Sexta-feira, 28.06.19

SONHAR...IMAGINAR

SONHAR, IMAGINAR

com bola.jpg

   Deliciado, via o filho correr atrás da bola.

   Equilíbrio incipiente, pernas arqueadas pelo volume da fralda, ele corria com um riso de prazer. Quando conseguia apanhar a bola apertava-a contra o peito e com gritinhos de alegria, corria para o pai e entregava-lha aguardando o recomeço da brincadeira.

   A mãe, discreta, sorria,  os olhos húmidos lutando contra a ruga de preocupação que lhe vincava a testa. Só já faltavam doze dias para ele abalar de novo! Depois seriam mais dez meses de pesadelo, de ânsias por uma carta.

   Ele sabia e evitava olhá-la concentrando-se no filho que incansável, não deixava de perseguir a bola. Animando-se a si próprio, esforçando-se por pôr convicção no pensamento ruminava que dez meses iam passar e depois seria a felicidade plena libertos da guerra que os separara poucos meses após o casamento. Teriam uma vida pela frente para se reverem na felicidade do seu amor. Teriam mais filhos, haviam de ter, pelo menos mais dois. Ela hesitava, talvez só mais um, mas com um encolher de ombros, adiava :

   ─ Depois logo vemos…

   À sua frente o bebé requeria  atenção oferecendo-lhe a bola. Num gesto de ternura puxou-o para si e abraçados tombaram sobre a manta que forrava o canto do terraço.

       ______XX_____

   ─ Dormiste mal ou isso é só sorna? – Especado à sua frente o Nicolau empurrava-o com o joelho fazendo oscilar o banco em que se deitara.

   Abriu os olhos e, consternado, retrucou:

   ─ Não estava a dormir… pensava, imaginava, revia momentos de felicidade havidos e projectava-os no futuro…

   ─ Futuro… -- cortou o outro desdenhoso – grande futuro que nos espera…

   Contrariando-o, o que sonhava felicidade, insurgiu-se:

  ─ Não basta viver a vida, particularmente quando se trata da merda de vida que temos. É preciso sonhá-la para não darmos em doidos.

   -─ Tu lá sabes… Chega para lá.

   Sentados lado a lado no tosco banco aninhado na sombra que decrescia, fumaram em silêncio.

   Por fim, o que chegara, quis saber:

   ─ O que estavas a sonhar?

   A resposta tardou, cheia de reticências:

   ─ Era mais um imaginar que sonhar…

   ─Já sei… sonhavas com o filho…

   O movimento pendular da cabeça do questionado anunciou o longo silêncio que caiu entre os dois.

   - Casado e com um filho, esta porra torna-se bem pior… Se calhar fazes bem em sonhar…

   ─ E tu não sonhas, não imaginas o futuro fora deste inferno?

   ─ Para já, só penso na emboscada desta noite. Logo à tarde vou mentalizar os rapazes, verificar equipamentos… só água e balas, nada de tabaco… mas olha, também sonho com uma coisa…

   ─ Uma” zona de morte”[i] cheia deles? – interrompeu mordaz o dos sonhos.

   Levantando-se e sacudindo os calções coçados – gesto inútil – contemplou o amigo e contrapôs:

   ─ Não, pelo contrário: uma zona de morte vazia… vazia o tempo todo ─ Insistiu

   Abalou sisudo.

 

 

[i]  Zona de morte: Espaço físico em que se concentra o maior poder de fogo numa emboscada e onde é previsível que o IN sofra o maior número de baixas.

publicado por gatobranco às 11:48 | link do post | comentar
Domingo, 23.06.19

O ESCORPIÃO

 

 

 

O ESCORPIÃO

 

10_escorpiao-picada.jpg

  Naqueles dias de Pangala – lá muito ao Norte de Angola,  perto da fronteira –  o tédio adensava-se sobre os militares ali estacionados.

 Patrulhas, escoltas, emboscadas (quase sempre inconsequentes)  e serviços de apoio ao estacionamento eram uma rotina que, em vez de serem dispersivos, contribuíam para adensar aquela sensação claustrofóbica que pesava sobre eles.

   Nesse tempo tudo servia de entretém, qualquer coisa inusitada era recebida com agrado e naquele já muito distante dia, aconteceu.

   Para os lados da cozinha, numa ponta do estacionamento, gerou-se um movimento inesperado que fez convergir para ali alguns militares.

   O tenente do segundo pelotão e o sargento das transmissões cruzaram-se , arrastando-se no lodo do seu tédio, vislumbraram o alvoroço e interrogaram-se sobre o que seria aquilo.

   Especado, testa enrugada, cofiando a barba áspera de alguns dias, o sargento encolheu os ombros em sinal de ignorância e o oficial secundou-o com um trejeito de lábios.

   Intrigados ficaram-se os dois a mirar o ajuntamento de meia dúzia de militares dos quais se destacou um que, em passo apressado se aproximou.

   Intersectado pelo tenente, o militar urgiu que tinham apanhado uma  alacrária[i] das grandes, que até tinha pelo nas patas e o sargento ironizou que ele estava a fugir com medo,

    Escandalizado, o interpelado  profetizou que se fosse só ele, já a tinha esborrachado com a bota, mas os outros queriam experimentar uma coisa…

   Face à curiosidade do oficial explicou que alguns estavam a dizer que as alacrárias, quando rodeadas pelo fogo  espetam o ferrão nelas  e queriam  experimentar. Entusiasmado informou que ia à enfermaria arranjar um bocado de algodão e álcool para fazer uma cerca e depois pegar-lhe fogo…

    Ironizando de novo, o das transmissões ironizou  que a lacrária estaria muito sossegadinha à espera que lhe fizessem o cerco de fogo para se suicidar. Sorrindo com ar superior o que deixara o grupo garantiu que ela não poderia escapar porque estava dentro de uma panela grande e  com esta informação apressou-se a caminho da enfermaria.

  E o comandante do segundo pelotão latinou:”Requiem para  scorpio/scorpionis.”

   Entreolhando-se, com novo encolher de ombros, decidiram assistir ao anunciado suicídio do aracnídeo.

   No fundo de uma grande panela, o escorpião tentava trepar a parede lisa do metal e um dos espectadores com um pau, enfurecia o animal para gáudio da assistência.

   Já o que fora buscar os instrumentos de tortura – o álcool e o algodão – se encaminhava para o grupo quando o cabo cozinheiro se aproximou e descarregou a sua ira querendo saber que merda era aquela, ali nos seus domínios.

   Brandindo o cutelo da cozinha, com um pontapé virou a panela e enquanto todos fugiam , cortou o lacrau em dois.

   Encarando os algozes do aracnídeo, vociferava que ia ficar com a panela empeçonhada e que eles é que teriam de  a esfregar…

   Vendo que o grupo se dispersava, socorreu-se do tenente para não os deixar fugir e fazê-los cumprir a limpeza da panela.

   Mas o oficial, arrastando o companheiro pelo braço, mastigando um sorriso, escusou-se assegurando que não estava de serviço e que não era nada com ele. Que fosse ao oficial de dia

   O que tinha ido buscar o álcool e o algodão, sorrateiro, arrepiou caminho de regresso à enfermaria.

FIM 

 

 

 

[i] Alacrária – Expressão popular para designar o lacrau ou escorpião.

 Lacrária  -  O mesmo que lacrau ou escorpião. Registado no dicionário electrónico de Cândido de Figueiredo

publicado por gatobranco às 12:10 | link do post | comentar

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