Domingo, 12.07.20

ESTIVE LÁ

 Estive lá

 

  Fui um dos que tiveram a felicidade de voltar      Outros ficaram, jazendo.

 

  Tive um início de serviço militar normal.

  Incorporado em  Abril de 1959, frequentei o CSM em Mafra, fazendo especialização em transmissões de infantaria, credenciado para a chefia de um centro cripto. Passei à disponibilidade em Março de 1961.

  Liberto da obrigação militar, casei e organizei a viva. Mas a vida organizada durou pouco.

  Chamado de novo às fileiras, foi-me ordenada a frequência do “Curso de Caçadores Especiais” no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE) em Lamego, de 17 de Julho a 2 de Agosto de 61 e posteriormente integrado no Batalhão de Caçadores Especiais nº357, na especialidade de transmissões da Companhia de Caçadores Especiais nº306, com destino a Angola, onde a situação era efervescente.

  Desembarquei em Luanda em 12 de Maio e no desfile feito na “Marginal”, o Batalhão foi recebido com flores lançadas das janelas dos edifícios. Éramos um acréscimo de segurança aos que temiam novas investidas dos “terroristas”.

  Recebidas viaturas, jipes e Unimogs novos e GMCs em bom estado, numa longa e extenuante marcha de 1035 quilómetros, atingimos o local indicado para o nosso estacionamento em 18 de Junho de 62.   Próximos da fronteira com o ex-Congo Belga, em pleno teatro de guerra,  construímos de raiz, com materiais recolhidos em sanzalas próximas ─ abandonadas─ o nosso estacionamento, baptizado Pangala, base das missões atribuídas: cortar linhas de movimentação  do IN ( o inimigo) e ocupação territorial.

  Sofremos o horror das minas que causaram  mortes ─ quatro─ e feridos graves evacuados.

  Morremos muitas vezes na incerteza do dia seguinte.

  Matámos na ânsia da retaliação, com o eco do grito de revolta de um corajoso missionário contra a exploração dos índios afirmando-os os verdadeiros senhores das suas terras e que “a nenhum título, nem o Papa nem o Rei de Espanha os podem privar desse direito!”

Talvez aqueles “terroristas”  sejam os verdadeiros senhores das suas terras e nem o Papa, nem o “rei” de Portugal, nem nós os possamos privar desse direito.

 

  Privações de água, de alimentos confeccionados e carências múltiplas assoberbaram-nos. Durante doze meses enfrentámos ainda as agruras de um clima pouco favorável em terreno desconhecido.

 Era a guerra.

 

  Na minha qualidade de responsável pelas comunicações rádio acresciam as queixas dos operacionais que, de noite, se viam  impossibilitados de usar os rádios distribuídos e, não raras vezes descarregavam em mim a sua frustração. Sucedia que nos tinham sido atribuídos emissores/receptores inapropriados. Funcionando em AM (amplitude modulada) e com reduzida potência, eram incapazes de vencer a estática que surgia com o pôr do sol. As operações nocturnas apeadas, desde o pôr ao nascer do sol, ficavam sem comunicações com a base. A despeito dessa certeza, sempre que havia uma acção nocturna, na “base” ─ a Companhia ─ havia uma escuta permanente tentando ouvir uma voz entre aqueles milhares de grilos em loucos desafios.

  Naquele tempo havia um único emissor/receptor capaz. Montado em viatura ou em estação o ANGRC-9, posteriormente dotado de um amplificador de sinal, cumpria a sua missão. Mas este aparelho dificilmente podia ser usado em patrulhas apeadas: eram necessários pelo menos dois militares para o transportarem, demorava muito tempo a ser preparado para operar e a sua utilização era penosa.

  Pesava ainda sobre mim o secretismo do conteúdo das mensagens recebidas que o operador cripto descodificava, eu conferia e assinava.

 

  Doze meses depois, trilhando o mesmo caminho, regressámos a Luanda onde ficámos “em prontidão” e guarnecendo pontos sensíveis da cidade.

  Deslocados posteriormente para o sul do rio Quanza, com a missão de zelar pela segurança das instalações petrolíferas de Cabo Ledo, com um pelotão deslocado na Muxima, em plena reserva de caça da Kissama, tivemos o merecido “Repouso do Guerreiro”.

  A 22 de Junho de 64, o Vera Cruz carregou-nos para a Metrópole com a tristeza de termos deixado para sempre quatro amigos no cemitério de S. Salvador do Congo.

   Mas a guerra não ficou lá: noites insones sob cacimbo cerrado,  tensão de uma deslocação em viatura num terreno possivelmente minado, sede mitigada com água suspeita, rações de combate odiadas, a dor raivosa de perder amigos, o desejo de retaliação, a incerteza do dia seguinte e de estarmos a fazer “o devido”, as recordações tenebrosas da guerra vieram connosco.

  Só o tempo vai limando esses “danos colaterais”.

 

  1. Eduardo Tendeiro ( in Combatente da Estrela nº 113, DEZ18)
publicado por gatobranco às 15:15 | link do post | comentar

COISAS DA GUERRA

COISAS DA GUERRA 

 

Entrou de mansinho no quarto.

Frente à janela, a filha, debruçada sobre o papel de carta, permanecia estática

─ Vim só ver o menino. Está sossegado, não está? ─ Sem aguardar resposta, quis confirmar ─ Estás a escrever-lhe?

─ Estou… ─ Levantando os olhos chorosos para a mãe, confirmou ─  Estou para aqui a inventar um rol de mentiras!

─ Então, filha! Tempos melhores virão. O menino há de curar-se e ele, com a graça de Deus e de Nossa Senhora, vai voltar sem mazelas daquela maldita guerra.

─ Mas eu já nem sei que mais inventar! Doí-me a alma dizer-lhe que o nosso filho, aquele anjinho ali, está bem quando esta semana já fomos a correr com ele para o hospital duas vezes … ─ num gesto maternal a senhora mais velha abraçou os ombros da filha sem encontrar uma palavra de conforto ─ … como é que eu posso dizer-lhe que na fábrica as coisas vão mal, já despediram gente e eu estou à bica para novos despedimentos. Ó mãe, que vida a nossa!

─ Então filha! Tudo se vai consertar. Do menino ─ estacou, mirou longamente a filha e argumentou ─ até já me lembrou de o levar à senhora Assunção…

─ Mãe! ─ a indignação reverberou no ar ─ Não vais levar o nosso menino à bruxa!

─ A senhora Assunção não é bruxa nenhuma. Ela vai à missa e até o senhor prior lhe fala bem!

─ Isso não, mãe!

─ Escreve lá ao teu José e depois falamos.

─ Ao cabo dezanove, corrigiu com um breve e pálido sorriso, logo repreendida pela mãe:

─ Não chames isso ao rapaz. Tem nome, um bonito nome o de S. José, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.

─ Mas é isso que ele diz que o chamam lá na guerra!

─ Deixa lá. Escreve-lhe. Escreve que o menino teve uma dorzita de barriga mas já vai bem. Não lhe fales na fábrica.─ Confrangida, saiu de mansinho com um breve olhar para a criança cuja palidez rivalizava com a alvura dos lençóis do berço.

 

 

-------XXX-------

 

 

─ O dezanove em meditação! ─ Casquinou o sargento Alves ao deparar com o cabo que, carrancudo, enfrentava uma folha de papel em branco.

─ Não goze, meu sargento! Estou para aqui a ver se invento boas notícias para mandar à minha Maria, sempre desejosa de notícias  minhas. Ela manda cartas tão bonitas! Conta as gracinhas do nosso filho e diz-me coisas lá da terra…

─ Desculpa lá! É chato, pá! Não lhe podes dizer que esta semana morreram mais três dos nossos e que estivemos uns dias a arroz com as conservas das rações de combate. Inventa aí qualquer coisa alegre…

─ Mas o quê? ─ Gemeu o dezanove.

─ Sei lá, pá… Olha! Conta-lhe que houve uma patrulha de caça. Saíram à caça para arranjar carne para o arroz, mas não lhe digas que não caçaram nada. Inventa que abateram veados e um porco. Diz-lhe que também foste e até acertaste num dos bichos…

─ Isso não, que ela é muito dorida com os animais.

─ Então inventa aí a festa que todos faríamos se a caçada tivesse dado resultado. ─ Sem transição, o Alves  inquiriu ─ Viste por aí o quarteleiro?

Face à negação do questionado afastou-se mas voltou atrás:

─ Olha, diz-lhe que tivemos cá o padre a dizer missa, mas não podes dizer que foi pela alma dos mortos, e que depois jogámos uma futebolada com ele a fazer de árbitro. ─ Contente com a sua achega, acrescentou ainda ─ Se queres fazê-la rir diz-lhe que passaste horas a coser dois botões… elas riem-se a valer com a nossa falta de habilidade para essas coisas da costura…

Cofiando a barba de muitos dias, deixou um último conselho ao outro:

─ Se fosse a ti guardava essa dos botões para outra carta.

Afastou-se em demanda do quarteleiro, contente com as suas sugestões.

 

Laboriosamente a escrita do cabo dezanove progrediu seguindo o conselho do sargento.

A Maria ia gostar de  ler aquela carta.

 

( In  Combatente da Estrela  nº 115)

 

 

  1. Eduardo Tendeiro

 

publicado por gatobranco às 15:03 | link do post | comentar

O FUTURO É A PARTIR DE AMANHÃ

O futuro é a partir de amanhã

 

─ Que estás para aí a pensar?...

─ No futuro.

─ O futuro é só a partir de amanhã…

─ Teremos amanhã?

            ---------00----------

  1. 3 de Julho de 1962

(Micro narrativa in

Pangalacity.blogs.sapo.pt )

publicado por gatobranco às 14:42 | link do post | comentar

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