COISAS DA GUERRA

 

 

 

Entrou de mansinho no quarto.

Frente à janela, a filha, debruçada sobre o papel de carta, permanecia estática

─ Vim só ver o menino. Está sossegado, não está? ─ Sem aguardar resposta, quis confirmar ─ Estás a escrever-lhe?

─ Estou… ─ Levantando os olhos chorosos para a mãe, confirmou ─  Estou para aqui a inventar um rol de mentiras!

─ Então, filha! Tempos melhores virão. O menino há de curar-se e ele, com a graça de Deus e de Nossa Senhora, vai voltar sem mazelas daquela maldita guerra.

─ Mas eu já nem sei que mais inventar! Doí-me a alma dizer-lhe que o nosso filho, aquele anjinho ali, está bem quando esta semana já fomos a correr com ele para o hospital duas vezes … ─ num gesto maternal a senhora mais velha abraçou os ombros da filha sem encontrar uma palavra de conforto ─ … como é que eu posso dizer-lhe que na fábrica as coisas vão mal, já despediram gente e eu estou à bica para novos despedimentos. Ó mãe, que vida a nossa!

─ Então filha! Tudo se vai consertar. Do menino ─ estacou, mirou longamente a filha e argumentou ─ até já me lembrou de o levar à senhora Assunção…

─ Mãe! ─ a indignação reverberou no ar ─ Não vais levar o nosso menino à bruxa!

─ A senhora Assunção não é bruxa nenhuma. Ela vai à missa e até o senhor prior lhe fala bem!

─ Isso não, mãe!

─ Escreve lá ao teu José e depois falamos.

─ Ao cabo dezanove, corrigiu com um breve e pálido sorriso, logo repreendida pela mãe:

─ Não chames isso ao rapaz. Tem nome, um bonito nome o de S. José, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.

─ Mas é isso que ele diz que o chamam lá na guerra!

─ Deixa lá. Escreve-lhe. Escreve que o menino teve uma dorzita de barriga mas já vai bem. Não lhe fales na fábrica.─ Confrangida, saiu de mansinho com um breve olhar para a criança cuja palidez rivalizava com a alvura dos lençóis do berço.

 

 

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─ O dezanove em meditação! ─ Casquinou o sargento Alves ao deparar com o cabo que, carrancudo, enfrentava uma folha de papel em branco.

─ Não goze, meu sargento! Estou para aqui a ver se invento boas notícias para mandar à minha Maria, sempre desejosa de notícias  minhas. Ela manda cartas tão bonitas! Conta as gracinhas do nosso filho e diz-me coisas lá da terra…

─ Desculpa lá! É chato, pá! Não lhe podes dizer que esta semana morreram mais três dos nossos e que estivemos uns dias a arroz com as conservas das rações de combate. Inventa aí qualquer coisa alegre…

─ Mas o quê? ─ Gemeu o dezanove.

─ Sei lá, pá… Olha! Conta-lhe que houve uma patrulha de caça. Saíram à caça para arranjar carne para o arroz, mas não lhe digas que não caçaram nada. Inventa que abateram veados e um porco. Diz-lhe que também foste e até acertaste num dos bichos…

─ Isso não, que ela é muito dorida com os animais.

─ Então inventa aí a festa que todos faríamos se a caçada tivesse dado resultado. ─ Sem transição, o Alves  inquiriu ─ Viste por aí o quarteleiro?

Face à negação do questionado afastou-se mas voltou atrás:

─ Olha, diz-lhe que tivemos cá o padre a dizer missa, mas não podes dizer que foi pela alma dos mortos, e que depois jogámos uma futebolada com ele a fazer de árbitro. ─ Contente com a sua achega, acrescentou ainda ─ Se queres fazê-la rir diz-lhe que passaste horas a coser dois botões… elas riem-se a valer com a nossa falta de habilidade para essas coisas da costura…

Cofiando a barba de muitos dias, deixou um último conselho ao outro:

─ Se fosse a ti guardava essa dos botões para outra carta.

Afastou-se em demanda do quarteleiro, contente com as suas sugestões.

 

Laboriosamente a escrita do cabo dezanove progrediu seguindo o conselho do sargento.

A Maria ia gostar de  ler aquela carta.

 

( In “Apontamentos”  )

J. Eduardo Tendeiro

publicado por gatobranco às 15:51 | link do post | comentar