetros a norte.

O David tinha morrido às seis da manhã e, de raiva, insultei o piloto aviador

Foi dos momentos mais trágicos que vivi e hoje quando oiço queixas de banalidades fico pasmados com a intolerância e a insensibilidade para o que deve ser importante nas nossas vidas e penso na aventura de Portugal em África com tanta gente generosa a servi-la.

No dia seguinte era o desespero.

 Estávamos isolados a pensar que, se algo de semelhante acontecesse, o cenário seria igual.

 Abriram-se valas de proteção de sentinelas em todo o perímetro do aquartelamento e, num terreno longo e plano, toda a gente de enxada na mão desbastava mato e abria caminho a uma pista que permitisse um pequeno Dornier aterrar em situação de emergência,

Não demorou uma semana e a pista estava pronta.

No dia seguinte uma coluna militar, já com atenção às minas possíveis na estrada, avançou com os corpos destes jovens para o cemitério de Salvador do Congo onde, em talhão militar, foram enterrados os primeiros soldados mortos em combate naquela zona do norte de Angola. Perturbante inauguração com quatro corpos de gente tão jovem que embarcou a sonhar com a paz.

Em visita ao monumento dos mortos das guerras, ditas do Ultramar, li os nomes destes muito bons camaradas com quem privei numa generosidade sem fim, por vezes, incompreendida e nada recompensada por esquecida.

Quem ganha a guerra faz a história mas esta foi assim e por mim vivida.

 

Setúbal 11 novembro 2018

Luis machado Luciano

 

 

 

publicado por gatobranco às 10:11 | link do post | comentar